Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Furto em sala de aula

Marcia Stein

Educadora

E agora, professor?

Uma questão de ética e delicadeza

Cada vez mais os educadores propagam a necessária aproximação entre a escola e a "vida lá fora". O desafio é diminuir a distância entre o que se ensina na sala de aula e a realidade cotidiana, com suas riquezas e contradições. Às vezes, porém, alguns aspectos radicais da realidade invadem a sala de aula sem pedir licença, forçando os educadores a enfrentar problemas cujas soluções não estão nos livros didáticos. O roubo na sala de aula é um deles. Dinheiro e objetos pessoais de alunos, professores e funcionários desaparecem de mochilas, bolsas, armários... O que fazer, então? De quem suspeitar? Como encaminhar uma questão tão delicada sem ferir os princípios éticos que uma instituição educacional deve ser a primeira a preservar?

Duas experiências vividas por educadoras do Rio de Janeiro ajudam a derrubar alguns mitos e estereótipos sobre o tema. Num episódio ocorrido numa escola estadual, no Centro do Rio de Janeiro, Yacira Peixoto, professora de História do ensino médio, conta como um susto acabou resolvendo o caso, que rendeu boas conversas sobre ética e cidadania. O segundo depoimento é de Suely Barreto, orientadora educacional de uma escola particular do Rio de Janeiro, cuja clientela é formada por crianças e jovens de classe média alta. Sua experiência mostra que não estamos diante de um problema restrito a escolas públicas, frequentadas por alunos pobres.

Primeiro, o susto; depois, aulas de cidadania

Nossa escola é uma unidade voltada para o ensino médio regular, de formação geral, priorizando a cidadania. É uma escola que, além da preocupação com o ensino de qualidade, com as mudanças sociais, também é conservadora quanto à questão disciplinar. Em função disso, os alunos não encontram aqui um ambiente propício à transgressão, e isso ocorre graças à unidade de pensamento que envolve o corpo docente, a direção e os funcionários.

Em agosto de 2004, uma aluna de uma turma em que eu leciono - 1ª série do ensino médio, com alunos adolescentes e adultos - comunicou à direção do colégio o furto do seu aparelho celular, que desaparecera enquanto ela estava no recreio. Ciente da ocorrência, após o retorno dos alunos à sala de aula, a diretora adjunta da escola, professora Rosangela Carvalho, lembrou à turma que a responsabilidade da guarda de objetos pessoais e de qualquer outro material individual é do próprio aluno e que, por sermos uma comunidade escolar, devemos ter em mente a prática dos bons hábitos e costumes.

Foi utilizada a estratégia de não caracterizar a ocorrência como furto mas, sim, como uma brincadeira de mau gosto. Por isso, optamos por dizer à turma que alguém provavelmente havia "escondido" o telefone para deixar sua dona preocupada.

Comuniquei aos alunos que não cabia aos professores exercer o papel de polícia, revistando suas mochilas; entretanto, alertei para o fato de já ter solicitado que o colégio requisitasse a presença de um policial que faria a revista, caso o celular não aparecesse naquele dia. Demos um prazo de 10 minutos para que eles tomassem uma atitude, reforçando que, ao retornarmos à sala, estávamos certas de que o mal-entendido estaria resolvido. Todos ficaram em sala resolvendo a questão entre si.

Por coincidência, o sargento responsável pela ronda escolar diária chegou à escola para o registro do seu comparecimento. Os alunos, acreditando que havia ligação entre o furto e a presença do policial, ficaram em completo alvoroço.

Passados os 10 minutos, retornamos à sala de aula e fomos avisadas pelo secretário de que o celular tinha aparecido sobre um banco do pátio da escola. Se a rápida solução do caso se deu graças à visita do sargento, nós não podemos afirmar; o que importa é que não deixamos de aproveitar o episódio para conversar com os alunos sobre os direitos que todos nós temos - e que devemos preservar - sobre os bens pessoais e os coletivos etc.

A escola não pode esconder esse tipo de ocorrência, devendo tratar esses assuntos com todos os alunos, em todos os turnos, a fim de evitar a reincidência. Em contrapartida, a equipe pedagógica deve preservar o aluno, garantindo o anonimato tanto dos denunciantes quanto das vítimas, evitando a estigmatização e a rotulação de ambos, o que é usual nessa faixa de idade.

