Ser professor de Geografia na escola básica no século XXI

Eliel Viscardis Damião Santos

Licenciando em Geografia (UEFS)

Diante da atual conjuntura, em que as transformações socioespaciais acontecem de forma substancialmente rápida, evidencia-se ainda mais a importância de ensinar Geografia de forma mais crítica e relacional, visando formar cidadãos capazes de saber pensar o espaço face às suas contradições e comprometidos em construir um mundo mais justo e igualitário. Nesse contexto, demonstra-se o grande desafio colocado aos professores dessa disciplina no que se refere à formação do sujeito-aluno para a cidadania. Diante disso, este trabalho discorrerá agora sobre a questão: “Ser professor de Geografia na escola básica no século XXI”.

Educar nunca foi tão árduo, mesmo diante dos avanços científicos, das novas descobertas e, sobretudo, do acúmulo de saberes. “O mundo se apresenta a nós, aos nossos alunos futuros professores e aos alunos desses diariamente de uma maneira tão fragmentada que nos sentimos inseguros diante da realidade” (Refetti, 2007, p. 67). Nesse sentido, é fundamental que o professor da disciplina reflita sobre o que trabalhar em sala de aula e quais resultados pretende alcançar, ou seja, se a sua prática pedagógica colaborará para a formação do educando diante da modernização da sociedade na qual está inserido.

Muitos são os desafios postos aos docentes de Geografia da escola básica na contemporaneidade; exemplo disso seria a desvalorização da disciplina por uma boa parte dos discentes, haja vista que muitos a vêm como uma disciplina meramente decorativa. Para que o professor possa lidar melhor com tal cenário, é necessário, sobretudo, que ele tenha clareza teórico-metodológica de sua área de conhecimento. Tal clareza é que permitirá romper com a forma do passado de ensinar Geografia, em que o ensino se restringia à descrição e à decoreba dos conteúdos – especificamente da área física, sem muita preocupação em relacioná-los aos aspectos sociais e instigar os alunos a interpretá-los, analisá-los ou até mesmo entender por que tais assuntos estão sendo trabalhados em sala de aula – descaracterizando e tirando-o todo valor social dessa ciência, além de corroborar para o desinteresse de aprender por parte dos alunos. Faz-se necessário, desse modo, um ensino de Geografia que, além de transcender a forma de ensinar no passado, possibilite ao aluno transformar em conhecimento as informações que são trabalhadas em sala de aula.

Sabe-se que o conhecimento acerca da disciplina é imprescindível para que o indivíduo tenha uma concepção mais abrangente das relações que ocorrem na sociedade e que o espaço de que ele faz parte é resultante de como essas relações foram sendo estabelecidas ao longo dos processos históricos. O docente de Geografia tem, assim, um papel que vai além de ter conhecimento específico de sua disciplina, já que deve possibilitar no educando o despertar da vontade de buscar conhecer transformar o meio no qual está inserido em um lugar melhor. O professor dessa disciplina deve ser incumbido, sobretudo, de ser um agente capaz de colaborar na formação crítica do aluno.

É a consciência crítica acerca da realidade que permite ao indivíduo ser agente de transformação social, ou seja, compreender a sociedade da qual faz parte e, a partir desse entendimento, agir sobre ela. A despeito disso, Paulo Freire (2005, p. 33) explana acerca da importância dessa consciência transformadora da realidade:

O desenvolvimento de uma consciência crítica que permite ao homem transformar a realidade se faz cada vez mais urgente. Na medida em que os homens, dentro de sua sociedade, vão respondendo aos desafios do mundo, vão temporalizando os espaços geográficos e vão fazendo história pela sua própria atividade criadora.

Por isso, é tão presente nos discursos sobre o ensino de Geografia a questão da formação da consciência crítica transformadora e o grande papel que professores da disciplina devem assumir para essa formação de sujeitos-alunos críticos e participativos em escolarização. Tal formação implica que o professor ajude o aluno a pensar e compreender o seu papel na sociedade.

Ser professor na escola básica, em si só, já é algo desafiador, ainda mais quando está comprometido com a formação crítica do aluno, pois para isso ele deve assumir uma postura político-profissional que vai de encontro aos interesses de determinada minoria político-ideológica hegemônica, que constantemente tenta impor ideias sobre a vida social. Sendo assim, caso tal desafio não seja posto, levará os alunos a crer que a Geografia é uma disciplina simplesmente descritiva e decorativa. Infelizmente, essa imagem estereotipada acerca da disciplina faz-se presente no imaginário de boa parte da população, que não tem muita clareza do que ela é de fato. Para desconstruir essa imagem, torna-se fundamental refletir sobre o papel do docente para o desenvolvimento da consciência crítica do aluno, além de o docente se colocar em autorreflexão sobre ser professor de Geografia na escola básica, pois o que se espera de um ensino de Geografia hodierno é a desconstrução dessa imagem e a valorização do ensino dessa ciência como instrumento desalienante da consciência humana.

Para finalizar, ser professor de Geografia na escola básica no século XXI é ter plena consciência das mazelas da sociedade, dos caos sociais da realidade vigente e, ao mesmo tempo, do compromisso desafiador de ministrar aulas em face de tal realidade. Na atual conjuntura, exige muito que o professor assuma uma posição político-profissional nas suas práticas pedagógicas, de forma que colabore com os alunos na formação da consciência crítica e desvinculada de quaisquer ideias ideológicas que imperializam na sociedade, que mascara a realidade social.

Referências

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 28ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

NOGUEIRA, V.; CARNEIRO, S. M. M. Educação geográfica e formação da consciência espacial cidadã no ensino fundamental: sujeitos, saberes e práticas. ENPEG, Porto Alegre, v. 10, p. 1-19, ago./set. 2009.

REFETTI, L. V. A construção conjunta do conhecimento em sala de aula – entre o espaço “é tudo free” e a responsabilidade social. In: REGO, N.; CASTROGIOVANI, A. C.; KAERCHER, N. A. (Orgs.). Geografia: práticas pedagógicas para o Ensino Médio. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 67-76.

Publicado em 31 de março de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Eliel Viscardis Damião. Ser professor de Geografia na escola básica no século XXI. Educação Pública, v. 20, nº 12, 31 de março de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/12/ser-professor-de-geografia-na-escola-basica-no-seculo-xxi