Orientação Educacional – mediação e intervenção diante da indisciplina escolar

Claudio Marcio dos Santos

Pós-graduado lato sensu em Supervisão e Orientação Educacional (Unicid)

O objetivo de escrever sobre como intermediar a relação docente-discente com informações teóricas e práticas para que eles consigam, a partir do entendimento das causas da indisciplina, utilizá-la como forma de aprendizagem, numa melhor interação da família com a escola e torná-la uma aliada no desenvolvimento do conteúdo, ocorreu em virtude da conclusão da licenciatura em Pedagogia, quando publiquei um artigo, “Indisciplina – uma forma de aprendizagem”, e um professor, após me ver fazer a exposição no Congresso da Faculdade de Belford Roxo, me fez a seguinte proposição: “Gostei muito de seu artigo, mas eu gostaria de saber: daria certo na prática?”. Após minha graduação, prestei concurso para o Estado e passei, tornando-me professor de Ensino Religioso, articulador pedagógico e responsável pelo Acompanhamento de Frequência e Programas Sociais (R.A.F.), acumulando assim funções que me permitiram atuar orientando alunos, ajudando professores e me reunindo com pais, ao mesmo tempo que compartilhava, como professor, os dissabores dos colegas, que demonstravam sua insatisfação e dificuldade em lecionar em algumas turmas em que os alunos agiam com indiferença, resistência e, segundo alguns docentes, “não queriam nada com coisa nenhuma”. Essa experiência tão recente e tão profunda me permitiu constatar na prática aquele questionamento do meu professor na faculdade.

Passei a investigar – o que já fazia parte de meu trabalho como articulador – o porquê da indisciplina e se realmente ela poderia ser uma aliada. Já havia concluído isso em meu artigo da licenciatura, porém a proposta deste artigo é ir ao encontro dos atores que colidem e não se harmonizam diante da indisciplina, lamentavelmente criando, em alguns casos, um conflito entre educador e educando, família e escola, em que se faz necessária a presença do orientador, intervindo diante desses conflitos de relacionamentos, e em outras vezes a presença do supervisor apoiando o docente, dando-lhe suporte, para que possa utilizar metodologias que lhe permitam suplantar suas deficiências de relacionamento com o discente.

Não se pode tratar um doente sem saber qual sua doença. Não se pode combater a indisciplina e promover a aprendizagem sem compreender o que leva o aluno a se indisciplinar e por que não tem interesse pela disciplina como matéria e prática de regras. Lidar com essas questões é imprescindível, mas com a consciência de que não é possível achar soluções simplistas, ou seja, não é acusando os pais, a sociedade ou o próprio aluno que vamos achar a causa da indisciplina, tampouco podemos considerar que o indisciplinado é alguém que não tem jeito e jamais conseguirá aprender.

Então surge o questionamento: o que fazer diante da indisciplina? Se o aluno é tão vítima quanto o professor, então como encontrar a solução para acabar com a indisciplina em sala de aula? É aí que nossa pesquisa se propôs a investigar o que está além da sala de aula e, podemos assim dizer, além do próprio comportamento do educando. Não pretendíamos ficar apenas no achismo, propusemo-nos a considerar teóricos que nos fizeram repensar a forma como vínhamos olhando o conflito Ensino-Aprendizagem x Indisciplina. Vygotsky (1991) permite uma aproximação do educando que no dia a dia parece-nos difícil, mas que se faz imprescindível para podermos intermediar a relação docente-discente. A ZDP – zona de desenvolvimento proximal descrita por ele é uma forma que temos de possibilitar ao educando melhor desempenho, pois considera seu próprio aprendizado anterior à escola e o amplia, mediando o ex-ante e o ex-post do educando, permitindo que ele consiga conhecer e desenvolver o que conhece, respeitando suas limitações, potencialidades e possibilidades – nos faz considerar o quanto precisamos conhecer nossos alunos, porém não traz uma solução imediata do problema, embora nos direcione em um caminho dinâmico e construtor de saberes. Tão importante e necessário quanto o teórico anterior, Wallon (2013) conduz a um olhar diferenciado sobre o educando – faz compreender o sujeito emotivo que está inserido em nossa sala de aula, que precisa de afeto para sobreviver e se desenvolver; quando isso não ocorre, esse educando reage de diversas formas, culminando muitas vezes na indisciplina escolar. Na profissão docente, não se pode simplesmente estar professor, mas ser facilitador, envolver-se e sentir-se coparticipante da transformação do sujeito-ser discente, pois ele é um cidadão de direitos que precisa ser compreendido, direcionado, apoiado e amado pelo professor. Isso Wallon (2013) propõe com tanta veemência que faz refletir: a docência não seria mais que uma profissão? Um sacerdócio em si? Com certeza, uma profissão-sacerdócio que constrói saberes em conjunto, pois quem se senta à nossa frente para aprender tem sentimentos e emoções que oscilam, como as nossas, que fazem nossos alunos se animarem ou se revoltarem; porém, a exemplo do que já dissemos sobre a ZDP, isso possibilitou tal entendimento ter mais força para caminhar em busca de uma compreensão de como solucionar esse conflito. Faltava-nos ainda, entretanto, algo ou alguém que nos permitisse completar a tríade: Jean Piaget (2010) propõe um desenvolvimento da inteligência humana em função de interações sociais possíveis numa troca equilibrada de pensamentos, pois o desenvolvimento biológico busca equilibrar-se numa relação social que passa da coercitividade para a cooperatividade, ou seja, o educando que em sua socialização na infância recebia as informações sem questionar (pois assim se fazia necessário) chega à adolescência com suas operações mentais prontas a cooperar, tendo que construir sua personalidade em meio a uma ética de relação social – sim, o desenvolvimento do indivíduo de maneira biológica traz à luz as diversas mutações que influenciam seu comportamento.

