Educação Ambiental para a qualidade de vida a partir da utilização e descarte de medicamentos

Ronualdo Marques

Mestre em Ensino de Ciências (UTFPR)

Claudia Regina Xavier

Professora doutora do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental (UTFPR)

Os medicamentos têm papel de relevância em nossa sociedade, dada sua importância no combate às enfermidades, bem como de proporcionar o prolongamento da vida humana. No entanto, são também precursores de agravos à saúde, quando mal utilizados ou usados para fins diferentes de sua indicação terapêutica (Ueda et al., 2009), pois podem ser agentes tóxicos quando usados de forma errada.

Com a evolução dos medicamentos, além das vantagens no combate às doenças existem os problemas advindos de sua fabricação e utilização. As sobras de tratamentos anteriores ou mesmo a dispensação de medicamentos em quantidade superior ao tratamento devido e a prescrição incompleta ou incorreta, juntamente com a impossibilidade de fracionamento de alguns desses produtos (Eickhoff; Heineck; Seixas, 2009) podem causar o seu acúmulo e posterior perda do prazo de validade.

O Brasil é um dos maiores consumidores de medicamentos do mundo, que agrega uma cultura de automedicação à fácil aquisição desses produtos e ao incentivo da mídia; isso gera uso excessivo e, com isso, o acúmulo nas residências (Brasil, 2009). Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2018 o Brasil era o sexto maior mercado farmacêutico no ranking internacional, ficando atrás apenas de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Estima-se que, pelo crescimento acelerado, até 2022 o Brasil ocupe a quinta posição, ultrapassando a França. O acesso a farmácias e drogarias e a facilidade na aquisição de medicamentos no popularmente conhecido "balcão da farmácia" promovem um aumento no consumo de medicamentos pela maioria da população brasileira.

Isso posto, temos que as aquisições de medicamentos pela população nas drogarias ou farmácias devem ser feitas com as devidas orientações de um médico. Nesses estabelecimentos é dever do farmacêutico realizar a dispensação correta, explicando a posologia do medicamento e esclarecendo dúvidas. O acúmulo de medicamentos nas residências incentiva a automedicação e o descarte inapropriado. Com efeito, o acúmulo configura risco à saúde e ao meio ambiente (Gasparini; Gasparini; Frigieri, 2011).

A ANVISA respalda-se na Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, com a finalidade de preservar a saúde pública e proteger e melhorar a qualidade do meio ambiente. Essa lei também é integrante da Política Nacional do Meio Ambiente e articula-se com a Política Nacional de Educação Ambiental, regulada pela Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, com a Política Federal de Saneamento Básico, regulada pela Lei nº 11.445, de 2007, e com a Lei nº 11.107, de 6 de abril de 2005, que aborda o tratamento e à disposição final dos resíduos dos serviços de saúde (Brasil, 2010).

Como forma de contextualizar a temática do uso e descarte de medicamentos e promover ações de sensibilização e prevenção sobre os impactos à saúde e ao ambiente, foi desenvolvido e aplicado o Projeto de Ação na Escola para fomentar o processo de Educação Ambiental com base na responsabilidade social. Assim, este estudo tem por objetivo apresentar a relação dos estudantes com os medicamentos e sugerir medidas na comunidade escolar a fim de sensibilizar, conscientizar e orientar o correto descarte de medicamentos.

Metodologia

O estudo foi desenvolvido no Colégio Estadual Newton Ferreira da Costa, localizado em Curitiba/PR, no período de maio a dezembro de 2018. A amostra foi constituída de 285 estudantes do Ensino Fundamental e Médio.

A perspectiva adotada é a pesquisa participante, que se caracteriza como um tipo de pesquisa que não possui planejamento ou projeto anterior à prática; ele só será construído junto aos participantes. O pesquisador se incorpora ao grupo, confunde-se com ele e, por isso, enfrenta dificuldades para manter a objetividade, pelo fato de exercer influência no grupo e ser influenciado (Lakatos; Marconi, 2010).

