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Fundamentos para a biocivilização

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Introdução: a crise do capitalismo à luz da ética

A crise capitalista em que estamos mergulhados neste início de século é uma experiência histórica do cotidiano vivida e sentida mais do que pensada. Pôr-se a refletir sobre ela é trilhar uma pista incerta, um caminho ainda por fazer, mas tarefa urgente e necessária. A humanidade está diante do desafio de fazer opções fundamentais. A escolha pode significar ir em direção ao irreversível em termos de destruição da vida e do planeta Terra ou a reconstrução das bases e das relações entre seres humanos e destes com a biosfera capazes de alimentar um processo virtuoso, ainda possível, de sustentabilidade social, ambiental e ecológica. 

Estamos diante de uma crise de civilização que se caracteriza pela perda de capacidade de resposta do sistema dominante diante dos desafios planetários, tanto de preservação da integridade do planeta e da vida para futuras gerações como de injustiça social e ambiental intra e interpovos hoje. Os fundamentos, a legitimidade e os rumos desse modelo industrial, produtivista e consumista, estão derretendo e podem acabar tornando irreversível o processo de destruição ecológica e social.

Pensar as bases de uma nova civilização e engajar-se no longo processo de desmonte e reconstrução social da cultura, da economia e do poder que isso implica é um imperativo ético para a humanidade. A ideia de uma biocivilização vai no sentido de busca de um novo paradigma civilizatório. Esse é um desafio monumental, de ordem filosófica e política, pois se trata de desconstruir os pressupostos do pensamento e da ação tornados senso comum e, por isso mesmo, pilares da civilização capitalista industrial, produtivista e consumista, machista e racista, que invade nossas vidas, molda nossas cabeças e valores éticos, organiza a economia e o poder na sociedade. Só agora, com a mudança climática, alguma dúvida surge, e o enorme edifício ideológico e cultural, os valores e a ética da civilização capitalista dominante apresentam fissuras. O momento é propício para avançar com novas visões e valores, bem como para formular propostas de transformação emancipatória, mas nada acontecerá por determinismo.

Os valores e as ideias, o imaginário, a compreensão e as propostas são uma condição necessária, mas insuficiente. Tudo precisa de portadores, de sujeitos coletivos que vejam neste conjunto de valores e ideias a expressão do sentido de sua existência e engajamento, do horizonte utópico a almejar e das possibilidades de transformação das condições, relações e estruturas vividas. As alternativas serão de fato alternativas se carregadas pelos que se mobilizam e lutam a partir das contraditórias situações concretas em que vivem e se constroem como sujeitos com identidade e projeto, como cidadania ativa. Esta é uma tarefa possível – a história humana está repleta de exemplos –, mas árdua e longa, de uma ou mais gerações.

Para a biocivilização, não basta maquiar de verde o que temos e continuar crescendo, com exclusões sociais e destruições do bem comum natural. Precisamos recompor e reconstruir os fundamentos filosóficos e éticos da civilização humana para que a sustentabilidade de todos, sem exclusões, intra e intergerações, e de toda a vida, bem como a integridade do planeta, se tornem a regra.

É bom que fique claro que aqui estamos falando de princípios e valores éticos que têm no centro as relações da humanidade com a natureza e sua rica biodiversidade e as relações da humanidade com a sua própria diversidade social e cultural. Os princípios e valores são a infraestrutura tanto dos ideais e do imaginário social como das práticas em todas as esferas da vida, do poder e da economia, do cotidiano, da vida grupal e familiar. A atenção aqui é aos princípios e valores já presentes de forma subordinada e fragmentada no interior da civilização em crise, princípios e valores que podem ser potencializados como forças emergentes de um novo paradigma de pensamento e ação que aponta a possibilidade histórica da biocivilização.

Ética da integridade da vida e do planeta

Na crise da civilização dominante, uma questão que emerge como condição sine qua non é a necessidade de recompor e reconstruir a nossa relação com a natureza. Afinal, antes de tudo, somos parte da biosfera, somos natureza nós mesmos, natureza viva dotada de consciência. Nossa vida não está acima nem de lado, mas dentro da lógica natural. Mas, para isso, precisamos recompor a nós mesmos como seres humanos, dotados de razão e de sensibilidade, uns dependentes de outros, múltiplos e diversos, com capacidade de criar significados e direções, mas como parte do conjunto da natureza, sabendo tratá-la, comparti-la e regenerá-la. As gerações futuras têm direito às mesmas condições naturais que a nossa. Mais: a integridade do planeta é um valor em si e é um dever nosso preservá-la. Interagir e trocar com a natureza é, por definição, o viver. De uma perspectiva de biocivilização, nessa relação com a natureza, adaptando-se às suas condições e ritmos, seguindo seus processos de mudança e enriquecendo-a, facilitando a renovação e regeneração, define-se a sustentabilidade da vida e do planeta.

