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Educação e cultura ou morte

Alcione Araújo

Eu sonho com um Brasil no qual a educação e a cultura sejam entendidas como frutos da mesma árvore sagrada do conhecimento. E não que coexistam em esquizofrênica separação, como agora. Cultura é tudo o que foi tocado pela mão e pelo espírito criador do homem. A mesa, que o engenho do homem extrai do tronco da arvore, é cultura. Assim como o romance, produção de um mundo simbólico, enriquece o imaginário do homem.

A educação, que nos aproxima da ciência e da tecnologia, deveria nos aproximar também das artes. Quando se trata das ilimitadas possibilidades e potencialidades do ser humano, do domínio da natureza, do conhecimento da espécie, ou do que genericamente se chama produção do espírito, a educação, com todo o peso da sua importância, reproduz a paideia grega como processo de transmissão do saber e deve ser entendida como o braço organizado, sistematizado e hierarquizado da cultura. Assim como a racionalidade é indispensável para compreender o homem, sua história e a utilização que faz da natureza, a sensibilidade também é indispensável para abrir as portas da percepção do mundo simbólico, do acesso à produção do imaginário, da subjetividade e das emoções.

Porém, não é esta convergência o que se tem visto nos últimos anos. A educação, tida atualmente como eficiente, é a que oferece uma formação apoiada exclusivamente no saber racional, de preferência amoldado ao funcionalismo imediato daquilo que se entende por desempenho produtivo.

Pela Constituição de 1988, é obrigação do Estado oferecer a todos a educação convencional necessária. Mas apenas ela é insuficiente. É preciso mais. Muito mais. Com a autoestima abalada, é preciso que a educação seja motivo de orgulho do brasileiro. O conhecimento da ciência, da história e da própria língua que fala e ama são necessidades tão fundamentais que se tornaram direitos, tornaram-se leis. Cumprir a lei é obrigação do governante, assim como do cidadão. Os governantes devem se orgulhar quando fazem escolas, distribuem merenda ou pagam com decência os professores.

Educação e cultura sempre andaram juntas. Além de tudo que as professoras nos ensinavam, estudávamos os escritores, líamos as suas obras, estudávamos os compositores e ouvíamos suas músicas, estudávamos dramaturgos e cineastas e assistíamos a suas peças e filmes. Entendíamos cada uma dessas formas de expressão, o significado da linguagem artística e nos emocionávamos com as obras - ou seja, aprendíamos que éramos gente.

A educação é o braço sistematizado da cultura, é a ordenação do que se deve tratar em cada faixa etária para dar eficiência no aprendizado, com professores habilitados a transmitir a quantidade e especificidade de saber para uma pessoa de determinada idade. E esse professor, hoje desvalorizado, é também referência de valores morais e éticos, de atitudes etc.

Assim como a racionalidade é indispensável para compreender o homem, sua história e a utilização que faz da natureza, também a sensibilidade é indispensável para a percepção do universo simbólico, da produção do imaginário, da criação artística e das emoções. O homem é, sobretudo, subjetividade. A convivência com a arte comove, enternece, dá esperança, enriquece a experiência do estar no mundo. A arte e a cultura nos permitem adquirir vivências do que não vivemos. Tornamo-nos não apenas seres humanos mais sensíveis, solidários, participantes e conscientes. Passamos a viver toda a plenitude da vida que nos foi dada viver.

Investir na educação e na cultura permite entrarmos, de fato, no século XXI. Porque a cultura começa na escola. Assim, a educação ganha um significado mais profundo e mais amplo, porque vai formar profissionais, cidadãos e seres humanos. Porém, em algum momento da história, fizeram uma separação esquizofrênica entre educação e cultura. Expulsaram a cultura da escola. E ninguém é mais responsável pela aproximação da educação com a cultura. Se é grave a existência de um apartheid social, é muito mais grave o apartheid cultural. O primeiro resolve-se pela vontade política de acabar com a fome e a miséria. O segundo exige anos de vivências, práticas e percepções culturais.