As atividades foram divididas estrategicamente em três etapas: a primeira foi de sensibilização e sondagem por meio do serviço de formulário do Google Drive com objetivo de conhecer o nível de conhecimento dos alunos em relação ao uso e descarte de medicamentos.

Na segunda fase do projeto foram realizadas aulas expositivas, na quais foram trabalhadas as questões relativas ao uso e ao descarte de medicamentos no ambiente, bem como os efeitos nocivos para a degradação ambiental e as consequências para os recursos naturais e os seres vivos. Foram realizadas rodas de conversa para poder compreender as experiências e vivências dos participantes e traçar o perfil dos participantes e suas famílias em relação ao uso e descarte de medicamentos que pudessem contribuir de forma eficaz para abranger toda a comunidade escolar numa ação coletiva. Posteriormente ao estudo sobre os impactos negativos e a saúde, foi sugerido pelos estudantes, para que este conhecimento alcançasse um número maior de pessoas, visto que é um assunto que é deficitário nos meios de comunicação e até mesmo no ambiente escolar. 

Em seguida, foi realizada a produção de banners, folders, cartazes e coletores de medicamentos para a campanha de prevenção com a comunidade escolar e inauguração do ponto de coleta, alertando-os sobre os perigos de ter medicamentos em casa e o uso indevido deles.

Resultados e discussão

O Projeto de Educação Ambiental com a temática sobre o uso e descarte correto de medicamentos teve inicio no dia 5 de maio, que é lembrado por ser o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos. A data foi criada para alertar a população quanto aos riscos à saúde causados pela automedicação. É visto como importante marco para a pesquisa, pois parte do pressuposto de que o uso e descarte de medicamentos é um problema geral quando se retrata o uso indiscriminado de medicamentos e considera ainda que “a automedicação traz riscos à saúde, pois a ingestão de substâncias de forma inadequada pode causar reações como dependência, intoxicação e até a morte” (Brasil, 2015).

Primeiramente, foi realizado um diagnóstico com aplicação de um questionário inicial. Intentou-se que os participantes respondessem sobre suas concepções em relação ao uso e descarte de medicamentos. Verificou-se a relação e a frequência com que os estudantes fazem automedicação (Figura 1).

Figura 1: A relação dos estudantes quanto à  prática da automedicação

Figura 1: A relação dos estudantes quanto à prática da automedicação

Ao discutir os dados obtidos na Figura 1, os estudantes afirmam que grande parte dos medicamentos é adquirida com facilidade nas farmácias, sem indicação ou receita médica, prática essa que é destacada por eles como indutora à automedicação. Veem-se esses relatos como uma preocupação constante e alertando para os ricos com a automedicação há muito tempo; Pacheco (1978) e Garrafa (1983) já apontavam que pelo menos 35% dos medicamentos eram adquiridos no Brasil por meio de automedicação, tornando muitas vezes, abusivo, errôneo e indiscriminado o número de prescrições, equiparando ao que ocorre mundialmente.

A utilização de medicamentos é uma questão social que se faz presente na maioria das residências. Entretanto, são alarmantes os problemas oriundos desses medicamentos, entre eles, a automedicação, a intoxicação, o desperdício e o descarte incorreto feito pela população (Camillo; Iob; Petry, 2013).

Todavia, o brasileiro tende a se automedicar também porque não encontra disponibilidade dos serviços de saúde mais acessíveis; precisa ficar horas em uma fila e, às vezes, esperar dias e até meses para ser atendido por um médico. Muitas vezes, o baixo poder aquisitivo da população e a precariedade dos serviços de saúde contrastam com a facilidade de se obterem medicamentos sem pagamento de consulta e sem a exigência de receita médica em qualquer farmácia. Nesses locais, não raro, encontra-se o estímulo do balconista interessado em vender o medicamento. O alto consumo e o consumo de medicamentos de forma inadequada têm sido observados também entre as camadas mais privilegiadas da sociedade, uma vez que essa prática se dá pela herança cultural, de forma instintiva, sem qualquer base racional, pela facilidade de acesso, dentre outros motivos (Aquino, 2008).

