Uma página por dia - sugestão a um guia espiritual

Esteban Lopez Moreno

Professor associado da Fundação Cecierj

Prezado Sri,

 

Após várias recomendações de amigos, finalmente pude saciar minha curiosidade de conhecer-vos em uma de vossas apresentações. Foi em um auditório bem nutrido de curiosos, como eu, e devotos, tendo ao fundo uma bela música indiana cantada ao vivo. Fiquei bem impressionado com a forte devoção de vossos muitos discípulos e, após vossa entrada no palco, encantado com a proposta da “meditação diária por apenas um minuto”. Afinal, sou também um praticante assíduo de meditação e bem reconheço os seus benefícios. Logo a seguir, com vossa voz branda e pausada, chamastes-nos a atenção sobre o exagero que há em nossa sociedade no uso do conhecimento cognitivo e da confiança na Ciência.

Vossa afirmativa, ressalte-se, não contrária à cognição, mas ao seu exagero, parece bem razoável em vários aspectos, e temos bons exemplos: usamos demasiadamente celulares, passamos muito tempo em redes sociais ou vendo séries televisivas; todos excitam sobremaneira o nosso pensamento e a nossa conduta, em detrimento das relações afetivas e do cuidado com o nosso corpo. A Ciência vem naturalmente à jusante, usamo-la quase como um dogma para referenciar, por exemplo, o que podemos ou não comer, qual a indicação de um remédio para eliminar as dores ou até mesmo o melhor colchão para dormir. Entretanto, aparentemente, parece que não temos usado satisfatoriamente nossas funções cognitivas e tampouco a Ciência. Digo-vos apoiado não na quantidade, mas na qualidade das informações de que usufruímos e no fim que damos a elas.

Com efeito, não faltam publicações que atestam que, no Brasil, estamos vivendo em uma sociedade de analfabetos científicos. Em termos práticos, mal conseguimos nos dar ao trabalho de ler o rótulo de um alimento ou conhecer os efeitos dos agrotóxicos que nos impingem, ou mesmo o porquê do branco das nuvens, o azul do mar ou, quiçá,  a constituição de uma simples vela. Somos incrivelmente hábeis ao nos indignarmos pela falta de chuva, mas incapazes de associá-la a alguma de suas principais causas, como a destruição das matas ciliares ou a devastação da floresta amazônica, tangida pela nossa própria voracidade carnívora, como bem salientastes ao final de vossa apresentação.

Mesmo em nossas escolas e universidades, nosso saber sobre a Ciência carece de muitos aperfeiçoamentos. Para citar um bom exemplo, o norte-americano Richard Feynman, um dos maiores físicos que o Brasil teve a oportunidade de acolher, ridicularizou a inabilidade de nossa educação para contextualizar o seu conhecimento. Em sua ousada apresentação sobre o ensino brasileiro, disse sobre nossos alunos que “tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido”. Feynman não foi o único cientista estrangeiro pouco crédulo quanto à educação científica no Brasil. O próprio titã da física, Albert Einstein, quando aqui esteve, em 1925, deixou em seu diário comentários desabonadores sobre sua breve experiência. São duas visões que merecem ser consideradas.

Pus-me novamente a refletir sobre o vosso ponto de vista. Talvez o nosso inflacionamento científico e cognitivo deva-se não ao saber em si, mas às diversas lacunas emocionais ou psíquicas que permeiam a maioria dos seres humanos. Considerei que vosso estágio de esclarecimento espiritual deve vos proporcionar uma perspectiva privilegiada sobre esses aspectos. Essa ponderação seria suficiente para mim nas circunstâncias em que se apresentava, mas o vosso discurso levou-me a uma nova e profunda inquietação após apoiar vossa fé no saber científico. Fizeste-lo, preciso ser sincero e direto, com bastante impropriedade. Começou citando uma frase popular da Teoria do Caos – sobre o efeito borboleta –, atribuíste-la descompassadamente à Física Quântica, interpretando-a de forma impensável, finalmente aquilatando como uma verdade ao mesmo tempo científica e espiritual. Havia tantos “poréns” em vossa fala e em outras que se sucederam que me senti no ímpeto de comunicar-vos. E aqui estou, por meio desta carta, não propriamente para oferecer um reparo, mas uma modesta sugestão.

Imagino o vosso olhar lendo este texto neste momento, e me farto de decoro para que considereis a singeleza desta sugestão não como uma afronta, mas ao menos uma possibilidade a ser pensada. Ei-la: todos os dias lermos uma página de um livro de Ciências. Pode ser qualquer um, a escolha é livre, desde que não contenha erros.

Sim, nada original. É de vossa própria autoria a sugestão de se praticar diariamente um minuto de meditação; apenas me apropriei da dimensão do espaço representado pelo quinhão de uma página por dia de um livro de Ciências. Assim como no minuto diário, uma página é um desafio aparentemente fácil; entretanto guarda veladamente uma potencialidade imensa caso a prática diária seja levada a contento. Podemos não gostar, a princípio, mas a persistência mostra-se proveitosa e útil. Se o nosso objetivo é alcançarmos felicidade, não poderia ser diferente.

Cabe a vós o justo questionamento sobre a escolha de um livro de Ciências para a leitura diária. Há alguns bons motivos. Estudamos Ciências porque queremos avançar em nosso entendimento do Universo, saber mais sobre nós mesmos e sobre o mundo; são buscas benfazejas para todos.

