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Nem tudo o que reluz é ouro

Alberto Tornaghi

Coordenação de Extensão da Fundação CECIERJ

Introdução

Mestre não é quem sempre ensina
mas quem de repente aprende.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

Vamos tratar aqui da responsabilidade que recai sobre o educador que resolve incorporar, em sua prática, novos meios como as linguagens audiovisual e multimídia e a informática com programas, Internet, hipertextos e linguagens de programação. Que critérios seguir? De que forma separar o joio do trigo, o que é útil do que não é?

É necessário ressaltar em que perspectiva vejo a educação. Quando falo de educação penso em práticas e vivências nas quais professores e alunos constroem novos conhecimentos, novas estratégias para problemas que enfrentam. Entendo por educação, para ser rápido, um processo em que sujeitos, ativa e cooperativamente, produzem novos conhecimentos, trabalham informações, habilidades, materiais e questões buscando ampliar capacidades de ler, compreender e atuar no mundo real. Importa distinguir instrução de educação. A instrução, ainda que seja parte do processo educativo, está longe de ser a questão central.

Paulo Freire fala, já em suas primeiras publicações (In FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.) da palavra, que vai à raiz das coisas. Radical, nesta acepção, não significa sectarismo, ignorar ou desprezar concepções opostas ou diversas das nossas. Muito pelo contrário, sendo radicais compreendemos o que de fato há de essencial em nossas propostas e nas demais que se nos apresentam; podemos reunir em nossa ação toda contribuição que nos leve pelos caminhos escolhidos, que apontem na mesma direção. Sendo radicais podemos negociar com opostos escolhendo trilhas paralelas quando a via direta não for possível.

Diz Moacir Gadoti, comentando proposições de Paulo Freire, que "o êxito no processo de alfabetização depende muito menos das técnicas utilizadas do que da capacidade do alfabetizador de caminhar junto com o alfabetizando." (In Polifonia, artigo publicado na Revista Pátio, pág. 7, Ano I n.º 2, ago./out. 1997)

Alfabetizar é uma imagem bastante propícia ao tema que tratamos aqui. Explico: as novas linguagens não têm frequentado a escola em nosso país. Tanto as linguagens que já estão por aí, povoando nosso cotidiano há algum tempo, como o cinema, o vídeo, a fotografia quanto as novas trazidas pela informática - hipertextos, figuras animadas, textos animados e linguagens de programação - pouco ou nada são contempladas no currículos escolares atuais. Não estudamos a gramática ou a sintaxe do vídeo, da propaganda, do anúncio de jornal, das linguagens de programação.... Não nos preparamos para sermos leitores críticos destes "textos" de nosso cotidiano. A escola não propicia a seus alunos espaço para este aprendizado, para esta leitura. Se nem leitores somos, autores então.... nem pensar.

Daí precisarmos nos alfabetizar nestas linguagens, abrir as portas da escola para elas. Alfabetizar a nós mesmos, à escola como um todo e aos alunos em especial.

E como faremos isso? Vamos pedir aos alunos que "esperem no pátio" enquanto aprendemos, nós, o novo conteúdo para depois ensinar-lhes? Proponho que não. Proponho que, "Paulo-Freirianamente", aprendamos juntos, ombro a ombro; nós levando a maturidade e o tempo de vida que temos a mais e eles a ousadia, o pouco medo do novo e a possibilidade infinitamente maior do que a nossa de correr riscos. Aí sim, poderemos dizer que caminharemos juntos. Nós "ensinando" a eles a prudência, a sistematizar, a organizar informações e descobertas e eles "ensinando" a nós a ousadia, a apertar botões sem receio, a tentar de novo. Teremos ambos algo de igual valor para trazer ao relacionamento. E aí, o mundo e as experiências que formos capazes de viver, nos ensinarão tudo o que estivermos preparados e atentos para aprender.

