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Feira de Ciências. Por onde andam?

Karla Hansen

A contar pelo número de eventos programados e outros já ocorridos, 2005 é o ano da Ciência, na educação. No âmbito mais geral, foi escolhido o Ano Mundial da Física, em comemoração aos cem anos de publicação dos primeiros trabalhos de Albert Einstein. Foi também em abril de 2005 que assistimos ao imenso sucesso da Expo-Interativa - a mega feira de ciências que atraiu milhares de pessoas ao Riocentro, que aconteceu durante o Congresso Mundial de Museus de Ciência. Além disso, recentemente, o Ministério da Educação lançou a segunda edição do Prêmio Ciências no Ensino Médio, cujo objetivo é premiar projetos escolares inovadores nas áreas de ciências da natureza e matemática.

Mas será que todo esse movimento de valorização social do conhecimento científico e do esforço para facilitar o acesso a este saber, do qual a Fundação Cecierj/Consórcio Cederj faz parte ativa, tem estimulado professores e alunos a promover seus próprios eventos na escola? Há quanto tempo sua escola não promove uma feira de ciências? Pois é, parece que as feiras de ciências, como os concursos de literatura ou os festivais de música são cada vez mais escassos nas escolas, em particular, nas da rede de ensino público. E se tudo isso for mesmo um fato generalizado, e não apenas casos isolados, qual será a razão? E o que podemos fazer para que elas voltem a ter e a dar vida ao ensino-aprendizagem de ciências?

Foi com todas essas perguntas e com o desejo de incentivar professores e alunos, que o Portal da Educação Pública procurou o professor de química José Guilherme da Silva, indicado pelas coordenadoras do curso de extensão de química, da Fundação Cecierj/Consórcio Cederj. O professor já realizou mais de 40 mostras de ciências, ao longo de seus 33 anos de magistério dedicados ao ensino público, no estado do Rio de Janeiro.

Atualmente, José Guilherme dá aula para as três séries do ensino médio do Colégio Estadual Antônio Prado Júnior, na Tijuca, e é um dos responsáveis pela criação do laboratório de química da escola, que foi montado por uma equipe de professores, sendo que alguns deles já faleceram. Acostumado a driblar a falta de recursos da escola e dos alunos com criatividade e muita disposição, o professor conta como foi capaz de, na maioria das vezes, sozinho, mobilizar até 19 turmas em feiras de ciências, que chegaram a fazer parte do calendário oficial da escola.

Mas hoje, infelizmente, não é mais assim. O professor José Guilherme confirma nossa impressão de que as escolas já não promovem as feiras de ciências, como faziam na década de 1970, tempo em que ele começou a dar aulas. Ele conta que começou a lecionar na época em que foi implantada a lei 6.572/71, que voltava o antigo ensino ginasial, para a profissionalização. "Eu encarei como obrigatório a gente procurar fazer do ensino de ciências, uma atividade bem maior para a gurizada", conta. No início, essa atividade era como uma "brincadeira", em que ele propunha aos alunos que cada um montasse um projeto, incentivando-os a "pensar amplamente, em fazer coisas diferentes". "Mostrava aos alunos como fazer, seguindo todas as etapas, dizendo que eles deveriam escrever uma justificativa, em que explicassem o que e porquê estavam propondo aquele trabalho", ensina.

Nesta época, além de lecionar, José Guilherme trabalhava como químico numa fábrica da Brahma, e costumava levar seus alunos para fazer visitas em laboratórios de fábricas. "Mostrava a eles como funcionava o processo de fermentação da cerveja e os alunos se interessavam demais". O professor também levou, por diversas vezes, os alunos, aos laboratórios da Petrobras, "falava-se muito em biogás", justifica. Tudo isso, era uma preparação para despertar, nos alunos, novas ideias para os trabalhos que produziriam para a mostra de ciências da escola, uma preparação que começava seis meses antes da feira, propriamente dita.

