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História política em primeira pessoa

Lorenzo Aldé

Jornalista

Política com P maiúsculo

Como acontece com qualquer assunto, falar sobre política pode ser enfadonho ou estimulante. O descrédito da classe política com a população acaba afugentando a maioria das pessoas de pensar, se informar e discutir o tema, exceto nos obrigatórios períodos eleitorais. E este é o principal problema: entender a política como uma obrigação restrita ao voto e limitada ao presente.

No Brasil, nada é mais falso do que achar que a política não muda, os políticos e partidos são sempre os mesmos, é tudo "a mesma porcaria de sempre". Basta ter um pouco de perspectiva histórica para ver como a situação político-partidária nacional vem se transformando radicalmente nas últimas décadas.

Década de 60: A surpreendente renúncia de Jânio Quadros, apenas sete meses depois de assumir (1961), dá início a uma grande reviravolta, que passa pela posse do vice João Goulart (1961), o crescimento das tensões sociais e da pressão dos militares, o golpe de estado que institui a ditadura (1964), o revezamento dos generais no poder, com aumento gradativo da repressão, culminando no AI-5 (1968) e no início da luta armada, cujo grande marco é o sequestro do embaixador americano Charles B. Elbrick (1969). Tudo isso em apenas dez anos!

Década de 70: Assume a Presidência o general Médici (1970), que comanda os anos mais terríveis da ditadura: tortura e assassinato de opositores, debandada de políticos, artistas e líderes de movimentos sociais para o exílio. A economia brasileira cresce ancorada no vertiginoso aumento da dívida externa. A cultura e os movimento populares aos poucos se reorganizam, tentando encontrar brechas na repressão, mas são apenas dois os partidos políticos: Arena (governista) e MDB (oposicionista). O governo Geisel (1974-1979) marca o início da abertura "lenta e gradual", que culmina com a anistia aos presos políticos em 1979, já sob o governo Figueiredo.

Década de 80: Arena e MDB são extintos na reforma partidária (1980). São cinco os novos partidos, sendo quatro de oposição (PMDB, PT, PTB, PDT) e um governista, o PDS, herdeiro da Arena. O Movimento Diretas-Já mobiliza o país (1984), mas a sucessão presidencial ainda é indireta, com a eleição de Tancredo Neves, do PMDB (1985). Os governadores e prefeitos, no entanto, voltam a ser eleitos democraticamente. Tancredo morre antes mesmo de tomar posse, e o Brasil passa a ser governado por José Sarney, cujo plano econômico que lançou o Cruzado, recebido com otimismo, fracassa, resultando numa hiperinflação de quase 5.000% ao ano! Em 1988 é promulgada a nova Constituição Federal, com grandes avanços no campo da cidadania e dos direitos humanos. Em 1989, finalmente a primeira eleição direta para presidente desde Jânio! O novo presidente? Fernando Collor de Melo, o "caçador de marajás".

Década de 90: A democracia avança, os partidos começam a se revezar no poder, algumas oligarquias perdem sua hegemonia, outras permanecem. Os movimentos sociais ganham força. O governo Collor rapidamente revela-se infestado pela corrupção, e a opinião pública mobiliza a sociedade para botá-lo para fora. O vice Itamar Franco assume e conduz o governo até a esperada eleição de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso canaliza grandes esperanças da população em um governo limpo, democrático e de mudança. Mas são tempos neoliberais, de privatização, abertura comercial e dependência do capital especulativo, que interfere nas políticas locais e causa graves crises econômicas em todo o mundo. As relações globais nunca foram tão importantes. O Mercosul, criado em 1991, torna-se alternativa vital para os países sul-americanos. FH modifica a Constituição em benefício próprio, conquistando o direito de reeleger-se (1998) e permanecendo, ao todo, oito anos no poder (1994-2002).

Década de 2000: É eleito o primeiro presidente de origem popular, do principal partido de esquerda do país. As relações políticas e sociais sofrem grandes reviravoltas.

O resumo acima é tão rico quanto inútil. É rico porque mostra como a política nacional passou por fases distintas nas últimas décadas, causando profundas modificações na sociedade e refletindo as também enormes mudanças do cenário mundial. É inútil porque não se pode resumir a vida política de um país assim, em poucas linhas. Não apenas porque muita informação valiosa fica de fora, mas também porque política não se resume a acontecimentos eleitorais, legislativos e partidários. Todas as relações sociais, humanas e institucionais, constróem a política nacional. A política é reflexo de nossa cultura, de nossa maneira de pensar e viver. Esta é a principal lição da democracia, que os brasileiros vão aprendendo aos poucos.

Um personagem da história

Por que escolhemos a década de 60 para começar a descrever os altos e baixos da história política nacional? Foram sem dúvida anos intensos, mas que época da História brasileira, no século XX, não foi?

Na verdade, escolhemos o período entre 1960 e 2000 para apresentar o personagem principal desta matéria.

