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O riso e o siso

Karla Hansen

Hora do recreio: a bola rola, o riso corre solto, brincadeira de pique. Toca o sinal, as crianças, como um enxame de abelhas, correm para beber o último gole de água no bebedouro, fazendo fila. É um tal de "não empurra!", do menino puxando o cabelo da menina que reclama. Na escada, duas amigas fofocam e riem baixinho quando o professor passa. De volta à sala de aula, fazendo barulho, uns cantam, outros arrastam as carteiras. O professor espera a turma sossegar. Espera. Os alunos da sétima série estão particularmente inquietos hoje. O professor espera em silêncio. Alguém repara e avisa: "O professor quer começar, gente!". No fundo da sala, o zunzunzum continua e, aos poucos, vai abaixando o volume. O professor, então, começa a aula - aula de história, expositiva. Ao virar para o quadro, uma gargalhada explode! Com o rosto vermelho e totalmente tomado pela ira, o professor se vira e pergunta: "Qual é a graça?!". Um menino, no fundo da sala, se esbalda de rir, tentando, sem conseguir, se conter. Sentindo-se desrespeitado em seu poder e autoridade, o professor resolve expulsar o "engraçadinho", esticando ao máximo o braço e apontando seu dedo indicador para a porta da sala de aula. Ainda sob o efeito do riso sacudindo todo seu corpo, o menino sai. O professor olha para turma seriamente e diz: "Muito riso, pouco siso!".

A cena é verídica e exemplifica o quanto o riso é frequentemente associado a um comportamento frívolo, tolo, leviano, desajuizado. Por consequência, deve ser desprezado, como algo de pouco ou nenhum valor. Essa crença tem ampla legitimidade no meio escolar, onde o conhecimento está associado à seriedade e ao comportamento grave e contido. Logo, os "engraçadinhos" devem ser reprimidos. Como se sabe, esse é um preconceito e, como tal, obedece a uma tradição que já vem de longe, para a qual o riso e a razão não fazem boa rima. Já em latim se dizia "per multum risum stultus cognoscitur", ou "conhece-se o tolo pelo muito riso", de onde veio o ditado "muito riso, pouco siso", popularmente conhecido e passado de geração a geração.

Mas, apesar de a tradição pesar sobre nossos atos, ainda que quase sempre movidos de forma inconsciente, pessoas consideradas sérias, como filósofos, médicos, psicólogos e cientistas dedicados a estudar o comportamento humano, estão descobrindo que quem muito ri não tem nada de tolo ou de pouco juízo. Ao contrário, rir, sorrir e dar boas gargalhadas faz que as pessoas sejam mais felizes, demonstra que elas são mais saudáveis, que se relacionam melhor com os outros, que enfrentam mais facilmente as adversidades, a dor, o sofrimento e outras dificuldades da vida. Além disso, essas mesmas pessoas garantem que o riso e o bom humor expressam, ainda, criatividade e inteligência.

Levando em conta o aspecto puramente biológico do riso, estudiosos do funcionamento do cérebro humano observaram pessoas em locais públicos e concluíram que, na maioria das vezes quando rimos, mais precisamente 80%, não fazemos isso por termos ouvido uma piada ou presenciado uma cena engraçada. O riso corre solto em situações corriqueiras, como cumprimentar uma pessoa, conversar com amigos ou, simplesmente, quando dizemos "com licença" ou "desculpe-me". Isso acontece porque queremos ser ou parecer simpáticos? Não, pois não temos controle algum sobre essa reação e, na maioria das vezes, nem temos consciência. Mas significa que o riso é uma necessidade vital: rimos porque somos seres sociáveis, porque queremos e precisamos nos relacionar com os outros. Nesse sentido, o riso tem uma função social, já que necessitamos viver em sociedade. Quando rimos, enviamos uma mensagem ao outro, comunicamos nossa disposição de nos aproximar, de fazer contato, de brincar, de mostrar que somos pacíficos e, em última instância, que podemos nos aliar e sermos felizes. As pessoas costumam "desarmar" diante de um sorriso e tendem a reagir de forma mais amigável, pois um simples sorriso atenua hostilidades. E é claro que rimos, essencialmente, em momentos de descontração e nas brincadeiras, para expressar prazer e felicidade. Tudo isso não é mera especulação, mas matéria de pesquisa científica séria.