"É um trabalho incalculável para quem organiza", diz. "O professor tem que dar assistência técnica, tem que ter muito cuidado com tudo, porque eles podem falar coisas erradas, e vão mexer com os conceitos, por isso, tinha que ter toda essa preparação, que demorava de três a quatro meses."

José Guilherme ensina, ainda, que para despertar o interesse dos alunos, não basta propor fazer uma feira de ciências. "Não se pode, simplesmente, chegar e propor aos alunos: 'vamos fazer uma feira e tal...' Não! Infelizmente, atrás de tudo isso, tem que ter nota. É dizer para eles: 'olha, nas avaliações do bimestre eu quero fazer diferente, chega de prova... vamos fazer umas experiências, montar uma mostra...', aí eles se animam, porque é uma coisa que sai da rotina, também". Além da nota, dar prêmio para os melhores trabalhos também é importante, acredita o professor, que várias vezes já tirou dinheiro de seu bolso para premiar os alunos. "O prêmio é importante, é um estímulo, como a coisa da nota."

Com isso, o professor conseguia mobilizar todas as turmas do ensino médio da escola, tanto as do turno da tarde, em que ele dava aulas, como as turmas da manhã, que sob a orientação de outra professora, faziam um só trabalho. O professor lembra desse tempo com entusiasmo: "Começamos a montar as mostras e o colégio gostou tanto, que virou uma obrigatoriedade. No início, era só um dia de mostra, mas um dia era pouco, então, aumentamos para três dias. Naquele tempo não tinha nem o nome de feira, isso veio depois que o próprio estado organizava um evento, primeiro no âmbito das escolas municipais, depois no das estaduais, que acabava no Maracanãzinho, isso na década de 1970, 1980."

E conta que, nesta época, a feira de ciências fazia parte das atividades regulares do calendário escolar. "Hoje não, nós tiramos do calendário, mas a feira de ciências acontecia todo ano, em outubro. A gente fazia um evento que chamávamos de 'escola de portas abertas', os alunos colocavam letreiros na entrada, convidando a comunidade para verem os trabalhos. Nós passávamos filmes científicos no auditório da escola, com horário, tudo programado."

Falta de recursos ou de infraestrutura da escola também nunca foram empecilhos para o professor José Guilherme - mostra que, até hoje, só trabalha com sucata. Enquanto fala, tira de uma sacola o material de aula do dia, sobre átomos: grãos de ervilha secos, grãos de feijão preto, pequenas latas de alumínio. E quase todo o material usado no laboratório de química, onde conversamos, é composto por garrafas, latas, tampas de vidros de maionese etc.

Se o problema não é a falta de recursos, porque as feiras de ciências não acontecem mais na escola?, pergunto.

Para o professor, o problema maior é que não são muitos os professores que estão dispostos ou motivados para tanto trabalho. Essa é, na sua opinião, uma das principais razões para que as feiras de ciências ou qualquer outra atividade que não seja as de sala de aula, estejam tão raras na escola.

Perguntei a ele, que poucas vezes contou com a participação de outros colegas, se este trabalho não poderia ser dividido com outros professores, o que enriqueceria ainda mais a feira e lhe daria um caráter interdisciplinar, o que tem sido uma tendência cada vez mais forte em grandes feiras de ciências.

"Esse é o nosso objetivo, mas só funciona se você tiver uma equipe boa na escola, em que todo mundo tenha o mesmo pensamento. E isso hoje é difícil! Não quero falar mal de ninguém, porque seria falta de ética, mas infelizmente, ninguém quer fazer. A vida do professor é uma correria, dá aula aqui, dá aula acolá, e só te cobram. O professor tem que ficar os doze tempos em sala de aula, e com isso, não tem mais diálogo com o colega. As pessoas chegam na escola, pegam seu material e sobem para a sala de aula. Dessa maneira fica difícil fazer qualquer coisa inter ou intradisciplinar. Nós já fizemos aqui trabalhos belíssimos, eu com a parte de química, a professora de biologia, com a parte de biologia, a professora de física, tudo num trabalho só. Mas no momento estou achando muito complicado."

Publicado em 20/06/2005

Publicado em 01 de janeiro de 2002