Gosto de começar por me referenciar em Paulo Freire porque, dentre as inumeráveis qualidades do educador, ele colocou o coração no centro de sua ação. O homem não se separa do profissional em momento algum.

Esta clareza é imprescindível quando vamos tratar da contribuição que nos possa trazer o uso da tecnologia para a prática educativa. O foco é o ser humano e não a tecnologia. O foco é o ser humano e não o conhecimento ou a informação em si. O foco é contribuir para ampliar a formação do cidadão, como ser participante ativo e consciente da sociedade a que pertence, capaz de fazer escolhas condizentes com suas opções de vida. A máquina é fria mas as relações que através dela se estabelecem entre as pessoas, não.

Estas linguagens e tecnologias são entendidas aqui como meios, que ligam pessoas a pessoas, que viabilizam a interação, a comunicação entre pessoas, entre produtores de bens culturais.

Ouro de tolo

Verbete: pirita S. f. Min.
1. Mineral monométrico, sulfeto de ferro,
usado na fabricação de ácido sulfúrico, e que, por
sua cor amarela e brilho metálico, recebe, no Brasil,
a denominação popular de ouro dos trouxas.

Se há um grande perigo na profissão do educador é o de ensinar verdades como se fossem absolutas. O professor é visto pela maioria da população como um provedor de conhecimentos e de verdades. Este século produziu a expressão "cientificamente provado" para caracterizar verdades inquestionáveis. O que um professor afirma, supõe boa parte de nossa iletrada população, deve ter sido provado cientificamente por algum sábio. Isto põe sobre os ombros do educador uma responsabilidade para a qual deve estar alerta todo o tempo: a de lembrar a todos, inclusive a si, que no mundo dos homens não há verdades definitivas. E que, portanto, todo conhecimento, produto do homem, é falível e tem validade restrita.

Em se tratando de produtos de comunicação, esta questão é ainda mais presente. Frequentemente o que parece verdade se mostra irreal. Quantos anúncios de cigarros mostram personagens atléticos, saudáveis, sorridentes? Em que anúncio de cigarros já se viu alguém tossindo? Os panfletos que anunciam apartamentos para vender, os mostram sempre imensos, dando a impressão de espaços amplos, por menor que sejam os imóveis. Anúncios de bebidas alcoólicas raramente informam que seus consumidores estão sujeitos ao vício e que os excessos podem implicar em riscos. Os jornais e revistas "vendem" visões parciais da realidade e, muito raramente, oferecem espaço à opinião contrária.

É fundamental que este exercício de leitura crítica dos meios e linguagens esteja presente na escola. A escola de hoje deve habilitar seus alunos a ler o mundo que aí está. Eles são, tenham a idade que tiverem, tratados pela mídia e pelo mercado como consumidores. É imperativo que se preparem para ser, antes de consumidores, cidadãos; que possam escolher, entender e perceber quando estão sendo seduzidos por esta mídia.

No mundo da informática temos situações similares. Há programas de computador, "especialmente desenvolvidos para educação" que nada têm de educativos. Muitos programas ditos educativos, são versões coloridas e, frequentemente, pioradas de péssimos livros didáticos.

A cada dia mais produtos de informática estão sendo comercializados visando o mercado educacional. São CD's com documentos em multimídia, animações, bichinhos que falam e repetem fórmulas, programas nos quais alunos juntam "letrinhas" para formar palavras e mais um sem número de enfeites que seduzem e encantam professores, pais e crianças. Quando prestamos atenção no conteúdo, vemos que são simplistas, via de regra trazendo programas em que a criança não faz mais do que responder a questões superficiais ou reagir com cliques do mouse ou no teclado a questões fechadas. Em geral as mensagens que trazem são no máximo um estímulo positivo (em caso de acerto) ou negativo (em caso de erro) sem dar chances à criança de descobrir onde e porque errou revelando uma concepção positivista, determinista e fechada do conhecimento.

