Família e escola como instituições sociais fundamentais no processo de socialização e preparação para a vivência em sociedade

Alessandra Krauss Wieczorkievicz

Mestranda em Desenvolvimento e Sociedade (Uniarp), pós-graduada em Sociologia e Filosofia (Facel), especialista em Geografia e História (Uninter), licenciada em Filosofia (Uninter) e licenciada e bacharel em Ciências Sociais (UNC - Canoinhas), professora de Sociologia da rede estadual de Santa Catarina

Joel Haroldo Baade

Doutor, docente dos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Sociedade e Profissional em Educação (Uniarp – Câmpus Caçador), coordenador do Núcleo de Educação a Distância (Unifebe)

Para a construção deste estudo, elegeu-se como tema a problemática da família e da escola, ressaltando a importância da participação familiar na vida escolar dos alunos, procurando dar ênfase na enorme contribuição da família e da escola para o processo de ensino-aprendizagem e a formação dos indivíduos para sua inserção na sociedade.

Partindo desse pressuposto, torna-se considerável pesquisar a relação família e escola por se tratar de instituições pelas quais todos os seres humanos passam ao longo da vida e são imprescindíveis à sua formação como cidadãos e seres sociais. A participação da família pode influenciar no desenvolvimento educacional da criança e facilitar o trabalho de professores e gestores, pois estes tendem a compreender com mais clareza as dificuldades enfrentadas pelos alunos. Essa união se faz necessária para que as tomadas de decisão sejam compartilhadas e compreendidas por ambas as partes, visando ao sucesso do indivíduo.

Nesse sentido, o objetivo principal deste artigo é analisar a importância da relação família e escola, compreendendo quais as formas de contribuição dos pais ou responsáveis para o desenvolvimento educacional dos alunos e como a contribuição da família pode ser favorável à qualidade da aprendizagem da criança.

A metodologia aplicada na pesquisa está pautada na pesquisa bibliográfica do tipo narrativa. Essa metodologia se justifica pela amplitude da problemática proposta e o fato de não haver pretensão de esgotar todas as fontes de informação (Cordeiro, 2007). A seleção de autores do campo da Educação que desenvolvem os conceitos de família, escola e relação entre as instituições ocorreu de forma arbitrária. Quanto aos critérios, privilegiaram-se justamente pontos de vista e matrizes teóricas distintas, com vistas a possibilitar novas perspectivas sobre o tema. Nesse contexto, a presente pesquisa está fundamentada teoricamente em autores como Bourdieu (1996; 1998), Pereira (2008), Koloustian (1988), Knobel (1996), Ariès (1981), Forquin (1993), Biesdorf (1996), Gandin (1995), Siqueira (2004), Libâneo (1994), Durkheim (1973), Tiba (1996), Osinski (2002), Mousinho e Spíndola (2008), Oliveira (2003), Macedo (1996), Souza (2012), Assis (2014), Silva (2011), Carvalho (2004), Dessen e Polonia (2007), Fernandes (2014), Fonseca (2005) e Giddens (2012).

A abordagem está dividida em três tópicos: família e seus valores; família e escola: uma importante relação; e a participação da família no processo de aprendizagem.

Família e seus valores

A família caracteriza-se como a primeira instituição social que irá promover o desenvolvimento individual das pessoas; é a primeira formação. Ela é considerada a base de tudo, extremamente necessária para a evolução do ser humano, sendo nesse meio em que a criança terá seus primeiros contatos com os sujeitos que contribuirão para sua formação pessoal. Giddens (2012, p. 242) destaca o conceito de família:

Uma família é um grupo de pessoas ligadas diretamente por conexões de parentesco, cujos membros adultos assumem responsabilidades por cuidar das crianças. Os laços de parentesco são conexões entre os indivíduos estabelecidas seja pelo casamento ou pelas linhas de descendência que conectam parentes de sangue (mães, pais, filhos etc.).

