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Sonhar, mas um sonho possível...

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Depois de sonhar o impossível, de lutar sem ceder, de vencer o inimigo invencível e negar ao invés de ceder - desculpem-me a liberdade poética na versão particular da bela canção - chegou a hora de viver e cantar o Brasil possível. Começar o ano assim, tendo aquela alegria e sentindo o nó na garganta como milhões ao ver o Lula tomar posse na presidência, é como celebrar o começo de uma nova era. E ela será, sem dúvida, porque o clima de esperança, que está no ar neste "reencontro do Brasil consigo mesmo" (Lula, no discurso de posse), nos permitirá superar o secular divórcio entre economia e sociedade, entre o desenvolvimento do país e seu próprio povo.

As adversidades são muitas, mas assim mesmo existem condições para a almejada mudança. Criar a vontade política para promover as mudanças nas condições históricas do Brasil de hoje já é um feito fundamental. Vontade que se exprime em apostar na radicalidade do processo democrático e não das rupturas pela força. O pacto social, talvez a palavra mais ouvida desde a vitória eleitoral e nestes dias de ritual de transmissão de cargos políticos, foi a condição indispensável para Lula chegar lá. No entanto, pacto social nas democracias é pacto de incerteza, algo que só existe se renovado no dia a dia, na negociação política em torno a objetivos estratégicos comuns.

O Governo Lula exprime uma vontade política de "esquerda-centro". Parece estranho, mas é isto mesmo e não centro-esquerda. Precisamos ir inventando uma nova linguagem política, conceitos, para dar conta dos novos tempos. Trata-se de agenda de esquerda com visão democrática radical: solidariedade, justiça social, participação libertária, sustentabilidade no uso dos recursos e bens comuns. É a agenda de esquerda num quadro possível de aliança com o centro para imprimir um novo rumo ao desenvolvimento do Brasil. Isto é o novo. Ou alguém duvida? No complexo quadro de classes, forças e interesses sociais no Brasil de hoje é um grande feito, uma enorme novidade, trazer o centro para uma outra aliança política que não o toma-lá-dá-cá das oligarquias. Que vai ser difícil a gestão do pacto entre esquerda e centro ninguém duvida, inclusive porque todos e todas precisamos aprender a fazer isto.

Esta base política, prenhe de contradições, não me espanta. Espero que atravessemos o mar revolto no horizonte de 2003 mais fortalecidos, com o Conselho Econômico e Social funcionando e a cidadania alerta, além de um Congresso à altura da oportunidade histórica de ser grande e generoso. A equipe que o Lula montou parece adequada para dirigir o barco no rumo que a vontade popular traçou. O resto é com nós mesmos.

Por isto, volto ao sonho possível. Betinho, como um verdadeiro visionário político, dizia que a gente precisa sonhar grande para fazer grandes coisas. Grande para ele era o limite do possível, para muitos já o impossível. O possível grande no Brasil Lula da Silva é:

  • todo mundo comer segundo a sua fome, de preferência realizar o sonho de "um bife a cavalo com batatas fritas" ao menos uma vez por semana;
  • todas as famílias de trabalhadores rurais que desejam um pedaço de chão estarem assentadas, colhendo e vivendo de sua colheita e não mais obrigadas a acampar sob lonas de plástico;
  • toda brasileira e todo brasileiro adulto que deseja trabalhar e viver do seu trabalho, com renda monetária condizente, dignidade humana e proteção social, na forma que achar mais adequada, tenha realizado este direito;
  • nenhuma criança sendo obrigada a trabalhar e nem a se prostituir, tendo o direito de viver o seu tempo de sonho que são a infância e adolescência;
  • todas as nossas crianças na escola, sonhando e aprendendo, lendo e escrevendo, dançando, representando e fazendo esporte, como é próprio de crianças;
  • todos e todas jovens, que assim aspiram, tenham realizando o seu sonho de um curso universitário;
  • todas as nossas avós e nossos avôs sendo respeitados em sua idade e sabedoria, merecedores de carinho e atenção, além de oportunidades para uma vida ativa e feliz;
  • todos e todas tendo acesso ao atendimento de saúde, sem distinção de classe, renda ou qualquer outro critério, que não o do direito igual à saúde e à vida longa com alegria;
  • a segurança pública sendo afirmada como um direito de liberdade, de ir e vir, de viver em paz e dignidade, sem privilégios ou cidades partidas, sem violência e balas perdidas;
  • o Brasil, todas e todos nós, seus habitantes, reconhecendo que o racismo está encrostado em nossa alma e que, por mais difícil que seja, o reencontro consigo mesmo só será possível na igualdade com diversidade de cor de pele, de etnias, de culturas, de tradições, de fés, celebrando a nossa capacidade e fortaleza como povo de múltipla formação;
  • cada um e cada uma feliz em sua casa, por mais modesta que seja, mas sua, com cama, mesa, cadeira, acesso à água, luz, esgoto e transporte decente próximo;
  • os empresários finalmente sendo responsáveis socialmente, não tratando mais o Brasil e seu povo como um território e uma população a espoliar, mas como sendo os empreendedores de um desenvolvimento democrático e sustentável para todas e todos os brasileiros, investindo no país para além de seus negócios;
  • o mercado não mais sendo a referência suprema e nem os índices financeiros e econômicos, como termômetros técnicos, serem mais do que coisa de especialistas, sem maior interesse para a cidadania feliz do Brasil.
  • O direito de todas e todos serem simplesmente felizes.

Rio, 03.01.03.

Publicado em 01 de janeiro de 2002