A Química por trás da Copa

Thaís Petizero Dionízio

Doutoranda em Química (IQ/UFRJ), professora (Seeduc/RJ)

Felipe Pereira da Silva

Mestrando em Engenharia de Biocombustíveis e Petroquímica (EQ/UFRJ)

Dillyane Petizero Dionízio

Doutoranda em Engenharia Nuclear (COPPE/UFRJ), professora (Seeduc/RJ)

Quando se pensa em um grande evento de futebol como a Copa do Mundo, o que logo vem à cabeça são jogadores, bola, gols, estádio, troféus e comemoração. Mas o que ninguém imagina é que por trás de tudo isso está a Química. Desde a tecnologia de fabricação da bola até a cobertura de estádios, a Química é essencial para que tudo funcione bem. E a motivação para realização deste trabalho foi o grande interesse dos alunos por esse evento que estava para acontecer. Os alunos, por gostarem muito de futebol, falavam sobre a Copa do Mundo frequentemente e o quanto ansiavam por ela. Notando o estado de espírito dos alunos e a animação do turno da tarde, foi criado o projeto A Química por trás da Copa, que abordou conceitos químicos estudados até o momento utilizando a Copa como tema gerador de conhecimento. Essa estratégia permitiu chamar a atenção dos alunos e incitar a curiosidade deles sobre a influência da Química na Copa do Mundo.

Entende-se por tema gerador uma proposta fundamentada na teoria dialética do conhecimento, descrita primeiramente por Paulo Freire (1987). A Copa do Mundo pode ser utilizada como tema gerador pelo fato de abranger questões de ordem social, política e econômica, as quais podem, no caso da Química, ser aliadas à abordagem de diversos conteúdos que são desenvolvidos na disciplina (Silva, 2012). Dessa maneira, os conteúdos ministrados permitiriam ao estudante adquirir uma visão mais crítica de sua própria realidade e possibilitariam a interpretação das transformações ocorridas ao seu redor.

O projeto pedagógico da escola é capaz de auxiliar na definição de suas metas e no gerenciamento de suas ações para todo o ano letivo. É definido como um instrumento teórico-metodológico que ajuda a enfrentar os desafios cotidianos de maneira refletida, consciente, sistematizada e participativa. Portanto, este projeto está de acordo com os objetivos escolares no tocante às atribuições e competências do currículo escolar dos alunos de Ensino Médio, pois visa gerar conhecimento por meio de um tema gerador e vincular aos conteúdos de Química tornando o ensino mais contextualizado.

O turno da tarde possui cinco turmas: duas de 1º ano, duas de 2º ano e uma de 3º ano, todas envolvidas no projeto. As turmas de 1º ano estavam começando a estudar tabela periódica e suas propriedades; as de 2º ano estudavam equações químicas, estequiometria e balanceamento; e a de 3º ano iniciava o estudo de compostos orgânicos. Desse modo, foram trabalhados assuntos que envolviam a Copa do Mundo de acordo com o que a turma já havia estudado ou estava estudando no bimestre, tornando o ensino de Química mais atraente e contextualizado. Vincular os conhecimentos ou correlacionar aprendizados de sala de aula com a Copa do Mundo pôde, além de facilitar a aquisição do conhecimento, acarretar um aumento de bagagem cultural.

Objetivos

Este trabalho teve como objetivos:

  • despertar o interesse de alunos do Ensino Médio pela Química através do projeto A química por trás da Copa, relacionando o conteúdo programático estudado ao tema Copa do Mundo;
  • vincular, quando possível, teoria à prática;
  • facilitar o aprendizado dos conteúdos e contextualizá-los.

Assim, esperou-se que os alunos pudessem se sentir mais atraídos e com suas curiosidades aguçadas ao pesquisar como a Química tem influência na Copa do Mundo e como poderiam estudá-la de maneira mais significativa.

Recursos necessários

Os materiais envolvidos na realização deste trabalho foram: cartolinas, canetinha, cola, lápis de cor, fita adesiva, roleta de bingo com os números, cartelas de bingo, bolinhas de isopor, tintas, palito de dente, sais de metais (Cu, Na, Ba, Ca, K), álcool, palito de fósforo, fundo de latinhas de refrigerante, água, gasolina, proveta e o mural da sala para exposição dos cartazes.

Conteúdos curriculares envolvidos no projeto

Para atingir os objetivos didáticos deste projeto, os conteúdos ministrados foram:

  • para o 1º ano: tabela periódica e suas propriedades e elementos químicos e suas utilidades;
  • para o 2º ano: soluções e concentrações;
  • para o 3º ano: compostos orgânicos, estrutura das moléculas e identificação de funções orgânicas.