De acordo com Pereira (2008, p. 43),

a família é considerada a instituição social básica a partir da qual todas as outras se desenvolvem, a mais antiga e com um carácter universal, pois aparece em todas as sociedades, embora as formas de vida familiar variem de sociedade para sociedade. A Organização das Nações Unidas (ONU), em 1984, refere a família como o elemento de base da sociedade e o meio natural para o crescimento e o bem-estar de todos os seus membros.

A estrutura familiar sofreu diversas modificações ao longo do tempo; seu tamanho, seus valores e os papéis sociais desempenhados pelas pessoas que a compõem nos remetem a outros aspectos da sociedade, como os novos hábitos e estilos de vida, a acelerada urbanização, as adequações ao mercado de trabalho, a melhoria dos níveis de escolarização, novos valores e culturas, a massificação dos meios de comunicação e classe social. Nesse direcionamento, Fonseca (2005, p. 51) apresenta a família como

coisas diferentes, dependendo da categoria social. Enquanto entre pessoas da elite prevalece a família como linhagem (pessoas orgulhosas de seu patrimônio), que mantém entre elas um espírito corporativista, as camadas médias abraçam em espírito e em prática a família nuclear, identificada com a modernidade. Para os grupos populares o conceito de família está ancorado nas atividades domésticas do dia a dia e nas redes de ajuda mútua.

Segundo Pereira (2008, p. 48),

no último século, as formas de coabitação e a estrutura familiar têm vindo a mudar, consequência da industrialização e da urbanização da sociedade e de alterações culturais, económicas, tecnológicas, profissionais, urbanísticas e sociais.

Nessa perspectiva, Assis (2014, p. 27) afirma que

as famílias têm se adaptado às novas formas de existência oriundas das mudanças da sociedade que vão desde o conflito entre os valores antigos e os novos, além da coexistência de interações enquanto uma rede dinâmica e ampla que envolve aspectos cognitivos, sociais, afetivos e culturais que fazem com que a família não mais seja definida apenas pelos laços de consanguinidade, mas sim por um conjunto de variáveis, incluindo o significado das interações e das relações entre as pessoas.

Ainda que a família esteja em processo de mudanças, ela não é uma organização simples nem tende a desaparecer facilmente, pois

a família é produto de um verdadeiro trabalho de instituição, ritual e técnico ao mesmo tempo que visa instituir de maneira duradoura, em cada um dos membros da unidade instituída, sentimentos adequados a assegurar a integração que é a condição de existência e persistência dessa unidade (Bourdieu, 1996, p. 126).

Nesse sentido, a família se torna uma instituição social quando suas regras são cotidianamente colocadas em prática por muitas pessoas; independente das suas mudanças sociais existentes na contemporaneidade, ela não perde sua importância no meio social. Devido a fatores como mudança social e o tempo limitado, a função da família é dividida entre o mercado de trabalho e o cuidado com os filhos,

independentemente do arranjo familiar ou da forma como vem se estruturando. É a família que propicia os aportes afetivos e sobretudo materiais necessários ao desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários e onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais (Koloustian, 1988, p. 22).

É na relação entre os membros familiares que devem ser ensinados os valores fundamentais que servirão de base para o processo de desenvolvimento e socialização da criança. Nessa perspectiva, Bourdieu (1998, p. 42) argumenta que

cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui para definir, entre outras coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar.

Nesse aspecto, os valores ao longo do tempo vão sendo modificados e as pessoas tendem a se apropriar de novas informações e maneiras de viver para continuar se desenvolvendo no âmbito social. Essas mudanças acontecem por meio das necessidades que a sociedade vem enfrentando, com direcionamento para as modificações e transformações de uma sociedade melhor. As pessoas precisam adaptar-se a essas mudanças sociais para assim ter a possibilidade de colaborar com a transformação do meio em que estão inseridas.

Na interação familiar, que é prévia e social (porém determinada pelo meio ambiente), é que se configura bem precocemente a personalidade, determinando-se aí as características sociais, éticas, morais e cívicas dos integrantes da comunidade adulta (Knobel, 1996, p. 19).

