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Metáforas e ciência

Guiomar E. Ciapuscio

PhD em linguística da Universidade de Bielefeld (Alemanha), professora associada da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (UBA) e pesquisadora independente do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas y Técnicas (CONICET), Argentina.

Introdução

A metáfora, habitualmente considerada uma figura de linguagem com funções ornamentais, nos últimos tempos vem sendo estudada como um poderoso instrumento do pensamento, uma fonte de explicação, e também em seu possível papel heurístico na pesquisa da natureza.

Não é nada estranho encontrar metáforas tanto nos textos que comunicam temas científicos como naqueles que os explicam. No entanto, seu emprego neste âmbito discursivo continua sendo um tema polêmico, que suscita inclusive advertências e recomendações de precaução a respeito de seus limites e de seus riscos (uma mostra muito clara está no recente artigo intitulado "La física del tiempo", Ciência Hoy, 71: 30-37, 2002). Por isso talvez valha a pena expor e analisar algumas linhas de reflexão e algumas ideias sobre temas propostos pela retórica e pela linguística, como também relembrar as posições críticas - muitas vezes violentas -sustentadas por importantes cientistas, desde o nascimento da ciência moderna até nossos dias, a respeito do emprego da metáfora para a comunicação científica.

A metáfora, como as outras chamadas figuras de linguagem, tem sido um recurso tradicionalmente desprezado não só pelos cientistas mas também pela literatura normativa sobre a retórica e os textos da ciência. Nos anos recentes, a atitude em relação à metáfora está mudando de uma maneira substancial, por diversos motivos, entre eles as novas concepções epistemológicas sobre o fazer científico, a influência da história e da sociologia da ciência e os estudos sobre o discurso científico. Gostaria de mostrar que esta mudança na apreciação da metáfora relaciona-se com os novos modelos e as reflexões da linguística cognitiva sobre o pensamento metafórico, que têm redefinido e revalorizado o recurso. As dificuldades em aceitar a metáfora como um recurso legítimo de conhecimento devem-se a dois motivos: por um lado, a um modo inadequado de entendê-la e, por outro, a uma noção de racionalidade e objetividade idealizadas sobre nossos processos de conhecimento. Os modos como tem sido conceitualizada a metáfora nas diferentes correntes filosófico-linguísticas estão indissoluvelmente ligados a como têm sido interpretados os processos do conhecimento humano.

Como a literatura especializada sobre o tema é vasta e dada a limitação de espaço de um artigo, a apresentação das linhas de reflexão relevantes para meus propósitos será necessariamente parcial e sintética.

A metáfora na concepção do discurso clássico

Aristóteles é o criador da concepção clássica sobre a metáfora, conhecida geralmente como interpretação comparatista. A Retórica sustenta que a metáfora consiste na "translação de um nome alheio"; a base de toda a relação metafórica é a analogia, que permite estabelecer relações de correspondência entre elementos distintos. A analogia pode basear-se em similitudes da aparência externa, da funcionalidade ou de uso. Em outras palavras, a metáfora é um recurso linguístico que supõe uma analogia implícita que o intérprete deve repor; assim os elementos relacionados metaforicamente podem substituir-se entre si.

Tomemos um exemplo citado frequentemente na literatura: "o homem é um lobo". Este enunciado é correntemente interpretado através da reposição do laço comparativo que falta, "o homem é como um lobo". Deste modo, determinadas características ou atributos "evidentes" do definiens (lobo), como ferocidade, agressividade, etc., se transferem e se fixam ao definiendum (homem). O efeito da metáfora é destacar e por em foco determinadas características do objeto e, simultaneamente, obscurecer ou postergar outras (como, por exemplo, a inteligência, a operosidade, etc.). É bastante usual que um elemento da analogia esteja ausente; assim, quando o poeta fala das "pérolas de sua boca", a analogia implícita é "seus dentes são (como) pérolas" - dado o traço comum de "brancura" -, ou quando o biólogo expõe o "código genético", pressupõe que o leitor repõe "o código genético é como um texto", dado que compartilham uma propriedade comum, isto é, ambos contêm uma "combinação de sinais ou letras".