Um rápido recuo no tempo ajudará a compreender. Os jesuítas chegaram ao Brasil na metade do século XVI com a intenção de impor um novo modelo aos bárbaros que viviam aqui em meio à natureza. Mas a catequese dos índios foi um fracasso. Os religiosos se concentraram no que era a sua real vocação, a preparação da elite - o branco europeu imigrante. Mais tarde, quando se iniciou o tráfico de escravos, os jesuítas nem olharam para os negros, que não foram escolarizados. Com eles houve uma das mais agressivas subalternidades que o mundo já viu. Há pouco mais de 100 anos havia aqui seres humanos que eram propriedade privada dos seus senhores, tendo de trabalhar dia e noite, sem direito a lazer e descanso, a nada. O negro era invisível. Com a abolição vira um pária. Não há alfabetização para ex-escravos, nem para seus filhos. Eles não têm direito a nada.

A partir desse quadro inicial da formatação miscigenada da população brasileira, com as elites abrigadas em seus privilégios e a grande massa segregada das escolas e dos valores econômicos, educacionais e culturais, a grande questão atual: esta sociedade produziu um tipo de cidadão cujos ancestrais não tiveram escolaridade, ele próprio não tem. Só entende o mundo até onde o seu discernimento intuitivo alcança. Um cidadão que não consegue verbalizar o que sente, que não tem possibilidade de parlamentar, de dialogar, substitui, no seu desespero, a falta de palavras pela truculência. É uma linguagem que compreende.

Por isso, só se vai resolver a violência urbana substituindo o armamento dos bandidos e da polícia pela interlocução. E a educação e a cultura é que abrem as portas para a interlocução. Atribuo à educação e  cultura a saída da barbárie que nossa civilização está vivendo. Se a educação não se incumbe da missão de desvelar o mundo mágico da arte, vamos continuar a ver formarem-se médicos, engenheiros, advogados, economistas - que, muitas vezes, por sorte, empenho ou talento pessoal, chegam a alcançar a competência técnica específica - que nunca vibraram com a leitura de um romance, nunca umedeceram os olhos com um soneto, nem se enlevaram ao ouvir uma sinfonia. A educação é irmã inseparável da cultura. Afastá-las é matá-las de inanição - e limitar o homem à sua face mais fria, ao seu coração mais duro. Será que há aí um ser humano na plenitude? Mas que ser humano é este? Que educação é esta?

E eis-nos de volta à questão central, a educação. É aqui que os impasses e incertezas se dirimem, que o caminho se define entre um ou outro extremo. Por isso, é inconcebível que alguém possa formar-se médico, engenheiro, advogado ou o que seja - concluído o chamado curso superior, ser da elite, com pelo menos 16 anos de escolaridade - sem nunca ter lido um romance, ouvido uma sinfonia, visto uma exposição, assistido a uma peça etc. No entanto, é o que acontece. Que cidadão é este? Que profissional é este?

É a vítima de um modelo educacional que renunciou aos fundamentos universais da formação -  do profissional, do cidadão e do homem - para se tornar uma maratona de adestramento para a produção. Não assegurar a todo cidadão o direito constitucional de acesso à produção cultural, não aproximar a educação da cultura é deixar queimando o rastilho que vai detonar a bomba.

São quatro as faces do mais grave e aparentemente despercebido problema brasileiro: a insuficiente escolarização da população, a ineficiência do modelo educacional, a esquizofrênica separação entre educação e cultura, e a elitização da cultura. Infiltrando-se simultâneas, funcionam como uma bomba com o silencioso rastilho aceso. É nessa insidiosa confluência que cresce o ovo da serpente.

Secular periferia do mundo, a grande maioria das famílias brasileiras não teve educação formal e está alijada do mercado cultural tradicional. Raras são as residências em que se veem livros, quadros, esculturas, instrumentos musicais etc. Já a televisão, desde que surgiu, foi entronizada como o meio, por excelência, para veiculação da indústria de entretenimento. Arrebatou, como sua audiência, pessoas que ainda não tinham adquirido os hábitos culturais tradicionais. Os valores éticos, morais e estéticos da indústria de entretenimento tornaram-se a referência - para as massas, a única referência cultural - de um povo com baixa escolaridade, afastado da cultura tradicional e despreparado para a fruição estética.