Com esses teóricos, parecia-nos que tínhamos fechado nossa equipe, porém faltava-nos ainda um complemento para darmos início à nossa pesquisa, sem o qual teríamos grande dificuldade em desenvolvermos nossas atividades. Esse teórico permite honrar nosso povo e nossa pátria, e, unindo-se a esse seleto elenco de teóricos da Psicogenética, fomos buscar o embasamento da formação docente focada em uma experiência genuinamente brasileira, humana e prática: a Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire (Freire, 2011), que se preocupa em desenvolver o saber a partir do ser e não do ter, do doar-se para alguém e não tomar de alguém. Freire propõe uma desconstrução contínua do processo de construção conjunta de saberes, em que o educador tem domínio do conteúdo, mas não do processo de aprendizagem, pois este é diferente a cada aula, que é viva, dinâmica, surpreendente e criativa –; o mestre brasileiro que, com sua capacidade de ir aonde o aluno está, pode desenvolver uma pedagogia focada no sujeito que sofre e pode se libertar.

Porém, diante do que já tínhamos conseguido – o que deveríamos fazer e o por que fazer – restava-nos ainda um elemento: o como fazer. Não tivemos dificuldades em escolher o método, só procuramos ser criteriosos, pois dialogar com Vygotsky (1991), Freire (2011), Piaget (2010) e Wallon (2013) é algo que nos conduz a um diálogo maduro, porém comprometido com o ser que se desenvolve e não aceita uma informação escolar simplista, diante de tantas informações seculares; exige uma base mais que teórica, algo bem prático. Utilizamos a pesquisa bibliográfica, pois ela tornou-se uma das possibilidades de irmos em busca de informações, não nos esquecendo das tecnologias de informação e comunicação (as TIC), que, por intermédio da internet permitem ter acesso a sites confiáveis e respeitáveis, mas, conforme aprendemos na estrada pedagógica, precisávamos de outro componente para corroborar ainda mais o nosso intento: a entrevista semiestruturada. Esse tipo de entrevista está focalizado em um assunto sobre o qual confeccionamos um roteiro com perguntas principais, complementadas por outras questões inerentes às circunstâncias momentâneas à entrevista. Para Manzini, esse tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais livre, e as respostas não estão condicionadas a uma padronização de alternativas (Manzini, 2004, p. 58-59).

Iniciamos nossa pesquisa com determinação, motivo pelo qual nos debruçamos sobre livros, conversamos com colegas do magistério, reunimo-nos com pais, alunos e Coordenação Pedagógica, pois compreendemos que algo pode e precisa ser feito com certa urgência; tendo em vista a proposta do artigo, falta-nos espaço para discorrer sobre toda a dinâmica construída, porém, mesmo sendo sintéticos, não deixaremos de ser profundos em nossa exposição.