A teoria comparatista inaugurada por Aristóteles impregnou a atividade literária e retórico-linguística posterior de maneira absoluta; a teoria dos tropos ou figuras de linguagem foi um capítulo central de todo o tratado de poética e retórica relevante desde a Idade Média. A tradição literária preservou em grande medida a tese da "translação" e a "substituição" e consolidou a concepção da metáfora como "adorno" ou "ornamento linguístico" dos textos. Nesta tradição, a possibilidade de substituição de um elemento por outro explica-se com base em uma analogia semântica preexistente que os intérpretes devem conhecer. A visão comparatista da metáfora - e especialmente sua versão clássica, que supõe que as semelhanças são preexistentes ao sujeito e, portanto, objetivas - harmoniza-se com a filosofia objetivista.

O argumento básico desta tradição é que o mundo é constituído por objetos que possuem propriedades inerentes e independentes das pessoas que interagem com eles; compreendemos e conhecemos o mundo em virtude de categorias e conceitos que se correspondem com essas propriedades inerentes dos objetos. As palavras das línguas naturais têm significados fixos que refletem as categorias e conceitos mediante os quais pensamos; isto permite que seja possível - se for evitada a linguagem figurada e as metáforas - comunicar e falar objetivamente. As metáforas e os jogos de linguagem não têm clareza de significado e não se ajustam estritamente à realidade.

Vamos agora revisar as atitudes a respeito das línguas naturais e, especificamente, da metáfora no que poderíamos chamar de concepção tradicional da ciência e do discurso científico.

A metáfora na concepção tradicional da ciência

A concepção tradicional do discurso científico - cujo ponto de origem situa-se na revolução científica (século XVII) - inclui em seus preceitos a expulsão da metáfora, por considerá-la um recurso de distorção, intrinsecamente ambíguo, próprio do campo subjetivo e emocional. Subjacente a esta concepção clássica está a compreensão da metáfora como "ornamento linguístico" e, em última instância, como mera substituição de palavras.

A metáfora e, em geral, o conjunto das figuras de linguagem cultivado pela retórica, foram considerados inimigos "naturais" da ciência moderna por vários séculos. A concepção tradicional da linguagem científica, que se prolonga - com matizes - até quase o fim do século XX, tem suas raízes históricas nos tempos daquela revolução científica, especialmente a partir da ação da Royal Society of London for Improving Natural Knowledge. Essa instituição - cujo lema foi justamente "Nullius in verba", expressão latina que, em pitoresca tradução de Peter Medawar (prêmio Nobel de Medicina em 1960), significa "não acredite na palavra de ninguém e menos ainda na de Aristóteles" - impulsionou a emancipação das ciências naturais experimentais, chamadas intencionalmente "ciências reais", da posição marginal que haviam ocupado na visão escolástica até o seu moderno papel como ciências líderes. Esta luta pela imposição de ciências naturais novas foi simultaneamente uma luta linguística: o desejo de alcançar um estilo, ou até mesmo, nos mais entusiasmados, uma linguagem diferente para expressar e comunicar a verdadeira ciência. A oposição estabeleceu-se sobre uma dicotomia já prevista pela antiga retórica: res vs. verba, o objeto versus as palavras. A língua da ciência deveria encaminhar-se decididamente para o lado dos objetos, em clara oposição ao estilo tradicional, marcado pela retórica e sua visão persuasiva, e portanto manipuladora, da língua.

Em geral, os cientistas desse tempo compartilhavam uma desconfiança visceral sobre a capacidade das línguas naturais de transmitir fielmente os conteúdos científicos. Tal desconfiança traduziu-se em duas atitudes básicas para enfrentar o problema: por um lado, houve propostas para criar uma língua nova e diferente para a ciência e, por outro, a visão mais moderada propôs uma adaptação, um estilo diferente nas línguas naturais para a expressão de temas científicos.

A primeira atitude foi assumida por vozes influentes como o bispo Wilkins e Isaac Newton, entre outros; esses autores propuseram a criação de uma língua diferente para a ciência, de caráter universal, independente das línguas naturais, na qual as palavras e os objetos seriam congruentes. Estas iniciativas - no mínimo desopilantes - foram ridicularizadas por Jonathan Swift em As viagens de Gulliver. Nessa obra, os professores da grande Academia de Lagado trabalham em um plano para abolir por completo as palavras e propõem a comunicação por meio dos objetos, que seriam carregados como fardos nas costas. Abaixo uma das passagens mais divertidas:

Muitos dos mais sábios e eruditos aderiram ao novo método de expressar-se por meio dos objetos; o que apresentou como único inconveniente o de que quando um homem se ocupa de grandes e diversos assuntos vê-se obrigado, em proporção, a levar nas costas um grande fardo de objetos, a menos que possa pagar um ou dois robustos criados para ajuda-lo. Eu já vi muitos vezes dois destes sábios, encurvados pelo peso de seus fardos, como vão nossos caixeiros viajantes, encontrar-se na rua, por a carga por terra, abrir os sacos e conversar durante uma hora, depois meter os utensílios nos sacos, ajudar-se mutuamente a reassumir a carga e despedir-se.
(As viagens de Gulliver, tomo II, cap.V)

A segunda opção, mais "realista", concentrou-se na luta pelo chamado "estilo linear" (plain style), caracterizado pela imagem da "transparência", que expressa a dicotomia de base metafórica perspicuitas vs. obscuritas (transparência versus obscuridade). O estilo linear define-se por características como a precisão, a objetividade, a clareza, a ausência de subjetividade e de todo elemento emocional. Joseph Gusfield ilustrou com exatidão o estilo através da metáfora da vitrine: a língua científica deveria ser como uma vitrine, que permite ver com absoluta nitidez os objetos exibidos.

O argumento comum subjacente a ambas as atitudes é a oposição radical à retórica tradicional, que John Locke - um representante paradigmático da "guerra à metáfora" - descreveu como "uma mentira perfeita", por sua capacidade de incorporar falsas ideias na mente sem que se note. A campanha antirretórica das novas ciências experimentais elegeu como um de seus cavalos de batalha prediletos a oposição à metáfora, enquanto protótipo da potencialidade manipuladora da língua.

O repúdio à metáfora como instrumento da língua para a expressão e comunicação do conhecimento transcende, certamente, o tempo de nascimento das ciências experimentais e tem uma história maior. Lakoff e Johnson, em seu livro intitulado Metáforas da vida cotidiana, vinculam esta atitude ao domínio do objetivismo na cultura ocidental e encontram suas raízes na influente obra de Platão que, como é sabido, expulsou de sua República a Poética, baseado em sua pouca afeição à verdade, em sua capacidade de despertar emoções, confundir e cegar os homens. A desqualificação do recurso foi ardorosamente praticada também por filósofos e pensadores como Thomas Hobbes e John Locke, cujos escritos, no entanto, estão cheios de metáforas. Parece bastante claro que a guerra à metáfora, na realidade, foi uma luta mais retórica do que prática. Como anedota interessante podemos lembrar que o célebre poeta romântico Coleridge assistia às aulas de seu amigo Humphry Davy, o genial químico, não só pelo seu interesse na matéria, mas para renovar e enriquecer seu repertório de metáforas.

A desconfiança em relação às línguas naturais prolongou-se ao longo de séculos. O positivismo e o neopositivismo conceberam e apresentaram a ciência como uma construção objetiva e puramente racional, sujeita a leis e regras de ordem lógico-formal. O instrumento linguístico continuou sendo considerado um recurso necessário mas pouco confiável, que precisava ser polido e modelado. O neopositivismo vienense da primeira metade do século XX propugnava a existência de uma linguagem neutra de observação que poderia traduzir todos os enunciados que tivessem sentido. Os filósofos da ciência dessa corrente, dominante até o começo dos anos 60, postularam a necessidade de uma linguagem científica objetiva, a-histórica, imutável e universalmente válida. Prolongava-se assim o desterro, ao menos anunciado e formal, da metáfora.

O repúdio à metáfora no enfoque tradicional e clássico do discurso científico fundamenta-se, evidentemente, em uma concepção epistemológica da ciência e do conhecer humano de raiz basicamente objetivista. O fazer científico é um dar conta quase asséptico do mundo externo (a realidade); o instrumento linguístico deve ser transparente e, na medida do possível, não deve nem ser "notado". Mas pode-se também reconhecer nessa atitude uma concepção da metáfora como mero "vestido" do pensamento: com efeito, para tal posição a metáfora é um recurso ornamental, próprio de discursos em que predomina o estético-manipulador; a metáfora, ao vincular por analogia dois campos necessariamente diferentes, produz ambiguidades, conotações desnecessárias e interpretações subjetivas, motivo pelo qual não deve ter lugar nos textos de ciência.

A metáfora na linguística cognitiva: a concepção experiencial

O valor da metáfora como instrumento de conhecimento foi reconhecido inclusive por Aristóteles ("as palavras correntes comunicam apenas o que já sabemos; só por meio das metáforas podemos obter algo novo", Retórica, 1410b); no entanto, esse poder cognitivo só foi tratado como tema e aprofundado a partir do século XX, em diversos escritos filosóficos e linguísticos que conceberam a metáfora explicitamente como um instrumento de conhecimento.

