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Um estranho gênero literário

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Os moralistas de plantão que me perdoem, mas não há nada mais tedioso na leitura das revistas semanais e dos jornais do que as matérias sobre corrupção. Parece ser um assunto obrigatório na imprensa escrita, tal qual a seção de resenhas literárias ou a de esporte. A leitura não é cansativa só porque as histórias parecem as mesmas (alguém usou alguma influência para negociar alguma coisa que afeta a ética ou a legalidade), mas fundamentalmente porque a narrativa jornalística tem um elemento bastante peculiar: ela é rápida demais, só tem ápice.

Geralmente, para se escrever um bom conto, uma novela, ou mesmo um romance, existe um punhado de técnicas canônicas. Se o autor quer prender o leitor ao texto, tornar o discurso instigante, produzir algo que não seja a fascinação da própria linguagem, a evidência dos próprios mecanismos do discurso, deve introduzir a situação-problema e guiar o leitor até um clímax. Depois, o fundamental é dar um desfecho à história. Encerrá-la de modo a fazer com que o leitor se surpreenda, espante-se ou tenha algum tipo de deleite estético. Num jornal, esse tipo de construção parece inviável.

O que acontece é que a manchete se torna o grande elemento do gênero jornalístico. A manchete nada mais é do que o clímax da história. Quando lemos uma matéria sobre corrupção, por exemplo, temos aquela sensação espasmódica de que pegamos o bonde andando. Por mais que os fatos anteriores ao escândalo sejam narrados, ficamos sempre com aquela impressão de quem entra no cinema com o filme pela metade. O pior é que as denúncias de corrupção parecem nunca ter desfecho. Antes que a história se esgote, ela sai das páginas dos jornais e é substituída por uma outra denúncia, que segue quase sempre o mesmo padrão. Mudam-se os personagens, mas o drama parece se repetir ad infinitum. Temos a sensação de estar lendo a mesma história, que começou em algum lugar que não sabemos qual é e que nunca termina.

Essa característica das narrativas de corrupção me deixa particularmente entediado.

Alguém pode dizer: "Não é instigante, mas é útil, pois contribui para a moralização da vida pública".

Isso também é questionável.

Geralmente, quando se passa à eleição, as denúncias deixam de ter o destaque que tinham antes. Elas parecem seguir o ritmo dos reagrupamentos das forças políticas.

Além disso, há a história do esgotamento. Com a avalanche de denúncias, nasce a tolerância. De tanto ver a mesma narrativa ser apresentada nos jornais e telejornais, o público perde a capacidade de se escandalizar e vai ficando manso, apático, entediado, acostumado ao assunto como se a corrupção fosse um dado natural e inerente à vida em sociedade. Parece muito com o que acontece com a overdose de crânios estourados e corpos crivados de bala que dançam todo dia em nossa telinha. Com o tempo, a audiência vai se acostumando e fica anestesiada. Este é um problema fundamental da comunicação de massa: o esvaziamento da capacidade de ação política.

O problema da corrupção surge na história do Ocidente quando passamos a acreditar na utopia hegeliana que diz ser o Estado um todo maior que a soma das partes e que ele deve estar acima dos interesses de grupos específicos. Construir esse Estado utópico requer um grande esforço coletivo. Nesse processo, a imprensa livre tem um papel fundamental, mas apenas quando não está a serviço dos mesmos grupos que depois vai denunciar.

Publicado em 01 de janeiro de 2002