Não podemos ficar indiferentes diante do que tem ocorrido na educação: alunos, tanto da escola pública quanto da rede privada sem querer aprender, sem motivação para estudar. Parecem ter perdido a total credibilidade no ensino, na instituição escolar; isso já é ruim, mas somado a esse fato temos o outro lado: profissionais de educação que também têm perdido a esperança, que estão indo para a sala de aula cumprir horário. Sentem-se desmotivados, pois seus esforços parecem em vão. Porém, em meio a questionamentos, desinteresses, falta de estímulo, o profissional de Supervisão e Orientação Educacional não surge como um super-herói, como solucionador de diversos problemas, mas como alguém que, lançando um olhar diferenciado, consegue visualizar o que tem atingido a ambos, estendendo-se à sociedade.

Sabemos que encontraremos dificuldades, alguns caminhos espinhosos, porém, nada que nos tire do foco, pois nossos objetivos de compreender a disciplina e a indisciplina; de fomentar a construção de saberes: formação docente e aprendizado discente e de aproximar a família e a escola estão bem claros para nós; são eles que nos conduzirão firmes em nosso propósito.

Compreendendo a disciplina

Este é o verbete “Disciplina”, no Novo Dicionário Aurélio (Ferreira, 1999):

[Do lat. disciplina.]. S. f.: 1. Regime de ordem imposta ou livremente consentida. 2. Ordem que convém ao funcionamento regular duma organização (militar, escolar etc.). 3. Relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor. 4. Observância de preceitos ou normas. 5. Submissão a um regulamento. 6. Ensino, instrução, educação.

A disciplina propõe leis, ordens, regras que regem as ações das pessoas; isso parece bem simples, no entanto, a desobediência a essas regras implica a infração, insubordinação ou indisciplina. A questão que procuramos avaliar é a seguinte: toda quebra de disciplina deve ser vista como má? Toda disciplina é essencialmente boa e/ou perfeita? A geração da década de 1970 lutou contra a disciplina rígida e punitiva, ou seja, a disciplina que castiga. O senso comum estabelece uma relação entre disciplina e castigo: punição. Sendo assim, disciplinar alguém sempre foi considerado como castigar ou corrigir. Mas, insistindo nessa reflexão, proponho a seguinte avaliação: a disciplina pode ser nociva quando ela impede o indivíduo de exercer seu livre arbítrio, sua potencialidade crítica, sua capacidade de questionar e propor suas ideias, ainda que elas sejam diferentes da ideia da maioria das pessoas; quando a disciplina formata e cerceia o pensar, ela se coloca como ditadora. É com esse ponto da disciplina que devemos ter cuidado ao exercer a aplicação das regras, pois punir é mais fácil do que permitir a mudança de paradigmas.

Como propõe Antunes (2007, p. 89), acreditamos que seja uma das melhores maneiras de vislumbrar e aplicar a disciplina em sala de aula:

a disciplina não pode, jamais, chegar ao aluno como uma ordem, um castigo, um imperativo que, partindo do mais forte, dirige-se ao oprimido em nome de seu conforto pessoal, mas como ‘produto’ de debate, reflexão, estudo de caso e análise em que se descobre a hierarquia de povos disciplinados sobre clãs sem mando ou sobre sociedades oprimidas.

Stirner (2001 apud Oliveira, 2011) ressalta a questão da disciplina que formata, impedindo ao discente construir saberes e se indisciplinar:

[Os locais de ensino] não se contentam, ao contrário, com formar pessoas de bom senso; não visam, para dizer a verdade, a formar pessoas ouvindo a voz da razão. (...) Em pedagogia, como em outros campos, a liberdade não pode expressar-se, nossa faculdade de oposição não pode exprimir-se; exigem apenas a submissão. O único objetivo é adestrar à forma e à matéria: do estábulo dos humanistas não saem senão letrados, do estábulo dos realistas, só cidadãos utilizáveis e, em ambos os casos, nada além de indivíduos submissos. Sufocam pela força nossa saudável tendência à indisciplina e impedem ao mesmo tempo o Saber de desenvolver-se em Vontade livre.

A disciplina é imprescindível no processo de ensino-aprendizagem e deve promover junto ao educando o exercício de sua cidadania, não podando seu senso crítico, mas direcionando-o para um viver em sociedade. É possível ter disciplina, aplicar a disciplina, sem ter apenas o viés de um adestramento, de um vigiar ou de um punir (Foucault, 1987).