Mais recentemente, os estudos de Lakoff e Johnson, no marco da linguística cognitiva, constituíram um indiscutível ponto de inflexão em sua teoria. A tese central desses autores é que a metáfora é um instrumento do pensamento, e só em segunda instância um recurso linguístico; para eles, os processos do pensamento humano são, em grande parte, metafóricos. A metáfora impregna o conhecer e atuar humanos; trata-se de um fenômeno que vai muito além de palavras ou de conceitos isolados. As metáforas nos permitem entender um campo da experiência com as palavras de outro campo. Em casos de metáforas convencionais (cotidianas), como "tempo é dinheiro" ou "discussões são guerras", vemos que as definições metafóricas encontram-se em domínios básicos da experiência, como dinheiro e guerra; subconceitos como "calcular o tempo" ou "ganhar uma discussão" derivam dos conceitos mais gerais. Os domínios básicos da experiência são totalidades organizadas como Gestalten, isto é, configurações, em forma de dimensões naturais.

Esses campos são naturais porque são produtos de nossos corpos, de nossa interação com o meio físico, de nossas interações sociais em um marco cultural que nos é próprio. No caso de "tempo é dinheiro" trata-se de uma metáfora convencional de raiz cultural: o tempo em nossa cultura (mas não necessariamente em todas) é concebido e experimentado como um recurso valioso e limitado, por isso dispomos de numerosas expressões vinculadas a esta metáfora-mãe (como "meu tempo vale ouro", "me custou várias horas", "ganhar tempo", etc.).

Diferentemente da visão objetivista presente na concepção comparatista da metáfora, a concepção experiencial sustenta que o pensamento metafórico pode ser criativo: as metáforas originais - baseadas na percepção de novas semelhanças - podem dar um sentido diferente à experiência, isto é, criar coerência ao destacar alguns traços e ocultar ou obscurecer outros, e assim originar novas realidades. As metáforas criativas são um instrumento indissociável não só da criação artística mas também da atividade científica. Assim, nesta concepção a metáfora é antes de tudo uma questão de pensamento e de ação; não expressa somente analogias preexistentes, também pode descobri-las ou postulá-las. Em suma, a teoria experiencial afirma que as semelhanças relevantes no feito metafórico são aquelas que a gente experimenta e, podemos sublinhar aqui, descobre.

A tese experiencial da metáfora, e de nossos processos de conhecimento humano, é proposta como uma alternativa ao objetivismo e ao subjetivismo (sua face oposta). O mundo, os objetos e suas relações impõem limites e condições à percepção, mas nosso conhecimento é necessariamente mediado por nosso sistema conceitual, que é, em grande medida, metafórico e, portanto, imaginativo. A proposta experiencial é uma síntese superadora daquelas duas posições, pois une razão e imaginação, união esta que realiza e arremata de maneira paradigmática o fenômeno metafórico: a razão inclui os processos de ordenar, categorizar, realizar inferências; a imaginação, em uma de suas formas mais representativas, implica em ver o campo dos objetos em termos diferentes, o que nada mais é do que o pensamento metafórico.

As metáforas nas novas concepções do discurso científico

A concepção clássica dominante sobre o discurso científico a partir do século XVII até quase o fim do século XX, segundo a qual o instrumento linguístico constituiria um obstáculo, foi questionada e superada há pelo menos três décadas. Atualmente aceita-se que a ciência é uma atividade social, inserida na comunidade em que se desenvolve e por fim submetida a condicionamentos e influências da mesma. Esta mudança de base epistemológica, não sem razão, foi levada a cabo junto com uma alteração substancial das ideias sobre a língua e os textos da ciência, em que tiveram papel relevante os estudos linguísticos sobre o discurso científico.

