Escola e família, é possível?

Renata Nalim Basilio Tissi

Professora regente da rede estadual do Rio de Janeiro, mestre em Ensino (UFF), graduada em Matemática (UFF) e Ciências Biológicas (UENF)

Este trabalho procura discutir a relação entre escola e família frente aos desafios do mundo atual, em que a cada dia que passa vemos pais tendo que trabalhar em um, dois ou mais empregos para custear o sustento e o bem-estar da família, ou enfrentando o desemprego e tendo que dormir pensando em possíveis soluções para manter o sustento de sua família. Pelos fatos, resta investigar se é possível a família, com tantas nuances, participar de forma efetiva na vida escolar de seus filhos e garantir um futuro mais promissor diante das dificuldades impostas pelo dia a dia.

Nessa perspectiva, construíram-se questões que nortearam este trabalho:

  • Quais motivos levam a família e a escola a não serem próximas nos dias atuais?
  • Qual deve ser o papel da escola e da família no processo de ensino-aprendizagem na vida dos adolescentes?

Quando se fala em gestão participativa, pressupõe-se que há interação pelo menos entre duas partes. Neste trabalho, essas duas partes são representadas por escola e família. Infelizmente, nos dias atuais parece que a escola não é mais tão atrativa para os alunos, perdendo “seu encanto” e contribuindo para o desinteresse nas aulas e para a evasão escolar. Por outro lado, temos a família que também vem passando por dificuldades nos campos emocional e econômico. Nesse cenário, surge a importância de investigar possíveis causas do distanciamento entre escola e família e discutir o papel de ambas as partes no processo de ensino-aprendizagem dos adolescentes.

O Art. 12, inciso IV da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96) diz:

Art. 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: [...] IV- articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola.

A lei explicita que os estabelecimentos de ensino devem se articular com as famílias e a comunidade. Não tem como ter sucesso na aprendizagem se escola e família não caminharem juntas ou pelo menos na mesma direção. Os processos de integração com a sociedade devem fazer parte do planejamento anual das escolas, pois é necessária essa proximidade para garantir o êxito na aprendizagem na vida dos alunos.

O presente trabalho tem como objetivo principal investigar se é possível escola e família caminharem juntas na aprendizagem dos alunos. Como objetivos específicos temos:

  • Mostrar que a relação entre escola e família é saudável no processo de aprendizagem;
  • Verificar se a afetividade aluno-professor contribui de forma significativa na aprendizagem dos alunos;
  • Descobrir possíveis causas da distância entre escola e família.

Como recurso metodológico, utilizou-se a pesquisa bibliográfica, realizada com base na análise de artigos científicos divulgados em meio eletrônico, para alcançar os objetivos do presente trabalho.

Desenvolvimento

A relação entre escola e família vai muito além de conteúdo ou sucesso na aprendizagem dos alunos, pois laços de afetividade estão sendo tecidos nesse ambiente. Onde há afetividade, há esperança de algo ser melhor. Segundo Tassoni (2010, p. 6),

o processo de aprendizagem ocorre em decorrência de interações sucessivas entre as pessoas, a partir de uma relação vincular; é, portanto, através do outro que o indivíduo adquire novas formas de pensar e agir e dessa forma apropria-se (ou constrói) novos conhecimentos.

O espaço escolar é um lugar propício às interações sociais, pois as pessoas tendem a ficar mais próximas por horas praticamente todos os dias. É quase impossível não criar laços de afetividade, criar algum tipo de vínculo. Essa relação construída dia após dia irá influenciar na forma de agir e de pensar na vida dos alunos. Com uma relação já estabelecida, as partes (aluno-aluno ou aluno-professor) irão se apropriar ou construir novos conhecimentos.

De acordo com Tassoni (2010, p.3),

toda aprendizagem está impregnada de afetividade, já que ocorre a partir das interações sociais, num processo vincular. Pensando, especificamente, na aprendizagem escolar, a trama que se tece entre alunos, professores, conteúdo escolar, livros, escrita etc. não acontece puramente no campo cognitivo. Existe uma base afetiva permeando essas relações.

A afetividade deve estar presente no dia a dia da escola, pois será um meio para estreitar relações e criar uma base sólida entre aluno e professor. Criar laços afetivos, porém, não significa fugir do respeito entre as partes, muito menos pensar que isso isenta o aluno de estudar e ser comprometido com a escola. Pelo contrário: criar laços de afetividade aumenta ainda mais a responsabilidade entre as partes, pois ambas serão responsabilizadas pelo sucesso ou fracasso do outro. Toda relação tem seus prós e seus contras, porém por meio da afetividade os obstáculos podem se tornar mais suaves.

Conforme Paro (2007, p. 57),

o afeto supõe empatia e compromisso do educador com o educando, com a preocupação de reforçar a condição de sujeito deste, estabelecendo uma relação humana que não seja fria e exterior, ocupada apenas em oferecer conhecimentos para serem apreendidos, mas sim calorosa e cúmplice da própria formação da personalidade do educando.

O professor poderá estabelecer relação de afetividade para que haja empatia e isso venha contribuir para a formação intelectual-emocional-social do aluno. No entanto, devemos alertar o professor para cuidar das suas próprias emoções, evitando assim cair nas armadilhas que às vezes as relações interpessoais proporcionam. O professor pode acabar sendo influenciado por problemas que os alunos trazem de fora da escola e começar a olhar para o aluno com compaixão, fomentando um sentimento de vitimização. Esse sentimento não será saudável nessa relação, pois poderá sufocar o estímulo de superação do aluno.

