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Poesia, risco e desvelamento

Pablo Capistrano

Escritor e professor de filosofia e história do Direito

é a linguagem que está a serviço da vida e não a vida, a serviço da linguagem

Paulo Lemisnki

Tanto mais simples as imagens, mais divinas, a ponto de muitas vezes, realmente se temer descrevê-las

Hölderlin

Você pode ler um bom poema e espantar-se com ele. Pode ouvir uma canção e se arrepiar com a relação íntima que o autor montou entre o som e o sentido. Você pode até, movido por uma angústia misteriosa (que alguns chamam de “ansiedade da influência”) tentar fazer um outro poema ou canção para homenagear, comparar, confrontar, superar ou derrotar seu “pai-poético”. Você, às vezes, até mesmo destroi seu próprio poema (do ponto de vista literário) como uma forma de queimar, metaforicamente junto com ele, a carga de influência que o poema-origem, o poema motor de sua angústia, produziu. Isso é até fácil de entender, ao menos  para quem faz poesias.

Difícil é compreender o tipo de ansiedade que faz com que você escreva um discurso sobre o poema que você leu ou a canção que você ouviu. O que nos leva a usar outras ferramentas, que não a própria poesia ou a própria canção, para superar a ansiedade que sentimos diante do espantoso e do terrível?

Mas difícil ainda, parece ser entender o porquê do salto maior de ultrapassar do poema e o poeta, e falar sobre a poesia. Mas estranho ainda é compreender o motivo que leva se falar de poesia não para conceituá-la, mas para coloca-la em seu “devido” lugar.

O filósofo alemão Martin Heidegger (acusado por alguns, não sem certo acerto, de construir uma linguagem obscura e vazia) admirava a poesia de Trakl, Rilke, Goethe e Hölderlin.  Foi mais especificamente com esse último que o filósofo teceu um diálogo e “surrupiou”  imagens para fazer um voo sobre o imediato e um  mergulho no interior do discurso poético. Hölderlin teria sido “o  poeta dos poetas” que definiu as pistas para o encontro do lugar do poeta e da poesia na ordem cósmica. A tarefa de Heidegger teria sido a de desvelar essas pistas e mostrar ao público de uma Europa esfacelada pela guerra o “lugar” no qual a poesia se esconde e, a partir do qual, ela revela a morada do Ser.

Numa conferência, cujo o título foi retirado de um verso de um poema de Hördelin (... cheio de méritos, mas poeticamente/ o homem habita esta terra...) Heidegger apresentou ao menos cinco marcas (retiradas de cinco versos do poema In lieblicher Bläue - "no azul sereno") no mapa que o poeta de Lauffen-am-Neckar havia nos oferecido. A poesia (entendida como dichten - inventar, fabricar, construir) seria provavelmente a mais inocente das ocupações humanas. Um jogo que fabrica, sem sinal algum de culpa, um espaço de imagens para se habitar. Enquanto linguagem (Sprache) a poesia muda e se torna um bem perigoso, entregue aos homens para que estes possam “testemunhar” aquilo que são. Um instrumento que coloca o homem no seu lugar e abre os outros entes (coisas) com todos os perigos que surgem deles. Vista como conversa (Gespräch) ela identifica e estabiliza os entes (coisas), fazendo-os persistir, por meio do intersubjetivo, ao fluxo devastador do tempo. Também a poesia instaura (stiffen). Inventa os entes (coisas) que nomeia, oferecendo, a esses mesmos entes certa ordem e medida. Neste confronto mitológico contra o leviatã caótico do tempo, a poesia impõe ao vazio das impressões sucessivas um fundamento (Grund), solo ou terreno no qual a existência humana pode encontrar, não apenas um lar, mas durabilidade. Por fim a poesia faz, poeticamente (dichterisch) o homem habitar a terra. Nomear as coisas, fundamentar a durabilidade dos entes (coisas) diante do tempo, tornar a linguagem possível e, ainda por cima, por em risco os poetas.

Quais os riscos da poesia? Aqui, os riscos apresentam-se para quem lê e para quem produz.

Alguns problemas parecem emergir da obscuridade do texto de Heidegger: Qual a relação entre a poesia e a linguagem? Se é a poesia que dá durabilidade às coisas e fundamenta a experiência dos homens o quê, por sua vez, dá fundamento a poesia? Se a poesia está no meio da linguagem, sendo parte dela, o que constituí a linguagem? Se, por sua vez, é a poesia que fundamenta toda a linguagem possível, então, toda a linguagem é poética?