Os participantes nas rodas de conversa relatam que existe uma facilidade muito grande para a aquisição de medicamentos em farmácias, sem nenhuma necessidade de receita. Para Garrafa (1983), nenhum fármaco é totalmente inócuo ao organismo; a incidência de efeitos indesejáveis aumenta a cada dia, levando à iatrogenia medicamentosa, causa de elevado índice de hospitalização.

O uso de medicamentos é essencial para a manutenção da saúde da população, porém a facilidade de aquisição e o incentivo da mídia geram um uso excessivo e, com isso, o acúmulo nas residências (Ferreira et al., 2005). De acordo com Medeiros, Moreira e Lopes (2014, p. 2), grande parte dos medicamentos

prescritos e adquiridos pela população acabam acumulando-se nas residências, seja de modo intencional ou não. Essas sobras habitualmente são descartadas no lixo comum, pelo esgoto ou são guardadas, formando a chamada “farmácia caseira”.

Evidencia-se que, pela facilidade da aquisição de medicamentos ou por não terminar o tratamento de forma correta, grande parte da população brasileira possui medicamentos em sua residência (estoque domiciliar), resultado também de sobras de tratamentos finalizados, dos que são comprados em quantidades desnecessárias e são guardados para serem utilizados futuramente (Oliveira, 2012).

Muitas vezes esse armazenamento não é adequado; os produtos ficam expostos a altas temperaturas ou em ambientes úmidos. E quando é necessário o seu consumo, na maioria das vezes não é avaliada a validade e o aspecto do medicamento, e quando é verificada a data de validade e o aspecto não tem mais condições para o uso e seu descarte acaba ocorrendo diretamente no lixo doméstico, esgoto ou em terrenos baldios.

Para que esses produtos tenham sua plena ação, devem estar em condições adequadas de uso e dentro do prazo de validade, que representa o tempo durante o qual o produto poderá ser usado, caracterizado como período de vida útil e fundamentado nos estudos de estabilidade específicos. Esses aspectos são importantes para a eficácia do tratamento e segurança do usuário. Após expirar o prazo de validade, os medicamentos vencidos devem ser inutilizados e descartados para evitar problemas como intoxicações, uso sem necessidade ou sem indicação, falta de efetividade, reações adversas e poluição do meio ambiente, entre outros (Brasil, 2010).

Porém, o grande investimento da mídia em propaganda, a facilidade de aquisição e o uso corriqueiro dos medicamentos por grande parte dos pacientes proporcionaram o acúmulo desses produtos nas residências, isentando os usuários dos riscos inerentes à sua manutenção. É importante que se realize a revisão periódica dos medicamentos que constituem a farmácia caseira pelo menos duas vezes por ano, pois aqueles vencidos e aqueles cujo uso já ocorreu devem ser descartados para evitar possíveis intoxicações ou ingestão errada do medicamento por troca (Fernandes; Petrovick, 2004). No entanto, observa-se que muitos não têm a preocupação quanto “à informação sobre o procedimento correto de descarte de medicamentos não utilizados ou vencidos” (Vettorazzi; Venazzi, 2008).

Partindo da concepção de que há sobra de medicamentos após o tratamento e que ficam armazenados com o prazo de validade vencido, investigou-se com os estudantes a percepção dos medicamentos vencidos em suas residências, como apresentamos na Figura 2.

