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Os significados dos sonhos

Jonathan Winson

Eles podem ser fundamentais para o processamento da memória nos mamíferos. Informações adquiridas durante a vigília podem ser reprocessadas durante o sono.

Os seres humanos sempre tentaram compreender o significado dos sonhos. Os amigos egípcios acreditavam que eles possuíam poderes oraculares - na Bíblia, por exemplo, a interpretação que José dá ao sonho do faraó evita sete anos de fome. Em outras culturas, os sonhos serviam como inspiração, terapia ou realidade alternativa. Durante o século passado, os sonhos receberam explicações psicológicas e neurocientíficas conflitantes dos cientistas.

Em 1900, com a publicação de A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud propôs que os sonhos seriam a "via privilegiada" para o inconsciente: revelariam, de forma disfarçada, os elementos mais profundos da vida interior do indivíduo. Mais recentemente, porém, os sonhos foram caracterizados como desprovidos de significado, resultado aleatório da atividade das células nervosas. Sonhar também foi considerado como o meio pelo qual o cérebro descarta informações desnecessárias: um processo de "aprendizado invertido", ou de desaprendizado.

Baseado em descobertas recentes feitas em meu laboratório e por outros neurocientistas, proponho que os sonhos de fato possuem significado. Estudos sobre o hipocampo (estrutura cerebral crucial para a memória), sobre o movimento rápido dos olhos (REM) durante o sono, e sobre ondas cerebrais denominadas ritmo teta, sugerem que sonhar reflete um aspecto essencial do processamento da memória. Em particular, estudos do ritmo teta feitos em animais subprimatas fornecem uma chave evolutiva para o significado dos sonhos. Parecem ser o registro noturno de um processo mnemônico básico dos mamíferos: e o meio pelo qual os animais formam estratégias de sobrevivência e avaliam a experiência atual à luz dessas estratégias.

Estágios do Sono e do Sonho

A fisiologia do sonho foi compreendida pela primeira vez em 1953, com a análise do ciclo do sono humano. Descobriu-se que, nos humanos, o sono se inicia pelo estado hipnagógico, período de vários minutos durante os quais os pensamentos consistem em imagens fragmentadas ou pequenas cenas. O estado hipnagógico é seguido pelo sono de ondas lentas, assim chamado porque, durante esse periodo, as ondas cerebrais do neocórtex (a camada circunvoluta mais externa do cérebro) apresentam frequências baixas e de grande amplitude. Esses sinais são medidos como registros de eletroencefalograma (EEG). Os pesquisadores descobriram também que o sono noturno é entremeado por períodos em que os registros do EEG apresentam frequências irregulares a amplitudes baixas - similares as observadas em indivíduos acordados. Esses períodos de atividade mental são chamados de sono REM. Os sonhos ocorrem somente durante esses períodos. Os neurônios motores são inibidos durante o sono REM, o que impede o corpo de se mover livremente, embora permita que suas extremidades permaneçam ligeiramente ativas. Os olhos movem-se rapidamente em sincronia sob as pálpebras fechadas, a respiração toma-se irregular e a frequência cardíaca aumenta.

O primeiro estágio REM da noite ocorre 90 minutos após o sono de ondas lentas e dura 10 minutos. O segundo a terceiro períodos REM ocorrem após breves episódios de sono de ondas lentas, mas tornam-se progressivamente mais longos. O quarto e último intervalo dura de 20 a 30 minutos e é seguido pelo despertar. Se um sonho for lembrado, trata-se, frequentemente, do sonho que ocorreu durante esta última fase.

Mamíferos exibem características associadas ao sono REM observadas nos humanos

Este ciclo do sono - alternando o sono de ondas lentas e o REM - parece estar presente em todos os mamíferos placentários e marsupiais. Os mamíferos exibem as várias características associadas ao REM observadas nos humanos, inclusive os registros EEG similares ao do estado de vigília. Os animais também sonham. Ao destruírem os neurônios no tronco encefálico que inibem o movimento durante o sono, os pesquisadores descobriram que gatos dormindo acordavam e atacavam ou ficavam assustados com objetos invisíveis - claramente imagens de sonhos.