Abrangência/campo de aplicação

O projeto abrangeu todo o turno da tarde do Colégio Estadual Raymundo Correa. Ao todo foram cinco turmas de Ensino Médio envolvidas, duas de 1º ano (1004 e 1005), duas de 2º ano (2004 e 2005) e uma de 3º ano (3004), totalizando 139 alunos participantes.

Metodologia

As turmas envolvidas participaram de metodologias didáticas distintas, até aquelas que eram do mesmo ano, trazendo mais variedades e evitando trabalhos entre turmas. Portanto, seguem descritas as sequências didáticas realizadas em cada turma. Para iniciar o projeto houve uma conversa em cada turma a respeito de como a Química poderia estar inserida na Copa do Mundo, se eles possuíam essa visão, o que achavam disso etc. Em seguida, a proposta de tarefa foi passada às turmas com um prazo de três semanas para apresentação. Durante esse espaço de tempo, os alunos puderam tirar dúvidas sobre o projeto e continuaram estudando os conteúdos propostos para o bimestre.

Turma 1004: a proposta foi montar cartazes com o nome e a bandeira de alguns países participantes da Copa do Mundo. Os alunos estavam livres para escolher quais queriam representar e teriam que escrever o nome do país utilizando o máximo possível de símbolos dos elementos químicos. Os cartazes foram expostos no mural da sala de aula. Durante a apresentação, eles teriam que abordar a importância/aplicabilidade dos elementos destacados e falar um pouco sobre a cultura do país escolhido. Na aula seguinte foi aplicada a atividade lúdica Bingo dos Elementos Químicos, em que os alunos puderam conhecer melhor os elementos, familiarizar-se com seus símbolos, localizá-los na tabela periódica e conhecer a aplicabilidade deles na sociedade. O bingo foi realizado em dupla e, conforme os elementos eram sorteados, eram citadas algumas características suas. Por exemplo: o professor sorteou o nº 8 (Z do elemento); o número não era dito aos alunos e sim as características do elemento de nº atômico 8, o oxigênio. Se os alunos não adivinhassem o elemento, ao final era dita a localização dele na tabela periódica, como pertencente à família dos calcogênios (família 16) e do 2º período. Quem tivesse o elemento na cartela era só marcar e quem completasse a cartela primeiro gritava “bingo!”.

Figura 1: Trabalhos da Turma 1004

Turma 1005: foi abordado o subtema a Química dos fogos de artifício; a turma foi dividida em grupos e cada grupo teria que apresentar um cartaz de um dado elemento químico responsável por alguma cor nos fogos de artifício, explosivos utilizados não só na Copa do Mundo, mas em eventos comemorativos em geral. Por exemplo, cobre, responsável pela cor azul. No cartaz também deveriam constar símbolo, nº atômico, massa, família, período e uma representação da estrutura atômica do elemento. Os elementos sorteados foram: estrôncio (Sr), ferro (Fe), bário (Ba), magnésio (Mg), sódio (Na), cobre (Cu) e potássio (K). Os alunos colaram seus cartazes no mural e fizeram uma breve apresentação. Na aula seguinte foi aplicada a atividade experimental demonstrativa Teste de Chama, que consta em introduzir uma amostra de sal de metal numa chama e observar a coloração liberada quando seus elétrons, excitados pela absorção de energia, retornarem ao estado fundamental.

Figura 2: Trabalhos da Turma 1005

Turma 2004: foi abordado o subtema exames antidoping realizados pelos atletas; a turma montaria um cartaz apresentando o tema com suas definições, exemplos, relevância no esporte, curiosidades etc. Após a confecção do cartaz, a turma colocou no mural da sala e apresentou seu conteúdo, gerando discussão acerca da importância dos exames antidoping na Copa do Mundo, evitando fraudes e deslealdade entre atletas. Na semana seguinte, aproveitando o assunto abordado pela turma sobre fraude e adulteração e os conteúdos didáticos já estudados, foi proposta uma atividade experimental que visava detectar o teor de álcool na gasolina e verificar se estava ou não adulterada. Foi realizado o experimento demonstrativo e depois a turma foi dividida em grupos, nos quais eles mesmos realizavam o teste de diferentes amostras de gasolina, detectavam o teor de álcool e davam o parecer final se a gasolina estava ou não adulterada. Também foram discutidos os danos que uma gasolina adulterada poderia causar ao veículo e os direitos dos consumidores em exigir o teste que avalia o teor de álcool na gasolina no próprio posto de abastecimento.