Estes produtos colocam os estudante em posição passiva, respondendo a estímulos em busca de respostas prontas e únicas. Desperdiçam o que esta tecnologia traz de mais precioso ao ambiente educacional. O computador é uma "máquina de fazer coisas", de produzir bens culturais. Com um computador o estudante pode produzir textos, imagens, sons, misturá-los todos, interferir na produção de terceiros criando novas obras e novas leituras a partir de objetos dados. Enfim, frente ao computador o aprendiz (tanto o aluno e como o professor que estuda e aprende) é um produtor cultural, um criador, autor de novas obras e de novas leituras; e, assim, construtor de seu conhecimento. Usar este meio para verificar e reproduzir fórmulas, para repetir e treinar reflexos é um desperdício tolo. Para usar uma expressão antiga, é como usar um canhão para matar moscas.

Estes produtos parecem preciosos mas nos levam à pobreza de espírito embutida na visão com que são feitos. Brilham como ouro, mas não têm sequer o valor da pirita.

Polido para brilhar como se ouro fosse

Como tudo na vida, os produtos multimídia e os programas de computador, salvo raras exceções, não são, em si, bons ou maus para a educação: depende do uso que se faça deles.

As propagandas falaciosas a que me referi anteriormente, tentam vender produtos e conceitos apresentando-os de forma falsa, é verdade. Mas sua existência é um dado de realidade, estão aí, presentes no mundo em que vivemos. Não devem ser execrados como "mentiras de homens maus" e banidos da escola. Muito pelo contrário, devem estar presentes na escola para que sejam "lidos", analisados e criticados por todos. É imprescindível que todos nós saibamos decodificar estes produtos, tendo clareza que estes são "textos", falas de "homens reais", formadores de opinião (pessoas de marketing) que, como muita eficiência, preenchem a maior parte do espaço visual em que estamos imersos.

Se uma das funções da escola é ser um local onde se aprende a ler, então é preciso que lá se aprenda a ler a linguagem a que mais estamos sujeitos, que muito se lê e fala hoje em dia, a linguagem da propaganda, do marketing e dos meios de comunicação de massas.

O mesmo vale para os programas de TV e filmes ditos educativos. Em geral são muito bem feitos e, como os mágicos e prestidigitadores, podem nos convencer de impensáveis absurdos. É preciso aprender a lê-los com saudável desconfiança, buscando outras fontes para ver se o que ali se afirma pode ser verificado por outras vias. Em geral, desconfie de quem afirma verdades inquestionáveis, desconfie de quem não informa de onde tirou a informação, desconfie de mim e deste texto e verifique, você mesmo, o que há de bom, de confiável e de aproveitável no que a mídia oferece.

Da mesma forma, entre os programas de computador há uma enorme oferta de produtos que trazem equívocos como se fossem a mais comum e pueril das verdades. E vêm de tal forma apresentados, com tal esmero no acabamento, que custa-se a crer que tenham tamanha falta de compromisso com a qualidade da informação que trazem.

Há, por exemplo, produtos multimídia e enciclopédias que tratam de seres vivos, mostram uma enorme variedade de animais e plantas, com suas cores, os movimentos e os sons que produzem, incluindo belos cantos de pássaros e belas imagens como o desabrochar de flores. Junto com tanta beleza, classificam os seres vivos de forma equivocada ou incompleta. O mais comum é, como nos livros didáticos, se referir a uma classificação rígida, em geral já superada pela ciência de hoje - em função de descobertas nem tão novas assim - sem estabelecer, o que é o mais importante neste caso, uma relação entre os seres vivos e seu habitat, as interdependências alimentares etc.

É fundamental que estejamos atentos, cuidadosos com a forma com que estas coisas entram na escola. É imperioso garantir que a aparência não se superponha ao conteúdo ao trabalharmos com estes novos meios e produtos.

