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Inspirado no II Simpósio de Ciência, Arte e Cidadania

Karla Hansen

Jornalista

Ciência, arte e alegria

O professor falava sobre as diferenças e interrelações entre ficção científica, produção e divulgação de ciência, enquanto a pequena turma de pouco menos de 10 alunos ouvia atenta e silenciosamente. De repente, se ouviu uma canção de Gilberto Gil, cantada à capela por um grupo de vozes que vinham do exterior da sala de aula. Professor e alunos se entreolharam surpresos por um breve instante e, em seguida, voltaram à concentração anterior.

"O escritor de ficção científica usa a ciência para criar um ambiente de plausibilidade e, dessa forma convencer o leitor...", continuava o jovem professor, de pele muito branca, óculos de lente e aros grossos e um forte sotaque paulistano. Alguns minutos depois, uma estrondosa e coletiva gargalhada irrompe. Outra vez, o barulho vinha de fora ... da sala ao lado, talvez? O professor interrompe sua exposição, respira profundamente e, depois, segue em frente.

"O cientista trata com procedimentos da pesquisa científica: hipótese, verificação, comprovação, etc. O escritor lida com especulação e extrapolação. E o que vem a ser extrapolação?", pergunta à turma, sem esperar resposta. "Extrapolar é pegar um dado científico e imaginar esse mesmo dado num outro contexto, por exemplo, como seria a energia nuclear, no futuro..."

 

Um aluno escreve, em seu bloco de notas: "cientista e poeta, na imaginação popular, são todos meio loucos, etéreos, né?". No quadro, o professor escreve a giz: Isaac Isimov, Arthur Clark, Carl Sagan, e professa: "todos eles vieram da ciência, foram divulgadores de ciência e são autores de romances de ficção científica", diz, sendo ele mesmo um autor de histórias de ficção científica.

Eis que o som de uma algazarra típica de brincadeira de criança invade a sala de aula tão quieta quanto um laboratório de ciências. "Assim já é um pouco demais, não é?!", pensa o professor, olhando impacientemente para a turma e, depois, para o relógio. Em seguida, sorrindo simpaticamente, diz: "desculpem-me, mas vou precisar fechar a porta, tudo bem?!". A turma concorda. "O que devem estar aprontando na sala ao lado?", pensa o aluno, curioso, o mais jovem do grupo. Com a porta fechada, o silêncio agora está preservado e o professor pode voltar em paz à sua aula, vai ao quadro, escreve umas palavras-chaves, aos poucos, se sente mais à vontade. De fato, ele não é professor, é um pesquisador, um escritor, tímido e recatado. Está ali, apenas, porque foi chamado para dar uma oficina, de duas horas, no II Simpósio de Ciência, Arte e Cidadania e acredita, sinceramente, que é preciso disseminar o saber e não se encastelar na torre do conhecimento.

Essa é uma das propostas básicas, aliás, do Simpósio. Pela segunda vez, a Fundação Oswaldo Cruz e o Projeto Portinari, organizaram um encontro para integrar cientistas, artistas, professores e alunos. E ele está ali, é um típico representante desse encontro feliz entre a ciência e a arte. É um profissional híbrido, uma mistura entre pesquisador e criador, entre cientista e artista! Mas...como passar o seu conhecimento adiante sem ser entediante, enfadonho, chato? Como transmitir aos alunos o prazer que ambas as atividades lhe proporcionam? Como convencê-los de que tanto quando se dedica à pesquisa científica, quanto a escrever os romances, está lidando com criação, com a fantasia, além de dados objetivos, é claro, de informações embasadas em comprovações científicas. Esse ainda era o seu maior desafio!

A turma do outro lado está bem quieta, a aula, agora sim, pode correr tranquilamente, para o prazer e a segurança do professor. Mas... aquele aluno, mais jovem, vestindo a camisa da escola, está inquieto. Pensando na melhor forma de lhe pedir licença para sair. Sentado na beira da carteira, balança uma das pernas em ritmo acelerado. "Tenho a sala inteira para atravessar", pensa o aluno, temeroso. Mas, tomando coragem, de uma só vez, ele levanta o braço: "professor, me dá licença pra...", diz já se levantando por inteiro. O professor permite. O aluno se atrapalha um pouco para pegar sua mochila e atravessa rapidamente a sala até a porta de saída. Já do lado de fora, respira aliviado: "acho que escolhi a oficina errada!"

