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Os Olhos São a Janela da Alma do Contador

Laerte Vargas

Contador de Histórias

Do que dispõe o contador?

Uma sala (ou pátio, ou jardim, ou refeitório) e um grupo de ouvintes convidado a viajar por países e reinos infundados, conhecer outras culturas, ter notícias de outros povos e compartilhar momentos de fantasia e conhecimento.

É preciso estar atento para a força que este momento tem. Normalmente, partimos da ideia de que temos que começar imediatamente a contar para que a cumplicidade se estabeleça: o primeiro elo se dá no silêncio desse encontro, o olhar convidando para o contar.

Sempre que possível, chegar antes à sala ou ambiente onde vai se dar a "contação" estabelece vínculos mais palpáveis para o contador.

Você vai poder sentir as reais dimensões do espaço, perceber com quais dificuldades precisa lidar (se o ambiente for aberto, escolha o recanto que mais se preste para um encontro íntimo entre contador e ouvintes).

Em salas fechadas, aproveite o tempo anterior para sentir a acústica, a emissão de sua voz (nem tão baixa, nem tão alta: convidativa), aquecê-la com mantras ou vogais e resolver como vai receber os convidados para o banquete.

Se existir palco ou tablado, perceba se a altura do mesmo vai distanciar você do seu público; muitas vezes escolher ficar embaixo, próximo às poltronas pode ser mais prazeroso do que ficar num palco com altura que o torne um elemento distante da plateia.

E atenção: atrás de você, contador, nada que interfira na viagem.

Perceba se há circulação ou cenários no palco que interfiram ou que não somem ao fio condutor da sessão.

Se possível, fundo neutro e roupa também. Normalmente, se opta por uma camiseta que tenha a logo do grupo com o qual trabalha ou então sem nada, numa cor básica.

Quando vou ouvir um contador, fico emocionado quando as portas se abrem permitindo o acesso ao local onde vai se dar a "contação" e o encontro à minha espera. É como se visitasse alguém e percebesse que o anfitrião reservou e esperou com carinho por aquele momento.

Saboreie o preâmbulo e não fique ansioso para começar a contar!

Olhe para os seus convidados, respire profundamente, sinta os seus pés bem plantados no chão e, em hipótese nenhuma, tenha pressa.

Fiel amiga do contador de histórias: uma garrafa ou copo de água na temperatura adequada. A boca está salivando convenientemente para promover uma fala gostosa de se ouvir? Lembre-se que o melhor lubrificante para voz é produzido pelo nosso próprio corpo: a saliva. Uma boca molhada é pré-requisito para uma voz clara e colorida.

Com o tempo, você vai perceber que o próprio grupo sinaliza, de uma forma misteriosa e silenciosa, o momento que você deve começar a contar. Nesse entremeio, nosso grande e único anfitrião: o olhar.

Vai perceber também, na sua prática, que cada grupo tem sua própria pulsação e é nela que você vai "embarcar" garantindo o sucesso da viagem.

Respire lenta e profundamente até sentir que a sua respiração e a do público se fundiram, tornando-se uma só.

Então, comece: se tiver "era uma vez" melhor ainda: essas três palavras mágicas são como um tapete voador a serviço da fantasia.

Os contos populares têm características iniciais muito próprias que são imprescindíveis para o bom entendimento da trama. Começam situando o ouvinte no tempo:

Era uma vez...
Existiu lá no oriente...
Há muito tempo atrás...

Em seguida, dão conta dos personagens envolvidos no enredo:

Uma viúva que tinha duas filhas...
Um moleiro que tinha uma filha linda...

E tecem os primeiros fios do enredo:

A mãe tinha verdadeira adoração pela filha mais velha, mas não gostava nem um pouco da filha caçula...
Certo dia, ao se encontrar com o rei e para se dar importância comentou que sua filha sabia transformar palha em ouro...

Três momentos que passam num piscar de olhos, mas que são imprescindíveis para o bom entendimento da história e seus desdobramentos.

Desenvolva esse preâmbulo percebendo como ele está ecoando na plateia: momento também para identificar aquele ouvinte inquieto que deverá requerer mais atenção que os demais. Torná-lo foco das atenções, direcionar a história para ele inicialmente pode fazê-lo ficar mais receptível e cúmplice.

E para isso, com que contamos? Nosso amigo inseparável: o olhar. É ele que convida, aproxima, preenche os silêncios e diferencia a "contação" de tantas outras linguagens.

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Publicado em 01 de janeiro de 2002