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Paz: Não à lógica do terror e da guerra!

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

O atentado terrorista em Madri causou grande impacto. Quase não se encontra um habitante adulto da Espanha que de algum modo não se sinta atingido. Entre os mortos e feridos, cada um e cada uma encontra alguém. Dada a amplitude do ataque, para além dos familiares, sempre você descobre o parente, a cunhada, o amigo, o familiar da amiga, a irmã da sua colega de trabalho, os filhos dela, enfim, alguém que estava lá, mais uma das vítimas inocentes de uma tragédia moderna, assassina, planejada. Até eu tenho conhecidos entre as vítimas. Cheguei em Madri na tarde do dia 11, de passagem para Barcelona, para discutir a reforma do sistema de instituições multilaterais. Encontramo-nos para avaliar nossas propostas e estratégias da campanha que desenvolvemos visando reconstruir as instituições para que atendam aos anseios de uma emergente cidadania planetária, de um mundo de liberdade e dignidade para todos os seres humanos, no centro a segurança humana e a paz. Foi um seminário prenhe de emoções, em meio à tragédia de uma Espanha abatida, sofrendo.

Nunca vivi uma situação assim. E olha que já vivi situações duras. Em meados dos 80, estive em Jinotega, na frente de batalha dos sandinistas nicaraguenses diante dos "contra", dormindo no chão de um velho depósito de café. Nas minhas frequentes viagens à Colômbia, já vi de perto o terror estampado no rosto das pessoas ameaçadas por uma guerra interna sem fim. Mas o que senti na Espanha, após o atentado aos trens cheios de gente chegando para o trabalho, para a escola, um dia de compras ou visita ao médico, foi algo a não segurar a emoção. É como se eu mesmo estivesse lá. Participei, com as amigas e os amigos do seminário, da grande manifestação do dia 12, em meio a 1,5 milhões de catalãos, cadenciando momentos de silêncio absoluto com palmas ritmadas. Dava para segurar na mão a emoção, de tão densa, de tanta gente anônima simplesmente dizendo que assim não dá. Precisamos, decididamente, refazer o mundo!

Não vou entrar nos detalhes do que aconteceu. Os jornais estão cheios de notícias. É a urgência de ações de mudança que me move neste momento. Urgência que passa por nós, "nós, o povo". Desmantelar a lógica do terror e da guerra é uma tarefa cidadã, em primeiro lugar. O 11 de setembro de 2001, nos EUA, e o 11 de março de 2004, na Espanha, são pontas de um iceberg que ameaça a humanidade, indistintamente. Mas não é com guerra que se constrói segurança. No dia 20 de março vamos lembrar um ano de terror de Estado - a guerra de Bush contra o povo iraquiano - sem que, com isto, tenhamos avançado um milímetro sequer em termos de paz e segurança global. Tudo o que vem sendo feito parece errado, da "guerra preventiva" às invasões policiais de favelas - para lembrar a nossa guerra, aqui no Rio - numa mesma lógica de terror em nome do combate ao terror. Até quando?

Vejo a lógica do terror e da guerra como a maior ameaça a nos cercar. A bomba pode estourar aqui ao lado, matar como uma bala perdida. Basta a gente estar fazendo a coisa certa, mas no lugar errado, no momento do ataque. Aí é só contar os mortos. É o que fazem os moradores de nossas favelas quase todos os dias. A violência deixou de ser ameaça distante. Pode não ser da Al Qaeda, um exército regular ou as forças policiais, mas mata ou mutila igualmente, sem nenhuma consideração. As principais vítimas são exatamente crianças, jovens ou velhos, homens ou mulheres, como você ou eu, pegos em meio do fogo cruzado, tentando levar a vida. O que explica isto tudo?

Vivemos uma ruptura. Ruptura de um padrão de valores e relações baseado em direitos. No centro de tudo, um sistema dominante que tem como motor a busca do ganho individual, um padrão de relações que prioriza o ganho do mais forte sobre os direitos de cidadania, os direitos individuais e coletivos de ser parte da sociedade humana, em sua diversidade de formas e possibilidades. O sistema erigiu a lógica do mais forte como padrão. Haja violência para manter isto!

A questão é que somos interdependentes, fazemos parte da mesma humanidade. Todos podemos ser alvo da violência, num modo de viver que premia quem sabe ganhar, quem vence. Isto se traduz numa economia que funciona, sim, mas contra gente. Não para produzir o bem estar possível e sim mais dinheiro para quem pode. E para quem pode mais, maior ganho. Aí, o Estado, ao invés de expressão do bem público, passa a usar seus recursos legais para fazer a violência contra os próprios cidadãos, limitando para parte ou para setores inteiros da população os direitos mais elementares. Pode ser o Estado unilateral do Bush ou a polícia assassina de nossos governantes locais. Pode ser a truculência dos mercados, a especulação da bolsa, a exploração do trabalho escravo e infantil, num processo em que a exuberância de empresas contrasta com a produção de concentração, pobreza e fome da maioria. No vazio de direitos básicos de cidadania, cresce a violência. Daí até a tragédia coletiva, como a de Madri, o caminho é curto.

Vamos todos manifestar nosso desejo de um outro mundo. Dia 20 de março, sábado próximo, é o dia. Num movimento que começou no apelo do Movimento pela Paz nos EUA, vamos sair às ruas das cidades do nosso mundo para dizer que aqui e em todo lugar é possível fazer a paz, desde que a justiça e a busca de liberdade e dignidade humanas nos orientem. Vamos dizer que como cidadãs e cidadãos do mundo queremos paz, queremos segurança sim, mas para todos, sem distinção, sem violência. A paz se faz com inclusão social, com tolerância à diversidade, com respeito ao direito de todos a um desenvolvimento humano democrático e sustentável. Chega de terror e guerra! Compartamos o mundo e suas riquezas enquanto ainda temos tempo! Basta de terror e guerra!

Rio, 14.03.04

Publicado em 01 de janeiro de 2002