Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O que vou ser quando crescer?

Leonardo Soares Quirino da Silva

Como ajudar o jovem a escolher de forma consciente sua futura profissão

Essa é a história
De uma universitária otária
Que não sabia se fazia
Oceanografia ou veterinária.
Arquitetura aquela altura era loucura
Mas em compensação comunicação era uma opção."
(Evandro Mesquita - O Romance da Universitária Otária)

Um pouco como a universitária da música da Blitz, alguns adolescentes se veem perdidos quando chega o terceiro ano do ensino médio. As influências da família, da mídia e dos amigos somam-se às mudanças e incertezas no mercado de trabalho. A pouca maturidade, a falta de informação e a ausência de planejamento de longo prazo fazem que a busca da resposta para a pergunta presente no título seja fonte de grande ansiedade para alguns adolescentes e suas famílias.

Contudo, existe ajuda especializada à disposição dos interessados: os processos de orientação vocacional. Processos no plural, porque, como observou a professora Marienne Campos, supervisora do estágio em orientação vocacional do Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto de Psicologia da Uerj, existem duas formas básicas de chegar a uma resposta para essa pergunta, com resultados diferentes para quem faz a pergunta.

Via estatística

A primeira forma apresentada pela professora, e talvez a mais conhecida, consiste basicamente na aplicação de testes de aptidão, interesse, personalidade, QI e entrevistas.

Segundo a professora, a orientação vocacional estatística parte do princípio de que o adolescente não tem condições de, sozinho, elaborar seus conflitos e ansiedades e, portanto, decidir. Daí a ênfase nos resultados dos testes, que medem as habilidades e interesses dos clientes. O psicólogo analisa esses dados e apresenta um resultado para o cliente.

A crítica que psicólogos adeptos da segunda via, como a professora Marienne Campos, costumam fazer a esse processo é que o cliente fica passivo na produção do resultado. "Como não é agente, ele pode se isentar da responsabilidade em relação à escolha", observa a professora.

Via clínica

Um processo de escolha em que o cliente implementa o resultado do processo de orientação vocacional porque ele, depois de pesquisar e refletir, efetivamente escolheu a profissão que não só melhor atendia às suas expectativas, mas que também com a qual se identificava, é o que promete a via clínica.

Nesse tipo de orientação, o psicólogo é um facilitador. Em uma primeira etapa, ele ajuda o cliente em processo de autoconhecimento. Depois, o profissional de psicologia ajuda o interessado em decidir seu futuro profissional, a conhecer as alternativas profissionais que se adéquam ao seu perfil.

Para isso, segundo Marienne, o jovem é incentivado a buscar informações sobre os cursos superiores ou não que existem dentro de sua área de interesse, visitar as instituições de ensino e entrevistar estudantes e profissionais.

A professora observa que essa é uma das fases mais importantes para a escolha da futura profissão, porque "algumas vezes o jovem entra para a universidade e nem sabe o que o profissional daquela área faz".

Ela tem observado que, apesar desse desconhecimento sobre as profissões, muitas vezes há o caso de jovens que vêm fazer o processo para poderem enfrentar as famílias. Como exemplo ela cita adolescentes que gostariam de fazer teatro ou cinema e a expectativa da família é que eles fossem advogados ou médicos.

Razões de desistência

A principal característica do processo de orientação vocacional clínica, o fato de o cliente ser o agente do processo e, portanto, responsável pela produção do resultado, é apontada por Marienne como um dos fatores que leva a desistência. "Às vezes, na entrevista que fazemos para conhecer o cliente, antes de iniciar o processo, o jovem desiste ao conhecer o processo por não querer essa responsabilidade", observa a professora.

Em sua prática profissional, ela também tem observado que, por vezes, as famílias resolvem tirar o jovem no meio do processo, porque algo começa a incomodar em casa. Uma forma de reverter essa situação que geralmente dá certo é realizar-se reuniões com os pais, desde que o jovem aceite, para explicar a importância da orientação no seu desenvolvimento. Essa aceitação é importante, ela explica, porque para o orientador, o cliente é o adolescente.

Em alguns casos, a professora tem realizado reuniões com os pais no início do processo para apresentar o método com resultados interessantes. "Houve casos em que os pais começaram a se ver no processo e perceberam que dando coisas que os filhos pediam não os deixavam crescer", salienta.

A terceira causa comum de desistência são os casos em que a família quer que o jovem faça a orientação, mas ele não, o que inviabiliza o trabalho. Marienne afirma que a disposição por parte do adolescente para fazer o processo é fundamental. "Se existe disposição interna, ele vai se empenhar", declara.

Na prática

O método clínico pode ser feito individualmente ou em grupos de até 12 pessoas. No primeiro caso, o tempo de duração é de oito a dez sessões e, no último, de 10 a 12. Marienne considera que o ideal é que o adolescente e sua família procurem esse serviço ao longo do segundo ano do ensino médio. Com isso, se evita a tensão de ter que fazer a escolha no terceiro ano, quando o jovem em geral está ansioso com o vestibular.

Segundo Marienne, a orientação vocacional clínica pode ser dividida em seis etapas. A primeira etapa do processo é uma entrevista de reconhecimento, em que o psicólogo explica o processo e procura conhecer a pessoa e sua expectativa com relação ao processo. Em seguida, começa a fase de autoconhecimento e depois a de informação profissional.

Antes do fechamento, existe uma etapa onde o cliente planeja seu futuro profissional no curto, médio e longo prazo. Um exemplo dado pela professora Marienne é o do aluno que quer fazer medicina, mas descobre que não pode por não ter os recursos necessários. A partir daí, durante essa fase da orientação, ele planeja seu percurso para viabilizar sua formação em medicina.

A última etapa do processo é depois do fechamento, quando se realiza uma entrevista individual para comentar como o cliente se mostrou durante o processo, seu grau de compromisso e para, quando for o caso, o psicólogo dizer que ele precisa amadurecer mais sua decisão.

Onde fazer

O primeiro local que os interessados em fazer orientação vocacional devem ir são os serviços de psicologia aplicada (SPA), ou equivalente das faculdades de psicologia, para saber se trabalho é oferecido pela instituição.

Nos SPAs é possível se fazer orientação a preços mais em conta que nos consultórios particulares. Esses serviços funcionam como estágios obrigatórios dos alunos de psicologia, que trabalham sob supervisão de profissionais habilitados.

Outra alternativa é procurar clínicas ou consultórios de profissionais especializados em orientação vocacional.

Publicado em 14/06/2005

Publicado em 01 de janeiro de 2002