Mousinho e Spíndola (2008, p. 5) complementam:

A construção dos valores morais tem início na mais tenra idade, quando a criança começa a interagir com os mais diversos ambientes sociais. A partir da relação familiar, as interações sociais com os seus pares e com os profissionais envolvidos na comunidade escolar contribuirão para o desenvolvimento e a formação da personalidade do indivíduo cujos valores expressarão seu senso moral e sua consciência moral através de suas ações.

A família tem esse enorme desafio; mesmo com todas as mudanças sociais e o rompimento de alguns paradigmas, ela não pode deixar de lado a sua função como instituição social. A instituição familiar vem se modificando e novos modos de organizar estão sendo adaptados. Em relação a esses valores da família, Giddens (2012, p. 274-275), salienta:

“A família entrou em colapso!", gritam os defensores dos valores da família, analisando as mudanças observadas nas últimas décadas – uma postura mais liberal e aberta para com a sexualidade, as taxas de divórcio em súbito aumento e a busca geral pela felicidade pessoal à custa de concepções mais antigas de dever familiar. “Devemos recuperar um sentido moral de vida familiar”, dizem eles. “Devemos restabelecer a família tradicional, que era muito mais estável e organizada do que a confusa rede de relacionamentos em que a maior parte das pessoas se encontra atualmente”. (...) Os defensores da família tradicional argumentam que a ênfase em relacionamento ocorre à custa da família como a instituição básica da sociedade. A família é o ponto de confluência de uma variedade de tendências que afetam a sociedade como um todo – maior igualdade entre os sexos, a entrada das mulheres na força de trabalho, mudanças no comportamento e expectativas sexuais, uma nova relação entre o lar e o trabalho.

Essas transformações de ordem cultural, política e até mesmo econômica refletem-se na prática familiar, e os alunos quando iniciam seu processo de escolarização já trazem de casa essa bagagem cultural grande, a qual irá influenciar e interferir no processo de ensino. Seja ela positiva ou negativa, irá interferir no desenvolvimento do aluno e na participação familiar no contexto escolar, fatores decorrentes da organização familiar.

Família e escola: uma importante relação

Nas diferentes sociedades humanas, os indivíduos dão respostas culturais às necessidades básicas com uma diversidade sem fim. Contudo, permanece como algo universal a presença das instituições sociais que são fundamentais para a organização e a formação de uma sociedade cada vez mais desenvolvida.

O sociólogo Emile Dürkheim (1973, p. 34) destaca que

o ponto de partida é a família, o espaço privado das relações de intimidade e afeto, em que geralmente pode-se encontrar alguma compreensão e refúgio, apesar dos conflitos. É o espaço onde se aprende a obedecer a regras de convivência, a lidar com a diferença e a diversidade. Já a sociedade é uma realidade externa e anterior ao indivíduo, pois quando este nasce aquela já está constituída com seus costumes, conhecimentos e outros bens culturais.

Partindo desse pressuposto, a família é a base para a formação do indivíduo, ou seja, “a família é a primeira agência socializadora – base das primeiras relações, interações e aprendizado” (Silva, 2011, p. 8); na grande maioria das vezes, o indivíduo pode levar a bagagem de casa para a vivência em sociedade. Sendo assim, pode refletir positiva ou negativamente em sociedade, de acordo com o conhecimento informal adquirido pelo indivíduo (Forquin, 1993, p. 76).

Conforme Biesdorf (2011, p. 3), "a família é a principal instituição responsável pela educação informal, através da qual são ensinados os costumes humanos como falar, andar, comer, religião, cultura”, com um viés para a formação inicial dos indivíduos, formação essa que será ampliada com os conhecimentos escolares. É por meios desses fatores que se inicia o percurso dentro da educação na sociedade. Nessa concepção, Carvalho (2004, p. 47) apresenta um posicionamento sobre a educação com ênfase para a família e a escola:

a educação tem papel fundamental na produção, reprodução cultural e social e começa no lar/família, lugar da reprodução física e psíquica cotidiana – cuidado do corpo, higiene, alimentação, descanso, afeto –, que constitui as condições básicas de toda a vida social e produtiva. Como processo de socialização, a educação tem duas dimensões: social – transmissão de uma herança cultural às novas gerações através do trabalho de várias instituições; e individual – formação de disposições e visões, aquisição de conhecimentos, habilidades e valores. A dimensão individual é subordinada à social no contexto de interesses objetivos e relações de poder, neste caso baseadas na categoria idade-geração, seja na família, seja na escola.