Os cientistas descobriram ainda, estudando animais não primatas, outros aspectos neurofisiológicos do sono REM, e determinaram que o controle neural desse estágio do ciclo do sono está centrado no tronco encefálico (a região do cérebro mais próxima da medula espinhal) a que durante o sono REM os sinais neurais - chamados de ondas ponto-genículo occipitais (PGO) do córtex - procedem do tronco encefálico para o centro do processamento visual, o córtex visual. Os neurônios do tronco encefálico também iniciam uma onda sinusoidal (semelhante à forma de um sino) no hipocampo. Este sinal cerebral é chamado de ritmo teta.

Pelo menos um animal vivência o sono de ondas lentas, mas não o sono REM e, portanto, não apresenta o ritmo teta quando dorme. Trata-se do equidna, ou tamanduá espinhoso, um mamífero ovíparo (chamado de monotremado), que fornece pistas sobre a origem do sonho. A ausência do sono REM no equidna sugere que este estágio do ciclo do sono desenvolveu-se há cerca de 140 milhões de anos, quando os marsupiais a os placentários divergiram da ordem dos monotremados, os primeiros mamiferos a se desenvolver a partir dos répteis. De acordo com todos os critérios evolutivos, a permanência de um processo cerebral complexo como o sono REM indica que este desempenha importante função na sobrevivência das espécies mamíferas. Compreender essa função pode revelar o significado dos sonhos.

Quando Freud escreveu A Interpretação dos Sonhos, a fisiologia do sono era desconhecida. À luz da descoberta do sono REM, alguns elementos de sua teoria psicanalítica foram modificados e abriu-se caminho para teorias de base neurologica. O sonho passou a ser entendido como parte de um ciclo do sono determinado biologicamente. Entretanto, o conceito central da teoria de Freud - a crença de que os sonhos revelam uma representação censurada de nossos sentimentos e interesses inconscientes mais íntimos - continua a ser usado na psicanálise.

Alguns teóricos abandonaram completamente as ideias de Freud depois das descobertas neurológicas. Em 1977, J. Allan Hobson e Robert McCarley, da Harvard Medical School, propuseram a hipótese da "síntese-ativação": os sonhos seriam associações e memórias suscitadas no prosencéfalo (o neocórtex e estruturas associadas) em resposta a sinais aleatórios provenientes do tronco encefálico, tal como as ondas PGO. Seriam simplesmente a "melhor adaptação" que o prosencéfalo poderia fornecer. Embora os sonhos possam, ocasionalmente, sugerir um conteúdo psicológico, seu caráter bizarro seria intrinsecamente desprovido de significado. Segundo Hobson, o sentido ou enredo dos sonhos resultaria da ordem imposta ao caos dos sinais neurais. "Esta ordem é uma função de nossa visão pessoal do mundo, de nossas memórias remotas", escreveu. Em outras palavras, o vocabulário emocional do indivíduo poderia ser relevante para os sonhos. Em uma revisão posterior de sua hipótese original, Hobson sugeriu também que a ativação do tronco encefálico poderia servir apenas para mudar de um episódio do sonho para outro.

Aprendizado Invertido

Embora Hobson e Mccarley tivessem oferecido uma explicação do conteúdo do sonho, a função básica do sono REM continuava desconhecida. Em 1983, Francis Crick, do Salk Institute for Biological Studies, em San Diego, e Graeme Mitchison, da University of Cambridge, propuseram a ideia do aprendizado invertido. Partindo da suposição de Hobson e McCarley sobre uma descarga neocortical aleatória pelas ondas PGO e do conhecimento que tinham sobre o comportamento de redes neurais estimuladas, Crick e Mitchison postularam que o neocórtex, uma rede neural de associação muito complexa, pode ficar sobrecarregado com as vastas quantidades de informação que recebe. Com isso desenvolveria pensamentos falsos, ou "parasíticos", que colocariam em risco o estoque ordenado e verdadeiro da memória.

O sono REM serviria para apagar, de forma regular, essas associações espúrias. As ondas aleatórias PGO seriam impingidas ao neocórtex, resultando no apagamento ou desaprendizado das informações falsas. Este processo serviria a uma função essencial: o processamento ordenado da memória. Nos humanos, os sonhos seriam um registro corrido desses pensamentos parasíticos: um material a ser purgado da memória. Para Crick e Mitchison, "sonhamos para esquecer". Os dois pesquisadores propuseram uma revisão em 1986. A eliminação dos pensamentos parasíticos explicava somente o conteúdo bizarro do sonho e nada dizia sobre sua narrativa. Sonhar para esquecer poderia ser melhor formulado da seguinte forma: "Sonhamos para reduzir a fantasia ou a obsessão".

