O uso do jogo do varal dos números racionais como metodologia de ensino de Matemática em sala de aula

Raimundo José da Silva Ferreira

Licenciando em Matemática (IFMA - Campus Buriticupu)

Este relato de experiência foi desenvolvido em uma turma de 7º ano da escola Unidade Integrada Manoel Campos Sousa, localizada no distrito Vila Tropical, no município de Bom Jesus das Selvas/MA, onde atuo como professor de Matemática pelo programa Residência Pedagógica, fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação.

O objetivo principal desta prática educativa é tornar o ensino dos números racionais mais atrativos e dinâmicos aos alunos, por meio da inserção de jogos matemáticos em sala de aula. Essa atividade lúdica foi proposta a partir de uma prática pedagógica pouco produtiva de tal assunto; utilizaram-se apenas materiais comuns, como pincéis, lousa e livro didático, para a exemplificação e discussão desses conceitos.

Durante a prática em sala de aula, os educandos “pareciam estar em outro mundo”, estavam desestimulados, visto que muitas vezes diziam “ah, já vem o professor explicar aquelas frações chatas e difíceis de compreender”. E mais: a maioria deles não conseguia sequer comparar os números racionais.

Nessa lógica, percebeu-se que a metodologia adotada não tinha funcionado na prática. O que fazer diante de tal situação? Frente às necessidades encontradas no espaço escolar, procuramos repensar a didática utilizada, pois, segundo Veiga (1989, p. 67) “a Didática tem uma importante contribuição a dar em função de clarificar o papel político da educação, da escola e, mais especificamente, do ensino”. Além disso, a didática está intrinsecamente relacionada ao ato pedagógico composto pela aliança tríplice indissociável entre planejamento, execução e avaliação, possibilitando a apropriação de ações e modos de agir e pensar a prática pedagógica (Luckesi, 2011). Tendo em vista esses fatores, pensou-se na proposta do uso do “jogo do varal dos números racionais”, já que os jogos matemáticos constituem um ambiente mais divertido e estimulador no ensino e aprendizagem dos assuntos de Matemática.

Metodologia

No que diz respeito à natureza da pesquisa, adotou-se nesta intervenção pedagógica a pesquisa quantitativa, visto que, para Richardson (1999), ela é caracterizada pelo emprego da quantificação, tanto nas modalidades de coleta de informações quanto no tratamento delas por meio de técnicas estatísticas. Para tanto, aplicou-se não só a atividade lúdica como também um questionário de pesquisa composto de quatro questões de múltipla escolha, a fim de colher os dados após a prática pedagógica.

Participaram da ação pedagógica e, consequentemente, do jogo lúdico em sala de aula, dezessete alunos, com idades entre 11 e 16 anos.

O jogo

O jogo do varal dos números racionais tem características bem definidas.

Objetivos:

- Encontrar o valor decimal de um número racional;
- Representar esse número racional na reta numerada;
- Comparar os números racionais com os inteiros.

Materiais:

- Cada jogador tem uma ficha com número racional; esse número está contido no intervalo [-15, 15]. No varal, utilizou-se papel cortado com números inteiros variando no mesmo intervalo, clipes, pincel azul e vermelho, tesoura para cortar as fichas e corda, como está na Figura 1.

Modo de jogar:

- O professor distribui para cada discente uma ficha contendo um número racional fracionário. O primeiro jogador escolhido pelo professor deve pendurar sua ficha no varal tendo como referência o zero, já colocado. Em seguida, os próximos alunos colocam suas fichas no lugar adequado, observando as fichas já penduradas. A cada ficha que for sendo colocada, o professor questiona a turma sobre o porquê de ela ter ficado naquela posição. Ao final, os alunos copiam a reta resultante em seus cadernos. Essa atividade não terá vencedores. O modelo está disponível em: http://profliafigas.blogspot.com/2015/05/varal-dos-numeros-racionais.html.

Figura 1: Jogo do varal dos números racionais sendo praticado na sala de aula

Resultados e discussões

No ato pedagógico em sala de aula, a atividade lúdica evidenciou maior participação e interesse dos discentes no que tange ao conteúdo dos números racionais, alinhando-se, pois, às concepções de Miorim e Fiorentini (1990, p. 7), os quais afirmam que os jogos “podem vir no início de um novo conteúdo, com a finalidade de despertar o interesse da criança, ou no final, com o intuito de fixar a aprendizagem e reforçar o desenvolvimento de atitudes e habilidades”.

Neste artigo serão apresentados os resultados do questionário aplicado após a realização do jogo; as perguntas de cada questão se encontram nas descrições de cada gráfico.

Gráfico 1: O jogo desenvolvido capturou sua atenção?

Percebe-se, pelo Gráfico 1, que 88% dos discentes (15) disseram que houve maior atenção no desenvolvimento da dinâmica, contra apenas 12% dos discentes (2), fato que confirma o que sugerem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), pois a participação em jogos de grupo representa uma conquista cognitiva, emocional, moral e social para a criança, além de um estímulo para o desenvolvimento do seu raciocínio lógico em tais conceitos (Brasil, 1998).

Gráfico 2: Conseguiu entender os números racionais por meio do jogo utilizado?

