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Questões de arte e da aprendizagem da arte no Núcleo de Crianças e Jovens da Escola de Artes Visuais do Parque Lage

Maria Tornaghi

Coordenadora do Núcleo de Crianças e Jovens da Escola de Artes Visuais do Parque Lage - RJ

Em 1992, o Núcleo de Crianças e Jovens da Escola de Artes Visuais do Parque Lage foi completamente reestruturado. As aulas foram suspensas e uma nova equipe pedagógica se reuniu sistematicamente durante todo um semestre.

Para estabelecer as bases desta reformulação partiu-se de uma análise da situação do ensino da arte no Rio de Janeiro:

Com muito poucas exceções, as aulas seguiam dois modelos - se restringiam ao adestramento do aluno em técnicas específicas, ou eram um horário divertido onde usando material de arte se imaginava estar produzindo arte.

No Brasil, a Semana de 22, dando ênfase à livre-expressão, difundiu a ideia de que arte não se ensina, se expressa. O papel do professor ficava, então, pouco claro, se restringindo, algumas vezes, a aprovar tudo o que o aluno fazia.

Muitas vezes, os objetivos dessas aulas não estavam relacionados com a experiência da arte.

Os processos de aprendizado não pareciam ser levados em conta.

A arte contemporânea e suas questões, se apareciam, apareciam como informação teórica pouco relacionada aos processos individuais.

Mesmo nos casos em que a experiência da arte era o objetivo da aula, era a produção do aluno que se abordava. Os aspectos relacionados à percepção e à reflexão raramente eram levados em conta.

Como resultado desta situação, a maioria dos alunos via a produção de arte contemporânea como alguma coisa completamente exterior ao seu cotidiano.

Pensar a arte e a aprendizagem da arte, foi o caminho encontrado pelo Núcleo de Crianças e Jovens para reverter este quadro.

A arte é tomada como atividade cognitiva. O Núcleo se identifica como espaço gerador de um conhecimento específico, construído por um pensamento que se forma na relação entre prática e reflexão, íntima, indissolúvel, uma acontecendo com a outra, nem antes, nem depois. Neste sentido, acredita desenvolver um processo de trabalho similar ao de um artista. A equipe trabalha como se estivesse construindo um trabalho de arte.

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage tem um compromisso com o contemporâneo. No Núcleo de Crianças e Jovens os processos pessoais de cada aluno são compreendidos dentro de um contexto cultural onde a arte contemporânea e suas questões exercem um papel relevante.

Ainda que arte (como de resto qualquer outra coisa) não se possa ensinar, se pode aprender.

Aprender é um processo de descoberta. Quando se pega o aluno pelo braço e se mostra o que ele deve olhar, ele não se sente como um explorador. Talvez se sinta seguro mas logo estará entediado. Quando alguém lhe diz: "Vai e descobre", ele pode se sentir entusiasmado, mas também pode ficar assustado e perdido entre os vários caminhos que se abrem para ele. Para exprimir-se livremente, o aluno precisa saber como proceder, o que esperar no fim, como avaliar o resultado. O professor, por sua vez, reconhecendo que sua presença já é em si uma interferência, deve traçar estratégias para interferir.

A equipe pedagógica do Núcleo procurou estabelecer, com precisão, o que entende por aprendizagem artística:

- A habilidade crescente de se envolver com um trabalho, examinando-o e apreciando-o sob o ponto de vista de quem produz (manuseia a tinta, vence dificuldades), de quem percebe (reconhece o que está vendo, relembra imagens, provoca memórias) e de quem reflete (escolhe, articula conhecimentos, julga).

- Uso cada vez mais amplo de recursos culturais e sociais - a crescente atitude de alerta para os muitos recursos de que pode dispor como artista; uma maior atenção para os trabalhos e as mentes de outros. A descoberta de que pedir emprestado, imitar, ou compartilhar pode ser uma conquista e não um fracasso.

- Capacidade cada vez maior de perseguir uma ideia artística a longo prazo, de ficar numa tarefa o tempo suficiente para encontrar onde estão os problemas e para inventar maneiras de perseguí-los. A capacidade de desenvolver trabalhos com continuidade e aprofundamento.

A partir deste enfoque da aprendizagem artística, foram escolhidos dois instrumentos pedagógicos: os Portfólios e as Propostas de Trabalho.

Os portfólios são usados como um recurso para se acompanhar os processos individuais. No Núcleo, portfólios não contêm só os trabalhos selecionados. Neles, os alunos guardam toda e qualquer coisa que considerem pertinente aos seus projetos: registros gráficos e anotações, comentários seus e de outros sobre os trabalhos, trabalhos de outros que eles admirem ou não gostem, seus próprios trabalhos. De maneira lúdica e séria, os alunos recorrem formal e informalmente aos portfólios, possibilitando um trabalho de arte que é visto como um processo pessoal, que envolve continuidade e aprofundamento. Esse trabalho se apoia numa reflexão constante do aluno sobre seu processo; no distanciar-se de suas próprias percepções e produções ou das de outros artistas, e procurar compreender os objetivos, métodos, dificuldades, e resultados conseguidos. Acompanhando e respeitando o processo do aluno, o professor estabelece condições de interferência: provoca a reflexão, sugere caminhos, traz referências da história da arte, propõe recursos técnicos a serem explorados.

Os Portfólios constituem um instrumento importante para uma avaliação que, necessária em qualquer processo de aprendizagem, aqui se faz em relação ao próprio trabalho do aluno e não a critérios exteriores.

Para situar os processos pessoais do aluno num contexto onde a arte contemporânea e suas questões exercem um papel relevante são usadas as Propostas de Trabalho. Identificando seus próprios interesses e questões, o aluno e o professor inventam projetos de longo prazo que envolvem percepção, produção e reflexão. Questões da arte contemporânea se tornam Propostas de Trabalho dos alunos. As questões são identificadas, as respostas decorrem do trabalho e são imprevisíveis.

Com estes instrumentos pedagógicos foi desenhada a estrutura do Núcleo:

Cursos regulares que compõem a estrutura central e pressupõem a necessidade de um longo período de trabalho com turmas pequenas onde o professor pode dar uma atenção especial aos processos pessoais de cada aluno.

Atividades de curta duração (como as Visitas das Escolas, Colônias de Arte ou Workshops para jovens), onde projetos especiais são cuidadosamente planejados pela equipe como momentos iniciais de um trabalho, que vai se construindo com os alunos. Estes projetos agregam atividades curtas que, articuladas entre si, retomam as questões trabalhadas convidando constantemente o aluno a novos encontros com o que já parecia conhecido.

No Núcleo, crianças e jovens têm um encontro com a arte.

Publicado em: Atelier guia de Artes Plásticas ano II nº 14 - de junho /1998

Publicado em 01 de janeiro de 2002