A Ciência também influi com força e grandeza na visão dominante do mundo e é por ela influenciada. Diversas descobertas têm sido usadas para legitimar outros paradigmas, como na Economia, na Psicologia e na sociedade. As leis naturais da Mecânica Newtoniana, por exemplo, foram utilizadas para justificar a reforma da Economia clássica e os novos procedimentos decorrentes da industrialização, ao mesmo tempo que influenciou Karl Marx em sua crítica aos modos de produção capitalista. Marx também se nutriu da teoria de seleção natural de Darwin ao elaborar sua formulação do determinismo histórico e socialismo científico. A tecnologia e as novas formas de compreender o mundo não resultam exclusivamente do conhecimento científico, mas são sem dúvida alguns de seus principais tributários.

Muitos pensam que a Ciência ou os cientistas são seres enrustidos e pouco afeitos a novos conhecimentos; muito pelo contrário! Considerado o maior físico teórico do Brasil, Mário Schenberg, em seu livro Pensando a Física, lembra-nos que a ideia do vazio ou do zero eram coisas naturais para os indianos, principalmente os budistas, e que isso contribuiu sobremaneira não só para o desenvolvimento da Matemática, mas para a teoria dos campos da Mecânica Quântica. Ele costumava recordar a contribuição do misticismo alquímico em Newton e a influência das tradições orientais em Bohr e Schrödinger. Schenberg também deu margem à existência de possíveis interações ainda difíceis de detectar entre matéria e energia, as quais algum dia poderiam atestar o funcionamento de outros saberes, como a Homeopatia, da qual era usuário assíduo.

Atualmente, a Mecânica Quântica representa, para muitos, o principal manancial de novos entendimentos da natureza e de sua parte mais concreta e objetiva, a matéria. E esta acabou se revelando de uma beleza surpreendente, com saberes como a dualidade onda-e-partícula, a quantização do espaço e do tempo, o Princípio da Incerteza de Heisenberg, o Princípio da Complementaridade de Bohr. Aquilo que seria, em tese, o mais simples, o estudo da matéria, acabou por nos conduzir a um contato com aspectos desconcertantes e fascinantes de nossa realidade, incluindo uma de nossas palavras mais valiosas: a Consciência.

Muitos dos pioneiros da Mecânica Quântica – notadamente Bohr, Heisenberg e Schrödinger – tornaram-se profundamente interessados em seus aspectos filosóficos e até mesmo espirituais. Todos escreveram ótimos livros e abriram novas perspectivas para outros campos dos saberes, como é o caso do pequeno e fascinante livro O que é a Vida, de Erwin Schrödinger, que preconizou a descoberta do código genético. Infelizmente esses saberes são praticamente omitidos para a maioria dos cursos de Física no Brasil, o que dirá para o público leigo.

Países como Coreia do Sul, Japão, China e Índia são exemplos de sucesso de políticas inclusivas para o desenvolvimento maciço da formação científica e do desenvolvimento tecnológico. A Índia, berço onde se originaram inúmeros gurus, inclusive o vosso (cujo encontro foi deveras facilitado devido às mais de 30 toneladas de pura tecnologia científica condensada no corpo de um avião), passou a aperfeiçoar sobremaneira a qualidade de vida de sua população. Esse país promoveu amplamente a formação de pesquisa básica – construiu o maior contingente de doutores do mundo! – e é hoje um dos principais expoentes em inovação tecnológica. Desde então, conquistou a diminuição lenta, mas constante, dos níveis de desnutrição, de pobreza e de analfabetismo históricos do país. Esses resultados espelham alguns dos mais altos valores da espiritualidade, ou não?

Aqui, em nosso Brasil, embora tardiamente e com desagradáveis oscilações, nossos governantes têm se esforçado para aumentar o investimento em Educação e na formação científica. Entretanto, frequentemente, o nosso descompasso histórico faz com que estejamos sempre em atraso nos avanços industriais. Quando finalmente ameaçamos alcançar um objetivo, os países que efetivamente investiram na formação de base e na tecnologia produzem um aperfeiçoamento que tornam nossos sonhos irrisórios. Foi o que aconteceu com a produção de fibras ópticas, de geradores de energia eólica ou de células fotovoltaicas, por exemplo  Desde quando fomos colonizados pagamos a pesada conta da nossa dependência estrangeira do conhecimento técnico-científico.

Estimado Sri, depois de todas essas palavras, perdoai-me se muitas delas vos pareceram tolas; talvez possais ajudar-me a superar algumas indagações que se mantêm como agulhões vivos em minha alma. Por que o desconhecimento da Ciência deveria sair ganhando em nossa sociedade? Por que razão as pessoas de bem, religiosas ou não, não saem em luta por maior conhecimento, também em prol de seu autodesenvolvimento e do ser humano? Por que não podemos locupletar os dois saberes, espiritual e material, cada qual com seu saber próprio, que eventualmente se somam? Ou pelo menos respeitar-lhes, não advogar contra ou dar-lhes um mínimo de sentido próprio e adequado?

Desde já, agradeço pela vossa resposta.

Uma página por dia.

_/\_

___

Esta carta foi encaminhada a um guia espiritual dois anos antes do escândalo que se abateu sobre sua imagem. A carta nunca foi respondida.

Publicado em 05 de maio de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MORENO, Esteban Lopes. Uma página por dia - sugestão a um guia espiritual. Educação Pública, v. 20, nº 16, 5 de maio de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/16/uma-pagina-por-dia-sugestao-a-um-guia-espiritual