Uma certa mistura de pirita com ouro

Há produtos que trazem coisas interessantes junto com equívocos, alguns graves, com os quais devemos tomar cuidado. Alguns exemplos podem ser esclarecedores.

Há um CD disponível no mercado que trata das Grandes Navegações e da exploração do Novo Mundo. O assunto é extremamente bem apresentado. Atores, vestidos em trajes seiscentistas encarnam alguns destes navegadores e contam episódios de três expedições selecionadas como as mais importantes pelos autores. Grande parte do conteúdo do CD é narrada por estes atores e dublada para português (o produto é importado e traduzido). Imagens, mapas bonitos e bem acabados e animações ilustram as falas.

Todo este cuidado com a forma nem sempre se repete no tratamento dado ao conteúdo. As três expedições consideradas como as mais importantes - a primeira viagem de Colombo, a viagem de Fernando Cortés às terras dos Astecas e a circunavegação feita por Fernão de Magalhães - refletem a origem inglesa do produto. Segundo consta lá, Cabral chegou às costas da América do Sul por acaso ignorando as evidências de que sua chagada aqui foi intencional. Mas não são só equívocos que encontramos no CD. Ao contrário, traz uma boa visão de como era a vida dos marinheiros nas caravelas, como era o continente que encontraram, como viviam os habitantes daqui, entre outras coisas. Mas também mistifica muitos fatos.

O que fazer com um produto assim? Desprezar as belas contribuições que traz porque também apresenta erros? Mostrar aos alunos coisas erradas porque há informações úteis? Censurar o que está errado? Informar o que está errado? Me parece que estas são oportunidades ótimas para levar os alunos a questionarem sobre o conteúdo do material que têm em mãos e verificarem sua veracidade permitindo que descubram que são muito comuns erros, simplificações e mistificações em materiais didáticos. É uma ótima chance de levá-los a buscar outras fontes e comparar seus conteúdos e, talvez num debate, elegerem qual ou quais informações lhes parecem mais confiáveis, sempre registrando a razão da escolha.

Outro exemplo importante de ser citado são as enciclopédias multimídia. Uma das primeiras versões de uma das enciclopédias mais populares neste formato, feita nos EUA, nos informa que, entre as cidades importantes do Brasil, está o Acre. Será que podemos confiar nas informações que traz sobre a geografia da África, por exemplo? Temos o direito de acreditar que não.

Esta mesma enciclopédia, por outro lado, apresenta uma enorme coleção de instrumentos musicais e é possível ouvir o som da maioria deles. Mostra o belo voo de um beija flor em câmara lenta e a metamorfose de uma lagarta em borboleta. Com que outro meio poderíamos trazer tanta informação junto e a um custo tão baixo como esse? Pessoalmente, acho um privilégio poder assistir e levar para meus alunos, a imagem e a fala de Mahatma Gandhi e o discurso sobre os direitos dos homens e a igualdade entre negros brancos feito por Martin Luther King para 200.000 pessoas em Washington em 1963. Fico tão emocionado ao escutar suas palavras como me delicio de poder assistir Armstrong pisando no solo lunar pela primeira vez.

Sim, podemos e devemos lançar mão de toda esta riqueza, mas tendo claro que estas fontes são parciais e, por vezes facciosas. Quem você acha que seria apresentado como pai da aviação numa enciclopédia que é produzida nos Estados Unidos: Santos Dumont ou os Irmãos Wright? E num produto brasileiro? Quem está correto? Esta discussão é com certeza absoluta, mais importante numa sala de aula do que qualquer das respostas que se escolha como mais apropriada.

