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Sexo em Paris

Pablo Capistrano

Liberdade, igualdade, fraternidade. Nada sintetiza melhor o ideal das luzes do século XVIII do que essas três palavras. Se existir mesmo um núcleo irredutível de humanidade em cada camarada da espécie, estas palavras deveriam nortear qualquer proposta política de um Estado democrático. Bom de dizer, mas difícil de fazer. Lembrei de uma conversa com meu amigo Carito na Praça das Flores numa noite de sexta-feira. Ele, que tem uma pousada na Costa Branca e construiu um espaço no qual os poemas de Lord Byron convivem lado a lado com a tradição sertaneja do litoral norte do Rio Grande do Norte, um dia ouviu da boca de uma turista francesa o seguinte: “você está descaracterizando a cultura local”.

Aí parece estar uma chave para entender a França. Uma tensão recorrente entre uma pretensão iluminista de cosmopolitismo e um bairrismo regional que separa os puramente franceses do resto do mundo. Mas a França, como o resto da Europa, não vai conseguir manter o mundo longe de seu quintal por muito tempo. O mundo dos eternamente em via de desenvolvimento vai estar sempre na periferia de Paris, pressionando para que o discurso humanista de integração da grande família humana seja posto em prática. Eles são muitos e se multiplicam. A tal “escória”. O fantasma do imigrante estrangeiro. A força do estranho, do diferente, que exige a liberdade, a igualdade e a fraternidade que não encontra na sua própria terra. 

Na verdade, não existe uma forma simples de resolver o problema da integração cultural desses mundos cindidos pela herança genética, pela cor da pele e pela religião. O único modelo possível é o da integração sexual. Hoje, só uma imensa orgia salva a Europa de afundar diante de suas próprias contradições. Esse modelo quase funcionou no Brasil. Talvez na França, com outras condições históricas, ele desse mais certo. Imagine se cada mocinha francesa, descendente de Astérix e Obélix, recebesse um subsídio do governo para peregrinar até a periferia de Paris com o objetivo de fazer sexo com os descentes dos príncipes Fon da África Ocidental. Imagine toda a Europa num imenso e profundo movimento de integração sexual, ondulando no ritmo do som do La Mano Negra. Todos juntos, num imenso orgasmo multiétnico que produziria o Neoeuropeu. Um povo que não seja 100% alguma coisa, mas sim 100% quase tudo. Um povo que não teria medo de perder a própria língua, mas que falasse um dialeto com todos os sotaques. Sem um Deus só para não criar confusão. Sem uma culinária só para não dar indigestão.

No século XVIII, Kant escreveu um livrinho profético chamado Para a Paz Perpétua, no qual ele estabelecia as condições para a construção de uma paz duradoura entre as nações. Ele sabia que o direito de hospitalidade, ao contrário do direito de transitar por qualquer lugar (derivado do direito ao uso comum da superfície de toda a Terra) não era um direito natural. Mas deveria ser uma construção contratual de qualquer sociedade que tivesse realmente a intenção de estabelecer condições para uma paz duradoura. Como ele era celibatário e nunca veio passar férias no Nordeste do Brasil, não pensou sobre a tal integração sexual. Mas, de uma forma ou de outra, sabia que num longo prazo inevitavelmente a humanidade atingiria a paz perpétua. Só não sabia dizer se seria a paz da igualdade, liberdade e fraternidade dos povos ou a silenciosa paz do imenso cemitério do gênero humano. Hoje, a periferia de Paris nos dá a indicação de qual das duas a humanidade está mais disposta a encontrar.

Publicado em 07 de julho de 2009.

Publicado em 01 de janeiro de 2002