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Do Brasil para o mundo, exemplo de escola cidadã

AnaCris Bittencourt

Jornalista

Arruaças e brigas em sala de aula, guerra de gangues pelos corredores, aulas abruptamente interrompidas à revelia de professores(as). É o cenário de algumas escolas públicas no Brasil. Há outras que não sofrem desse mal, mas lidam com agressões ao próprio ensino: falta de interesse, notas baixas, evasão, repetência, não-entrosamento entre estudantes e professores(as). Retratada assim, nossa educação parece à beira do caos. Porém, o empenho para mudar tal realidade, e seu êxito, em várias escolas, vem conferindo ao nosso país reconhecimento internacional.

Os resultados do concurso Escolas que fazem escola: por uma pedagogia de inclusão - promovido pela Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) - colocam o Brasil na posição de idealizador de projetos pedagógicos exemplares. Dos 12 trabalhos premiados de países que formam o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e de seus associados (Bolívia e Chile), três são iniciativas brasileiras. Ao todo, foram inscritos 230 trabalhos, 54 nacionais. Os demais vencedores foram: Argentina, com quatro experiências, Chile e Uruguai, com duas cada, e Bolívia, com uma.

O concurso surgiu em 2000 e vem acontecendo de dois em dois anos. Os critérios adotados no processo de seleção levam em conta a relevância pedagógica e social do projeto. Mas o esforço investido para seu sucesso também é considerado. "É interessante notar que esse projeto nasceu no Mercosul e, logo depois, cada escritório da OEI lançou sua própria versão. Por isso, hoje, o concurso está sendo realizado também nos países da América Central e andinos", explica a coordenadora do escritório regional da OEI no Brasil, Rosália Guedes.

O Colégio Estadual Presidente Kennedy até 1996 era muito malvisto pela comunidade local. Entre seus problemas, pichações, assaltos e uso de drogas no ambiente escolar eram frequentes. Hoje, é considerado referência em qualidade de ensino. Segundo o diretor da escola e idealizador do projeto que promoveu essa mudança, professor Álvaro Mariano dos Passos, o aumento da procura de vagas por parentes e vizinhos(as) de estudantes é um bom indicador da credibilidade recém-adquirida.

Localizado em Belford Roxo, Baixada Fluminense (região do estado do Rio de Janeiro com altos índices de pobreza, violência urbana e ambiental e dificuldade de acesso de sua população a direitos básicos), a escola dispõe de 144 professoras e professores para 3.500 estudantes nos ensinos médio e técnico. Tudo começou a partir da formação de um grupo interdisciplinar de combate à violência dentro da escola.

O resultado foi a criação de uma série de atividades simultâneas envolvendo não apenas estudantes, mas também a comunidade, como reforma da escola, aulas de cidadania e cursos de informática para a terceira idade, ministrados por estudantes, cursos de reciclagem de lixo e teatro, reforço escolar em matemática e português e estudo aprofundado da história do Brasil por meio da música, entre outras iniciativas que se mantêm até hoje.

"A maior dificuldade foi convencer os professores de que isso também é escola, de que essa é a verdadeira inclusão. Para resolver, organizamos seminários e oficinas dirigidas aos profissionais sobre gestão escolar e violência. Os próprios alunos passaram a ajudar nisso, os pichadores de ontem são monitores dos nossos cursos hoje", anima-se o professor Álvaro.

Bruno David de Souza Amaral, 17 anos, do segundo ano do ensino médio, está nessa escola desde o CA e participou de todo o processo de modificação. "O aperfeiçoamento e a capacitação dos nossos professores foi a melhor mudança dentre todas. Mas a comunidade ter mudado o olhar que tinha da escola também foi muito bom. Antes, a escola era vista como se não servisse para ninguém, tinha guerra de facções rivais, hoje isso não acontece mais. E ainda conseguimos o reconhecimento internacional, isso é muito satisfatório", empolga-se.

Interação, palavra-chave

No município de Toledo, Paraná, o estudante Jocimar Correia Lima, 18 anos, está passando pela mesma situação. Ele está se preparando para o vestibular, vai deixar a escola onde estuda desde 2002 com a certeza de que a cultura é um remédio eficaz contra a violência. É um dos 700 estudantes que se beneficiaram, desde o ano passado, com o projeto Valorizando o ser humano na sua totalidade, desenvolvido pelo Colégio Estadual Novo Horizonte.

Além da guerra de gangues dentro da escola, a falta e o desinteresse escolar eram os problemas mais graves a enfrentar. E foram vencidos, com educação ambiental, valorização do esporte, como aulas de capoeira e artes marciais e organização dos Jogos de Inverno, investimento em poesia e teatro e criação de uma rádio-escola. Essas atividades passaram a fazer parte do calendário escolar dos ensinos fundamental e médio.

"A escola fica num bairro com poucas opções de lazer, os projetos de artes e cultura tornaram os alunos mais ligados uns nos outros, mais dinâmicos. O principal resultado do projeto, para mim, foi essa interação", conta Jocimar, lembrando que essa interação se estendeu a familiares e pessoas da vizinhança.

Na opinião da diretora da escola, professora Assunta Bordignon Cassanelli, o maior desafio foi aprender a administrar o tempo escolar para dar conta das novas funções dos 55 professores e professoras. O espaço escolar também foi modificado, ficou mais arborizado e com quadras de esporte. "Esse projeto está investindo na cultura da participação. A maior participação de pais e mães ainda é um desafio. Precisamos mudar ainda a visão paternalista que impede o aluno de correr atrás para aprender", diz.

Interação foi a resposta encontrada no Colégio de Aplicação Pedagógica da Universidade Estadual de Maringá, também no Paraná, para superar as adversidades. Desta vez, não para combater a violência, mas sim a dificuldade de aprendizagem. Para isso, foi implantado na escola, em 2001, um projeto de agrupamento de disciplinas, a partir da quinta série, que permite que professores e professoras ensinem várias disciplinas, passando mais tempo com a mesma turma e aprofundando o conhecimento que tem de cada estudante.

O projeto envolveu a contratação de profissionais polivalentes e a formação de turmas menores para melhorar o ensino, e isso gerou resistência. "Funcionamos dentro de uma universidade, há muitos professores especialistas aqui que se sentiram prejudicados e também houve rejeição por parte dos alunos, que não queriam ficar tanto tempo com o mesmo professor", relata a diretora da escola, professora Márcia Regina Facioni Pinesso. Mas, com o passar do tempo, as pessoas envolvidas - 900 estudantes e 50 professores e professoras - perceberam as vantagens da mudança. "O método agora está incorporado, não há mais vontade nem motivos para voltar atrás, a aprendizagem melhorou, assim como o relacionamento professor-aluno", anima-se.

Fonte: Jornal da Cidadania, ano 10, n. 126, jan. 2005.

Publicado em 01 de janeiro de 2002