A relação com a natureza, como condição do próprio viver, é de dependência e troca. As formas dessa relação são diversas como diversa é a biosfera e são diversas as condições naturais, de um lugar a outro. Os territórios – o lugar em que vivemos e nos organizamos como sociedade em relação com o meio ambiente, nas cidades ou no meio rural – exprimem essa diversidade da natureza, da interdependência da natureza com a biodiversidade e da sua simbiose com os seres humanos, diversos eles mesmos. A ciência e a técnica podem ser extremamente úteis se seu uso for subordinado à ética do respeito à integridade da biosfera, da natureza e seus processos físicos e biodinâmicos, como ela se apresenta nos territórios. Voltar a nos olhar como parte dos territórios, como nosso local de existência, com suas possibilidades e limites, pode ser o caminho do refazer e reconstruir a relação sociedade-natureza no respeito mútuo, de trocas vitais que reproduzem e regeneram sem destruir. Trata-se de fazer um percurso mental e prático de relocalização e redescoberta dos laços que nos unem ao mundo natural e, com base nele, dos laços de convívio social, num planeta natural e humano interdependente, do local ao mundial. Hoje sabemos também que os fenômenos naturais são interdependentes uns dos outros em termos planetários, mesmo se sua manifestação e forma são específicas a cada território.

A própria ideia de biocivilização coloca como base, de imediato, a relação das sociedades com a biosfera e os territórios. Para ser sustentável, a civilização humana tem que renunciar ao antropocentrismo como filosofia, ética e religião e mudar radicalmente a sua visão e a sua relação com a natureza. A vida, toda forma de vida, tem o direito fundamental de existir, bem como os complexos sistemas ecológicos que integram e regulam o planeta Terra. Este deve ser o princípio fundante, condição e limite da intervenção humana na relação com a natureza e na construção das sociedades. A primeira tarefa que daí decorre é desativar a “máquina” de produção e acumulação de riqueza material e financeira atual. O desenvolvimento, que tem como condição o crescimento, é a máquina do capitalismo. Ela combina apropriação e uso sem limites dos recursos naturais com a exploração e dominação dos que trabalham, por meio da privatização, da mercantilização e da industrialização, estimulando o produtivismo e o consumismo desenfreados, tudo em nome da acumulação capitalista. A questão ética central aqui é: como abandonar valores e um estilo de vida do ter mais, produzindo sempre mais lixo e destruição, para dar lugar ao ser mais, mais feliz, mais solidário, mais consciente das responsabilidades em regenerar, reproduzir e preservar a integridade da base natural, compartindo-a com todos hoje e com gerações futuras?

Ética do cuidado, da convivência e do compartilhamento

Aqui estamos diante de princípios e valores que deverão organizar a infraestrutura humana da economia e do poder para uma biocivilização. Na civilização industrial produtivista e consumista, organizada pelo valor mercantil, tais princípios e valores estão excluídos ou minimizados, são subjugados unicamente ao que contribuem ou não para o valor de mercado. Com tal exclusão, ficam de fora todas as atividades humanas que eles implicam – vitais, apesar de tudo. Tais princípios se referem ao essencial de uma economia voltada para a vida, pois é neles que assenta a vida real. Por essa mesma razão, o poder, para ter sentido, deve criar o ambiente social, cultural e institucional propício para que tais princípios e valores sejam a referência da sociedade como um todo.

O cuidado pode ser tomado como o princípio fundante, apesar de sua interdependência com os outros dois. A vida não existiria sem o cuidado. É algo imanente na vida natural, tanto nos animais como nos seres humanos. O cuidado é atividade essencial do cotidiano. O movimento feminista nos lembra que sem o cuidado não existiriam bebês e crianças e a vida não se reproduziria. Aliás, sem carinho e amor, que seria a vida humana? Sem a atividade do cuidar, vigiar, cozinhar e servir a comida, lavar, enfim, sem a economia doméstica, a própria vida humana não existiria. É nesse espaço considerado privado que se gesta o essencial do humano. Esse trabalho essencial é realizado fundamentalmente pelas mulheres, que carregam o fardo da dupla jornada e sofrem a dominação machista. Estamos, na verdade, diante de uma inversão, em que o essencial – o cuidado – é considerado privado e sem valor na nossa economia dominante, em que o mercado ocupa lugar central.