Nesse campo, Harald Weinrich, um destacado humanista contemporâneo, sustenta que a proibição ou tabu que reza que "o cientista não usa metáforas" não é mais que um mito. Na realidade, diz, uma revisão apenas superficial das obras capitais da ciência moderna leva à conclusão razoável de que a ciência se faz com metáforas. Lembramos aqui alguns exemplos eloquentes: o estudo do campo elétrico de Maxwel sobre as propriedades de um fluido imaginariamente incompreensível; a teoria das cordas em física, segundo a qual os componentes fundamentais da matéria não são pontos matemáticos, mas entidades unidimensionais (linhas) chamadas "cordas"; a hipótese de Gaia - nome da deusa grega da Terra -, formulada por James Lovelok e enriquecida pelos trabalhos de Lynn Margulis, que postula que todo o planeta é um único ser vivo que opera como um termostato, de maneira a preservar a vida em sua totalidade; a já mencionada metáfora linguística na pesquisa do genoma, cuja formulação essencial consiste em que o DNA dos organismos é um código - um texto - a decifrar; "o gene egoísta" e o "gene cooperativo", potentes metáforas - especificamente personificações - de Richard Dawkins que proporcionam enfoques sugestivos na pesquisa da biologia evolutiva. A base, em todos os casos, está no pensamento metafórico: trata-se de pensar um campo com os termos de outro.

Que a ciência se faz com metáforas pode ser demonstrado de maneira contundente inclusive se nos limitamos a examinar um microfenômeno do discurso científico como as terminologias científicas, que se tornam metáforas "endurecidas" de uso tão corrente e padronizado que perdem sua origem metafórica; isto é demostrado por exemplos como célula (termo derivado de "cela", pela similaridade do elemento, à luz do microscópio, com as celas dos monges); onda de luz/ magnética/ radioelétrica (por analogia com as ondas que se produzem nas superfícies líquidas); força, originalmente "vigor", "robustez", palavra adotada e definida semanticamente em diferentes disciplinas de maneira particular - por exemplo, em física, como qualquer ação ou influência que modifica o estado de repouso ou de movimento de um objeto.

A partir do reconhecimento destes feitos, recentes estudos sobre a retórica do discurso científico - em consonância com a linha de pensamento representada com vigor em linguística pela concepção experiencial - têm se estendido sobre o valor heurístico das metáforas na pesquisa e solução de problemas. Evidentemente, as ficções analógicas podem ser úteis aos cientistas para conceituar e dar conta das relações entre fenômenos em termos novos; como demonstra profusamente a história da ciência, o instrumento metafórico evoca associações familiares que permitem focalizar percepções de maneira tecnicamente legítima e heuristicamente fértil. Estudos centrados na retórica da ciência têm destacado seu papel nos estágios iniciais da pesquisa, funcionando à maneira de centelhas disparadoras de novas vias de pensamento (se me permitem a metáfora). Porém, mesmo a partir do campo científico a valorização da metáfora está experimentando mudanças substanciais.

Evelyn Fox-Keller, bióloga e aguda observadora da língua científica, demonstrou em diversos trabalhos como - contra o que continuam pensando muitos cientistas - a metáfora está presente no fazer científico e de que modo pode levar nossos valores culturais à pratica científica, servindo, inclusive, para motivar linhas norteadoras de pesquisa e experimentos concretos. A história da pesquisa do processo de fertilização ilustra com muita eloquência esta tese; a respeito disto Fox-Keller sublinha o seguinte:

Até recentemente a célula espermática tem sido descrita persistentemente como "ativa", "forte" e "autopropulsada", sendo capaz de "furar" a coberta do óvulo e "penetrar" no mesmo, ao qual entrega seus genes, e de ativar o programa de desenvolvimento. Pelo contrário, a célula do óvulo é "transportada" e "arrastada" passivamente ao longo da trompa de Falópio até que é "atacada", "penetrada" e "fertilizada" pelo esperma (Martin pp. 489-490). O aspecto mais destacável é a consistência dos detalhes técnicos que confirmam esta descrição, ao menos até há uns poucos anos: o trabalho experiencial proporciona arrazoados químicos e mecânicos sobre a mobilidade do esperma, sobre sua adesão à membrana celular e sua capacidade de levar a cabo a fusão da membrana. A atividade do óvulo, considerada inexistente, não precisa de nenhum mecanismo e, portanto, presume-se que não se realiza [...] Hoje em dia, uma metáfora diferente parece que é mais útil e mais claramente aceitável: nos livros de texto atuais, a fertilização provavelmente se está impregnando da linguagem da igualdade de oportunidades; é definida como "o processo no qual o óvulo e o esperma se encontram e se fundem
(Alberts et al; The Molecular Biology of the Cell, 1990: 868, p.57)

A mudança de metáfora leva a pesquisa sobre fertilização a tomar caminhos menos unilaterais.