Figura 2: Percepção sobre os medicamentos vencidos

Figura 2: Percepção sobre os medicamentos vencidos

Constatou-se que apenas 9% dos participantes têm percepção em relação aos medicamentos vencidos e que 49% não têm o hábito de verificação; somado a esses, 42% podem ou não verificar os prazos de validade de medicamentos armazenados em suas residências. Esse é um importante número para a sensibilização em relação a mudança de hábitos e práticas que podem ocasionar consequências ao próprio organismo.

O acúmulo de medicamentos, que na maioria das vezes acarreta a perda do seu vencimento, pode ocorrer por causa de falhas na continuidade do tratamento, quando o usuário compra o medicamento e não segue corretamente até o fim. No caso de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, existe a possibilidade de não adesão ao tratamento por parte do usuário principalmente por causa dos efeitos indesejáveis da droga ou pelo custo dos fármacos (Brum et al., 2007), além de sobras de tratamentos anteriores cujos medicamentos não ofereciam possibilidade de fracionamento, sendo vendidos em quantidade maior do que o prescrito.

Segundo Ferreira et al., (2005) manter estoque de medicamentos não consumidos nas residências é um fator de risco à saúde pela possibilidade de intoxicações provocadas por ingestão acidental ou pela automedicação; além disso, pode ocorrer diminuição da eficiência e segurança dos medicamentos causada pela falta de cuidados com a farmácia caseira (Bueno; Weber; Oliveira, 2009).

Para Fanhani et al. (2006), é importante a verificação da data de fabricação e do prazo de validade, porque essas datas representam a garantia de que o produto esteja em condições de consumo, caso armazenado adequadamente. Além disso, evita o armazenamento de medicamentos vencidos que podem ser responsáveis por possíveis intoxicações ou trocas.

É importante destacar que, após o início da utilização do medicamento, sua validade poderá divergir do prazo impresso na embalagem original, dependendo das condições de armazenamento, pois após a violação da embalagem o medicamento é exposto a agentes externos que podem provocar algum tipo de alteração.

Desse modo, após a conclusão de um tratamento, o correto é desprezar os medicamentos que restarem, especialmente quando se tratar de colírios, xaropes e outras preparações extemporâneas. Além disso, recomenda-se que seja descartado todo medicamento que o paciente não utilizar ao término de um ano (Fernandes; Petrovick, 2004, apud Fanhani et al., 2006).

Pesquisou-se a destinação dos medicamentos vencidos em suas residências, como está apresentado na Figura 3.

Figura 3: O que é feito com os medicamentos  vencidos em sua casa?

Figura 3: O que é feito com os medicamentos vencidos em sua casa?

Verificou-se que o lixo comum é a principal forma de descarte de medicamentos vencidos para 46% dos participantes; em outros estudos, o lixo comum é o principal destino nas residências no Brasil, como demonstra a porcentagem de 56% dos participantes na pesquisa de Marques e Xavier (2018); foram 56,87% dos entrevistados na pesquisa de Bueno, Weber e Oliveira (2009) no município de Ijuí/RS. Silva (2005) apontou que 83% dos entrevistados em seu estudo descartavam os medicamentos fora do prazo de validade no lixo domiciliar comum. Temos ainda que 82,8% dos entrevistados no estudo de Ferreira et al. (2005) utilizam o lixo doméstico para efetuar descarte de medicamentos vencidos; contudo, quando colocados no lixo, estão trazendo riscos à saúde e ao ambiente, pois, de acordo com Cruz et al. (2017), estudos comprovam que mais de 200 produtos farmacêuticos foram identificados nos sistemas de água doce no mundo, podendo contribuir com o desenvolvimento da resistência antimicrobiana.

Observa-se que 35% dos estudantes não sabem o que é feito com os medicamentos vencidos, confirmando os estudos de Vettorazzi e Venazzi (2008) quando constataram que a informação quanto ao procedimento correto de descarte de medicamentos não utilizados ou vencidos é desconhecida por grande parte da população.