Precisamos resgatar o cuidado como princípio de desprivatização da família e da dominação machista no seu interior – afinal aí se gesta o bem comum maior da humanidade, os filhos e as filhas que darão continuidade a ela. Mas, ao mesmo tempo, precisamos erigir o princípio do cuidado como central da nova economia, da nova gestão da grande casa, que é a simbiose da vida humana com a natureza, a indispensável vida em comunidade em que se convive e compartilha tudo, os territórios como forma de organizar-se para viver segundo as potencialidades e limites do locus que ocupamos, a economia e o poder que daí resultam, do local ao mundial.

Cuidar é um imperativo para dentro do humano e da nossa relação com a biosfera. Sem cuidado, a atmosfera foi colonizada pelas emissões de carbono das grandes corporações econômicas, das empresas, dos mais ricos e poderosos, pelo consumismo. Hoje a humanidade está ameaçada, como espécie viva, assim como toda forma de vida. Sem cuidado, fez-se a empreitada colonial da conquista de povos e seus territórios; hoje, continua a disputa pelos recursos naturais do planeta. Em busca de maior produtividade, sem cuidado, estamos criando sementes transgênicas e destruindo a biodiversidade existente. Sem cuidado, estamos poluindo a água, destruindo a vida nos oceanos, desmatando e criando desertos. O fato é que se torna impossível pensar sustentabilidade sem o princípio e valor ético do cuidado.

O cuidado tem como corolários os princípios da convivência e do compartilhamento. O cuidado floresce com a vida comunitária e as relações de amizade. Elas estendem o cuidado para fora da família em termos sociais. Aí florescem a vida cultural, as festas, o sonho e o imaginário, as crenças que dão direção e sentido ao viver, ao amar. É com base no cuidado que se desenvolve a cooperação e emerge o interesse comum. Convivência e compartilhamento são indispensáveis para a comunicação, para a linguagem, para o aprendizado. Os conhecimentos, por sua vez, não existiriam, não fosse o compartilhamento.

Os princípios e valores éticos do cuidado, da convivência e do compartilhamento devem estar no centro da reconstrução de nossa relação com a natureza, ela como base indispensável da vida humana, de toda vida. Mas também devem estar no centro da nova economia e do novo poder. A economia sustentável só é possível fundada no cuidado, que leva ao respeito à integridade da natureza, ao uso que não destrói ou cria lixo mas renova e regenera. Cuidar é estender a vida útil de bens materiais consertando e conservando. Cuidar é trocar com a natureza, respeitando-a, sem ultrapassar a pegada ecológica possível para a sua integridade hoje e para gerações futuras. Preservar espécies naturais (sementes e animais) – a biodiversidade – é cuidar e, ao mesmo tempo, estabelecer condições de convivência e compartilhamento.

Temos em que nos inspirar para alimentar uma filosofia ativa no sentido de mover e transformar o paradigma da civilização. Uma tarefa é o diálogo intra e intermovimentos que permita sínteses novas combinando tudo que significa o bem viver dos povos indígenas com o cuidado das feministas, o conhecimento compartilhado das plataformas do software livree do copyleft,da agroecologia e da economia solidária, sem contar o que vem da ecologia profunda e da ética ecológica. Tarefa árdua e contraditória, ainda sem grandes pontes e iniciativas nesse sentido. Na pluralidade de resistências e buscas está o bom senso emancipador e construtor de outros mundos. Não se trata de fazer sínteses reducionistas, mas, como esforço de uma filosofia voltada à biocivilização, a tarefa é dar um passo adiante, vislumbrar caminhos e definir diretrizes de pensamento e ação, criando novas e dinâmicas coalizões de sujeitos coletivos para a sustentabilidade da vida e do planeta.