Não se assuste, caro leitor, a brincadeira da filosofia é assim mesmo. Para usar uma metáfora de Ludwig Wittgenstein numa de suas conversações com Norman Malcolm: “Uma pessoa apanhada numa confusão filosófica é como um homem que quer sair de um quarto mas não sabe como. Ele tenta a janela mas ela é muito alta. Tenta a chaminé mas sua abertura é muito estreita. E, caso ele tivesse apenas olhado ao redor, teria visto que a porta estava aberta o tempo todo” (MALCOLM, 51).

Se a poesia é um desvelar, e a filosofia, como pensava o bom e velho Wittgenstein é mais um mecanismo de ocultação das pistas que nos levam para fora, como as duas podem ser, ao mesmo tempo, linguagem? Talvez só uma seja. Talvez nenhuma. Ou talvez a linguagem não seja só dita poeticamente, mas abarque o desvelar e o ocultar num mesmo e único movimento, estranho, inusitado e assombroso.

Mas os riscos da poesia estão dados, assim como os riscos da filosofia. Exercitar um desses riscos pode ser fatal. Exercitar os dois, quase sempre o é. Mas o que seria de nossas pobres experiências sem os riscos? Que tipo de apego ao tédio do mundo poderia justificar não afundar-se nesses riscos?

Na sua correspondência (LEMINSKI, 83) com o poeta paulista Regis Bonvincino, Paulo Leminski escreve, numa carta datada de 04 de Agosto de 1978 um desabafo que indica o caminho dos labirintos nos quais a poesia pode lançar quem joga o seu jogo:

"Levei a vida inteira
acreditando que as palavras são instrumentos onipotentes
sei
hoje
que são as palavras que estão na vida
não é a vida que está nas palavras”

Talvez não haja melhor pista para compreender os riscos da poesia. Se o sentido da poesia é apresentar o mundo ao homem e preparar o lugar no qual, poeticamente, o homem habita, construído seu fundamento, seu solo, seu chão é também muito fácil misturar promiscuamente a poesia com o mundo e cometer o erro metafísico de ter certeza que as coisas são como aparecem. Se são os óculos do míope que dão forma a seu mundo e não seus próprios olhos, ele deve precaver-se para ter sempre, diante da sua lente, um distanciamento. Caso contrário, pode acabar preso dentro da sala da metáfora de Wittgenstein, procurando desesperadamente uma saída sem se aperceber que a porta estava aberta o tempo todo.

Não sei até ponto o prazer da poesia compensa seus riscos. Mas essa é uma ansiedade de filósofo e não de poeta. Ter medo de ser tragado pela sedução da linguagem, pela crença de que a linguagem é o mundo, pela certeza de que o mundo cabe dentro de um verso, é uma ansiedade daqueles que tem muito pudor, ou mesmo culpa, em relação as próprias ilusões. Esses não são os que atravessam.

Só atravessa o abismo quem não tem medo de cair no fosso (Abgrund). Quem tem medo, fica na borda. Só se atravessa o abismo da linguagem quem tem cera nos ouvidos e anda distraído e desarmado. Esses não tentam pular a janela ou escapar pela chaminé porque sabem que, desde sempre, a porta esteve aberta.

Referências Bibliográficas

HEIDEGGER, Martin. "...poéticamente o homem habita...”. Trad. Márcia Sá Cavalcante Schuback.  In : Ensaios e Conferências. Petropólis: Vozes, 2002.

HÖLDERLIN. Canto do Destino e outros cantos. Org e Trad. Antonio Medina Rodrigues. São Paulo, Iluminuras, 1994.

INWOOD, Michael. Dicionário Heidegger. Trad. Luísa Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

LEMINSKI, Paulo e Régis Bovincino. Envie meu dicionário: cartas e alguma crítica. ORG. Régis Bonvicino. São Paulo: Editora 34, 1999.

MALCOLM, Norman. Ludwig Wittgenstein: A Memoir. New York: Oxford University Press, 1972.

RORTY, Richard. Wittgenstein, Heidegger and the refication of language. In The Cambridge Companion to Heidegger. Cambridge, Cambridge University Press, 1993.

Publicado em 01 de janeiro de 2002