Segundo Ribeiro e Calsa (2012), “a afetividade é considerada uma das dimensões do ser humano e uma das fases do desenvolvimento, pois o homem deixa de ser somente orgânico para ser afetivo e, posteriormente, racional”. O professor deve lembrar que seu propósito maior nessa relação é fazer com que o aluno aprenda, adquira conhecimento e autoconfiança, entre outras habilidades. Sentimentalismo poderá minar todo o processo de interação aqui.

De acordo com Vygotsky (2001),

Se fazemos alguma coisa com alegria, as reações emocionais de alegria não significam nada senão que vamos continuar tentando fazer a mesma coisa. Se fazemos algo com repulsa, isso significa que no futuro procuraremos por todos os meios interromper essas ocupações. Por outras palavras, o novo momento que as emoções inserem no comportamento consiste inteiramente na regulagem das reações pelo organismo.

No ambiente escolar será quase impossível não desenvolver laços de afetividade entre professor e aluno, visto que são horas e dias de convivência por meses ou anos. Porém deve ser uma relação saudável e que os papéis dos atores não sejam confundidos. Se isso acontecer, certamente problemas surgirão e todo um trabalho pedagógico deverá ser realizado para saná-los. Existem casos em que, por não existir uma relação saudável, tanto o professor quanto o aluno serão afetados. O professor chega à exaustão por querer exercer sua função de mediador do processo ensino-aprendizagem e não conseguir. Já o aluno, em alguns casos, por não ter empatia com o professor, acaba por comprometer sua aprendizagem, sendo disperso ou até mesmo indisciplinando na sala de aula. Para Emiliano e Tomás (2015), “se o professor pretende realizar mediações junto ao aluno, é preciso relacionar seu comportamento com uma emoção positiva para obter o sucesso pretendido no processo de ensino-aprendizagem”.

No cenário descrito antes, outro ator poderá entrar em cena e unir forças com a escola para prevenir ou remediar situações como essa: a família é peça importante no momento. Ela, como instituição social e principal fonte de socialização do indivíduo (Lasch, 1991), deve também se aliar à escola e juntas garantir um processo de ensino-aprendizagem de qualidade e saudável para os alunos/filhos. Percebe-se então que afetividade, apoio e cuidados dos pais são comportamentos decisivos para o desenvolvimento da maturidade, da independência, da competência, da autoconfiança, da autonomia nas futuras decisões e das responsabilidades. “O amor é fator essencial para o desenvolvimento e equilíbrio do ser” (Freitas et al., 2016).

Conclusão

Para muitos, a interação da família com a escola é algo impossível, porém  demonstramos que ambas são importantes para o processo de ensino-aprendizagem do aluno e que podem caminhar juntas. Também podemos concluir que é praticamente impossível não criar laços de afetividade entre professor e aluno, visto que são horas e dias de convivência. No entanto, fazemos um alerta para que ambos saibam sua função e lugar. Acredita-se que respeitar um ao outro poderá garantir uma relação saudável e um processo de ensino-aprendizagem de sucesso no espaço escolar.

Este texto é o trabalho final de curso. Como professora e mãe, vejo que é importante que escola e família caminhem juntas; acredito em uma educação de qualidade que nasça dessa parceria.

Referências

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: 20 de dezembro de 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 12 out. 2019.

FREITAS, E. da S.; SILVA, L. S. da; SANTOS, M. I. da G. Afetividade enquanto fator de motivação para a aprendizagem da criança. Disponível em: https://portal.fslf.edu.br/wp-content/uploads/2016/12/AFETIVIDADE-ENQUANTO-FATOR.pdf. Acesso em: 30 out. 2019.

EMILIANO, J. M.; TOMÁS, D. N. Vygotsky: a relação entre afetividade, desenvolvimento e aprendizagem e suas implicações na prática docente. Cadernos de Educação: Ensino e Sociedade, Bebedouro, v. 2(1), p. 59-72, 2015. Disponível em: http://unifafibe.com.br/revistasonline/arquivos/cadernodeeducacao/sumario/35/06042015200306.pdf. Acesso em: 30 out. 2019.

LASCH, C. Refúgio num mundo sem coração – a família: santuário ou instituição sitiada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

PARO, V. Gestão Escolar, Democracia e Qualidade do Ensino. São Paulo: Ática, 2007. Disponível em: http://www.vitorparo.com.br/wp-content/uploads/2018/07/gest-esc-dmcia-e-qld-ens-trechos-pdf-1.pdf. Acesso em: 12 out. 2019.

RIBEIRO, E. C.; CALSA, G. C. A presença da afetividade no curso de formação de professores e sua importância nas práticas pedagógicas. SEMANA DE PEDAGOGIA DA UEM, vol. 1, nº 1. Anais... Maringá: UEM, 2012.

TASSONI, E. C. M. Afetividade e aprendizagem: a relação professor-aluno. Disponível em: http://23reuniao.anped.org.br/textos/2019t.PDF. Acesso em: 12 out. 2019.

VYGOTSKY, L. S. Psicologia pedagógica. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Publicado em 19 de maio de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

TISSI, Renata Nalim Basilio. Escola e família, é possível? Educação Pública, v. 20, nº 18, 19 de maio de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/18/escola-e-familia-e-possivel