De acordo com o Gráfico 2, é notório que a maioria dos discentes (88%) conseguiu entender o conteúdo a partir do jogo aplicado em sala de aula, confirmando assim os PCN, que relatam que os jogos em Matemática acarretam desafios genuínos gerando interesse e prazer aos discentes (Brasil, 1997). Além disso, para Grando (2000, p. 15),

a busca por um ensino que considere o aluno como sujeito do processo, que seja significativo para o aluno, que lhe proporcione um ambiente favorável à imaginação, à criação, à reflexão, enfim, à construção e que lhe possibilite um prazer em aprender, não pelo utilitarismo, mas pela investigação, ação e participação coletiva de um "todo" que constitui uma sociedade crítica e atuante, leva-nos a propor a inserção do jogo no ambiente educacional, de forma a conferir a esse ensino espaços lúdicos de aprendizagem.

Nesse raciocínio, entende-se que o uso de jogos como metodologia de ensino contribui para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem da Matemática.

Gráfico 3: Você achou a Matemática mais divertida e atraente por meio desse jogo?

Pelo Gráfico 3, entende-se que 94% dos alunos (16) acharam mais divertido tal conteúdo trabalhado na atividade lúdica, contra 6% (um aluno) apenas. Com esses resultados, compreende-se que nas aulas de Matemática é indispensável a inserção dos jogos, uma vez que trazem oportunidades tanto ao professor quanto ao aluno de sair um pouco do tradicionalismo do ensino, uma vez que “auxiliam o desenvolvimento de habilidades como observação, análise, levantamento de hipóteses, busca de suposições, reflexão, tomada de decisão, argumentação, e organização [...] ao assim chamado raciocínio lógico” (Smole; Diniz; Milani, 2007, p. 9).

Vale lembrar que, pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), “esses recursos e materiais precisam estar integrados a situações que propiciem a reflexão, contribuindo para a sistematização e a formalização dos conceitos matemáticos” (Brasil, 2017). Por isso, faz-se necessário refletir sobre o que se busca com o jogo, pois, “quando bem elaborados, eles podem ser vistos como uma estratégia de ensino que poderá atingir diferentes objetivos que variam desde o simples treinamento até a construção de determinado conhecimento” (Lara, 2011a, p. 21).

Gráfico 4: Os jogos matemáticos são instrumentos facilitadores do ensino de Matemática?

Baseado no Gráfico 4, entende-se que 82% dos estudantes (14) sugerem que os jogos matemáticos são ferramentas facilitadoras para os assuntos exemplificados na prática educativa em sala de aula; apenas 18% (3) discordaram, o que sustenta ainda mais a inserção do recurso aos jogos como estratégia de ensino-aprendizagem em Matemática, já que o professor de Matemática é considerado um educador intencional, porque necessita realizar não somente pesquisas relacionadas ao conteúdo, mas também realizá-las em conjunto com as metodologias a serem adotadas na transmissão e exposição de tais conteúdos (Barbosa; Carvalho, 2008).

Dessa forma, neste relato de experiência compreendemos que, de fato, as atividades lúdicas nas aulas de Matemática proporcionam maior interesse, atenção, participação nas discussões e tornam as aulas de Matemática, mais atraentes, divertidas e dinâmicas.

Referências

BARBOSA, Sandra Lucia Piola; CARVALHO, Túlio Oliveira de. Jogos matemáticos como metodologia de ensino-aprendizagem das operações com números inteiros. s/d. Disponível em: http://www.pucrs.br/ciencias/viali/tic_literatura/jogos/1948-8.pdf. Acesso em: 3 ago. 2019.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: Educação Infantil e Ensino Fundamental. Brasília: MEC/SEB, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/pdf. Acesso em: 2 ago. 2019.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática - terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: introdução. Brasília: MEC/SEF, 1998.

______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática. Brasília: MEC/SEF, 1997.

GRANDO, R. C. O conhecimento matemático e o uso de jogos na sala de aula. 2000. 239 f. Tese (Doutorado), Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2000.

LARA, I. C. M. Exames nacionais e as ‘verdades’ sobre a produção do professor de Matemática. 248 f. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2007.

LUCKESI, C. P. Avaliação das aprendizagens como componente do ato pedagógico. São Paulo: Cortez, 2011.

MIORIM, M. A.; FIORENTINI, D. Uma reflexão sobre o uso de materiais concretos e jogos no Ensino da Matemática. Boletim da SBEM, São Paulo, v. 4, nº 7, p. 7, 1990.

RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 1999.

SMOLE, Kátia Stocco; DINIZ, Maria Ignez; MILANI, Estela. Cadernos do Mathema: jogos de Matemática de 6º a 9º ano. Porto Alegre: Artmed, 2007.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro. A prática pedagógica do professor de Didática. 10ª ed. Campinas: Papirus, 1989.

Publicado em 07 de janeiro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

FERREIRA, Raimundo José da Silva. O uso do jogo do varal dos números racionais como metodologia de ensino de Matemática em sala de aula. Educação Pública, v. 20, nº 1, 7 de janeiro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/1/o-uso-do-jogo-do-varal-dos-numeros-racionais-como-metodologia-de-ensino-de-matematica-em-sala-de-aula