Figura 3: Mural da Turma 2004

Turma 2005: o subtema foi exames toxicológicos realizados pelos atletas; a turma montaria um cartaz para fixar no mural com definições, substâncias vetadas, etapas de análise, relevância no esporte, curiosidades etc. Após a confecção do painel, a turma afixou no mural e fez uma breve apresentação, seguida de uma discussão sobre o assunto. Na semana seguinte foi realizada a mesma atividade experimental da turma 2004, a determinação do teor de álcool na gasolina, seguida de explicações e discussões cabíveis ao assunto.

Figura 4: Mural da Turma 2005

Turma 3004: o subtema tratado foi a Química das Sensações e a Química da Rede, em que os alunos deveriam pesquisar sobre o tema e, divididos em grupo, montar cartazes com a substância sorteada para seu grupo, destacando suas funções e por que são responsáveis e desenhar sua estrutura química. As substâncias sorteadas foram: adrenalina, dopamina, serotonina, noradrenalina e náilon. Depois dos cartazes afixados ao mural, os alunos fizeram uma breve explanação sobre suas substâncias e uma discussão foi aberta ao final das apresentações sobre o assunto de maneira geral. Na aula seguinte, os grupos tiveram que montar, em sala de aula, as estruturas das substâncias pesquisadas por eles com bolinhas de isopor. Foi realizado um trabalho manual de pintura das bolinhas de isopor para representar os elementos (C = preto, N = azul, O = vermelho e H = branco); as moléculas foram confeccionadas utilizando também palitos de dente, que representavam as ligações entre os elementos. Depois de montadas, as moléculas foram afixadas abaixo de cada cartaz no mural da sala.

Figura 5: Trabalhos da Turma 3004

Avaliação

O projeto foi muito bem aceito pelos alunos, que participaram e aprenderam mais de Química com um tema gerador, compreendendo como a Química tem importância para a sociedade e em grandes eventos, como a Copa do Mundo. A avaliação foi realizada de maneira qualitativa durante os momentos de orientação das pesquisas e por meio da apresentação dos trabalhos, pelo domínio de conteúdo e exposição do tema.

Os alunos de 1º ano, que estavam começando a aprender sobre tabela periódica no bimestre, puderam se familiarizar mais rapidamente com a tabela, conhecendo os símbolos dos elementos, suas propriedades, sua localização e suas utilidades no dia a dia. A Turma 1004 pôde aprender não só os conhecimentos químicos, mas também um pouco da cultura de alguns países participantes da Copa por meio da pesquisa realizada (Figura 1). O Bingo dos Elementos Químicos foi uma atividade lúdica muito bem recebida por eles, que se divertiram enquanto aprenderam várias utilidades dos elementos. Durante a aplicação, observou-se que o jogo aguçou a curiosidade dos alunos a respeito dos elementos químicos e suas relevâncias, tornando mais significativa a aprendizagem. Essa atividade lúdica ajudou os alunos a saber lidar com regras, proporcionou a interação entre os colegas de turma e com a professora, mobilizou esquemas mentais, ativando funções neurológicas e psicológicas, estimulando o pensamento e levando mais facilmente à aprendizagem. A Turma 1005, que abordou o subtema fogos de artifício (Figura 2), aprendeu na teoria e também na prática sobre o elemento e a luz emitida por ele ao absorver grande quantidade de energia, soube que conforme o elemento químico adicionado à mistura explosiva do fogos poderiam ser obtidas diferentes cores no momento da explosão, soube correlacionar essa temática com a estrutura dos elementos e o estado de excitação de seus elétrons, gerando cada um uma cor característica. Desse modo, com a evolução dos alunos, pôde-se perceber que o vínculo da teoria à prática tornou o ensino mais atraente e contextualizado.

As turmas de 2º ano, que ficaram com a parte dos exames realizados pelos atletas (Figura 3), compreenderam a importância da Química para a garantia de uma partida justa e saudável entre os jogadores, podendo desvendar se o jogador consumiu alguma substância proibida ou ilegal, como narcótico, esteroides anabolizantes, estimulantes ou diuréticos para melhorar seu desempenho ou mesmo se fez o uso de substâncias ilícitas, como drogas, durante os jogos. Compreenderam que o uso de drogas ou qualquer outro tipo de substância que melhorem de forma superficial o rendimento do atleta durante a competição e que tragam efeitos prejudiciais a eles é considerado doping e seu uso é proibido. As discussões realizadas com a turma serviram para o aprendizado de todos (professora e alunos) e para a verificação se toda a turma realmente tinha estudado o assunto. Os relatos realizados em sala serviram de avaliação e acompanhamento do progresso dos alunos; foram momentos de aquisição de conhecimento e a confirmação de que realmente eles estavam empenhados na tarefa.