O Brasil não desenvolveu um público para a cultura, porque a maior parte da população sempre esteve do lado excluído da sociedade, murada pelo apartheid econômico, educacional e cultural. O que poderia mudar esse quadro seriam políticas de distribuição de renda menos perversas, de modo a fazer crescer a classe média. Enquanto essa evolução não se efetiva, o país vai ter, se é que já não tem, duas culturas numa mesma geografia.

E tudo se deu com a mudança do eixo de referência. Após a guerra, a orientação doutrinária da nossa educação e cultura cruzou o Atlântico, da França para os Estados Unidos. Na Europa, deixamos o clássico tripé dos compromissos fundamentais da universidade com a formação do profissional, a formação do cidadão, a formação do homem. Esquecemos o ideal aristotélico do homem integral, peculiar à longa tradição do humanismo europeu, do francês em particular, e passamos a comer poeira na estrada desbravada pelo pragmatismo americano. Com uma diferença substancial: nos EUA, não apenas a família, mas também a escola e a igreja introduzem os jovens no mundo da cultura americana, assim como no exercício do conceito americano de cidadania.

Formar o cidadão é dar-lhe a dimensão dos seus direitos e deveres, em relação à sua família, em relação à sua comunidade, em relação à vida política, em relação ao seu trabalho e em relação à sua pátria. Como pensar em cidadania no último país a abolir a escravidão? Em vez de escravos, deveríamos ter estudantes, professores, trabalhadores, intelectuais, artistas, ombro a ombro, exigindo o direito de todos ao saber e à plenitude da experiência de estar no mundo.

A educação, entendida exclusivamente como formação profissional, abandonando a formação do cidadão e do ser humano, fica reduzida ao papel subalterno de adestramento para a produção, preparação de mão-de-obra amesquinhada, linha auxiliar do acirramento da já perversa concentração de renda. Os professores não podem ter a atividade degradada pelo progressivo aviltamento de seus salários e das condições de trabalho. Da mesma forma que a cultura não pode se resignar às migalhas que caem da mesa do poder, interessado apenas na exploração marqueteira dos valores do espírito. A cultura oficial tem sido fachada para a ambição de suntuosas nulidades ou ao narcisismo de obscuros serviçais.

O que dá algum alento é surgirem atores sem outros interesses que não o de contribuir para trazer mais luz aos jovens. Eles beneficiarão todos com um saber transformador da realidade, ao mesmo tempo que serão mais sensíveis, mais humanos e mais profundos - justamente pela percepção do novo mundo, sugerida pela arte e a cultura. São melhores profissionais porque exigiram melhores cursos. São melhores cidadãos porque sabem os seus deveres e direitos; o que é justo e injusto, têm clareza quanto ao certo e ao errado. Homens melhores, portanto, porque descobriram o outro como semelhante, que pensa diferente, mas tem iguais direitos à vida, aos sonhos e à luta pela felicidade.

A parceria formada pe1a TIM Maxitel, jornal Estado de Minas, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e pela Secretaria Municipal de cada município participante viabilizou mais do que um projeto educativo-cultural. Tornou visível e palpável a capacidade transformadora e integradora da arte e da cultura, acolheu o talento individual e desagregado para unir-se e crescer junto com os demais, permitiu a revelação de que a sensibilidade e a criatividade enriquecem e expandem a estupenda experiência de ser humano.

Esta é a educação que desvela a arte e descobre a cultura, que gera um homem novo, um novo país. Quero sonhar que esta ideia generosa e transformadora há de se espalhar por aí.

Fonte: Pé na estrada (Programa TIM ArtEducação / Projeto Tim - Estado de Minas - Grandes Escritores), 2003.

Publicado em 01 de janeiro de 2002