Temos que 2% jogam no vaso sanitário e 13% entregaram em algum órgão de saúde de Curitiba, o que é correto, conforme a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 44/09, que institui que estabelecimentos podem participar de coleta coletiva de fármacos vencidos (Brasil, 2009). E ainda temos que 4% já utilizaram os medicamentos mesmo estando com o prazo de validade vencido. O consumo indevido de medicamentos, principalmente os de data de validade expirada, pode levar ao surgimento de reações adversas graves e intoxicações, entre outros problemas, comprometendo decisivamente a saúde e a qualidade de vida dos usuários (Brasil, 2015).

Bueno et al. (2009) corroboram que os resíduos de medicamentos são descartados de diferentes formas. Nos serviços de saúde, farmácias e distribuidoras, os resíduos devem ser submetidos a tratamento e disposição final específica. Nas residências, os medicamentos destinados ao descarte geralmente são depositados no lixo comum ou jogados na pia ou no vaso sanitário, o que é incorreto. Percebe-se que a população não sabe onde depositar seus resíduos de medicamentos.

O significativo consumo de medicamentos pelos brasileiros também resulta em elevado descarte desses produtos; para o ano de 2009, estimou-se um montante entre 10 e 28 mil toneladas jogadas no lixo doméstico por estarem vencidos ou terem sobrado após uso (Falqueto; Kligerman, 2013). Segundo Serafim et al.(2007), são descartados cerca de 20% dos medicamentos adquiridos.

O problema é sério, pois o descarte aleatório, seja no lixo comum, seja na rede pública de esgoto, traz como consequência a contaminação da água e do solo, afetando a saúde humana e a animal (Falqueto; Kligerman, 2013).

Considerando a relação dos participantes com a prática do descarte de medicamentos, buscou-se saber se eles já haviam recebido alguma orientação sobre armazenamento e descarte de medicamentos (Figura 4).

Figura 4: Orientação sobre armazenamento e  descarte de medicamentos

Figura 4: Orientação sobre armazenamento e descarte de medicamentos

A investigação com os participantes sobre terem recebido orientação sobre armazenamento e descarte de medicamentos foi dada numa escala de 1 a 5, onde 1 – discordo totalmente; 2 – discordo parcialmente; 3 – não concordo e nem discordo; 4 – concordo parcialmente e 5 – concordo totalmente; obteve-se que 27% dos participantes não concordam e nem discordam, 26% discordam totalmente, 20% concordam parcialmente, 18% concordam totalmente e 9% discordam parcialmente. Isso significa que efetivamente apenas 18% dos participantes já receberam informações sobre a maneira correta para armazenamento e descarte dos medicamentos e 26% nunca receberam qualquer tipo de informação ou orientação quanto aos cuidados com medicamentos.

Com base nesses dados, é preciso dar atenção maior e repensar a disposição desses medicamentos por todos os envolvidos no seu processo de venda, pois “o consumidor é uma peça-chave na solução do problema, mas, para que esse papel seja exercido de forma consciente e absoluta; é necessária a educação juntamente com a consciência ambiental e o acesso à informação ambientalmente correta, para que assim, com essa informação, possa exercer de forma plena a defesa da sustentabilidade e consumo responsável” (VETTORAZZI; VENAZZI, 2008; BUENO et al., 2009).

Assim, procurou-se compreender com os participantes se já receberam orientações sobre a coleta de medicamentos vencidos ou da sobra após tratamentos (Figura 5).

