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O idoso como solução

Carlos Lessa

Economista

Neste século, assistimos à firme tendência ao crescimento do tempo livre e à redução do tempo de trabalho. Geral em todas as faixas etárias acima de 18 anos, é, obviamente, no orçamento temporal dos idosos e aposentados que o tempo livre é o máximo. O tempo livre é utilizado com lazer, com atividades obrigatórias - dos cuidados pessoais ao trabalho familiar - e com atividades socialmente comprometidas (obrigações sociopolíticas ou socioespirituais). É sabido que as práticas de ação política ocupam muito pouco do tempo livre. Ainda que se observe um certo crescimento no tempo dedicado a atividades religiosas, a redução dos trabalhos familiares, derivada da criação concluída dos filhos, faz do lazer, ou do tempo para si - ocupado por atividades sociais, intelectuais e corporais -, o destino hegemônico do tempo livre para o idoso aposentado.

Haveria, pois, no corpo social, um grupo etário - o idoso aposentado - que teria conquistado o "direito à preguiça" que Paul Lafargue teria registrado como utopia no século passado. Muitos associaram essa disponibilidade à possibilidade concreta de um desenvolvimento das potencialidades individuais. E, à exceção dos com vocação para eremita, a explicitação da individualidade passaria pelo incremento do convívio. E a sociabilidade pelas paixões e interesses comuns multiplicaria instituições e associações voltadas ao lazer e a cultura. A informação estatística disponível mostra, em décadas recentes, um crescimento exponencial e explosivo das entidades ligadas a essas múltiplas formas de lazer.

A outra tendência a registrar é derivada da última etapa da transição demográfica, na qual a combinação de reduzidas taxas de fertilidade e mortalidade faz da população com 60 anos ou mais a faixa etária de mais rápido crescimento. Nas metrópoles com a transição avançada, uma fração crescente da população estaria ativamente afirmando sua individualidade e entrelaçando uma sociabilidade fundada no lazer e na cultura. Admirável resultado. Infelizmente, essa é uma visão onírica.

Como uma sombra sinistra, avançam perversidades, derivadas do capitalismo em etapa de "globalização".

Obviamente, as faixas etárias mais avançadas têm demandas específicas. Constrói-se uma nova pauta de problemas derivados do peso absoluto e relativo crescente dos mais idosos. A agenda pública e a agenda social estariam ganhando um novo capítulo dramático: o problema da terceira idade. Qual a prioridade dessa questão?

Como uma espécie de subliminar maldita, avança a ideia do envelhecer como um processo de obsolescência, de desqualificação e inutilidade, de crescente impotência das pessoas. Não podemos esquecer, contudo, que o crescimento da população idosa ganha terreno, paradoxalmente, no ritmo das desejadas conquistas da medicina. A possibilidade de se viver mais, perseguida por séculos, torna-se surpreendentemente uma "desvantagem", num mundo governado pelos critérios pouco éticos da eficiência econômica.

Com a suposta falência dos sistemas previdenciários - alimentada pelos mesmos critérios ideológicos de mercado -, pode-se criar uma tensão inusitada, entre os mais jovens e os idosos por fatias cada vez menores de futuro que já não poderia mais ser compartilhado. Nessa artificiosa guerra de gerações, chega-se, no limite, a uma inversão do célebre argumento mathusiano: há que se encontrar urgentemente caminhos para manter a proporção população idosa em níveis toleráveis. Neste contexto de contrarrevolução conservadora, quando o capital não reconhece nem mesmo os direitos dos que ainda trabalham, o problema do idoso adquire nuances de perversidade impressionante. Cresce a indiferença quanto aos sofrimentos da velhice. As notícias antes vergonhosas - de velhos abandonados, morrendo em filas de banco - migram das manchetes às notas sem importância. No desrespeito ao idoso, poderiam ser criados campos de extermínio.

Com a aceleração das inovações tecnológicas, o idoso, por simples analogia, é o que foi superado pelas facilidades do que há de mais moderno. Já não guarda as possíveis e infinitas potencialidades do jovem, com sua capacidade em se adaptar aos novos tempos. A exceção do idoso "relíquia" - preservado pelo seu "valor histórico", e pela sua lucidez, admirada, mas raramente seguida - é evanescente ante a insinuação do "trambolho". A mercantilização das próprias relações pessoais, transformando identidades e imagens em objetos de consumo imediato, radicaliza esse processo. A imagem do idoso, como mercadoria consumível, é a mesma que a de um objeto definitivamente "gasto".