Aluno do Colégio de Aplicação na época do golpe militar, envolveu-se intensamente no movimento estudantil. Em 1967, já na UFRJ, ingressou em uma organização política dissidente do Partido Comunista. Naquele ano, foi eleito vice-presidente da União Metropolitana dos Estudantes. Em 1968, com o endurecimento do regime, os estudantes também intensificaram suas ações: greves, comícios-relâmpago, ocupações de escolas, passeatas, confrontos com a polícia. "Pessoalmente, minha vida virou de pernas para o ar. Quase não frequentava as aulas e passava os dias e as noites na agitação. Logo, logo passei a ser buscado pela polícia e tive de sair de casa.", conta ele.

Eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFRJ, foi preso em seguida, ocupando cela ao lado de Luiz Travassos (presidente da UNE), Vladimir Palmeira (presidente da UME), José Dirceu (presidente da UEE de São Paulo) e Antônio Ribas (líder secundarista em São Paulo que seria morto na guerrilha do Araguaia). Ficou dois meses na prisão, ao contrário dos companheiros, que lá permaneceram por longo período. Dois dias antes da edição do AI-5, foi libertado graças a um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. Passou então a viver clandestinamente.

Com o AI-5 - um "golpe dentro do golpe, significou mais ditadura dentro da ditadura" -, decidiu participar da luta armada. Foi um dos sequestradores do embaixador americano Charles B. Elbrick. Depois fugiu para Cuba, onde fez treinamento de guerrilha rural, e morou no Chile durante alguns anos. Em 1973 voltou ao Brasil para viver clandestinamente em São Paulo, mas a proximidade de uma nova prisão ("... se fosse preso, certamente, seria torturado e morto") o fez exilar-se novamente, agora na França, onde cursou Ciências Sociais. De volta em 1977, aguardou escondido a anistia, concedida em fins de 1979.

Na década de 80, trabalhou como jornalista, nos jornais Hora do Povo, O Globo, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo. Em 1987, mudou-se para Brasília para cobrir a Constituinte. Mais tarde, trabalhou no SBT. Entre 1991 e 1992 foi correspondente do JB em Londres. Em 1994, passou a trabalhar no O Globo, onde foi repórter especial, colunista político, editor de política e diretor da sucursal de Brasília.

Hoje, aos 54 anos, é comentarista político no Jornal da Globo, na Globonews e na Rádio CBN. Quem vê aquele senhor engravatado e ouve suas observações, sempre ponderadas e perspicazes, não imagina tudo o que ele já passou.

A história de Franklin Martins é um exemplo de como a política interfere nas vidas individuais, e de como os indivíduos interferem na política. Com a sorte de ter vivido intensamente (e sobrevivido a) esse período turbulento de nossa história, Franklin tem muito a contar e opinar. E a vantagem de ter exatamente esse ofício.

Política linkada na história

Quem é apaixonado pela história política do Brasil tem a obrigação de conhecer o site de Franklin Martins. Já aqueles que acham política um tema chato terão a oportunidade de conhecê-la sob outros ângulos.

A seção mais saborosa do site é, sem dúvida, "Som na Caixa". O jornalista conseguiu coletar uma grande variedade de gravações originais, com músicas, jingles e discursos no rádio, retratando diversos momentos da política nacional, desde o início do século passado. Há registros raros, músicas desconhecidas e jingles históricos. Política e cultura andando juntas, demonstrando a criatividade e o bom humor dos artistas diante da cada circunstância, ou manifestações de adesão aos governos da época.

Para professores de História (mas não só), há maravilhas a serem pesquisadas e conhecidas. A "Estação História" traz documentos e textos importantes para entender o Brasil, nos estilos mais variados. Da carta de Caminha (1500) ao relato do alemão Hans Staden (1556), prisioneiro que quase virou picadinho dos tupinambás, de poemas de Gregório de Matos (1682) a cartas de Tomás Antônio Gonzaga (1786), documentos originais sobre a Inconfidência (1792), a escravidão (1832), a Guerra dos Farrapos (1836), o Navio Negreiro, de Castro Alves (1868), relato da princesa Isabel sobre a festa da abolição e a íntegra da lei Áurea (1888), carta de despedida de D. Pedro II (1889), Os Sertões (trechos), de Euclides da Cunha (1901), e assim por diante (carta-testamento de Getúlio, discurso de JK, convocação de Brizola, discurso do cabo Anselmo, AI-5...). Enfim, um acervo construído com evidente cuidado e carinho.

Sobre as eleições, o site disponibiliza um ótimo sistema de busca (em "Voto na Urna"), com os resultados detalhados de todas as sucessões (democráticas ou não) presidenciais do Brasil, desde a República Velha, com pequenas introduções explicativas daquele momento. As informações sobre a eleição para o Senado e a Câmara vêm desde 1945, e a escolha de prefeitos e governadores, em todo o país, está relatada desde 1996 e 1994, respectivamente. Na seção "Opinião Pública", a evolução das pesquisas de opinião recentes, sobre os governos e em períodos eleitorais.

Além disso, o site traz um acervo de artigos e comentários produzidos pelo autor, e uma lista com centenas de links para sites de interesse político.

E, é claro, uma biografia de Franklin Martins ("De Frente e Perfil"), narrada pelo próprio, que inspirou esta matéria e vale a pena ser lida.

Está dada a dica, do site e do homem. Lições de vida, de história, de política, de cultura e de jornalismo.

Publicado em 01 de janeiro de 2002