Nenhuma dessas hipóteses parece explicar adequadamente a função do sonho. Por um lado, a teoria de Freud carecia de evidência fisiológica. (É certo que Freud tinha, originalmente, tentado descrever a neurologia do inconsciente e dos sonhos em seu "Projeto para uma Psicologia Científica", mas a tentativa fora prematura a ele limitou-se a psicanálise.) Por outro lado, a despeito das revisões para incorporar elementos da psicologia, a maioria das teorias posteriores negava que os sonhos tivessem significado.

A exploração dos aspectos neurocientíficos do sono REM e do processamento da memória pareceu-me conter o maior potencial para a compreensão do significado e da função dos sonhos. A chave para esta pesquisa foi o ritmo teta, descoberto em 1954, em animais despertos, por John D. Green e Arnaldo A. Arduini, da University of California, em Los Angeles, que observaram um sinal regular sinusoidal de seis ciclos por segundo no hipocampo de coelhos, quando estes animais estavam apreensivos por causa de estímulos em seu meio ambiente. Eles denominaram este sinal ritmo teta, de acordo com um componente do EEG de mesma frequência descoberto anteriormente.

O ritmo teta foi posteriormente registrado em toupeiras, ratos a gatos. Embora tivesse sido observado de forma consistente em animais despertos, foi correlacionado com comportamentos muito diferentes em cada espécie. Por exemplo, em contraste acentuado com os coelhos, os estímulos ambientais não induziram ritmo teta nos ratos. Estes apresentaram ritmo teta somente quando se movimentavam, tipicamente quando exploravam. Em 1969, entretanto, Case H. Vanderwolf, da University of Western Ontario, descobriu que havia um comportamento durante o qual os animais que ele estudou, entre os quais o rato, revelavam o ritmo teta: o sono REM.

Em 1972, publiquei que diferentes ocorrências do ritmo teta poderiam ser entendidas em termos de comportamento animal. Os animais despertos pareciam apresentar o ritmo teta quando desempenhavam tarefas cruciais para sua sobrevivência. Em outras palavras, o ritmo teta aparecia quando exibiam comportamento não geneticamente codificado - como o são o comportamento sexual ou o orientado para a alimentação - mas que é uma resposta a informações variáveis do meio. O comportamento predatório dos gatos, de presa dos coelhos e exploratório dos ratos são, respectivamente, os mais importantes para a sobrevivência de cada um deles. Um rato com fome, por exemplo, ira explorar antes de comer, mesmo que a comida esteja diante dele.

O Papel de Ritmo Teta

Como o hipocampo está envolvido no processamento da memória, a presença do ritmo teta durante o sono REM nessa região do cérebro pode estar relacionada a essa atividade de processamento. Sugeri que o ritmo teta reflete um processo neural através do qual a informação essencial é sobrevivência de uma espécie - reunida durante o dia - e reprocessada na memória durante o sono REM.

Em 1974, ao registrar sinais do hipocampo em ratos a coelhos que se moviam livremente, descobri a fonte que gerava o ritmo teta no hipocampo. Acredita-se que, juntamente com o neocórtex, o hipocampo forneça a base neural para a armazenagem de memória. O hipocampo é uma estrutura sequencial composta por três tipos de neurônios. A informação proveniente de todas as áreas sensoriais e associativas do neocórtex converge para o córtex entorrinal; a partir daí, é transmitida às três populações sucessivas de neurônios do hipocampo. Os sinais chegam, primeiro, às células granulares do giro denteado, depois às células piramidais do CA3 (assim chamada em razão de sua forma triangular) e, finalmente, às células piramidais do CAI. Após ser processada a informação é retransmitida para o córtex entorrinal, retornando depois para o neocórtex.

Mostrei que o ritmo teta é produzido em duas regiões no interior do hipocampo: o giro denteado e os neurônios do CAI. Os ritmos nessas duas áreas são síncronos. Posteriormente, James B. Ranck, Jr., da State University of New York Downstate Medical Center, e sua então colega Susan Mitchell identificaram um terceiro gerador síncrono no córtex entorrinal, e Robert Verdes, da Wayne State University, descobriu os neurônios do tronco encefálico que controlam o ritmo teta. Esses neurônios transmitem sinais para o septo (estrutura do prosencéfalo), que ativam o ritmo teta no hipocampo a no córtex entorrinal. Assim, o tronco encefálico ativa o hipocampo e o neocórtex - o cerne do sistema mnemônico do cérebro.