Figura 5: Informações sobre a coleta em  estabelecimentos de Curitiba

Figura 5: Informações sobre a coleta em estabelecimentos de Curitiba

Nessa averiguação, foi considerado que Curitiba/PR possui um grande quantitativo de estabelecimentos de saúde, como farmácias, hospitais, postos de saúde, UPA etc. Por isso, buscou-se saber se os participantes já foram informados sobre a existência de algum tipo de coleta ou coletor de medicamentos que não tem mais uso para eles ou vencidos. Foi dada uma escala de 1 a 5, onde 1 – discordo totalmente; 2 – discordo parcialmente; 3 – não concordo nem discordo; 4 – concordo parcialmente; e 5 – concordo totalmente. Obteve-se que 49% dos participantes discordam totalmente, ou seja, desconhecem qualquer orientação que tenha sido dada em unidades de saúde de Curitiba; 16% não concordam nem discordam sobre terem recebido informações; 13% discordam parcialmente; 13% concordam parcialmente e apenas 9% dos participantes concordam totalmente, evidenciando a necessidade de haver uma campanha contínua em relação à orientação e ao descarte de medicamentos.

Vale lembrar que o Paraná é referência na logística reversa de medicamentos desde 2012, quando foram promulgadas a Lei Municipal nº 13.978/12 e a Lei Estadual nº 17.211/12, que serviram de modelo para a implantação da logística reversa de medicamentos em todo o país, que inicialmente contou com a participação de aproximadamente 50 estabelecimentos ligados ao ramo da saúde (Paraná, 2014).

Para sistematizar o conhecimento cientifico visto à luz da teoria sobre as implicações do descarte incorreto de medicamentos no ambiente, iniciaram-se as ações para a campanha preventiva e informativa com os participantes atuando na comunidade escolar com a produção de fôlderes, banners, coletores de medicamentos para usar na campanha de coleta que pudessem abranger um maior número de pessoas e que fossem distribuídos de forma impressa e digital por meio de redes sociais, e-mail, WhatsApp etc.

Posteriormente, foi inaugurado o ponto de coleta de medicamentos vencidos baseado na comunidade escolar, com o ensejo de que alunos e o grêmio estudantil pudessem dar continuidade à campanha de recolhimento de medicamentos para a destinação final correta, como se mostra na Figura 6.

Figura 6: Materiais de divulgação sobre descarte  de medicamentos

Figura 6: Materiais de divulgação sobre descarte de medicamentos

A campanha se deu como resultado do Projeto de Educação Ambiental para a Sensibilização e Responsabilidade Socioambiental no Colégio Estadual Ferreira da Costa, em Curitiba/PR; inicialmente foi fundamentada num projeto para recebimento de medicamentos residenciais realizado pela Prefeitura de Curitiba, Conselho Regional de Farmácia, Sindicato dos Farmacêuticos e Universidade Federal do Paraná, sendo estruturada com base na legislação mencionada.

Ao introduzir os estudantes na campanha no cotidiano escolar, tem-se uma atividade reflexiva, renovadora e transformadora da realidade dentro e fora da sala de aula, pois é um conhecimento que induz à prática e ultrapassa as barreiras físicas da escola, desenvolvendo-se por todos os lugares a que esses multiplicadores de informação tenham acesso, visto que a falta de conhecimento impede que os estudantes e a comunidade escolar realizem práticas como o descarte de medicamentos de forma correta sem agredir a própria saúde e o meio ambiente.

Segundo Krasilchik (2005), “as atividades em grupo são mais produtivas do que as individuais, porque estimulam o espírito de cooperação e aumentam a discussão entre os jovens sobre as atividades que estão sendo executadas”. Além disso, no envolvimento das primeiras discussões do saber “senso comum”, perpassando o conhecimento cientifico nas diferentes áreas, percebe-se que os alunos reconhecem a importância da contextualização das informações adquiridas e tantas outras que poderiam contribuir para o estudo mais aprofundado sobre o descarte de medicamentos.

Considerações finais

Com a realização desse trabalho de Educação Ambiental pela perspectiva da utilização e do descarte de medicamentos para a promoção da qualidade de vida, foi possível verificar que os estudantes participantes e suas famílias mantêm hábitos inadequados de uso de medicamentos, pois a maioria desconhece a forma correta de seu descarte, recorrem à estocagem e os usa sem a devida prescrição médica, muitas vezes colocando em risco a própria saúde ou a de seus familiares e do ambiente. Além disso, o descarte é algo extremamente preocupante, visto que uma parcela da população ainda o faz em lixo comum, tendo como destino o contato com o solo e com a água, causando sua contaminação.