Por outro lado, a ideia do processo de envelhecimento como um mal está obviamente associada à postura pós-moderna do consumo. A mercadoria é transitória por suas características intrínsecas ou por ser marcada pela moda. O ato de adquirir o objeto é autodestrutivo, pois o objeto da moda entra em obsolescência no ato da aquisição. O valor de uso se deslocou, patologicamente, da mercadoria para o ato de aquisição. No mundo instantâneo, em que mercadoria não é mais colecionável, a analogia do envelhecer com perder valor é imediata.

Isso tudo fez do citadino um ser com medo do processo de envelhecimento. Ele pode até ser idoso, se mantiver e buscar, incondicionalmente, a aparência do jovem. De tudo se cria nesse verdadeiro mercado de reciclagem: da cirurgia plástica às academias, mil e um cosméticos e vitaminas, e até cacoetes linguísticos. Tudo com o objetivo de se chegar, finalmente, ao elogio "Fulano parece jovem". Esse "elogio" aparentemente inocente guarda em si a total desqualificação do idoso, pois, a partir de sua aceitação acrítica, o único caminho para uma terceira idade aceitável seria auscultá-la com todos os procedimentos possíveis. O velho só é tolerado, paradoxalmente, se detiver o segredo da juventude eterna.

O idoso sem renda é o último capítulo da questão social não resolvida e da cobertura insuficiente do sistema de seguridade social O idoso com renda pode não ser problemático; pelo contrário, é um ator potencialmente relevante para o aperfeiçoamento da vida social.

Como vimos, o cidadão em processo de envelhecimento, ao se defrontar com a expansão de seu tempo livre, pode ser um elemento ativo e importante na integração social. O lazer para si cria e alimenta uma sociabilidade viva com um valor "potencial" importante. Obviamente, uma estratégia para essa questão teria dois momentos. Primeiro, desenvolver e apoiar as associações ligadas ao lazer em si; segundo, socializar a paixão dos seus associados.

Penso ser particularmente proveitoso ligar a velha guarda das associações com a população infanto-juvenil. Acho que o engajamento social voluntário flui naturalmente das paixões ligadas ao lazer. O tempo livre permite o diletantismo e estimula o proselitismo. Permite uma atitude lúdica com as coisas e os saberes; daí o sucesso das universidades da terceira idade. Desnecessário sublinhar a importância do lúdico no processo de desenvolvimento infanto-juvenil. A sugestão é óbvia, aproximar, via ludicidade, os dois extremos da pirâmide etária. O ponto de encontro pode ser a atividade extraclasse da escola primária.

É uma necessidade humana viver uma temporalidade de maior duração. O convívio criança/idoso, socialmente organizado para a transmissão de paixões e interesses, recriará essa dimensão. É possível uma transformação cultural, no cotidiano. Na pós-modernidade, derrubados todos os padrões, a memória pode livremente escolher do arquivo o que reciclar. Na pós-modernidade, evanesceu a noção moderna de futuro, com sua ideia de progresso e acercamento de uma utopia inclusiva. Na pós-modernidade levantou-se o fantasma da progressão em direção ao apocalipse. Para o Brasil, essa tendência é particularmente muito grave, pois sempre achávamos que o passado nos condenava e que no futuro estava nossa redenção.

Como construir no Brasil a memória prazenteira? Com o idoso em rede com a criança. O idoso como arquivo vivo, a relação afetiva construindo a memória das crianças. Minha proposta é uma recriação dos papéis desempenhados pelo idoso na família patriarcal - uma reprodução aggiornata da relação criança/idoso para a transmissão do conhecimento, do lazer, a construção da memória social feliz. Expor a criança à variedade de paixões e interesses. A memória é um dado antropológico, logo ligada ao modo pelo qual uma cultura constrói e vive sua temporalidade; é contingente e datada. As sociedades necessitam criar uma temporalidade que transcenda o cotidiano.

Ao idoso caberá uma essencial parcela dessa tarefa. A família nuclear na pós-modernidade não tem espaço para o patriarca. Porém, a sociedade pode recriá-lo, por vias alternativas às da família. Pela articulação criança/idoso, estaríamos em busca de uma memória cultural heterogênea e coletiva, como fundamento da identidade nacional, reduzindo o peso do território e outros mitos de origem.

O Rio é a metrópole brasileira mais avançada na transição demográfica. Para nós, pensar o idoso positivamente é decisivo. Ampliar a qualidade de vida dos cariocas idosos pelo mecanismo da integração social e fortalecimento do lazer é pioneiro para a demarcação de caminhos para a nação que a preservem da erosão ideológica neoliberal.

Fonte: Democracia Viva, n. 2, fevereiro de 1998.

Publicado em 01 de janeiro de 2002