Para determinar a relação entre o ritmo teta e a memória, provoquei uma lesão no septo de um rato. Os ratos que tinham aprendido anteriormente a localizar, mediante pistas espaciais, uma posição determinada no labirinto, não foram mais capazes de fazê-lo. Sem o ritmo teta, a memória espacial foi destruída.

Estudos sobre as alterações celulares que causam a memória ilustraram o papel do ritmo teta. Em particular, a descoberta, em 1973, da potencialização a longo prazo (long-term potentiation - LTP) - mudança no comportamento neural que reflete a atividade pregressa - revelou os meios pelos quais a memória pode ser codificada. Timothy V P. Bliss e A. R. Gardner-Medwin, do National Institute of Medical Research, em Londres, e Terje Lomo, da Universidade de Oslo, descobriram alterações em neurônios que haviam sofrido estímulos elétricos.

Memória de Longo Prazo

Estudos anteriores haviam demonstrado que, ao se estimular a via que se projeta do córtex entorrinal as células granulares do hipocampo, a resposta dessas células podia ser medida com um eletrodo de registro. Bliss e seus colegas mediram a resposta normal a um estímulo elétrico isolado e depois aplicaram uma longa série de sinais de alta frequência - chamada de estimulação tetânica - a esta via. Após a estimulação tetânica, um estímulo elétrico isola­do provocou disparo maior das células granulares que o observado anteriormente. O efeito intensificado persistiu por até três dias. Este fenômeno de LTP era precisamente o tipo de aumento da força neuronal que poderia ser capaz de manter a memória. A LTP é considerada agora um modelo para o aprendizado e a memória.

A LTP ocorre pela atividade do receptor NMDA (N-metil-D-aspartato). Esta molécula está inserida nos dendritos das células granulares, das células de CAI do hipocampo a nos neurônios de toda a extensão do neocórtex. Assim como outros receptores neuronais, o receptor NMDA é ativado por um neurotransmissor - glutamato, neste caso. O glutamato abre momentaneamente um canal não-NMDA no dendrito da célula granular, permitindo um fluxo de sódio do espaço extracelular para dentro do neurônio. Este influxo causa a despolarização da célula granular. Se a despolarização for suficiente, a célula granular dispara, transmitindo informações para outros neurônios.

Diferentemente de outros receptores neuronais, o NMDA possui uma propriedade adicional. Se uma ativação adicional do glutamato ocorrer enquanto a célula granular estiver despolarizada, um segundo canal se abre, permitindo o influxo de cálcio. Acredita-se que o cálcio aja como um segundo mensageiro, iniciando uma série de eventos intracelulares que culminam em mudanças sinápticas duradouras - ou LTP. (A descrição fornecida aqui foi simplificada. A LTP é hoje tema de amplas investigações.)

Como a estimulação tetânica aplicada por Bliss e seus colegas não ocorria naturalmente no cárebro, restava a questão de saber como a LTP era obtida em condições normais. Em 1986, John Larson e Gary S. Lynch, da University of California, em Irvine, e Gregory Rose e Thomas V Dunwiddie, da University of Colorado, em Denver, sugeriram que a ocorrência de LTP no hipocampo estava ligada ao ritmo teta. Eles aplicaram um pequeno número de estímulos elétricos às células de CAI do hipocampo de um rato e produziram LTP, mas somente quando os estímulos eram separados pelo lapso de tempo normal entre duas ondas teta - aproximadamente 200 milésimos de segundo. O ritmo teta e, aparentemente, o meio natural pelo qual o receptor NMDA é ativado em neurônios no hipocampo.

Pesquisas feitas em meu laboratório da Rockefeller University reproduziram as descobertas de Larson e Lynch, mas desta vez nas células granulares do hipocampo. Constantine Pavlides, Yoram J. Greenstein e eu demonstramos que a LTP dependia da presença e da fase do ritmo teta. Se fossem aplicados estímulos elétricos às células no pico da onda teta, LTP era induzida. Se o mesmo estímulo fosse aplicado no ponto mais baixo das ondas - ou na ausência de ritmo teta - não se induzia LTP.