É notável a necessidade de intervenções constantes, que contribuam principalmente para a conscientização quanto à correta utilização e ao descarte de medicamentos, pois apenas divulgar informações não é suficiente. É preciso propor ações na comunidade escolar que possibilitem às pessoas assumir o seu papel de cidadãos responsáveis no ambiente em que vivem. Sendo assim, as ações deste projeto tiveram papel importante na sensibilização e conscientização da comunidade escolar, além de proporcionar reflexões relevantes a respeito dos nossos atos como seres que dependem dos recursos naturais para bem viver.

Pelos resultados alcançados, é necessário um alerta contínuo, além de propagar e fomentar constantes campanhas para sensibilização sobre impactos ambientais negativos a partir de ações antrópicas no ambiente, pois a escola, como instituição de grande influência na vida dos alunos, possibilita aos estudantes a sensibilização e o respeito com o meio ambiente, promovendo a Educação Ambiental e evidenciando suas potencialidades e suscitando a adoção de posturas pessoais e comportamentos sociais construtivos, colaborando para a construção de um ambiente saudável, além de cumprir sua função social.

Referências

ABRELPE. Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais.  Panorama dos resíduos sólidos no Brasil. 2014. Disponível em: http://www.abrelpe.org.br/Panorama/panorama2014.pdf. Acesso em: 10 set. 2019.

AQUINO, D. S. Por que o uso racional de medicamentos deve ser uma prioridade? Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 13, p. 733-736, abr. 2008.

BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, e dá outras providências. Brasília, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm. Acesso em: 05 set. 2019.

BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Homepage institucional. 2015. Disponível em: http://www.anisa.gov.br. Acesso em: 20 set. 2019.

BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução da Diretoria Colegiada - RDC Nº 44, de 17 de agosto de 2009. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2009/pdf/180809_rdc_44.pdf. Acesso em: 17 set. 2019.

BRUM, C. A. et al. Avaliação do estoque de medicamentos das residências da Região do Vale do Aço-MG. Rev. Bras. Farm., Coronel Fabriciano, v. 88, nº 4, p. 173-176, 2007.

BUENO, C.S.; WEBER, D.; OLIVEIRA, K. R. Farmácia caseira e descarte de medicamentos no bairro Luiz Fogliatto, do município de Ijuí/RS. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada, v. 30, nº 2, p. 75-82, 2009.

CAMILLO, E. G. S.; IOB, G. A.; PETRY, R. Análise da forma de descarte de medicamentos por usuários de uma unidade de saúde no município de Porto Alegre/RS. Rev. Inf. Ciênc. Farm., Porto Alegre, v. 25, nº 3, p. 118-124, 2013.

CRUZ, M. J. B. et al. Descarte de medicamentos em municípios do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, Brasil. Revista Visa em Debate: sociedade, ciência e tecnologia, v. 5(1), p. 84-90, 2017.

EICKHOFF, P.; HEINECK, I.; SEIXAS L. J. Gerenciamento e destinação final de medicamentos: uma discussão sobre o problema. Rev. Bras. Farm., v. 90(1), p. 64-68, 2009.

FALQUETO, E.; KLIGERMAN, D. C.; ASSUMPÇÃO, R. F. Como realizar o correto descarte de resíduos de medicamentos? Revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, p. 3.283-3.293, 2013.

FANHANI, H. R. et al. Avaliação domiciliar da utilização de medicamentos por moradores do Jardim Tarumã, município de Umuarama/PR. Arq. Ciênc. Saúde Unipar, Umuarama, v. 10, nº 3, p. 127-131, set./dez. 2006.