A prática realizada nas turmas sobre a detecção do teor de álcool na gasolina foi primordial para o fechamento do projeto do 2º ano com chave de ouro, pois se tratava de uma atividade experimental investigativa para saber se a gasolina, que não é atleta mas poderia conter substancias ilícitas em qualidade e quantidade, estava ou não adulterada. Mais uma vez a Química teve seu conteúdo vinculado à prática e os alunos somaram aprendizados. O experimento realizado em grupos teve abordagem investigativa e análise quantitativa de álcool presente nas amostras de gasolina. A discussão realizada após a prática foi também um momento de troca e aquisição de saberes, tratando assuntos como desempenho do carro com uma boa gasolina, danos causados ao carro por uma gasolina adulterada e o uso de aditivos.

A turma de 3º ano abordou a Química das Sensações e a Química da Rede (Figura 5), pesquisando substâncias neurotransmissoras que têm total influência sobre nossas ansiedades, medos, alegrias etc. e sobre o náilon, composto utilizado na confecção da rede do gol. Durante a discussão sobre as substâncias foi proposto que os grupos também identificassem as funções orgânicas presentes nas moléculas pelos desenhos das estruturas. Notou-se como o conteúdo do trabalho aguçou a curiosidade dos alunos e como eles ficaram surpresos por descobrir que substâncias químicas podem ser responsáveis pelo nosso humor, irritabilidade, felicidade, estresse, amor, desejos, medos etc. Aprenderam que as sensações que temos têm a ver com a Química.

E a rede de futebol não fica muito longe: os alunos viram que para confeccioná-la é utilizado o náilon, um polímero bastante resistente, o que permite que a rede não fure quando os jogadores fazem um gol. Na semana seguinte, a proposta foi confeccionar as moléculas dessas substâncias utilizando bolinhas de isopor, tinta e palito de dente. Cada átomo representado possuía uma cor e com os palitos de dente foi possível juntá-los; respeitando o tipo de ligação existente (simples, dupla ou tripla), pôde-se montar a cadeia carbônica. Todos participaram e com cuidado fizeram as montagens, depois colaram as moléculas embaixo de seu respectivo cartaz.

Assim, foi possível tornar as aulas de Química mais atraentes e motivadoras por meio de sequências didáticas e com materiais alternativos e acessíveis aos alunos. Ao acompanhar as turmas durante o desenvolvimento das tarefas, foi notável o crescimento em criatividade e conhecimento, o amadurecimento, o comprometimento e a preocupação com desenvolver um trabalho pautado em conceitos químicos e vinculados ao cotidiano. Os alunos compreenderam que, embora a Química no futebol pareça invisível, ela está presente. Verificou-se que a abordagem do conteúdo curricular de Química por meio do tema gerador Copa do Mundo possibilitou que o aluno fosse protagonista no processo de aprendizagem, além de despertar o interesse pela ciência.

Considerações finais

A oportunidade de desenvolver, junto com os alunos, o projeto A Química por trás da Copa foi um momento ímpar para comprovação do quanto esses discentes se dedicam e se envolvem com as propostas pedagógicas e disciplinares quando existe um despertar de interesse por um tema tão querido, o futebol. Seus trabalhos, em grande maioria, foram feitos com capricho e criatividade. O projeto teve um avanço positivo quanto à aprendizagem de ambos os lados, pois passamos o bimestre desenvolvendo e pesquisando acerca do envolvimento da Química na Copa do Mundo, o que foi um grande desafio. Os alunos obtêm melhor aprendizagem da Química ao longo de sua vida acadêmica com projetos de incentivo à educação e significativos. Privar os alunos de ter contato com a Química de forma satisfatória e contextualizada é privá-los de compreender diversas situações que acontecem ao seu redor, pois o avançar tecnológico da sociedade implica a grande dependência que se tem em relação à Química.

Referências

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

SILVA. M. C. Análise de metodologias de ensino de Química para debater a temática biodiesel à luz do enfoque CTSA: alfabetização científica no Ensino Médio. Dissertação (Mestrado em Química), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2012.

Publicado em 12 de maio de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

DIONÍZIO, Thaís Petizero; SILVA, Felipe Pereira da; DIONÍZIO, Dilliane Petizero. A Química por trás da Copa. Educação Pública, v. 20, nº 17, 12 de maio de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/17/a-quimica-por-tras-da-copa