Surgia, assim, um quadro coerente sobre o processamento da memória. Por exemplo, quando um rato explorando os neurônios do tronco encefálico ativam o ritmo teta. Os sinais de entrada olfativos (que no rato estão sincronizados com o ritmo teta, assim como o movimento das vibrissas) e outras informações sensoriais convergem ao córtex entorrinal e ao hipocampo. Elas são aí divididas em "bites" de 200 milésimos de segundo pelo ritmo teta. Os receptores NMDA, agindo com o ritmo teta, permitem a armazenagem de longo prazo dessa informação.

Um processo similar ocorre durante o sono REM. Embora não haja entrada de informação ou movimento durante o sono REM, a rede natural do neocórtex e do hipocampo sofre mais uma vez a ação marca-passo do ritmo teta. O ritmo teta pode produzir mudanças duradouras na memória.

Armazenagem da Memória Espacial

Experimentos posteriores demonstraram que a memória espacial é de fato armazenada no hipocampo do rato durante o sono. John O'Keefe e Jonathan O. Dostrovsky, da University College London, haviam demonstrado que os neurônios de CAI no hipocampo do rato disparavam quando o animal desperto movia-se para um determinado local, denominado campo de ação. Esta descoberta implicava que o neurônio de CAI disparava para mapear o ambiente, associando, assim, a tarefa a memória.

Em 1989, Pavlides e eu localizamos dois neurônios no hipo­campo do rato que tinham campos de ação diferentes. Após de terminarmos as f requências normais de disparos nos animais em vigília e sono, colocamos um rato no campo de ação de um dos neurônios. O neurônio disparou de forma intensa, mapeando aque­le local. A segunda célula disparou só esporadicamente, já que não estava mapeando o espaço. Continuamos fazendo registros dos dois pares de neurônios conforme os ratos se movimentavam e entravam nos vários ciclos do sono. Seis pares de neurônios fo­ram estudados dessa maneira. Descobrimos que os neurônios que haviam mapeado o espaqo disparavam a uma frequência normal enquanto o animal se movia logo antes de dormir. Durante o sono, entretanto, passavam a disparar a um ritmo significativamente maior que durante o período anterior de sono, que serviu como base de comparação. A frequência de disparos nos neurônios que não haviam mapeado o espaço não aumentou. Este experimento sugeria que o reprocessamento ou fortalecimento da informação codificada quando o animal estava acordado ocorria durante o sono, em nível de neurônios individuais.

Bruce L. McNaughton e colegas da University of Arizona desenvolveram uma técnica que registra, simultaneamente, um grande número de neurônios do hipocampo que mapeiam locais, e permite a identificação de padrões definitivos de disparo. Estudando animais, eles descobriram que conjuntos de campos de ação de neurônios que mapeiam o espaço durante a vigília reprocessam a informação durante o sono de ondas lentas e, depois, durante o sono REM. Portanto o processamento da memória durante o sono pode ter dois estágios - um preliminar no sono de ondas lentas e um posterior no sono REM, quando os sonhos ocorrem.

A Evolução do Sono REM

Evidências de que o ritmo Teta codifica a memória durante o sono REM decorrem não somente de pesquisas neurocientíficas, mas também da evolução. A emergência de um mecanismo neural que processa a memória durante o sono REM sugere diferenças na anatomia do cérebro entre mamíferos com esta característica do ciclo do sono e aqueles sem. De fato, essas diferenças existem claramente entre o equidna a os marsupial a placentários.

O equidna tem uma grande extensão de circunvoluções do córtex pré-frontal, maior em relação ao resto do cérebro quando comparado com qualquer outro mamífero, inclusive humanos. Acredito que esta grande extensão de córtex pré-frontal seja necessária para o desempenho de uma função dupla: reagir a entrada de informação de forma adequada, baseada na experiência passada; e avaliar e armazenar informações novas para auxiliar a sobrevivência futura. Sem o ritmo teta durante o sono REM, o equidna não seria capaz de processar informação enquanto dorme. (O equidna, entretanto, exibe o ritmo teta quando procura comida.) Para que habilidades superiores se desenvolvessem, seria preciso que o córtex pré-frontal se tornasse cada vez maior - ultrapassando a capacidade da caixa craniana - a menos que surgisse outro mecanismo cerebral.

O sono REM pode ter fornecido esse novo mecanismo, per­mitindo que o processamento da memória ocorra "off-line". Concomitante ao desenvolvimento aparente do sono REM nos mamíferos marsupiais e placentários, houve uma notável mudança neuroanatômica: o córtex pré-f rontal foi dramaticamente reduzido. Menos dele era exigido para processar a informação. Esta área do cérebro pôde se desenvolver no sentido de proporcionar habilidades de percepção avançaadas em espécies superiores.

