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Lições da intolerância

Lorenzo Aldé

Faz sentido falar em respeito às diferenças em um mundo tragicamente marcado por violências e intolerâncias de todo tipo? Sim, mais do que nunca, faz sentido.

O impressionante ataque terrorista de 11 de setembro é mais um triste capítulo na longa história de incompreensão que a espécie humana protagoniza desde sempre. E para sempre? Já se pode antever, como desdobramento de tamanha violência, muito mais violência. A palavra guerra insiste em atualizar seu significado, desmentindo a ideia de que vivemos uma evolução rumo ao progresso e à paz. A ilusão de que aprendemos com a História e estamos nos aprimorando enquanto espécie marcou o século XX, e é bom que tenha morrido com ele.

A humanidade não está evoluindo. Violência, discriminação, degradação, extremismo, crueldade e opressão são realidades que caminharão para sempre com estes incompreensíveis seres: todos nós.

Estamos então perdidos, condenados? É claro que não. Se acreditássemos nisso não estaríamos trabalhando com educação, não estaríamos procurando construir, com nossas crianças e adolescentes, sentimentos e atitudes de cidadania, solidariedade, apreço pela diferença e capacidade de aprender com o estranhamento. Tudo isso também pertence ao grande leque de possibilidades humanas, e é esta riqueza que nos faz acreditar em uma educação igualitária e inclusiva.

O outro como ameaça

A vida humana ganha sua riqueza se é construída e experimentada tomando como referência o princípio da dignidade. Segundo esse princípio, toda e qualquer pessoa é digna e merecedora do respeito de seus semelhantes, e tem direito a boas condições de vida e a oportunidades de realizar seus projetos. Características particulares - sexo, idade, etnia, religião, classe social, grau de instrução, necessidades ou talentos especiais, opção política e ideológica, etc. - não aumentam nem diminuem a dignidade de uma pessoa.

Crianças palestinas e israelenses crescem em um ambiente de ódio e violência, e são condicionadas a desconsiderar a humanidade de pessoas que vivem próximas a elas, mas que são "inimigos". De Hitler a Milosevic, os grandes massacres do século que passou basearam-se na exclusão de seres considerados "inferiores".

Mas a história das inumanidades humanas vem de longe. Para ficar só nos exemplos mais recentes: os europeus do século XVI determinavam que os habitantes do Novo Mundo, recém-descoberto, precisavam da religião católica para se tornarem "civilizados". A escravidão que vigorou no Brasil, nos Estados Unidos e em muitos outros países, valia-se dos negros como "mercadoria". Já no século XIX, o neocolonialismo retomou o discurso civilizatório para dominar e impor sua cultura a povos "atrasados" da África e da Ásia. Em diversas épocas e sob o comando de diferentes civilizações, a intolerância sempre nasce da não aceitação do outro, do diferente.

Difícil saber quando interesses econômicos ou políticos serviram de pretexto para a intolerância étnica ou religiosa, ou quando aconteceu o contrário: o já existente preconceito embasou políticas, guerras, dominação. O fato é que o ingrediente da exclusão de grupos humanos "diferentes" se repete ao longo da História, e torna-se tão marcante que fica entranhado no sentimento das sociedades envolvidas, causando grandes males durante séculos e séculos.

Nosso país não vive uma guerra nem enfrenta graves conflitos étnicos. Nem por isso as crianças brasileiras estão livres de crescer marcadas pela intolerância. A discriminação racial ainda é uma realidade evidente, e certas práticas religiosas (como a umbanda) e sexuais são tratadas no mínimo com antipatia, e em situações extremas, com violência. No entanto, é o abismo social que separa ricos e pobres que alimenta, de forma cruel, pensamentos e atitudes excludentes, de intolerância e apartação.

Crianças de extratos sociais diferentes raramente convivem umas com as outras: crescem separadas e marcadas por estranhamento. O outro, no caso brasileiro, é também um brasileiro. Aquele menino que se veste, mora, fala, age e tem cor diferente da minha dificilmente será visto por mim como um concidadão. Como nos graves conflitos étnicos que atormentam o mundo, o outro é uma ameaça para a excludente sociedade brasileira.

A educação tem a responsabilidade de ajudar a romper essas barreiras. A noção de país e de igualdade entre os cidadãos só será completa quando a discriminação social der lugar ao inconformismo de se ver brasileiros como nós vivendo sem dignidade. A violência deve ser entendida como consequência trágica da desigualdade entre os seres humanos, e sua solução deve ser pensada pelo caminho da inclusão, e não da apartação (resposta mais violenta ainda).

A escola é o espaço onde nossas crianças podem crescer convivendo com a diferença e praticando o respeito mútuo. A ela cabe não discriminar, e sim valorizar as diferenças como a principal riqueza do nosso país.

Será que podemos tirar alguma lição do fundamentalismo que hoje aterroriza o mundo? Talvez, se reconhecermos que a intolerância não está assim tão longe de nós.

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Publicado em 01 de janeiro de 2002