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Descobrimos o gene da linguagem?

Maria Cláudia de Freitas

Mestre em Linguística pela PUC - Rio

Há pouco tempo, jornais andaram alardeando a descoberta do gene da linguagem. Num trabalho em equipe, linguístas e geneticistas publicaram, na revista americana Nature (respeitada publicação científica), a descoberta de um gene que estaria diretamente relacionado à linguagem.

Para chegar a tal descoberta, pesquisadores sequenciaram o DNA de uma família que apresentava diversos casos de um distúrbio que afeta apenas a linguagem, chamado specific language impairment (SLI) - em português, déficit especificamente linguístico, DEL. O DEL, na verdade, abrange diversos tipos de distúrbios de linguagem. O que todos têm em comum é o fato de não estarem associados a nenhum outro problema de "inteligência". Para o diagnóstico do DEL, são descartados problemas neurológicos, motores, auditivos. Apenas a linguagem parece estar afetada. Outra característica do DEL é que os casos dificilmente ocorrem em indivíduos isolados. Eles se repetem numa mesma família e são mais comuns em gêmeos idênticos (originados de um mesmo embrião, se desenvolvem na mesma placenta) do que em gêmeos fraternos (originados de embriões diferentes, se desenvolvem em placentas diferentes), sugerindo a atuação de um componente hereditário.

Desde 1990, uma família que apresenta diversos casos de DEL vem sendo estudada. Em 1998, os mesmos pesquisadores do artigo da Nature já haviam relacionado o distúrbio com um pequeno segmento do cromossomo 7. Mas somente agora, com a descoberta de um indivíduo que não pertence à família, mas que apresenta exatamente as mesmas dificuldades com a linguagem, a relação pôde ser confirmada, e mais: identificou-se o gene envolvido no tal pedacinho do cromossomo 7. O "gene da linguagem" chama-se FOXP2.

Mas será mesmo que apenas um gene, tão pequenininho, é capaz de ser responsável pela linguagem? Seguindo este raciocínio, dá pra separar linguagem do resto da inteligência? O que é a linguagem sozinha, só a forma, sem o conteúdo? Como falar de linguagem sem falar do conteúdo que expressamos por meio dela? E como pode o gene afetar só a linguagem sem afetar a inteligência?

Se, de fato, o gene estiver relacionado à nossa faculdade da linguagem, seria mais uma forte evidência para a especificidade dessa habilidade humana, ou seja, uma forte evidência para uma independência entre linguagem e "inteligência".

Para pensar se isto é possível ou não, é preciso esclarecer o que estamos chamando de linguagem, pois este é um termo abrangente, que permite diferentes interpretações.

O que é linguagem, afinal?

Num sentido amplo, linguagem pode ser entendida como o conjunto de habilidades que nos permite produzir e compreender enunciados.

Não é preciso ser nenhum especialista para perceber que a linguagem humana é composta por pelo menos:

  1. significado (aspectos semânticos)
  2. som (aspectos fonéticos)
  3. estrutura interna (aspectos sintáticos)

Pois bem, para alguns pesquisadores, estes componentes são completamente inseparáveis. Interagem o tempo inteiro, não sendo possível falar de um sem mencionar o outro. Nem mesmo para fins descritivos é possível analisá-los separadamente.

Já um outro grupo de pesquisadores acredita que os componentes acima são isoláveis - não só para fins descritivos, mas porque esta é a forma de organização da linguagem. Evidências para este ponto de vista vêm principalmente do estudo das chamadas afasias.

Mas as diferenças entre estes dois grupos vão mais além. Para os pesquisadores do primeiro grupo - o dos componentes inseparáveis - nasceríamos com um mecanismo cognitivo geral, com um mecanismo geral de aprendizagem. A partir do momento em que somos expostos aos dados (ou informações) do meio externo - com características linguísticas, matemáticas, espaciais, visuais, musicais, por exemplo - formamos diferentes "subsistemas" cognitivos, isto é, vamos separando as diferentes partes da nossa "inteligência". Mas, por trás destes sistemas, estaria um mecanismo cognitivo geral - e por isso chamaremos este grupo de generalistas. Este entendimento da cognição humana tem origens na teoria piagetiana de desenvolvimento, segundo a qual todos os domínios da cognição estão intimamente vinculados, e são dependentes de um mecanismo geral de aprendizagem, de natureza provavelmente lógico-matemática.