Citamos mais uma vez Stirner (2001):

Todavia, a educação deve ser pessoal, mestre do Saber e guardar constantemente no espírito esse caráter essencial do Saber: não ser em nenhum caso objeto de posse, mas ser o próprio Eu. Numa palavra, não se deve inculcar o Saber, mas conduzir o indivíduo a seu pleno desenvolvimento; a pedagogia não pode mais partir da ideia de civilizar, mas da ideia de desenvolver pessoas livres, caracteres soberanos. É preciso, então, cessar de enfraquecer a Vontade, até o presente, sempre tão brutalmente oprimida. E porquanto não se enfraquece o desejo de saber, por que enfraquecer o desejo de querer? Visto que um é nutrido, que o outro também o seja. A teimosia e a indisciplina da criança têm tantos direitos quanto seu desejo de saber.

A indisciplina apresentada por Stirner precisa ser recuperada em nossa forma de educar, visando não a uma formatação do indivíduo, mas à condução da descoberta do mundo, a partir de sua realidade, permitindo-lhe ser crítico do saber aprendido, contestador das circunstâncias vivenciadas e capaz de utilizar essa indisciplina como instrumento de desenvolvimento de suas potencialidades, na construção de saberes e na constituição de pessoas capazes de exercer sua cidadania em sala de aula. Não digamos ao aluno: “sente-se, cale-se, você está errado...”, mas proporcionemos a ele a utilização desse potencial questionador como direito de interação na aula, revendo o próprio plano de aula (que deve ser flexível no processo de construção de saberes), não “engessando” o aprendizado, porém respeitando o saber do aluno. Certamente é algo que poderemos considerar ao entrar em sala de aula: os saberes dos educandos, o que vivenciam e como canalizam essas múltiplas realidades em prol de seu aprendizado.

Indisciplinados famosos e inteligentes

Galileu Galilei não considerou o que a Igreja dizia como sendo a regra que não pode ser questionada, mas propôs uma visão científica e correta, porém que era uma grave indisciplina contra o sistema. Isaac Newton não foi um brilhante aluno, segundo os moldes da educação de sua época; no entanto, sua capacidade criativa e inventiva, considerada fora do padrão da disciplina escolar, permitiu que se tornasse um gênio. O que dizer de Freud? Um neurologista pervertido, por não aceitar o que em sua época era o politicamente aceitável: crianças não têm sexualidade; ele, contrariando – se indisciplinando – os parâmetros da Psicologia e da sociedade médica, propõe o absurdo da Psicanálise e torna-se o pai de uma nova visão da psique. Albert Einstein tinha desprezo à decoreba e era considerado arrogante pelo sistema por conta disso; porém essas questões não o impediram de ser um grande aprendiz e cientista, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1921.

A indisciplina não tem apenas características negativas, de bagunça e desordem; é capaz de construir saberes e desenvolver talentos, quando é sublimada e direcionada pelo educador – facilitador desse processo de aprendizagem – que propõe o conteúdo escolar e permite ao educando aceitar ou não o que lhe é ensinado, ouvindo os motivos dessa aceitação ou rejeição, iniciando assim o aprendizado, não por memorização de conteúdo, mas por confrontação de saberes: de sua convivência familiar/comunitária e o currículo escolar.

Origem da indisciplina

Qual a razão da indisciplina escolar? Se existe realmente um viés construtor por trás da indisciplina do aluno, por que razão a escola não consegue aproveitar essa indisciplina na construção de saberes? A escola de cem anos atrás não é a mesma de nossos dias; a sociedade mudou, e o aluno de hoje interage de forma diferente do aluno de cem anos atrás. Em outras palavras, o que o aluno espera da escola e o que a escola espera do aluno? A escola somente poderá transformar a realidade onde está inserida quando identificar-se, entender o seu papel como organismo e não mais somente como instituição.

O conflito de saberes torna-se frequente e originador da indisciplina, pois as perspectivas não são congruentes, tendo de um lado o representante da escola, o professor, e do outro lado o representante da comunidade, o aluno. O que perpassa a cabeça do professor e do aluno, a partir desse encontro, é um conflito de interesses, em que o educador quer transmitir o conteúdo de sua disciplina e o educando não consegue entender o propósito desse conteúdo; as consequências são as mais diversas, culminando em um desencontro entre o sistema teórico docente e a prática discente. Os parâmetros escolares colidem com os do meio social onde o educando está inserido.

