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O Sarcófago de Sartre

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Outro dia um antigo professor meu do curso de filosofia me encontrou na rua e perguntou: "E aí Pablo, virou jornalista?".  Lembrei imediatamente de Sartre e de uma história que contam sobre ele (não sei se é verdade). Dizem que Sartre tentou marcar uma audiência com Martin Heidegger e que o filósofo alemão teria dito: "diga que não recebo jornalistas". Fofocas à parte, existe um subtexto nessa história de "jornalista". Para um filósofo "sério" o jornal não é um lugar para se escrever. A velocidade e massificação das ideias suscitariam um sem número de equívocos conceituais e uma tão grande quantidade de mal-entendidos que não seria, filosoficamente correto, expor suas ideias para a massa, nas páginas de um jornal.

Sartre subverteu essa ideia e agora, que fazem cem anos de seu nascimento, a popularidade que ele conseguiu em vida parece atuar como um fantasma, no que diz respeito à respeitabilidade acadêmica de seus textos. Esse é um preço que se paga por tentar transformar a filosofia em algo compreensível para as massas. Bertrand Russel, filósofo inglês, passou pelo mesmo processo. Passou a bola da filosofia da matemática e da lógica para seu aluno, Ludiwg Wittgenstein e foi fazer política nas páginas dos jornais ingleses.

O fato é que esse preconceito platônico acaba por condenar a obra de Sartre, mas, curiosamente, não condena a obra de Hegel, um compulsivo escritor de artigos de jornal. Podem gemer e jogar pedras, mas acredito que Sartre tenha sido realmente o último grande pensador francês. Sua tentativa filosófica mais ousada parece ter sido a de unir o pensamento pós-metafísico de Marx à ontologia do monstro Nietzsche-Heidegger, a fim de produzir uma resposta Franco-germânica à avalanche das ideias derivadas da filosofia analítica inglesa, de Russel e Wittgenstein. Além disso, Sartre tentou também salvar o humanismo do colapso inevitável que o século vinte impôs às utopias iluministas. Seu esforço foi sobre-humano e sua influência, foi tão marcante na política e nos costumes do século vinte que podemos pensar em Sartre como o grande articulador conceitual da revolução dos anos sessenta. Sua ontologia subversiva, que inverte a ideia tradicional de que a essência é condição para a existência, mexeu com a cabeça da juventude do pós-guerra e deu a um mundo vazio e desertificado pelo massacre tecnológico uma lufada de ar e de esperança. A liberdade poderia ser não apenas um valor, mas um componente original da própria natureza humana. A liberdade não seria um acidente de circunstâncias históricas, mas um dado inexorável de nossa condição de homens. O medo da liberdade deveria ser enfrentado. O pânico de termos de escolher aquilo que somos, sem nenhuma determinação histórica, genética ou espiritual deveria ser combatido. A mitologia do destino e a ilusão de que poderíamos nos esconder atrás de desculpas esfarrapadas deveria ser contraposta por uma postura que nos impõe, a todo instante, a escolha de nós mesmos.

Isso pode ser até utópico, ontologicamente questionável, cientificamente desprovido de sentido, mas que é estimulante pra cacete, ah, isso é. A maior inveja que eu tenho de Sartre é dele ter nascido num país que não tem vergonha de pensar. Que não se sente minimizado ou desconfortável com a inteligência alheia. Que sabe dar àqueles que se dedicam à tarefa de empurrar a massa cefálica da humanidade para a borda de suas possibilidades, o devido reconhecimento. Quando ele morreu no começo da década de 1980, cego e detonado pelo cigarro, cinquenta mil pessoas foram às ruas de Paris chorar seu enterro. Algo impensável num país que só consegue chorar a morte de seus pilotos de Fórmula 1. Em algum lugar da minha biblioteca, de onde escrevo essas crônicas e artigos para você, amigo leitor, tenho um quadro de Sartre, retirado da coleção Pensamento Vivo, onde o velho feio e com distúrbio ocular me diz sempre: "O inferno são os outros".  Hoje, cem anos depois de seu nascimento, penso em todos outros, e nessa inevitável doença do pensamento, que fazem a todos os filósofos, jornalistas ou não, acadêmicos ou não, dedicar a vida à tarefa silenciosa e solitária de pensar. Espero que um dia o Brasil tenha cinquenta mil almas para chorar a nossa morte.

Publicado em 20/06/2005

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Publicado em 01 de janeiro de 2002