Acreditamos que o que o leva o aluno a roubar colegas e professores na sua própria escola é o fato de que isso já faz parte do seu universo social. Em geral, esse comportamento é anterior à sua chegada à escola, tendo origem no seu ambiente familiar e nos exemplos que ele recebe de sua comunidade - colegas, vizinhos etc. Faltam referências e modelos a serem seguidos em termos de conscientização para um comportamento social de respeito e solidariedade. Nesse contexto, a responsabilidade da escola na formação desses valores é maior, sendo importante, inclusive, envolver as famílias dos alunos em campanhas e debates sobre o problema.

Em vez de punição, formação ética

Durante sete anos, Suely Barreto deu aula para crianças entre 7 e 15 anos de idade, nos últimos 13 anos, passou a atuar como orientadora educacional e supervisora pedagógica. Durante sua trajetória profissional em diferentes escolas, muitas foram as situações em que ela precisou interferir direta ou indiretamente em situações delicadas envolvendo o desaparecimento de objetos de alunos, professores e funcionários, de maior ou menor valor, dentro de sala de aula ou nos limites do espaço escolar.

A última instituição educacional em que ela atuou, durante seis anos, é uma escola bilíngue, de classe média alta, com duas unidades, ambas no Rio de Janeiro - uma no centro da cidade e outra na Barra da Tijuca.

Na sua experiência profissional, Suely acompanhou todos os segmentos da escola - da educação infantil ao ensino médio -, em anos diferentes. O relato da pedagoga pode servir de exemplo aos que enfrentam o problema, ao mostrar a importância do envolvimento de toda a equipe na busca de soluções construtivas e duradouras.

Vivenciamos episódios de furto em sala de aula em diversas ocasiões, o que nos mobilizou a envolver toda a equipe pedagógica na busca de estratégias adequadas a uma instituição de ensino. Não queríamos punir mas, sim, entender os fatores que levavam aos roubos e debatê-los com as partes envolvidas, visando à formação ética de toda a comunidade escolar.

Atuamos em equipe e aprendemos, com o desafio, que o problema deve ser tratado com muito cuidado. Devemos levar em consideração, sempre, todos os envolvidos: alunos, professores, funcionários e as famílias. Não acredito numa conduta única porque cada caso tem suas particularidades.

Quando a escola realiza um acompanhamento sistemático da rotina escolar, não se limitando às dimensões cognitivas relacionadas aos diferentes níveis de aprendizado - intelectual, social e afetivo -, a equipe pedagógica pode elaborar as estratégias de ação de acordo com a situação, levando em conta a faixa etária e a própria dinâmica daquela turma com seu(s) professor(es) e até mesmo a dinâmica familiar dos envolvidos. Não podemos esquecer que a situação de furto ou roubo dentro do espaço escolar, na maioria dos casos, representa um sintoma - muitas vezes, nada mais é do que um conflito instalado na própria turma. Devemos investigar a origem ou as causas de tal comportamento. Dessa forma acreditamos que o processo de comunicação dentro da escola é a primeira estratégia a ser considerada, pois precisamos compartilhar a situação com os envolvidos e muitas vezes, junto com eles, buscar estratégias de ação focadas em cada caso.

Algumas situações consideradas como roubo acabam sendo excelentes oportunidades para trabalharmos questões da rotina da turma, das relações dos alunos entre eles próprios e com os professores, como também entender o que determinada situação está revelando dentro da dinâmica daquele grupo.

Diferentes motivações podem estar presentes em casos de roubo na escola. Minha experiência profissional leva-me a acreditar que, em sua maioria, eles são praticados para suprir uma necessidade, para substituir a falta de algo. Quando se trata de crianças menores, por exemplo, o furto de um objeto pertencente a um colega de turma, muitas vezes, acontece justamente por uma identificação com esse colega e pelo desejo de ter o que ele tem, para "ser" ou "ficar" igual a ele. Nesses casos, pode haver motivações ligadas à admiração, identificação ou mesmo competitividade, sentimentos comuns nas relações sociais vividas na escola e fora dela.

Entre jovens adolescentes, essas questões relacionais também estão presentes. Mas, nessa fase, a busca de afirmação e a difícil relação com as regras sociais os levam a testar os adultos e sua autoridade o tempo todo. Os limites podem e devem ser estabelecidos, mas, sobretudo, é preciso que haja um olhar atento e afetivo em cada situação. Fórmulas, nesses casos, dificilmente funcionam. Na verdade, essas situações nos revelam conflitos individuais, de grupo e até mesmo familiares, que nem sempre podem ser resolvidos ou eliminados imediatamente, mas nos levam à criação de estratégias para lidarmos com eles durante o tempo necessário para que possamos equacioná-los.

Publicado em 01 de janeiro de 2002