Segundo Vasconcelos (1997, p. 245), “muitos problemas de indisciplina têm origem na questão do desrespeito”, expressado por parte dos alunos – entram e saem da sala sem pedir licença, conversam diversos assuntos paralelos, agridem colegas, não fazem os exercícios propostos e ignoram a autoridade do professor – e dissimulado por parte dos professores – que ao rotular seus alunos acabam inviabilizando o processo de ensino aprendizagem. Então a indisciplina parece também surgir da confrontação entre discente e docente. Saberes que deveriam ser integralizados enfrentam-se, impedindo o processo de aprendizagem de ocorrer. Uma disputa de poderes em que quem sabe mais nem sempre sai ganhando e quem sabe menos não se importa em perder ou ganhar, quer mesmo é provocar o confronto. Eis então as consequências da indisciplina: não aprendizado, violência, estresse e um caos cujas dimensões atingem a escola, a comunidade, a família e a sociedade como um todo.

O papel do educador – finalidade e atuação

Qual é o papel do educador em pleno século XXI? Um disciplinador? Um amigo de seus alunos? Um transmissor de informações? Quando nem o professor consegue responder a esses questionamentos, algo de muito desagradável passa a acontecer em sala de aula: disciplinas que são ministradas sem foco/finalidade. A atuação do educador torna-se pífia e, em alguns casos, efêmera.

Segundo Freire (2011, p. 24), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Então o papel do educador pode ser entendido como um facilitador, alguém que prepara o terreno para o desenvolvimento do saber. Freire (2011, p. 25) continua:

Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém.

Eis aí a atuação conjunta: um tem necessidade de aprender, o outro identifica essa necessidade e supre-a; à medida que essa necessidade começa a ser suprida, o educando constata o que ela pode lhe proporcionar; isto faz brotar o desejo pelo aprendizado, e mais uma vez a atuação do educador se faz necessária e imprescindível; esclarece Teresa Cristina Aquino (1996, p. 94) que Vygotsky (1991) “chama a atenção também para o importante papel mediador exercido por outras pessoas nos processos de formação dos conhecimentos, habilidades de raciocínio e procedimentos comportamentais de cada sujeito”. É nessa aproximação – ZDP – Zona de Desenvolvimento Proximal (a distância entre as práticas que uma criança já domina e as atividades nas quais ela ainda depende de ajuda) que ocorre a interação de saberes. Por isso, ensinar não é transferir conteúdo, é um inter-relacionamento entre o educador e o educando, uma cumplicidade que deve ocorrer no cenário educacional e continuado em sua comunidade.

Muitos educadores não conseguem entender que o seu papel é comunicar-se com seus alunos, e que a comunicação não ocorre apenas com palavras, mas de outras formas. Sérgio Miranda (1999, p. 32), esclarece que “o conteúdo é fundamental, mas se não for bem colocado não atinge o ouvinte, e em vão terá sido gasto o seu verbo”. Miranda (1999, p. 32-33) demonstra que existem três elementos para uma boa comunicação:

o Conteúdo (ou a palavra) representa 7% dessa influência [...], alguns professores, advogados, padres, pastores etc. [...], que foram famosos no passado pelo conhecimento e pela erudição que possuíam, hoje não conseguem atrair nem convencer plateia alguma, pois lhes faltam os principais componentes da influência: o Tom de Voz, que representa 38% dessa influência, e a Fisiologia (linguagem do corpo), que aparece como principal fator, com 55%.

Fica mais claro compreender que o papel do professor e sua atuação devem ser harmônicos com o ritmo de seus alunos. Não consiste apenas em estar preparado para dar o conteúdo, mas sim ter um tom de voz audível e claro, sem ruídos, e uma fisiologia que permita ao educando interpretar o que ele realmente quer dizer. Ou seja, é preciso estar em harmonia com seus alunos para poder ajudá-los.

Os professores Romário Silveira Machado e Abner Lopes, com mais de dez anos de magistério, atuam em escolas municipais da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro (Abner em Japeri e Romário em Duque de Caxias, ambos no Ensino Fundamental), e se deparam cotidianamente com esta realidade: a indisciplina escolar.