Na medicina, também já se sabe que o riso tem poder de curar. Quem nunca ouviu falar que rir é o melhor remédio? Experiências práticas e teóricas realizadas em várias partes do mundo estão comprovando o que, cá entre nós, o povo já sabia. Agora, com o selo de garantia da ciência, já se pode afirmar que o riso e o bom humor diminuem a ansiedade e o estresse, reforçam o sistema imunológico, relaxam a tensão muscular e diminuem a dor. Graças a essas descobertas, a medicina já está fazendo uso desse "remédio", sem nenhuma contraindicação, sobretudo em crianças. Nesse campo, atuam, por exemplo, os Doutores da Alegria, uma companhia de teatro especializada em visitar crianças hospitalizadas, para levar a elas diversão, brincadeiras, fazer palhaçadas e piruetas e, assim, para fazê-las rir! Nesse caso, sem juízo é quem não acredita, pois já está provado que essas crianças voltam mais cedo para casa e curadas!

E não só as crianças doentes têm se beneficiado dos poderes curativos do riso. O médico indiano Madam Kataria, por exemplo, criou, em 1995, em seu país, o Clube do Riso, um lugar a que as pessoas vão para conversar e fazer amigos, mas também - e sobretudo - para dar boas e gostosas gargalhadas! Por meio de exercícios, alguns em que imitam animais, "pacientes" deprimidos, melancólicos ou que sofrem de vários males físicos redescobrem o prazer e a alegria de viver e conseguem superar seus problemas no clube, que já se espalhou por todo o mundo. E, como se sabe, rir é contagioso!

Outra vertente de estudos, dessa vez sociológica, considera que o riso, aliado à irreverência e ao bom humor, é um antídoto ao autoritarismo e à rigidez da moral, em particular religiosa. São exemplos disso o carnaval, as festas populares e as piadas que brotam espontaneamente da imaginação e da criatividade do povo. É nessas ocasiões que o artista ou o cidadão comum têm a oportunidade de exercer a crítica política, social e religiosa. E quem vai dizer que essa crítica é tolice ou falta de razão? É sabido, ainda, que não existe nada mais "sério" e carrancudo que o poder autoritário e nada mais demolidor desse poder que a irreverência e o bom humor. Deve estar aí a razão de muitos professores se ofenderem com o riso de alunos durante a aula. Quanto mais sérios, mais duros e rígidos no papel de autoridade em sala de aula, mais dificuldades terão com a irreverência ou bom humor de seus alunos.

É um engano, ainda, desprezar a piada, a graça, a brincadeira, como algo de pouco valor intelectual. Nesse caso, são inúmeras e respeitáveis as teorias a respeito, de pensadores como Freud, "o pai da psicanálise", ou o filósofo Henri Bergson, que desenvolveu um estudo completo sobre o riso. Mas tenho para mim que mais vale levar em conta a experiência pessoal para atestar o poder do riso. Basta lembrar que um número incontável de anedotas encerra profundas sabedorias. E quantas comédias nos fazem refletir sobre a condição humana? E não é verdade que, piadas, contadas em velórios, nos afastam da dor da perda? Quantas vezes não "salvamos a pele" por não levar alguma situação a sério, "a ferro e fogo" ou "na ponta da faca", mas nos permitimos rir ou sorrir, impedindo explosões de violência? Assim, como com um sorriso podemos evitar uma briga, também é fato que ele nos aproxima das pessoas, cria laços e os fortalece. Não há amizade e parceria que se sustente quando os amigos ou parceiros nunca tenham dado boas gargalhadas juntos. E quem consegue rir da gravidade que, às vezes, emprestamos aos nossos dramas pode ser chamado de tolo ou de alguém que tem inteligência limitada? Já dizia um velho provérbio russo que "mais sábio é quem ri de si mesmo".

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Publicado em 01 de janeiro de 2002