A Internet é outro espaço sobre o qual é imprescindível refletir e decidir como tomar partido do que nos oferece. Ela criou, no mundo das informações, uma realidade absolutamente nova que nada tem de virtual: hoje, qualquer um pode escrever e publicar, para o mundo inteiro ver, as afirmações que bem lhe aprouver. E estas publicações podem trazer requintes de sofisticação e acabamento antes só disponíveis em edições profissionais. Encontramos lá muita verdade e muita mentira; muitas experiências interessantes; temos a possibilidade de entrar em contato com pesquisadores e com autores. Mas esta mesma Internet está coalhada de material pornográfico, de mentiras descaradas, de propaganda política e partidária. O volume de informações que a chamada grande rede disponibiliza é absolutamente estonteante. E tem as mais variadas origens e formas.

Como tirar proveito disso? Como identificar o que é real do que é irreal? O que importa mais: apontar a nossos alunos o que acreditamos que seja correto e o que acreditamos que não seja ou, junto com eles, montar estratégias que nos permitam verificar a validade das informações?

Deixo a questão em aberto. Só navegando um bocado na Internet, se aventurando no novo espaço "informacional", será possível chegar a posturas condizentes com as escolhas filosóficas, políticas e metodológicas de cada um.

É ouro e não brilha

Há, também, uma imensa oferta de bens e produtos que podem ser extremamente úteis à educação mesmo que não tenham sido desenvolvidos diretamente para isso. São ferramentas que permitem tirar proveito da versatilidade que o computador oferece. Estes programas viabilizam uma variedade de produções em sala que antes eram inimagináveis. Cito alguns exemplos:

  • editores de texto - permitem escrever textos, auxiliam na correção ortográfica e sintática, permitem que textos sejam reescritos, reelaborados sem grande trabalho braçal, pode-se incluir imagens, sons, animações;
  • editores de hipertexto (editores de páginas para Internet) - permitem escrever textos que podem ser lidos (e escritos) de forma não linear. O hipertexto é uma forma de registro que representa o conhecimento em forma de rede de relações facilitando o pensamento dedutivo;
  • gerenciadores de bancos de dados - alunos podem registrar suas observações, classificar e organizar grande volume de informações;
  • planilhas de cálculos - verificam relações numéricas, fazem gráficos de funções, demonstram a interdependência de variáveis numéricas em funções de qualquer grau, incluindo funções exponenciais, trigonométricas etc;
  • programas de desenho - permitem explorar cores, formas, interferir em desenhos e pinturas de terceiros;.
  • programas de animação - permitem criar animações que podem ser vistas no computador, colocadas na Internet ou gravadas em vídeo.

Enfim, a lista é interminável. A maioria destes programas pode ser comprada. Existem, também, versões gratuitas disponíveis na Internet.

Há pelo menos dois sites que merecem ser visitados. Neles encontramos muitos programas gratuitos e outros a preços bastante convidativos. Os endereços são:

Há muitos outros locais na Internet onde se encontram programas interessantes com os quais faz-se em sala o que antes era impensável em colégios com recursos comuns. O site chamado "Tucows" oferece cópias de muitos deles. São os chamados espelhos. O Tucows é um provedor de programas que podem ser gratuitos ou comprados em sistema de "shareware". Shareware é um interessante sistema de comercialização, muito popular no meio informático: você pega o programa, usa um bocado, experimenta e descobre se interessa ou não. Se interessar você paga, caso contrário o apaga de seu computador, sem nenhum compromisso.

É interessante atentar para esta nova forma de comercializar que se populariza na Internet. Ela é baseada na confiança; na confiança entre seres que não se conhecem e nunca se viram. Confiança que nasce e cresce com a compreensão do que é cidadania, que nasce no respeito pelo trabalho do outro. Esta é uma maravilhosa novidade que a chamada "comunidade Internet" traz para nossas vidas e que deve ser discutida e vivenciada na escola. Neste ambiente, a "esperteza" dá lugar ao respeito ao semelhante.

Ouro que brilha

Por fim devo comentar sobre produtos, meios e produtores que, em minha opinião, valem a pena ser conhecidos. Ressalto que esta é minha opinião. É preciso experimentá-los, explorá-los, para eleger quais se adequam às necessidades de cada professor, de cada turma, de cada realidade específica.