Dessen e Polonia (2007, p. 22) destacam também:

A família e a escola emergem como duas instituições fundamentais para desencadear os processos evolutivos das pessoas, atuando como propulsoras ou inibidoras do seu crescimento físico, intelectual, emocional e social. Na escola, os conteúdos curriculares asseguram a instrução e a apreensão de conhecimentos, havendo uma preocupação central com o processo ensino-aprendizagem. Já na família os objetivos, conteúdos e métodos se diferenciam, fomentando o processo de socialização, a proteção, as condições básicas de sobrevivência e o desenvolvimento de seus membros no plano social, cognitivo e afetivo.

Dessa forma, as instituições estão interligadas. A família como agente inicial da formação do indivíduo no processo educacional, o que ocorre na informalidade. Já “a escola é a instituição responsável pela educação formal, local onde acontece a mediação dos conhecimentos científicos” (Biesdorf, 2011, p. 3). A escola, apresenta um conhecimento organizado, científico, tecnológico, sociológico, antropológico, filosófico, diferenciado dos saberes produzidos em casa.

Nesse direcionamento, para Fernandes (2014, p. 14), “família e escola são pontos de apoio e sustentação ao ser humano, são marcos de referências existenciais. Quanto melhor for a parceria entre ambas, mais positivos e significativos serão os resultados na formação do indivíduo”.

Segundo Siqueira (2004, p. 43), “a pessoa, se educada, se constrói em diversos ambientes – a escola é mais um ambiente que se soma a esses outros – a partir de diversas experiências”.

A escola tem a função de oferecer uma formação pela qual o educando torna-se capaz de fazer análises científicas, críticas e reflexivas a respeito dos temas. Dito isso, Oliveira (2003, p. 11) define educação como sendo "uma das atividades básicas de todas as sociedades humanas, pois a sobrevivência de qualquer sociedade depende da transmissão de sua herança cultural aos jovens". Contudo, o papel da escola na transmissão de conhecimentos está relacionado ao processo sistemático que visa à transmissão de determinadas ciências, técnicas e conteúdos, ou seja, uma educação formal no processo de desenvolvimento do indivíduo.

Para Gandin (1995), a educação formal escolar possui três objetivos básicos: a formação da pessoa humana, o desenvolvimento da ciência e o domínio da técnica; esses três fatores são indispensáveis para que o indivíduo consiga se inserir numa sociedade e viver de acordo com as regras desta sociedade.

Esses três fins têm relação com as necessidades humanas mais fundamentais: a ciência é o meio indispensável para compreender a realidade; a técnica é utilizada para transformar essa realidade, visando o bem-estar; e a formação é entendida aqui como elemento básico na realização da identidade das pessoas e dos grupos, incluindo a própria utilização da ciência e da técnica (Gandin, 1995, p. 96).

Dessa forma, apresenta-se a importância da educação formal no processo emancipatório do indivíduo, dependente das instituições sociais, trabalhando de forma harmoniosa, ou seja, são válidos os dois tipos de conhecimentos: o informal que é adquirido em casa, por meio da família; e o formal, que é produzido no âmbito escolar. Para Osinski (2002, p. 7), é

o homem, com sua conduta, seus comportamentos e atos, quem faz a história, a arte e transmite seus conhecimentos por meio do ensino, formal e informal, perfazendo o caminho de um processo evolutivo e progressivo denominado educação.