A ética dos bens comuns

Um novo paradigma civilizatório só será possível se enfrentarmos a lógica do ter mais e mais bens materiais de consumo individual e de acumular riqueza mercantil como parâmetro de felicidade.  Organizando-nos em torno dos bens comuns podemos criar um novo modo de ser e viver, tanto na relação entre nós mesmos como na relação com a natureza. Estaremos diante da possibilidade de fazer emergir modelos biocêntricos de organização social e cultural, econômica e política, alternativos ao desenvolvimento de hoje.

Ser comum não é um a priori, mas um resultado. Os bens não são comuns, são socialmente tornados comuns. Os bens comuns são os que as relações sociais identificam e gerem como tais. A necessidade sentida, almejada e enfrentada coletivamente leva a criar bens comuns. A desenfreada busca de acumulação individual capitalista promove a privatização e a mercantilização de tudo, encarcerando e destruindo os bens comuns. Resgatar e regenerar bens comuns é mais do que uma resistência; é criar as condições de um outro modo de vida.

A descomodificação e a desmercantilização dos bens comuns são uma das condições incontornáveis para superar a crise de civilização e para caminhar em busca de bases de sustentabilidade da vida e do planeta. É através da luta social que se resgatam bens comuns concreta e simbolicamente, alargando a própria abrangência do comum. Em torno aos bens comuns, uma das lutas mais evidentes, porque ancorada em diferentes realidades, talvez seja a luta contra a privatização da água. Em todos os lugares do planeta, com todos os povos, de diferentes formas, registram-se lutas pela água como bem comum como aqui concebido. Apesar de difusa como definição, a atmosfera e o clima, devido à crise ambiental provocada pelas emissões climáticas, começam a ocupar lugar de destaque nas lutas dos bens comuns. Conceitos novos, como o da colonização da atmosfera, dos oceanos e mares, da biodiversidade pelas grandes corporações capitalistas e pelas sociedades mais ricas vão ganhando substância e densidade, e com isso esses campos emergem como bens comuns planetários. Lutas como a do software livreestão na vanguarda da luta contra a privatização dos conhecimentos e eles como um bem comum fundamental. Com isso, é a luta contra toda forma de propriedade intelectual que emerge como condição para o florescimento dos bens comuns e a constituição de uma biocivilização. A radicalidade da visão indígena do bem viver reside no modo como concebe e se relaciona com toda a natureza e os bens comuns. Trazer os bens comuns ao centro do debate é, na verdade, trazer as condições de vida, de toda vida, ao centro.

Para a biocivilização, os bens comuns são um dos fundamentos. Resgatar bens comuns, alargar bens comuns, criar novos bens comuns, todas são tarefas para a edificação de um novo paradigma de civilização em contraposição ao que está em crise. Bens comuns não necessariamente negam a industrialização, mas a subordinam à lógica do comum. Não são contra os benefícios e utilidades que propiciam os bens comuns, simplesmente impõem e reforçam os princípios do cuidado e do compartilhamento. Reforçar o seu caráter de bens comuns é reforçar o social, o espírito de comunidade, a vida coletiva, o viver como experiência que só se realiza na relação com outros seres humanos, com outros seres vivos e com a natureza em sua contraditória e fantástica plenitude.

A ética da justiça social, ambiental e ecológica

A justiça social, que se funda no reconhecimento do princípio ético da igualdade da condição dos seres humanos, atravessa as mais diferentes tradições filosóficas e religiosas. Dada a realidade da desigualdade social intra e interpovos ao longo da história, a luta por justiça e igualdade tem sido o “motor da história”. Nunca a humanidade foi tão desigual como no contexto atual da abundância excludente, de escandalosa riqueza e insuportável miséria, e nunca essa verdade da luta por justiça e igualdade foi tão evidente. Também nunca a humanidade teve tão ampla consciência do imperativo da equidade e da ameaça que significam a exclusão social, a pobreza e as diferentes formas de desigualdade e injustiça social neste contexto de crise de civilização.

O problema da desigualdade social é de relações de força, de relações de poder. A sua complexidade não pode ser reduzida ao tamanho da renda monetária, por mais gritantes que os indicadores de renda per capita sejam. As formas de desigualdade como formas de dominação social são uma característica intrínseca da civilização industrial produtivista e consumista. Sociedade do ter e do acumular, ela necessariamente cria explorados, excluídos e dominados para que o ter e acumular nas mãos de poucos aconteça. Para isso, essa “máquina” privatiza e mercantiliza, usurpa bens comuns, priva enormes contingentes da população de meios de se organizar e viver autônomos, não sobrando outra forma de viver que não a de se submeter à exploração capitalista. A própria ideologia do ter e consumir como expressão de felicidade humana penetrou fundo nas mentes e nos corações. No processo de produzir e acumular, essa forma de organização e modelo de desenvolvimento da riqueza produz ao mesmo tempo desigualdade social e desigualdade ambiental, mas impõe o seu ideário de consumo a toda a sociedade, tornando-a refém do crescimento dos negócios, perpetuando-se no tempo.