Em entrevista realizada com o professor Romário, sobre o que pensa da indisciplina, foi possível perceber que há um consenso quanto à necessidade do professor de rever a sua prática, pois o aluno nem sempre está interessado no conteúdo ensinado; se faz necessário então que o educador busque outra prática, outro caminho para captar a atenção daquele aluno.

Algo marcante nessa entrevista é quando o professor chama o aluno de cliente, afirmando que o não conhecimento do professor da clientela com a qual trabalha compromete todo o processo de ensino-aprendizagem, impedindo-o de ter êxito, pois desconhece a comunidade, o público-alvo – seus alunos:

Agora uma outra questão importantíssima é ele conhecer a clientela com a qual ele está trabalhando. Eu tenho experiências, converso muito sobre sindicato, então converso muito com professores que dominam tudo isso, mas não conhecem, eles não têm êxito no seu trabalho, pois eles não conhecem a comunidade, não conhecem a clientela, não conhecem os alunos com os quais está trabalhando.

O aluno nem sempre quer aprender o que o professor ensina; o que fazer? Trabalhar o conteúdo a partir da realidade que o aluno traz de casa, da sua família e comunidade, por exemplo, a violência urbana, a falta d’água, a discriminação, o preconceito, a dificuldade financeira, isso permite ao educando tornar-se crítico dessa realidade, ter argumentos e ferramentas para confrontá-la. Sendo assim, ao aprender Matemática saberá como usá-la na economia doméstica, a Língua Portuguesa para saber se posicionar e reivindicar seus direitos, a Geografia para conhecer e interferir positivamente em sua demografia, a História para saber como as coisas ocorreram... Uma aula assim, não imposta, mas mediada e direcionada pelo educador, torna-se dinâmica e capaz de produzir interesse nos educandos. Nas palavras do professor entrevistado:

Muitas vezes aqueles objetivos que ele traz que é o que tá na grade curricular que ele deve seguir, não é aquilo que o aluno quer aprender. A riqueza que o aluno traz de casa, traz da cultura, traz da favela, traz da comunidade, que pode ser trabalhado. O professor muitas vezes não está preparado para aproveitar o que o aluno traz e trabalhar esses conteúdos.

Quando o educador faz o seu papel e atua conforme se faz necessário, algo mais deve ocorrer para que o aprendizado continue e seja expandido, pois o educando não está sendo ensinado apenas para fazer provas, mas sim para o exercício da cidadania.

Outra questão que, como educador, não se pode ignorar é o quantitativo em sala de aula, conforme expõe o professor Abner:

Numa turma de 35 alunos eu fico impossibilitado de fazer um círculo, por exemplo, porque não tem condições, com 35 alunos dentro de uma sala de aula, o sistema faz com que você vá seguindo as regras dele, que é botar os alunos um atrás do outro, que é manter os alunos todos calados ao mesmo tempo, como se fosse algo obrigatório, eu acho que, em vez dos alunos ficarem calados simplesmente, eles precisam ter uma atividade em que eles se envolvam mais, aí eles vão se manter, eu não digo calados, mas conversando entre si, sabendo que estão conversando com o seu grupo e não discutindo.

Em relação ao exposto, percebemos que o sistema muitas vezes não possibilita ao educador uma estrutura para desenvolver sua aula, porém suas habilidades e competências e seu embasamento didático o fazem ser não um disciplinador, mas sim seguir um caminho que lhe possibilite lidar com esse tipo de indisciplina e gerar uma aula produtiva, participativa e frutífera.

A família do educando – contribuição e importância

A base da educação inicia-se em família; sua continuidade permanece na família, tendo a escola o papel de organizar e direcionar os alunos em prol da construção e manutenção de sua cidadania, e a participação da família é imprescindível no processo ensino-aprendizagem.