Com a educação tem-se a finalidade de formar uma pessoa que conhece seus direitos sociais, políticos e civis dentro da sociedade e que vive de acordo com esses conhecimentos para ser um cidadão melhor no meio em que está inserido. Libâneo (1994, p. 17) afirma que a educação deve “prover os indivíduos dos conhecimentos e experiências culturais que os tornam aptos a atuar no meio social e a transformá-lo em função de necessidades econômicas, sociais e políticas da coletividade”, tudo com a finalidade de preparar o indivíduo para viver em sociedade, tendo como base a união entre as instituições sociais, ou seja, em que cada uma faça a sua parte e ao mesmo tempo ambas trabalhem com um viés para a formação de um indivíduo emancipado, que seja um agente de transformação social, com o conhecimento de todos os seus direitos e deveres e assim tornando-se um cidadão que exerça a sua cidadania e que esteja preparado para o mercado de trabalho. É a interação entre família e escola que possibilitará ao indivíduo a formação em sua totalidade para viver em sociedade e assim colaborar como o desenvolvimento social.

A participação da família no processo de aprendizagem

A educação é hoje um processo social intimamente ligado às transformações sociais, sendo um fator importante na transformação da sociedade, com viés para as transformações econômicas, culturais, sociais e políticas. Nesse direcionamento, a educação ganha destaque na formação dos indivíduos para viver em sociedade; por meio do processo educacional o indivíduo vai entender as transformações existentes na sociedade e assim contribuir. Nesse aspecto, a educação não se limita à escola, na medida em que se dá em outras esferas sociais, a começar pela família.

Educar significa mais que instruir, implica capacitar cidadãos para pensar e analisar problemas, fazer escolhas, agir com ética, assumir responsabilidades, controlar a sua vida, e por meio dos processos democráticos participar da definição de objetivos comuns (Forquin, 1993, p. 17).

Dessa maneira, para que o ser humano tenha dignidade, seus direitos constitucionais devem ser protegidos e garantidos; e a educação é um deles. Diante dessa perspectiva, Tiba (1996, p. 140) afirma que

o ambiente escolar dever ser de uma instituição que complete o ambiente familiar do educando, os quais devem ser agradáveis e geradores de afeto. Os pais e a escola devem ter princípios muito próximos para o benefício do filho/aluno.

Os pais são responsáveis pelo progresso de seus filhos, por acompanhá-los na vida escolar e para entender como funciona todo o âmbito escolar no qual seu filho está inserido; sendo assim, esse fator de participação proporciona melhoria no processo de ensino-aprendizagem do aluno.

Porém, devido a alguns fatores, como excesso de trabalho e falta de comprometimento, a família acaba distanciando-se da escola e gerando grande problema. Como afirma Macedo (1996, p. 12),

esta é uma relação permeada pelos mais diversos fatores: o sofrimento dos pais por afastarem seus filhos de si mesmos; os desejos de que a escola lhes ofereça o melhor, em todos os aspectos; a necessidade da garantia dos melhores cuidados para com as crianças; os ciúmes que sentem os pais ao dividirem os filhos com os professores; o medo do fracasso escolar; as projeções dos próprios fracassos compensados através dos filhos; o pouco interesse pela vida escolar dos filhos; as superexigências dos pais; as atitudes de aceitação ou não dos filhos; as questões de rejeição ou negligência; as dificuldades pessoais dos pais; o contexto sócio-econômico-histórico em que se fundamenta a família; a permissividade ou o autoritarismo; as relações de amor e hostilidade; a violência contra os filhos ou entre familiares; as atitudes, padrões e valores morais da família; o relacionamento entre casal e filhos; doenças, separação, desemprego; os diferentes modelos de organização familiar.

Assim, apresenta-se uma enorme preocupação, em que educar é uma ação política e não um trabalho meramente técnico, pois exige um projeto de sociedade. Devido ao pouco tempo que os pais e responsáveis têm para educar os filhos, ocorre que atualmente as famílias esperem mais da escola.

Essa preocupação pode abalar e comprometer as funções das instituições familiares, ou seja, essas transformações de ordem cultural, social, política e econômica que a instituição familiar vem vivenciando na contemporaneidade podem interferir em sua prática educadora e formadora em relação a seus filhos, talvez deixando essa função para sociedade como um todo, desde a escola até ao Estado, com a utilização de outros meios coercitivos que podem levar a punições, fatores decorrentes da falta da influência familiar. Carvalho destaca:

a família não é o único canal pelo qual se pode tratar a questão da socialização, mas é, sem dúvida, um âmbito privilegiado, uma vez que este tende a ser o primeiro grupo responsável pela tarefa socializadora e constitui uma das mediações entre o indivíduo e a sociedade. Sob este prisma, a família não só interioriza aspectos ideológicos dominantes na sociedade como projeta, ainda, em outros grupos os modelos de relação criados e recriados dentro do próprio grupo (Carvalho, 2004, p. 42).