Uma dimensão que precisa ser incorporada na requalificação da questão da desigualdade social é exatamente a destruição ambiental. Como humanidade, já consumimos mais recursos naturais – a nossa pegada ecológica – do que o planeta suporta. Estamos praticando hoje uma injustiça entre gerações, pois não estamos deixando para futuras gerações a natureza com a capacidade de regeneração como a encontramos. Considerando a desigualdade e injustiça social, a destruição ambiental que compromete futuras gerações deve ser vista como uma fundamental faceta da própria desigualdade social atual. Afinal, a destruição ambiental é socialmente desigual: uns grupos e sociedades sendo mais responsáveis do que outros e, pior, fazendo destruição em detrimento de atuais e futuras gerações.

Portanto, associar a luta por justiça social à luta contra a destruição ambiental é fundamental; uma depende da outra. Para enfrentar a injustiça social é fundamental enfrentar a destruição ambiental e a injustiça nela contida. Não é uma ou outra, são as duas ao mesmo tempo. Não se enfrenta destruição ambiental sem enfrentar injustiça social. Uma não acontece sem a outra e isso requalifica de modo radical as lutas sociais de nosso tempo, tendo em vista a biocivilização.

Somos parte da natureza, mas tendemos a não nos ver assim. A revisão da relação sociedade e natureza foi considerada aqui como condição fundante de uma civilização biocêntrica, a biocivilização. Em sendo assim, a questão traz ao centro uma reflexão ética e de justiça de tríplice dimensão: social, socioambiental e ecológica. Afinal, existe ou não uma questão de ética ecológica, de direitos e de justiça da natureza em si? Não é isso que se conclui da visão cósmica do bem viver e da ecologia profunda, em que a natureza, seus diferentes elementos são sujeitos detentores de direitos? Podemos nós ser contra o direito imanente de sementes e animais de se realizar como seres vivos, de a teia da vida ser como é, da atmosfera e o clima não serem alternados? Como tudo isso requalifica a fundamental luta por justiça social? Por mais difíceis que tais questões sejam, a busca de respostas a elas nos bota no caminho da biocivilização, mesmo que ainda muitas gerações tenham que se debruçar sobre elas.

A ética dos direitos e das responsabilidades humanas

Direitos humanos não são privilégios. Para serem direitos, devem ser iguais a todos e todas. Se servem para parte, para certos grupos, certas classes ou certos povos, são expressões de privilégios sociais associados ao poder. Por isto, é fundamental considerar os direitos humanos como expressão da qualidade das relações sociais de uma sociedade. A luta por direitos iguais, mesmo se tais direitos não são ainda reconhecidos, qualifica as próprias lutas, os sujeitos coletivos seus promotores e transforma a sociedade, o seu modo de organização e gestão. E é com tal compreensão dos direitos – como bem comum de uma cultura política de direitos em permanente construção e disputa, direitos iguais de referência para todos – que eles se tornam importantes na reengenharia social visando à sustentabilidade da vida e do planeta.

Não existem direitos humanos sem responsabilidades humanas. Para se ver como titular a ter direitos, todos os direitos, a condição é reconhecer a mesma titularidade em todos os demais. São os dois lados da relação política de igualdade a que os direitos humanos, como bens comuns, se referem. Ou seja, para ter direitos é necessário, ao mesmo tempo, ser responsável pelo direito de todos os demais. Trata-se de uma relação compartilhada e, como tal, de corresponsabilidade. Mas é essencial colocar essa questão no debate dos fundamentos de uma nova civilização. A crescente tomada de consciência dos direitos e das responsabilidades humanas, tanto nas sociedades como na relação com a biosfera, traz à luz a questão fundamental da interdependência do plano local e territorial ao planetário. Os direitos e as responsabilidades se sustentam no reconhecimento da interdependência ecológica e social como condição incontornável para reestabelecer as bases de sustentabilidade da vida e do planeta.