Na área dos programas de computador desenvolvidos especialmente para a educação, há três expoentes que devem ser conhecidos por todo educador que busca um caminho de autonomia para seus alunos. Os três se prestam de forma especial para dar suporte a estratégias de cunho construtivista. São programas em que ao aluno é reservado o papel de autor. Com eles o aluno experimenta ser um criador de linguagens, de hipóteses e teses matemáticas e de relações lógicas entre objetos reais e abstratos. São eles o Logo, o Cabri e o Maple.

Logo

Linguagem de programação poderosíssima. As versões atuais incluem multimídia, rodam animações, gravam e reproduzem sons. A linguagem foi desenvolvida para dar suporte ao desenvolvimento de estruturas cognitivas com crianças. Dar os primeiros passos em Logo é muito fácil mas para bem utilizá-lo e explorar a fundo suas potencialidades, deve ser compreendido dentro de uma perspectiva mais ampla de educação. Sugiro fortemente que se leia pelo menos um dos livros de Seymour Papert, o que trará subsídios riquíssimos ao aproveitamento do Logo em especial e da informática em geral.

Não é absolutamente trivial usar bem o Logo. É um instrumento sofisticado que deve ser explorado com calma e vagar. Se bem conhecido e compreendido, pode ser utilizado em todas as séries do ensino básico.

Como é uma linguagem de programação que inclui os recursos mais modernos, é útil também para o ensino médio, em trabalhos com conceitos de programação estruturada e orientação a objetos e a eventos. Há experiências relatadas de uso do Logo para trabalhar conceitos de teoria da relatividade em cursos de terceiro grau

Cabri

Programa dedicado à geometria euclidiana, com o qual os alunos podem experimentar conceitos e produzir desenhos. Aplicável após a 6ª série. Existe uma versão em Português e uma versão para Windows.

Maple

Programa desenvolvido pela Universidade de Waterloo, no Canadá, voltado para a exploração de soluções algébricas. A versão é em inglês, o que restringe bastante as possibilidades de uso. Aconselhável para estudantes do ensino médio em diante.

Também vale à pena conhecer:

Há mais uma enorme variedade de programas que valem à pena ser conhecidos e avaliados para saber como e quando podem ser úteis. Citarei alguns dos quais gosto e costumo usar com regularidade e/ou sugerir o uso nas escolas em que trabalho. São programas abertos que permitem às crianças experimentar conceitos e testar informações ou levantar e testar hipóteses. Outros são fontes de informação com razoável grau de fidedignidade.

  • Jogos de Aventura ou de resolução de problemas: Zoombinis, Age of Empires, Civilization, SimCity, Lemmings, King Quest 5, Carmen San Diego.
  • Enciclopédias: Grolier e Encarta, Almanaque Abril, Como As Coisas Funcionam.
  • Programas de dados: PC Globe, Dicionários Aurélio Eletrônico e Webster.

Em televisão

Vale a pena conferir a programação das televisões voltadas para as áreas educativa e cultural. Encontra-se na programação: TVE Brasil, TV Cultura de São Paulo e, para quem tem acesso às redes de TV a cabo, Canal Futura, TV Senac, Discovery Channel e Discovery Kids.

Internet

Há alguns sites preciosos na Internet para quem trabalha com educação. O do Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC) da UFRGS é local de visita obrigatória. Lá encontramos trabalhos de escolas de diversos lugares e pesquisadores discutindo de que forma estes recursos podem ser melhor aproveitados nas escolas.

Ligado ao LEC há o projeto EDUCADI, que reúne escolas de diversas cidades brasileiras envolvidas em experiências em que crianças e professores interagem a distância via e-mail, rede etc.

O projeto Amora é uma experiência de rara ousadia que vale ser conhecido: http://www.cap.ufrgs.br

Publicado em 01 de janeiro de 2002