A natureza do sono REM apoia este argumento evolutivo. Durante o dia, os animais colhem informações que envolvem locomoção a movimentos oculares. O reprocessamento desta informação durante o sono REM não seria facilmente separado da locomoção relacionada a experiência - tal dissociação exigiria excessiva revisão do circuito cerebral. Assim, a locomoção teve de ser suprimida pela inibição dos neurônios motores. O potencial de movimentos oculares, similarmente às ondas PGO, acompanha o movimento rápido dos olhos durante a vigília e também durante o sono REM. A função desses sinais ainda não foi determinada, mas podem servir para alertar o córtex visual sobre a informação que chega quando o animal está acordado, assim como refletir o reprocessamento desta informação durante o sono REM. Seja como for, as ondas PGO não perturbam o sono e não precisaram ser suprimidas - diferentemente dos neurônios motores.

Estratégia de sobrevivência

Com a evolução do sono REM, cada espécie pôde processar a informação mais importante para sua sobrevivência, como localização de alimentos, meios de capturar presas ou de fugir - atividades durante as quais o ritmo teta está presente. No sono REM, esta informação pode ser acessada novamente e integrada à experiência passada, para proporcionar uma estratégia progressiva de comportamento. Embora o ritmo teta não tenha sido ainda demonstrado nos primatas, incluindo os seres humanos, os sinais cerebrais fornecem uma chave para a compreensão da origem do sonho em seres humanos. Os sonhos podem refletir um mecanismo de processamento da memória herdado de espécies inferiores, no qual a informação importante para a sobrevivência é reprocessada. Essa informação pode constituir o cerne do inconsciente.

Como os animais não possuem linguagem, a informação que processam durante o sono REM é necessariamente sensorial. De forma consistente com nossas primitivas origens mamíferas, os sonhos nos humanos são sensoriais, principalmente visuais, não assumindo a forma de narração verbal.

Em consonância ainda com o papel desempenhado pelo sono REM no processamento da memória nos animais, não existe necessidade funcional de que este material se torne consciente. A consciência surge mais tarde, corn a evolução humana. Mas também não há razão para que o conteúdo dos sonhos não alcance a consciência. Assim, os sonhos podem ser lembrados - mais facilmente se o despertar ocorrer durante ou logo após o sono REM.

Minha hipótese é de que os sonhos refletem a estratégia de sobrevivência das pessoas. Os temas dos sonhos são variados e complexos, incluindo autoimagem, temores, inseguranqas, poderes, ideias grandiosas, orientação sexual, desejo, ciúme a amor.

Os sonhos tem, claramente, um profundo núcleo psicológico. Esta observação foi feita por psicanalistas desde Freud e e admiravelmente ilustrada pela obra de Rosalind Cartwright, do RushPresbyterian-St. Luke's Hospital, de Chicago. Cartwright estudou 90 pessoas que passavam por processos de separação e divórcio conjugal. Todas foram avaliadas clinicamente e submetidas a testes psicológicos para determinar suas atitudes e respostas a crise pela qual passavam. Elas foram também despertadas durante o sono REM para que relatassem seus sonhos por conta própria, sem perguntas que pudessem influenciar suas interpretações. Em 70 dos casos estudados, o conteúdo dos sonhos referia-se a pensamentos inconscientes e estava fortemente relacionado ao modo pelo qual a pessoa lidava com a crise quando acordada.

Embora não seja possível prever o tema "escolhido" para consideração durante uma noite de sono, algumas das dificuldades da vida - como no caso das pessoas estudadas por Cartwright - vinculam-se de tal forma a sobrevivência psicológica que são selecionadas para processamento durante o sono REM. Em circunstâncias normais, o tema dos sonhos pode ser livre, dependendo da personalidade do indivíduo. Ao se combinar com as intrincadas associações que são parte intrínseca do processamento do sono REM, seus enunciados podem ser bastante obscuros.

Todavia, há razão para acreditarmos que o processo cognitivo que ocorreu com as pessoas estudadas por Cartwright ocorra com todos. A interpretação depende dos eventos relevantes ou similares reconhecidos pelo indivíduo; essas associações são muito influenciadas pelas experiências da primeira infância.