Como imaginário e filosofia política para uma biocivilização voltada à inclusão de todos, sem distinção, e à sustentabilidade, uma Carta de Responsabilidades Humanas deve ser construída em relação e em paralelo à reconstrução e ao aprofundamento da Carta de Direitos Humanos. Além do mais, de acordo com os princípios e fundamentos aqui desenvolvidos, será fundamental rever direitos humanos e responsabilidades humanas integrando aí a questão da justiça ecológica, do direito da integridade da biosfera e da capacidade de regeneração natural do planeta. Nesse sentido, os direitos e responsabilidades humanas são um pilar de novo paradigma. Transformar as definições de direitos e de responsabilidades humanas em uma Carta dos Povos para uma Biocivilização pode ser uma forma de conectar e potencializar forças da cidadania viva na gigantesca tarefa pela frente.

A ética da igualdade, da diversidade e da individualidade

Aqui estamos diante de princípios e valores que condensam em si mesmos construções culturais e conquistas políticas da humanidade. Isso não se deu ao mesmo tempo nem abarcou todos os povos. Sua conquista é fruto de múltiplas e históricas disputas ao longo da história humana. Trata-se de um processo histórico em que diferentes grupos e classes sociais, de diferentes gerações, se engajaram em lutas sociais emancipatórias tendo como referência um ou mais desses princípios e valores, marcando as estruturas sociais e definindo as condições de vida e ação para o futuro.

Hoje, é impossível pensar alternativas para a humanidade e dela na relação com o planeta sem pensar na contraditória articulação desses princípios e valores. Depende de nós a mudança que está destruindo tanto a sustentabilidade da sociedade humana como a integridade do planeta. Indagar sobre as bases da biocivilização é perguntar o que nós, humanos, estamos dispostos a rever e renunciar, dando lugar e prioridade à vida em sua totalidade, assentada nos princípios e valores éticos acima anunciados.

A igualdade como princípio nos obriga hoje a pensar de forma mais holística, planetária, tanto do ponto de vista humano, intra e intergerações, como do ponto de vista natural. Como garantir o igual direito à vida a todos os seres vivos, sabendo que a competição entre seres vivos pela vida é condição da própria vida? Eticamente, não há melhores nem piores, superiores e inferiores, mas seres vivos igualmente dependentes uns dos outros.

A diversidade como princípio e valor é uma afirmação relativamente recente. Tem a ver com identidade, ou seja, de ser igual e, ao mesmo tempo, ser diverso. Trouxe para o centro das lutas humanas as múltiplas formas de criação de identidades, culturas, opções, que não podem ser submetidas a formas aplastadoras de igualdade. Na verdade, a igualdade, para ser justa, deve respeitar a diversidade, e a diversidade social e cultural não pode ser motivo para justificar a desigualdade social. A diversidade, de um ponto de vista natural, é a lei da vida. É na diversidade que ela se realiza. Ou seja, a diversidade faz parte da ética social, da ética ambiental e da ética ecológica. Por isso mesmo, é um fundamento da biocivilização: igualdade na diversidade; diversidade como contraposição da homogeneização, tanto social como ecológica; diversidade como condição da vida sustentável e da integridade do planeta; diversidade como forma de realização da igualdade social e natural.

Nunca é demais lembrar a importância da conquista e da construção da individualidade como condição de emancipação na história humana. O social, a coletividade e a interdependência são elementos essenciais do viver humano. Porém, para que não sejam formas de dominação, é fundamental que sejam apropriados conscientemente, que as individualidades não desapareçam nelas e por causa delas. Viver é esse transacionar entre desejos e opções individuais com desejos e opções de outros, reconhecendo e compartindo princípios e valores comuns, bens comuns, objetivos comuns. A independência individual nada mais é do que a afirmação ética e política do único que é a experiência de viver de cada um e cada uma como parte da coletividade. A individualidade só pode existir com base em princípios e valores comuns, que reconhecem o mesmo direito de individualidade a cada um e uma e a todos e todas, sem distinção. Individualidade é condição de emancipação social, de luta por justiça social, de construção de uma biocivilização. Individualismo é uma reafirmação da civilização produtivista e consumista dominante, da acumulação individual, que concentra riqueza e destrói a natureza.

