Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Sócrates na parede

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Uma vez, na época em que eu lecionava no ensino médio, um aluno chegou para mim e disse: “Professor, o Sr. é louco!”. Ele disse isso porque eu estava tentando explicar a ideia de Hume sobre a não fundamentação racional das nossas experimentações indutivas. Falando em língua de gente normal: estava tentando mostrar a ele que o sol pode não nascer amanhã, que a água pode, um belo dia, não ferver a 100 graus e que o Tylenol que ele sempre tomou para passar a febre qualquer hora dessas pode matá-lo.

Mas não me chateei com o aluno porque ele antes havia sido tipicamente brasileiro e pedido permissão para ser sincero. Ele disse: “Posso ser sincero?”. Pouca gente nota isso, mas existe esse hábito de pedir licença para se dizer a verdade em nosso país. Como se falar o que se pensa fosse uma ofensa, uma descortesia. Então, numa conversa, a gente tem que sempre pedir licença para ser sincero, se a outra pessoa nega, a gente volta a mentir como sempre faz, e fica tudo bem, todo mundo feliz, todo mundo hipocritamente bem resolvido com as próprias ilusões.

Mas o aluno foi sincero. Ele achou a tese de Hume uma loucura e o professor que tentava explicá-la um louco. Sem problema. De vez em quando eu me acho mesmo meio louco (às vezes eu chego a ter certeza, mas escondo isso dos outros para evitar problemas com a saúde pública). O fato é que, se eu fosse um professor de Matemática, Física, Química ou Biologia poderia ser louco sem precisar me justificar. Isso porque quando você começa a lecionar no ensino médio, uma das disciplinas estranhas, “inúteis e perigosas” como sociologia, filosofia, artes ou literatura, a pergunta que todo mundo faz é: “Professor, isso cai no vestibular?”. A resposta sempre é desconcertante. “Não... mas veja só, mesmo assim, é muuuiiiitooo importante estudar artes, porque...”. Então começa o calvário. A cada aula, o professor tem que justificar a própria existência, convencer os alunos do porquê de se estar ali, de se ensinar a beleza de um quadro de Modigliani, de Rembrandt, a força de um raciocínio de Hume ou de Spinoza, a intensidade imagética de um poema de Augusto dos Anjos. A literatura ainda consegue se safar porque tem um pedaço da prova de português, que sobra para ela. Então ela consegue, no ensino médio, garantir sua única aula semanal. Filosofia, Sociologia e Artes, não. Elas precisam lutar pela sobrevivência. Todo dia o professor tem que justificar a sua própria importância, todo dia o professor tem que desfilar um rosário de “porquês” para os alunos, para os pais, para os coordenadores, para os outros professores. Tipicamente brasileiros, os colegas professores dão aquela mentida básica de boas vindas: “Ah! Você é professor de filosofia. Filosofia é muito importante!”. Se ele pedisse licença para dizer a verdade diria: “Posso ser sincero? Para que serve mesmo essa sua disciplina? O que danado é isso?”.

Sobreviver no ensino médio é difícil. Um teste de paciência e de perseverança para qualquer professor. Tinha um colega que sentia ataques de pânico quando ia dar aula numa determinada turma de primeiro ano. Acabou desistindo da profissão. O bom é que você aprende a dar aula. Aprende como tornar sua disciplina interessante, como seduzir os alunos, como falar, como mover o corpo, como lidar, com a voz e com vários truques metodológicos simples, com espírito sempre inquieto dos alunos. Hoje eu estou no ensino superior. Mas quando vou dar aula de Filosofia do Direito, vez ou outra um aluno pergunta: “Professor, isso cai em concurso?”. Se eu não tivesse lido o Mito de Sísifo de Albert Camus ou a ideia do Eterno Retorno de Nietzsche, talvez entrasse em desespero nessa hora e saísse da sala gritando: “De novo não! De novo não!”. Mas a filosofia me treinou e me deixou preparado para enfrentar coisas desagradáveis na vida, como ter de vincular a importância da minha disciplina à medíocre e tediosa variação do mercado de trabalho. Posso ser sincero? Não dou a mínima.

Publicado em 01 de janeiro de 2002