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Guerra e Ortografia

Claudio Cezar Henriques

Professor titular de Língua Portuguesa da UERJ

Com os ataques terroristas contra os Estados Unidos, jornais e revistas nacionais se veem invadidos por uma enxurrada de palavras não-portuguesas, adaptadas sem muita convicção à nossa língua via imprensa internacional em inglês. Entram em cena hamas, hezbollah, jihad, al-qa'ida, abu nidal, mujahidins, mulás e campeão de audiência - talibãs. Epa! Como foi que eu escrevi? É talibã, grafia que os jornais do Rio de Janeiro vêm registrando, ou taleban, como têm preferido os jornais de São Paulo?

Seria o caso de recomendar uma consulta ao Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras? Não, até porque o VOLP não registra esse vocábulo. Aliás, nem o Aurélio, nem o Michaelis, nem o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (recentíssimo) e nem o estalando-de-novo Dicionário Houaiss. Ninguém registra o substantivo que identifica esse mais novo inimigo público número um do Ocidente.

Falha de nossa língua? Não. O vocábulo também não é citado nos últimos dicionários do francês, do espanhol e do inglês.

Então, vamos lá... Como é que se escreve uma palavra estrangeira quando se quer empregá-la num texto de nosso idioma? Nesse caso, o problema é que a língua estrangeira tem um sistema de representação gráfica que não se coaduna com o nosso. O alfabeto árabe, com perdão do trocadilho, é "grego" para mais de noventa por cento da população brasileira. E aí? Como é que se escreve?

Como devemos saber, as agências internacionais sempre divulgam seus textos na língua inglesa (e em outras línguas, às vezes). A própria agência noticiosa islâmica, IRNA (Islamic Republic News Agency), age assim. O idioma inglês atua, portanto, como um intermediário entre a língua de origem e a língua de destino. É por isso que muitas palavras que no árabe têm o som "xê" chegaram ao português grafadas com "x" e não com "ch": porque provêm da forma inglesa (que grafa o som "xê" com "sh" e não "ch").

Assim, para a palavra árabe transliterada para o inglês como shiite, escrevemos xiita, já que pela convenção em vigor não se grafa palavra com "sh" em português. Se a transliteração fosse direta, do árabe para o português, nenhum problema haveria com a grafia chiita, que aliás é registrada no Vocabulário da ABL como variante de xiita.

E o grupo islâmico de estudantes de teologia? Como é que fica? A questão envolve uma figura de linguagem básica no processo de comunicação linguística, e que se chama metonímia. Imaginemos um contexto em que eu me refira a uma pessoa que pertence a grupo religioso que se dedica ao estudo da Bíblia. Enfatizando a proximidade entre essa pessoa e o objeto de sua fé, se eu a chamar de "bíblia", estarei apenas utilizando um princípio metonímico de expressão.

Na verdade, o mesmo ocorreu no Afeganistão, quando em 1994 o mulá (professor) Muhammad Omar organizou um grupo cuja finalidade era estudar o talib, palavra árabe cuja raiz significa "procurar" e que representa o estudo teológico. Desse modo, chamar alguém de talib, no Afeganistão, equivale a chamar alguém de bíblia em português, pois a palavra talib passou a representar não apenas o estudo teológico em si, mas também a pessoa que estuda a teologia islâmica. Daí os jornais "traduzirem" talib como "estudante". Por conta disso, acirraram-se as inúmeras divergências religiosas entre grupos islâmicos.

Só que, de talib para taliban, temos a entrada do sufixo -an, que significa em árabe "plural animado" (em oposição a "plural inanimado"). Por causa desse valor plural, na língua inglesa alguns dizem "The taliban are" em vez de "The taliban is". Ou seja, o sufixo árabe -an é mais ou menos igual ao sufixo português -eiro(s), com o valor de "agente", "aquele que exerce um ofício". Mas traduzir taliban (grafia inglesa) para talibeiros, no entanto, é um preciosismo xenófobo. O melhor mesmo é seguir a tendência internacional e trazer a palavra como aparece na língua de origem, apenas aportuguesando sua grafia.

Sobre a letra "e", presente na forma taleban, adotada por alguns jornais, a explicação é encontrada nas mesmas agências internacionais, que registram também a grafia taleban (com e), embora em muito menor número. Tal grafia (inglesa) decorre da interpretação fonética de como os árabes pronunciam essa palavra, não sendo absurdo supor que, naquele território, essa vogal seja emitida ou percebida com alguma flutuação entre "e" e "i", como a que ocorre na modalidade brasileira da língua portuguesa entre menino e minino ou paletó e palitó.

[Originalmente publicado no jornal O Globo, no caderno Opinião do dia 05/10/2001]

Publicado em 01 de janeiro de 2002