Por outro lado, para os pesquisadores do segundo grupo, não nasceríamos com um mecanismo geral de inteligência. Ao menos no que se refere à linguagem. Todos os seres humanos nasceriam com determinadas expectativas do que são e de como funcionam as línguas humanas; nasceríamos com um mecanismo inato para a adquirir linguagem, sem qualquer esforço, sem que precisemos atuar cognitivamente sobre o objeto "língua". Esta posição, que ficou conhecida como hipótese inatista da linguagem, foi formulada inicialmente em 1959 pelo linguísta Noam Chomsky.

Segundo a hipótese inatista, portanto, já nasceríamos com uma predisposição - ou, como preferem alguns, um instinto - para a linguagem. Como nossa linguagem é muito diferente da linguagem de todos os outros animais, é bastante razoável supor que haja uma relação direta entre linguagem e código genético. Mas, se a capacidade para a linguagem está codificada no código genético, como explicar a diversidade das línguas existentes no mundo?

Neste ponto, não há como dispensar as informações vindas do meio externo. No momento em que a criança é exposta a uma língua, suas expectativas a respeito de línguas humanas vão sendo moldadas de acordo com a língua em questão. Por isso, as crianças nascidas no Brasil falam português, e as nascidas no Japão, japonês. Mas é fundamental contar com um aparato inato, e não apenas com a experiência. Porque os dados da língua a que as crianças são expostas são fragmentados, truncados, não-organizados. Algumas mães corrigem os filhos, outras não. Alguns pais conversam muito, outros não. Existem até mesmo culturas nas quais não se pode dirigir a fala à criança até que ela tenha 5 anos, pois só a partir desta idade ela passaria a ter alma. E, ainda assim, qualquer criança adquire uma língua sem fazer o menor esforço, e este processo acontece no mesmo período de tempo para todas as crianças - respeitadas pequenas diferenças individuais. A exceção fica por conta de casos em que se negou à criança, deliberadamente, qualquer contato com uma língua (leia mais).

Segundo esta perspectiva, portanto, deve haver em nossa mente algo exclusivamente linguístico que possibilita a realização da linguagem sem que precisemos nos preocupar em como aprendê-la (diferentemente de amarrar os sapatos, por exemplo, tarefa bem mais complexa para a criança).

Na mesma linha de raciocínio, se há, desde o nascimento, uma especialização inata para a linguagem, por que não pensar em especialização inata também para os outros sistemas - ou módulos - cognitivos? É o que defende este segundo grupo de pesquisadores, que chamamos aqui de "modularistas". Para eles, o sistema da linguagem, o sistema espacial, o sistema visual, por exemplo, são sistemas independentes; esta independência é inata e cada módulo ou sistema estaria especificado geneticamente - diferentemente do que supõem os generalistas.

A descoberta do gene FOXP2, que seria o "gene da linguagem", coloca mais lenha na fogueira da discussão: será que descobrimos a prova de que a linguagem é definida geneticamente? E, assim, poderíamos falar em mecanismos inatos exclusivos para a linguagem?

A linguagem vem dos genes?

A relação do gene FOXP2 - um pedacinho do cromossomo 7 - com a linguagem surge para dar sustentação empírica a uma ideia que vinha sendo discutida há anos, mas que carecia de evidências concretas: uma base biológica inata específica para a linguagem, e não a linguagem pertencendo a um indiferenciado bloco inicial "inteligência". Pois existem pessoas que têm uma inteligência "normal" e dificuldades apenas com a linguagem, e o que as faz diferente é justamente a alteração em um gene...

Mas será que o gene é responsável por todo o sistema da linguagem?

Ao que tudo indica, os problemas que pessoas com DEL apresentam não abrangem todos os aspectos da linguagem, apenas alguns. E, de fato, dificilmente o tal gene envolvido na linguagem se refere a todos os seus aspectos. Isto porque esta é uma função muito importante e complexa, e seria pouco lógico que um, e apenas um, gene fosse responsável por tudo. É mais provável que funções complexas como a linguagem sejam consequência de complicadas interações genéticas (leia mais).

De qualquer maneira, a descoberta dos pesquisadores só vem contribuir para abrir um novo e gigantesco campo de discussão sobre um dos mais fantásticos dons da espécie humana: a linguagem.

Se você se interessa por estes assuntos, dê uma passadinha na página do www.cerebronosso.bio.br. Embora não seja dedicado à linguagem, exclusivamente, lida com assuntos de mente e cérebro de forma simples, para leigos, mas sem perder a seriedade.

Existe também o livro de Steven Pinker, Instinto da Linguagem, que vale a pena ser lido.

Mas, infelizmente para nós, este tipo de pesquisa está apenas começando no Brasil, de modo que a maioria dos trabalhos são mesmo em inglês.

Publicado em 01 de janeiro de 2002