Segundo um provérbio africano, “É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”; não podemos lançar sobre a família a exclusividade da educação, tampouco à escola a responsabilidade da instrução. O que deve ser feito então: família e escola, pais e educadores devem coparticipar desse processo de construção de saberes, numa cumplicidade em que cada instituição complementa a outra. Alves (2006, p. 23) recomenda aos pais e professores: “nunca perguntem a um aluno se ele já estudou, mas, sim, se ele sabe estudar”. A contribuição da família está em averiguar se seu(sua) filho(a) sabe estudar. Isso independe de formação acadêmica. É uma educação que começa em casa, é ampliada na escola e continuada na relação familiar. Mas como os pais ou responsáveis pela criança podem contribuir quando não têm formação? A resposta está na relação entre escola e família, como propõe o Manifesto dos Pioneiros, de 1932:

Por isso, o Estado, longe de prescindir da família, deve assentar o trabalho da educação no apoio que ela dá à escola e na colaboração efetiva entre pais e professores, entre os quais, essa obra profundamente social tem o dever de restabelecer a confiança e estreitar as relações, associando e pondo a serviço da obra comum essas duas forças sociais – a família e a escola, que operavam de todo indiferentes, senão em direções diversas e às vezes opostas (Azevedo, 2010).

A proposta do manifesto é a interação entre as duas forças. Ou seja, a família não tem que saber ensinar como o professor, ou a escola saber educar como a família; ambos precisam se conhecer e se ajudar, a fim de alguém em comum: o educando. O profissional recebe o apoio da família, cuja importância é imprescindível no processo de ensino-aprendizagem. Conforme propõe Freire (2005, p. 79), “o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa (...); os homens se educam em comunhão”. E essa comunhão, esse educar, somente será pleno quando a família participar dentro e fora da escola. Os muros são derrubados. Muros que impedem a família de participar da educação de seus filhos, por entenderem que não são capazes de contribuir em sua educação formal, muros que impedem a escola de participar da educação de seus alunos, por entenderem que não podem interferir em sua educação familiar.

Como esclarece Lima (2009),

tanto a família quanto a escola devem viabilizar relações pautadas na afetividade e no adequado desempenho de papéis. As crianças, ao viverem ora como aluno, ora como filho, aprendem as normas sociais e éticas e compreendem o seu lugar no mundo. Se os adultos se eximirem da sua tarefa educativa, a criança encontrará dificuldades na construção do ser “sujeito” e dificilmente entenderá o mundo e seu funcionamento. O que uma família tem que fazer nenhuma escola consegue substituir, por melhor que seja; o que a escola tem que fazer as famílias não conseguem, mesmo sendo educadoras. A família tem o papel de acolher a criança e promover individuação e pertencimento. No convívio diário, nas conversas, na forma de proceder diante das rotinas do dia a dia é que a criança compreende os mitos, as crenças, os ritos de sua família, assim como a forma dela de viver e conviver.

A família, pais e/ou responsáveis podem contribuir no aprendizado de seus filhos(as); a escola precisa desenvolver uma metodologia participativa, interativa e integralizadora, pois afinal de contas quem sairá ganhando é o educando e a sociedade em geral.

Intervenção do orientador educacional

Não é o orientador educacional um psicólogo, tampouco um conselheiro, mas um profissional que tem a função de ajudar o educando a inserir-se socialmente no contexto onde aprende e vive. Com o intuito de prevenir e solucionar problemas, é de suma importância que mantenha reuniões regulares para conhecer os familiares dos alunos e se fazer conhecer por eles. No entanto, essas reuniões não podem ter cunho de apagar incêndios (solucionar conflitos), mas sim de proporcionar aos envolvidos, incluindo o docente, uma melhor compreensão de sua função social no contexto educacional. Na introdução apresentamos os teóricos que corroboraram nossa pesquisa, e não podemos ignorá-los quando da aplicabilidade de suas teorias em relação ao desenvolvimento das reuniões. Não tenho a intenção de ser prolixo, mas sim analítico quanto às teorias; sendo assim, pontuarei as possibilidades delas quando se trata de administrar conflitos, intermediar as relações família-escola, docente-discente.

Ao pensar sobre o dever que tenho, como professor, de respeitar a dignidade do educando, sua autonomia, sua identidade em processo, devo pensar também, como já salientei em como ter uma prática educativa em que aquele respeito, que sei dever ter ao educando, se realize em lugar de ser negado. Isso exige de mim uma reflexão crítica permanente sobre minha prática através da qual vou fazendo a avaliação do meu próprio fazer com os educandos. O ideal é que, cedo ou tarde, se invente uma forma pela qual os educandos possam participar da avaliação. É que o trabalho do professor é o trabalho do professor com os alunos e não do professor consigo mesmo (Freire, 2011, p. 63).