Todas essas reflexões remetem à questão da cultura e à importância da diversidade cultural para a sustentabilidade da vida e do planeta. É através da cultura que se gestam individualidades, como ainda é através da cultura que se afirma a comum humanidade e floresce a diversidade cultural, condição de existência da humanidade na interação entre seres humanos emancipados e deles com a natureza, substrato da vida, a usufruir, conservar, regenerar. Cultura vibrante é cultura diversa, não a homogeneidade imposta pela globalização aplastante atual. É pela cultura diversificada, que valoriza o potencial das gentes que a constituem, que é possível almejar a sustentabilidade da vida e do planeta. Essa é mais uma das dimensões fundantes da sociedade, da economia e do poder para a biocivilização.

Ética da estratégia de transformação: a questão da democracia e da paz

Não é possível a biocivilização sem uma ética de paz. Trata-se de uma condição fundamental, levando em conta todos os princípios e pilares aqui apontados. O imperialismo, os nacionalismos, os arsenais, as guerras e a violência internalizada na cultura, nas estruturas sociais, no modo de organizar o poder e a economia são os sustentáculos da civilização industrial produtivista e consumista, que se alimenta de conquistas, da exploração, do servilismo da dívida, da desigualdade e da exclusão social em escala global, do uso intenso de recursos naturais. Nesse sentido, a paz não é só um objetivo para a biocivilização; é uma condição ética e política estratégica incontornável para a sustentabilidade onde todas as formas de vida tenham lugar.

O desmonte da dominação atual, de todas as suas formas, e a transformação de relações e culturas, de mentes e corações são obras de engenharia política que se definem no fazer, no processo mesmo, mas onde a busca ousada, generosa, motivada por grande sonhos e utopias mobiliza e cria as forças de empuxo. Não existe processo histórico sem forças em movimento, em disputa. A questão ética na estratégia a adotar é como fazer disputas de forma construtiva, renunciando à violência armada de qualquer tipo e apostando na paz. De um ponto de vista ético, a estratégia política possível para a biocivilização, à luz dos fundamentos aqui defendidos, passa pelos incertos e tortuosos descaminhos da democracia, por meio da radicalização e da “democratização da própria democracia”, como se afirma no interior do Fórum Social Mundial. 

De uma perspectiva radical, a democracia é movida pelos princípios e valores éticos da liberdade, da igualdade, da diversidade, da solidariedade e da participação, todos juntos e ao mesmo tempo, como base do agir democrático, da cidadania ativa. Ação e fins se embasam na ética. Uma tal base de método pode transformar tudo o que se afirmou acima sobre fundamentos da biocivilização em utopia possível, onde se imagina, se formula e se age em vista de mudanças impossíveis que se quer tornar possíveis.

Na verdade, tanto a condição incontornável da paz como o método para democratizar a democracia são o fermento transformador do que hoje temos na direção da biocivilização. Os caminhos a construir se fazem no caminhar; não dá para defini-los a priori para todos os territóriosdo planeta, com sua diversidade natural e cultural, de povos em busca do viver bem. Conectados e reconhecendo a interdependência de todos a todos, podemos construir do local ao mundial, pelo método democrático e na paz, uma nova arquitetura do poder para a biocivilização.

Tudo isso é necessário, mas insuficiente. Sem vontade política e determinação aplicada na busca de um novo paradigma, o mais provável é prevalecer o menos ousado e nada transformador: adaptar-se ao dominante e mitigar o seu impacto, sem efetivamente mudar a sua lógica. É nessa direção que vai, por exemplo, a proposta mais avançada que brota de dentro do sistema capitalista industrial, o tal do new deal da economia verde, com a manutenção dos dominantes dominando a estrutura do poder mundial. Trata-se de uma nova frente de negócios capitalistas para continuar crescendo e acumulando, e não uma proposta de transformar a economia e o poder que a sustenta aos ditames do que aqui defino como biocivilização para a sustentabilidade da vida e do planeta, para o bem viver, enfim.

Esta é uma versão resumida e adaptada do texto Caminhos e Descaminhos para a Biocivilização, produzido para o Ateliê Internacional Biocivilização para a Sustentabilidade da Vida e do Planeta, realizado no Rio de Janeiro, de 9 a 12 de agosto de 2011.

Texto apresentado no Fórum Social Temático: crise capitalista, justiça social e ambiental, realizado em Porto Alegre, de 24 a 29 de janeiro de 2012.

Publicado em 31 de janeiro de 2012

Publicado em 01 de janeiro de 2002