FERNANDES, L. C.; PETROVICK, P. R. Os medicamentos na farmácia caseira. In: SCHENKEL, E. P.; MENGUE, S. S.; PETROVICK, P. R. Cuidados com os medicamentos. 4ª ed. Florianópolis/Porto Alegre: Editora da UFSM/Editora da UFRGS, 2004.

FERREIRA, W. A.; SILVA, M. E. S. T.; PAULA, A. C. C. F. F.; RESENDE, C. A. M. B. Avaliação da farmácia caseira no município de Divinópolis – MG por estudantes do curso de farmácia da Unifenas. Infarma, v. 17, nº 7/9, p. 84-86, 2005.

GARRAFA, V. Contra o monopólio da saúde: temas para debate. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.

GASPARINI, J. C.; GASPARINI, A. R.; FRIGIERI, M. C. Estudo do descarte de medicamentos consciência ambiental no município de Catanduva/SP. Rev. Ciência & Tecnologia, v. 2, nº 1, p. 38-51, 2011.

KRASILCHIK, Myriam. Práticas de ensino de Biologia. 4ª ed. São Paulo: Edusp, 2005.

MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos da metodologia científica. 7ª ed. São Paulo: Atlas, 2010.

MARQUES, R.; XAVIER, C. R. Responsabilidade socioambiental a partir da utilização e descarte de medicamentos. Revista Brasileira de Educação Ambiental, São Paulo, v. 13, nº 1, p. 174-189, dez. 2018.

MEDEIROS, M. S. G.; MOREIRA, L. M. F.; LOPES, C. C. G. O. Descarte de medicamentos: programas de recolhimento e novos desafios. Rev. Ciênc. Farm. Básica Apl., v. 35(4), p. 651-662, 2014.

OLIVEIRA, C. S. A. Atuação da administração pública no desenvolvimento sustentável. Revista Ciências Humanas, Taubaté, v. 3, nº 01, 2012.

PACHECO, M. V. A. A máfia dos remédios. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. (Coleção Retrato do Brasil)

PARANA. Projeto piloto para descarte de resíduos de medicamentos domiciliares no município de Curitiba: “Medicamento não é lixo: Descarte no lugar certo”. Curitiba, 2014. Disponível em: https://crfpr.org.br/uploads/noticia/13799/Projeto_para_Descarte_de_Resduos_de_Medicamentos_Domiciliares_no_municipio_de_Curitiba.pdf. Acesso em: 01 set. 2019.

SERAFIM, E. O. P. et al. Qualidade dos medicamentos contendo dipirona encontrados nas residências de Araraquara e sua relação com a atenção farmacêutica. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas, v. 43, nº 1, jan./mar. 2007.

SILVA, E. R. Problematizando o descarte de medicamentos vencidos: para onde destinar? 50 f. Monografia (Curso Técnico de Nível Médio em Vigilância Sanitária e Saúde Ambiental), Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio – Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: http://www.epsjv.fiocruz.br/beb/Monografias2005/evelyn.pdf. Acesso em: 18 set. 2019.

UEDA, J.; TAVERNARO, R.; MAROSTEGA, V.; PAVAN, W. Impacto ambiental do descarte de fármacos e estudo da conscientização da população a respeito do problema. Rev. Ci. Amb., v. 5(1), p. 1-6, 2009.

VETTORAZZI, K. M.; VENAZZI, K. F. Responsabilidade socioambiental dos produtores de medicamentos e farmácias sobre os resíduos sólidos de saúde: a logística reversa como possibilidade de coleta e correta destinação. FAE – Centro Universitário, Cascavel-PR, nov. 2008.

Publicado em 31 de março de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MARQUES, Ronualdo; XAVIER, Claudia Regina. Educação Ambiental para a qualidade de vida a partir da utilização e descarte de medicamentos. Educação Pública, v. 20, nº 12, 31 de março de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/13/educacao-ambiental-para-a-qualidade-de-vida-a-partir-da-utilizacao-e-descarte-de-medicamentos