A Orientação Educacional não se limita à sala de aula ou apenas ao aluno. O orientador educacional precisa considerar junto com o professor o que propõe Freire (2011): o respeito à dignidade de quem é ensinado, seus valores, autonomia, princípios, religião, cultura, orientação sexual, cor, raça, capacidade de compreensão e comportamento. Nossa sociedade é marcada pelo descaso aos menos favorecidos financeiramente e que moram em regiões suburbanas. Compete a esse profissional criar um relacionamento em rede entre quem ensina e quem aprende e entre escola e família; para tanto, precisa considerar as diferenças sociais que existem, assim como as disparidades intelectuais, sendo imparcial e humano. Nessa linha apresentada por Freire (2011), somos levados a considerar em sua essência a afetividade positiva ou negativa, sugerida por Wallon (2013), que o aluno demonstra em sala de aula e que é muitas vezes consequência de seu relacionamento familiar e/ou comunitário. Também precisamos compreender que o educando traz consigo um conhecimento, como preceitua Vygotsky (1991), não sendo ele um ser vazio e sem informações; esse conhecimento, quando não identificado e trabalhado, pode ser um empecilho à aprendizagem, porém, quando devidamente reconhecido e respeitado, pode produzir frutos maravilhosos na construção de saberes. É importante também lembrar da orientação de que precisamos da cooperação do educando, e de que em algum momento precisaremos ser coercivos, como sugere Jean Piaget (2010), não para impor nossa vontade, mas sim para direcionar/nortear os passos ainda inseguros e que precisam dessa firme orientação. Por fim e não menos importante: devemos lembrar do provérbio africano citado no tópico sobre a família do educando, estendendo-o a toda a comunidade escolar, pois o educando não é responsabilidade apenas de um profissional, mas de toda a sociedade, sendo então realmente necessária “toda uma aldeia” para educá-lo. Esse é o papel do orientador, um interventor de conflito que não aponta erros ou os corrige, mas sim se propõe a mediar, ajudar a construir um nível de corresponsabilidade entre todos os envolvidos e, na medida do possível, ser um facilitador de relacionamentos, a fim da construção de saberes e enfrentamento da indisciplina que inviabiliza o processo de aprendizagem.

Conclusão

Materialidade da teoria = expressão cunhada por mim, com o intuito de explicitar a capacidade em aplicar os conhecimentos teóricos no dia a dia.

Procuramos neste artigo conhecer um pouco mais dos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, bem como sua própria mecanicidade, ou seja, como é o processo em si. Não tivemos a pretensão de determinar uma metodologia capaz de impedir os conflitos ou mesmo solucionar a todos, mas pudemos identificar que a base teórica nos norteia para possíveis realizações que podem beneficiar o conjunto inserido no processo de aprendizagem. Também constatamos que existem profissionais conscientes de sua limitação para alcançar seu alunado em virtude de uma infraestrutura que precisa ser revista continuamente, pois o processo é dinâmico e cíclico. Então, concluímos que a intermediação do orientador não acontece quando o conflito ocorre, mas bem antes, quando promove relacionamentos, ao invés de deixar o educador apenas inserir conteúdo em sua sala de aula. Também verificamos que o indisciplinado nem sempre é bagunceiro, violento, incapaz de aprender; ele pode ser potencializado a um aprendizado que seja dinâmico e prático, pois a materialidade da teoria possibilitará que entenda o que não consegue por intermédio apenas da abstração das ideias. Algo que não passou despercebido é que, mesmo com tamanha importância, a função de Orientador Educacional ainda é negligenciada, e, quando de sua existência na escola, não se dá o devido valor ao profissional. Tivemos a oportunidade de ir a algumas escolas da rede estadual de Educação em Duque de Caxias, onde constatamos essa triste realidade. Porém também, ao contrário, constatamos positivamente o funcionamento dessa orientação nos moldes de uma intervenção positiva, focada no conjunto, não apenas no problema que surge, tendo resultados positivos e satisfatórios. O nome das escolas não foi mencionado por solicitação delas.

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Publicado em 31 de março de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Claudio Marcio dos. Orientação Educacional – mediação e intervenção diante da indisciplina escolar. Revista Educação Pública, v. 20, nº 12, 31 de março de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/12/orientacao-educacional-r-mediacao-e-intervencao-diante-da-indisciplina-escolar

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