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Ensinando e aprendendo com ioga

Marcelo Bessa

O início das aulas é, para professores, como o início do ano para outras pessoas. Geralmente, é um período em que são feitas inúmeras promessas a serem seguidas durante o ano letivo: ter obstinação para iniciar aquela tão sonhada pós-graduação, ter concentração para estudar mais, não se estressar tanto em sala de aula, manter o equilíbrio diante de situações desagradáveis com e entre os alunos, optar pela compreensão e serenidade em vez da autoridade - enfim, são muitas as promessas feitas pelos mestres, ainda relaxados depois das férias de verão.

No entanto, a realidade em sala de aula e o corre-corre diário, muitas vezes com o deslocamento de uma escola para outra, pouco a pouco impedem que essas promessas sejam, de fato, transformadas em realidade. Assim, o ano termina como começou: com promessas e mais promessas - e, às vezes, com uma sensação amarga de impotência.

Fórmulas mágicas para evitar esse resultado não existem. Afinal, muitas vezes são metas que necessitam de grande equilíbrio e de controle interno. Para se alcançar isso, uma prática existente há milênios pode ser a solução: a ioga.

Nota

Na língua portuguesa, o vocábulo ioga é substantivo feminino com a pronúncia aberta da letra "o". No entanto, praticantes de ioga - chamados de iogues - preferem dizer a palavra conforme o termo original em sânscrito (grupo de línguas e dialetos antigos do norte da Índia, dos quais o védico e o sânscrito clássico são os mais conhecidos). Nesse caso, a palavra é um substantivo masculino, sendo que a pronúncia da letra "o" é fechada, como na palavra "ovo". Além disso, iogues preferem seguir a grafia internacional, com y (o yoga).

A prática da união

Embora seja uma prática milenar, apenas há pouco tempo a ioga foi difundida no Ocidente. Especialmente nos últimos anos, ioga tornou-se a palavra da moda entre artistas e pessoas da mídia, que costumam louvar publicamente os benefícios da prática em suas vidas. Mesmo com tal divulgação, muitas pessoas ainda não sabem direito do que se trata: algumas acham que é somente uma prática de meditação; outras acreditam que é uma aula de alongamento, uma espécie de pilates esotérico.

Todas essas pessoas estão, ao mesmo tempo, certas e erradas. Embora esteja relacionada a exercícios físicos e meditação, ioga é mais do que isso. Dependendo do ponto de vista, pode ser também um guia moral e ético, uma filosofia, uma religião ou uma prática de vida. Em sânscrito, ioga quer dizer "união". Assim, a prática de ioga tem como objetivo a união do homem com ele mesmo e com o universo.

Os oito braços

As posturas físicas, conhecidas como ássanas, são as imagens que, mundo afora, simbolizam a ioga. No entanto, ioga é mais do que apenas se alongar em posições muitas vezes acrobáticas. As posturas são importantes, sim, mas dentro de um processo mais abrangente.

Há cerca de 400 a 200 a.C., um sábio indiano chamado Patanjali sistematizou conceitos e práticas que existiam há muito tempo. Essa obra de sistematização, chamada Yoga Sutra, é um conjunto de 196 aforismos. Segundo Patanjali, ioga é um processo para se atingir a iluminação (samádi). Nesse processo, chamado por ele de ashtanga ioga - que quer dizer "os oito membros (ou braços) da ioga" -, é importante seguir oito preceitos:

  1. iama (cinco prescrições morais): não agredir ou causar dor a nenhuma criatura; não mentir; não roubar; não ser subjugado por impulsos sexuais; não cobiçar;
  2. niama (cinco orientações de conduta individual): higiene ou pureza; contentamento; austeridade; autoconhecimento; autoentrega;
  3. ássana (postura física, o trabalho correto do corpo);
  4. pranaiama (exercícios respiratórios);
  5. pratiahara (retração dos sentidos);
  6. dárana (concentração);
  7. diana (meditação);
  8. samádi (iluminação ou hiperconsciência, o objetivo final da ioga).

Dessa forma, o exercício físico é apenas um dos "braços" da ioga que não deve ser nem subvalorizado nem supervalorizado. Caso o objetivo seja mais do que um corpo flexível e bem delineado, iniciar a prática de ioga sabendo de antemão esses oito "braços" é meio caminho andado.

Procure a sua turma

Assim, antes de o estresse entrar sem bater pela porta da sala de aula ou de o corre-corre do cotidiano estafante tirar toda a sua concentração, que tal conhecer alguns benefícios proporcionados pela ioga?

Antes de ingressar em alguma academia ou casa de ioga, é bom se informar com amigos ou conhecidos. Há diversas linhas e tipos de ioga. Veja qual se adapta melhor a você. Às vezes, o que é ótimo para uma pessoa pode ser péssimo para outra. Leia, pergunte, informe-se. Saiba também quais são os locais mais indicados para fazer a sua prática.

Se você não tem dinheiro suficiente para pagar uma academia, não desanime. Há bons locais que oferecem preços acessíveis. E se o problema é tempo, não deixe que isso se transforme em desculpa. Algumas técnicas podem ser feitas em casa ou até mesmo no trabalho. O bem-humorado livro Ioga no trabalho, de Darrin Zeer, oferece algumas dicas que podem ser feitas na escola entre uma aula e outra. (Leia algumas das dicas contidas no livro.)

A prática de ioga pode trazer muitos benefícios para a vida pessoal e, também, profissional. Júlia Santos, professora carioca de história do ensino médio, relata que, com a ioga, conseguiu ter mais equilíbrio para lidar com situações estafantes e desagradáveis em sala de aula. "Hoje, antes de agir sem pensar, respiro fundo e tento analisar o que estou sentindo. A minha relação com os alunos e comigo mesma melhorou", explica. "Tento transportar tudo o que aprendo na ioga para a minha prática profissional: respiração, autocontrole, concentração, equilíbrio. E quer saber de uma coisa? Quando olho os meus alunos em sala de aula, aqueles "furacõezinhos", tenho certeza de que a minha aprendizagem continua. Lecionar é uma verdadeira de aula ioga!!"

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Publicado em 31 de dezembro de 2005

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