Minha hipótese permite também explicar a grande quantidade de sono REM observada nos recém-nascidos e nas crianças. Os recém-nascidos passam 8 horas por dia em sono REM. O ciclo do sono está, nessa idade, desorganizado; ocorre em ciclos de 50 a 60 minutos, começando pelo sono REM, e não pelo de ondas lentas. Aos dois anos de idade, o sono REM é reduzido para três horas ao dia e diminui gradualmente até chegar a pouco menos de duas horas.

O sono REM pode desempenhar uma função especial nos bebês. Uma das teorias dominantes sustenta que estimule o desenvolvimento de neurônios. Sugiro que, por volta de dois anos de idade, quando o hipocampo, que continua a se desenvolver após o nascimento, torna-se funcional, o sono REM assume sua função de memória interpretativa. A informação obtida durante a vigília e a ser integrada neste ponto do desenvolvimento constitui o substrato cognitivo básico da memória - o conceito do mundo real contra o qual as experiências posteriores devem ser comparadas e interpretadas. A organização na memória dessa extensa infraestrutura exige o tempo adicional de sono REM.

Por razões que não podia conhecer, Freud apresentou em sua obra uma verdade profunda. Há um inconsciente e os sonhos são, de fato, a "via privilegiada" para compreendê-los. Entretanto, as características dos processos inconscientes e associados do funcionamento do cérebro são muito diferentes daquelas imaginadas por Freud. Proponho que o inconsciente seja considerado, não como um caldeirão de paixões indomáveis e de desejos destrutivos, mas como uma estrutura mental continuamente ativa e coesa que registra as experiências e reage de acordo com o seu próprio esquema de interpretação. Os sonhos não são dissimulados em razão da repressão. Seu caráter incomum resulta das complexas associações que são selecionadas da memória.

A pesquisa sobre o sono REM sugere que há uma razão biologicamente relevante para o sonho. A versão revisada da hipótese de síntese-ativação de Hobson e McCarley reconhece o profundo núcleo psicológico dos sonhos. Em sua formulação truncada atual, a hipótese da ativação aleatória do tronco encefálico tem pouco poder explicativo ou preditivo.

A hipótese de Crick Mitchison atribui uma função para o sono REM - o aprendizado invertido - mas não se aplica a narrativa, só aos elementos bizarros do sonho. É preciso definir a implicação disto para o processamento REM nas espécies inferiores antes que a teoria possa ser melhor avaliada. Além disso, a hipótese Crick Mitchison, aplicada ao hipocampo, sugeriria que os neurônios disparam aleatoriamente durante o sono REM, permitindo assim o aprendizado invertido. Meu experimento com os neurônios que mapeiam o espaço sugere, em vez disso, que estes neurônios dis­param de forma seletiva, o que implica um processamento orde­nado da memória.

Avi Karni e seus colegas do Weizmann Institute of Science, em Israel, mostraram que o processamento da memória ocorre, nos humanos, durante o sono REM. No experimento que fizeram, os indivíduos aprenderam a identificar padrões específicos em uma tela. A memória desta habilidade foi aprimorada após uma noite de sono REM. Quando as pessoas foram privadas do mesmo, a memória não se consolidou. Este estudo abre um campo de investigação promissor.

Talvez seja de maior importância a evidência, fornecida pela biologia molecular, que confirma o papel desempenhado pelo sono REM no processamento da memória. Sidarta Ribeiro e seus cole­gas da Rockefeller University relataram que o gene zif-268, asso­ciado ao aprendizado, e ativado seletivamente durante o sono REM em ratos expostos a experiência em um período de anterior de vigília. Podemos esperar, dessa área de pesquisa, uma maior com­preensão do papel do sono REM.

Referências

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Sobre o autor

JONATHAN WINSON começou sua carreira como engenheiro aeronáutico, graduando-se em 1946 pelo California Institute of Technology. Ele obteve o seu Ph.D. em matemática na Columbia University e, durante 15 anos, dedicou-se às atividades empresariais. Por causa de seu duradouro interesse pela neurociência, Winson começou a pesquisar o processamento da memória na Rockefeller University. Em 1979, tornou-se professor associado e prosseguiu sua pesquisa como professor emérito. Aposentou-se em 1996. Sua pesquisa foi apoiada pelo National Institute of Mental Health, pela National Science Foundation e pela Harry F Guggenheim Foundation.

Publicado em 02 de setembro de 2008

Publicado em 01 de janeiro de 2002