Deve-se dizer que apesar do valor cognitivo-criativo da metáfora encontrar alguma dificuldade de aceitação entre vozes mais conservadoras sobre o discurso da ciência, sempre se destacou seu potencial didático-explicativo, ainda que frequentemente acrescentem-se advertências e chamadas de atenção sobre os seus limites e riscos. Evidentemente, as metáforas podem ser empregadas para "fazer retórica" sobre a pesquisa; neste caso, o especialista recorre a elas por causa de suas potencialidades para a explicação esclarecedora; ao provocar associações com o mundo cotidiano, permite a compreensão do conteúdo conceitual central.

No entanto, seu valor para a explicação de temas científicos vai além do estritamente verbal: quando compreendemos um texto, além de "decodificar" suas orações e relações, construímos em nossas mentes uma imagem do compreendido, na forma de um quadro. A pesquisa linguística sobre o processamento de textos demonstra que a possibilidade de formação de imagens favorece não só a compreensão mas também a memorização. Normalmente os conceitos científicos, por seu grau de abstração, impedem a formação de imagens mentais: a ficção analógica com objetos ou sucessos do mundo cotidiano possibilita que construamos "imagens aproximadas" destas noções abstratas.

Por último cabe dizer que existem metáforas especialmente produtivas: refiro-me a metáforas criativas concebidas pelo especialista para solucionar ou produzir novos enfoques sobre problemas de sua disciplina, metáforas que têm sido chamadas de heurísticas, que podem circular em outros campos menos especializados da comunicação científica. Sua potencialidade cognitivo-comunicativa as provê de multifuncionalidade, quer dizer, servem a vários propósitos de acordo com seus destinatários e o contexto onde foram empregadas; permitem a construção de interpretação e conceitualizações adequadas por diversos tipos de audiência.

Um exemplo muito representativo é a já mencionada pesquisa do DNA, iniciada e aprofundada a partir de uma metáfora fundadora: "O DNA é um código/texto (por decifrar)". Essa metáfora permitiu abrir caminho para a pesquisa da estrutura molecular dos seres vivos e converteu-se em um poderoso instrumento cognitivo-acionador para avançar no campo; o projeto de pesquisa multinacional sobre o genoma humano - o livro da vida - repousa, em ultima instância, na conceitualização do problema sobre a base do campo metafórico da escritura. Esta metáfora-mãe projeta-se nos textos de divulgação dirigidos a não-especialistas: evidentemente a interpretação da metáfora será diferente em aspectos substanciais segundo os diversos públicos e, também, na sua funcionalidade. Pode-se dizer, então, que a metáfora é um instrumento moldável, capaz de provocar efeitos particulares de acordo com os tipos de audiência: para o pesquisador, o pensamento metafórico pode significar um avanço na resolução de um problema ou, até mesmo, uma nova teoria. Para o público não especializado é um recurso que permite conceitualizar fenômenos abstratos ou excessivamente técnicos mediante associações com objetos ou aspectos do mundo cotidiano.

Em resumo, a metáfora é um mecanismo de conceitualização de extrema importância no campo da criação e da comunicação: por sua potencialidade epistemológica de abrir novos modos e caminhos de pensamento e porque lembra domínios de experiência cotidiana, é um recurso efetivo para a explicação e exposição de conteúdos científicos a diferentes tipos de audiências. Evidentemente, por sua característica intrínseca de "clarear" similaridades e ao mesmo tempo "apagar" as diferenças, mesmo com as reservas sobre seus alcances e riscos, ainda que deixe lugar a dúvidas, o "custo" vale a pena.

Leituras sugeridas:

DAWKINS R, 2000, Destejiendo el arco iris. Ciencia, ilusión y el deseo de asombro, Tusquets Editores, Barcelona.
FOX SÉLLER E, 1996, "El lenguaje de la genética y su influencia en la investigación". Quark. Ciencia, Medicina, Comunicación y Cultura, 4 (La genética manipulable): 53-63.
KAY L, 1999, "In the Beginning Was the Word? The Genetic Code and the Book of Life", en M. Biagioli (ed), The Science Studies Reader, New York/London, Routledge, pp. 224-233.
LAKOFF G e JOHNSON M, 1991, Metáforas de la vida cotidiana, Madrid, Cátedra.

Tradução: Lourdes Grzybowski

Publicado originalmente na revista Ciencia Hoy, volume 13, n° 76, ago/set 2003, pp. 60-66.

Publicado em 01 de janeiro de 2002