Andou pelo corredor procurando a tal sala de aula que fazia "aquele barulho". Do corredor podia admirar a vista do lugar: a baía de Guanabara, o Pão de Açúcar... "Que lugar bonito!"

Para sua sorte as portas das salas tinham pequenas janelas no alto em que podia ver o que acontecia lá dentro. Viu uma, bem cheia, com mais de 20 alunos, o professor ensinava a fazer origami. Do lado de fora da porta, leu o cartaz com o nome da oficina "Origami: química e arte". "Que legal!" Mas ali, também, o professor falava, as pessoas escutavam, quietas em suas carteiras. "Não, não é aqui." , pensou. Andou mais um pouco, olhou através de outra porta: umas seis mulheres estavam sentadas em círculo, ao redor de um homem com uma barba grande e branca. O cartaz na porta dizia: "Sexualidade, arte e ciência". Ele olhou outra vez para dentro, o assunto parecia sério e as pessoas também. Aqueles não podiam ser os mesmos que estavam fazendo aquela "bagunça". Continuou andando, aproveitando para olhar bem para a paisagem.

Até que ouviu um canto de ciranda, cantado por muitas vozes, vindo de longe. Foi seguindo o som, a passos largos, em busca a sua origem. Deu uma volta inteira no corredor até chegar a uma porta e parar. Olhou pela janela: um grupo de mãos dadas, em roda, dançando e cantando uma antiga ciranda. No quadro, algumas palavras: "respeito", "liberdade", "alegria". Alegria?! "Só pode ser aqui", pensou. "Olha só aqueles... professores?!" Bem, na verdade, eram três: um deles tinha um nariz de palhaço, os outros vestiam chapéus-coco. As pessoas estavam de pés descalços e pareciam se divertir a baldes!

Pela janela da porta olhava tudo, com uma mistura de timidez e fascínio e uma vontade imensa de participar. Nem reparou que, alguém, lá dentro, também olhava para ele e vinha em sua direção. De repente, a porta se abriu e todo o grupo se juntou envolta dele, convidando-o para entrar. Ainda tentou resistir, dizendo que "estava só de passagem, estava só olhando, que nem tinha se inscrito na oficina..." Mas, a cada negativa sua, a turma inteira respondia com um "ah", de pena, bem alto. Não pode resistir por muito tempo e decidiu ficar sob os gritos de "oba!", do grupo. Com o coração acelerado, o aluno tirou o tênis, desvencilhou-se da mochila e entrou na roda. Estava convencido de que tinha encontrado a sua oficina. E o Simpósio de Ciência, Arte e... alegria tinha começado a fazer sentido para ele!

Observação da autora:

Esse relato foi inspirado livremente no "II Simpósio Ciência, Arte e Cidadania", mais especificamente, nas oficinas de trabalho oferecidas aos participantes, na bela Escola Naval. Além das oficinas, 17 ao todo, o Simpósio apresentou, ao longo de 4 dias, espetáculos de teatro, música, dança, exposição de artes plásticas, além de inúmeras mesas-redondas, em diversos espaços - na Tenda da Ciência em Cena, da Fiocruz, na Escola Naval e na sede da Assembleia Legislativa do Estado, o Palácio Tiradentes.

Segundo os organizadores, esta segunda versão do evento - o primeiro foi em 2002 - duplicou o número de participantes, a maioria professores e estudantes, e ampliou sua rede de parceiros. Entre todas essas atividades, muitas delas com altos momentos de brilho e emoção, as oficinas me pareceram o que houve de melhor no Simpósio, por proporcionar ao participante a oportunidade de ser o criador, o ator principal de sua ação e não, apenas, espectador. Que venham outros Simpósios!

Publicado em 01 de janeiro de 2002