Dito isso, é importante ressaltar o papel a ser exercido pela escola e pelos pais no processo de ensino-aprendizagem, em se tratando de uma sociedade que passa por mudanças constantes e a busca de novas formas e caminhos para a vivência em sociedade. Os aspectos sociais, culturas e políticos constituintes da humanidade estão em constantes transformações. Por isso é grande “a importância de um lugar em que os filhos e estudantes possam se sentir seguros e confiantes no seu próprio potencial, e a escola pode ser este ambiente quando estiver bem estruturada e apoiada pela família” (Fernandes, 2014, p. 12).

A parceria entre familiares e as instituições de ensino – seja na Educação Básica ou na Técnica – é concretizada quando ambos estão unidos em um único objetivo: formar cidadãos conscientes da sociedade em que habitam com a perspectiva de um futuro promissor (Souza, 2012).

Portanto, é necessária a participação efetiva dos pais no processo de ensino-aprendizagem dos seus filhos, pois o conhecimento é alcançado em sua plenitude quando ambas as instituições andam e trabalham juntas, com  participação da família nas questões escolares, proporcionando uma relação harmoniosa entre escola e família, sendo fator de mudança da realidade social para despertar maior interesse dos indivíduos em relação à participação nas questões sociais, culturais, políticas e econômicas da sociedade na qual estão inseridos, com o intuito da busca por uma sociedade melhor.

Considerações finais

A família, em seus diferentes formatos, é a base para a formação do indivíduo no meio social, pois é por meio do conhecimento informal que se mostram os primeiros modos de viver em sociedade. No entanto, para que a formação seja completa, é necessário outro tipo de conhecimento, o formal e sistematizado, que é proporcionado pela escola.

Dessa forma, as instituições família e escola são necessárias para a formação do indivíduo em sua totalidade por meio do processo de ensino-aprendizagem. Sua ação ocorre de forma interligada na formação dos indivíduos, cada qual com suas funções; elas têm o mesmo intuito: formar indivíduos para a vivência em sociedade. O que se percebe é a necessidade de cooperação entre ambas, pois as duas contribuem no processo de formação do cidadão.

Sendo assim, é importantíssimo que ocorra sinergia entre essas instituições sociais para que a formação desse indivíduo seja plena por meio do conhecimento informal proporcionado pela família e pelo conhecimento formal adquirido e produzido na escola. Assim, tanto escola quanto família precisam organizar-se da melhor forma possível para que exista esse diálogo e essa sinergia, tanto para que a família participe da escola como também para que a educação produzida em casa facilite a escolarização do indivíduo. As escolas, por sua vez, devem se planejar de forma que integrem a família ao processo pedagógico. Elas devem orientar os pais de forma a beneficiar a relação. A escola deve se planejar para que saiba lidar com a presença da família e entender a importância dessa ação.

O estudo em questão apresentou grande contribuição, constatando que a relação entre família e escola é importante e sua sinergia é fundamental para a construção do conhecimento dos indivíduos para a vivência em sociedade. Assim, o tema remete à necessidade de novas leituras e novos estudos, procurando sempre formas de realizar esse diálogo, visto que a relação entre família e escola é fundamental para a inserção na sociedade.

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Publicado em 02 de junho de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

WIECZORKIEVICZ, Alessandra Krauss; BAADE, Joel Haroldo. Família e escola como instituições sociais fundamentais no processo de socialização e preparação para a vivência em sociedade. Revista Educação Pública, v. 20, nº 20, 2 de junho de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/19/familia-e-escola-como-instituicoes-sociais-fundamentais-no-processo-de-socializacao-e-preparacao-para-a-vivencia-em-sociedade