O ensino de Zoologia e a confecção de uma coleção zoológica didática

Hugo José Coelho Corrêa de Azevedo

Mestrando em Ensino de Biociências (IOC/Fiocruz)

Sílvia Archanjo Carlos Ribeiro

Mestranda em Educação em Ciências (Unifei), professora da rede pública do Estado de Minas Gerais

Guilherme de Paula Farias

Mestrando em Educação de Ciências (Unifei), professor da rede pública do Estado de Minas Gerais

Apesar do constante desenvolvimento da tecnologia, na maioria das escolas da rede pública de ensino brasileiro, o ensino de Biologia se limita ao uso do quadro e giz por falta de recursos didáticos mais adequados ou mesmo pela inexperiência do docente em utilizar os equipamentos multimídia (Krasilchik, 2009). Assim, as aulas tornam-se exclusivamente expositivas e a opção de contato mais próximo do aluno com seus determinados objetos de estudo se dá a partir da visualização de imagens coloridas contidas nos livros didáticos.

O mesmo ocorre no ensino de Zoologia, o qual apresenta historicamente uma abordagem bastante conteudista provinda do século XX (Oliveira, 2013) e limitada a decorar nomes de classes, filos e ordens (Pereira, 2012), o que remete diretamente ao estilo de educação bancária descrita por Freire (1996).

Azevedo et al. (2012) reporta em seus estudos um grande potencial que as coleções zoológicas didáticas possuem para otimizar o processo de construção do conhecimento, permitindo uma relação mais próxima do aluno com seu objeto de estudo, não se limitando apenas no contexto do livro didático. Cientes da importância, as coleções zoológicas configuram-se como uma alternativa pedagógica capaz de promover a interação teoria-prática. Ademais, tais coleções permitem que o aluno se familiarize com animais ausentes do seu ambiente de convívio, em virtude da grande diversidade de hábitats ocupados pelos animais, além de elas auxiliarem o professor em sua execução de aula (Almeida et al., 2014).

Azevedo (2019) discute em sua literatura a importância das coleções zoológicas no processo de construção dos saberes zoológicos para o ensino em Zoologia. Para o autor, essas coleções são de grande proveito, uma vez que podem ser montadas até mesmo dentro da sala de aula, não necessitando de grandes espaços ou ferramentas complexas para sua confecção, além de ser uma ação dialógica entre o professor, o aluno e o momento da confecção.

Martins (1994) define as coleções zoológicas como um conjunto ordenado de espécimes mortos ou partes corporais devidamente preservados. Nesse sentido, a Taxonomia (ciência que estuda a classificação dos organismos) se une para a formação de uma coleção zoológica.

Apesar da necessidade de constante manipulação das coleções zoológicas didáticas pelos alunos, esse material, quando devidamente conservado, pode preservar suas características anatômicas e morfológicas por muito tempo, permitindo que as escolas possuam um acervo didático de qualidade (Azevedo, 2019).

Diante do elevado potencial educativo das coleções zoológicas didáticas, um bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) da Universidade Federal de Itajubá, subprojeto Biologia, convidou os alunos do 3º ano do Ensino Médio de uma escola da rede pública de ensino do município de Itajubá, sul de Minas Gerais, a confeccionar uma coleção zoológica de artrópodes em via úmida, a ser utilizada em aulas práticas de Zoologia, a fim de torná-las mais atraentes e dinâmicas. Em via seca já havia um insetário.

Percurso metodológico

A fim de não comprometer as aulas de Biologia, os alunos do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Professor Antônio Rodrigues D’Oliveira foram convidados a confeccionar uma coleção zoológica no horário do contraturno de suas aulas.

Os encontros ocorreram semanalmente nas dependências da escola, mais especificamente no laboratório de Ciências. A fim de desmitificar a ideia de que uma coleção zoológica somente é confeccionada a partir do abate de animais, o bolsista de iniciação frisou com os alunos que se voluntariaram a participar da atividade que a coleção seria montada com animais já mortos.

Durante os encontros, o bolsista promoveu discussões acerca dos procedimentos de montagem de uma coleção zoológica, alertando para as formas apropriadas de fixação e catalogação dos animais, além de abordar questões relacionadas às principais características morfológicas, diversidade, comportamento, reprodução, alimentação e importância ecológica dos espécimes a serem fixados.

Figura 1: Fixação dos espécimes para a montagem da coleção zoológica

Os animais foram fixados em via úmida utilizando álcool 70%, armazenados em potes de vidro de 300 mL e 500 mL, dependendo do tamanho do animal (Figura 1). Em seguida, procedeu-se à etiquetagem, de acordo com a classificação taxonômica.
O processo de etiquetagem e classificação se torna importante para o contato técnico-cientifico que o aluno terá com seu material de estudo (Azevedo et al., 2012; Azevedo, 2019). Ou seja, será a união do processo da prática com o discurso teórico.

Resultados e discussão

Nos encontros iniciais, o bolsista destacou que a coleção zoológica, a ser confeccionada com a participação de quatro alunos, utilizaria apenas animais já mortos, a fim de não se disseminar a prática de matança indiscriminada de animais dentre os alunos. Para tanto, o bolsista alertou que o estado de decomposição dos animais deve ser considerado, pois a consistência estrutural e morfológica do animal em decomposição pode ser afetada; por essa razão, propôs-se a não fixar animais em avançado grau de decomposição.

Ao longo dos encontros, os alunos conheceram as diferentes formas de conservação dos animais em via seca ou em via úmida, além dos princípios éticos e legais relacionados à montagem das coleções zoológicas e os princípios básicos de catalogação e curadoria das coleções.

Três representantes do filo Arthropoda foram fixados. Os primeiros foram um caranguejo e um camarão, representantes do subfilo Crustacea, classe Malacostraca, ordem Decapoda (Triplehorn; Johnson, 2011). Foram discutidos com os alunos aspectos relevantes dos demais representantes dessa ordem. Dentre as suas principais características destacou-se a presença de um exoesqueleto de quitina com grande deposição de carbonato de cálcio, o que confere dureza e resistência contra o ataque de predadores (Figura 2).

Figura 2: Estudo zoológico com uso da coleção confeccionada

Observou-se grande interesse dos alunos por esses crustáceos; muitas perguntas foram realizadas a respeito da evolução, morfo-fisiologia e reprodução. Tal interesse pode ser justifcado pelo fato de se tratar de um animal marinho e pouco conhecido pelos alunos dessa região do Brasil. Discutiram-se ainda questões ecológicas relativas a esse representante, que é considerado um importante decompositor na cadeia de detritos, além de servir como alimento na cadeia de pastagem.

Os outros espécimes fixados são importantes representantes do subfilo Chelicerata, classe Arachnida: aranha e escorpião. Segundo Triplehorn e Johnson (2011), essa classe possui cerca de 65 mil espécies descritas. O bolsista destacou as principais características morfológicas desse subfilo: corpo dividido em opistossoma e prossoma, ausência de antenas, presença de quatro pares de pernas, além de quelíceras e peldipalpos. Explicou que as quelíceras correspondem ao primeiro par de apêndices articulados do corpo de um aracnídeo, apresentando várias funções, dentre as quais a inoculação de veneno, como observado em algumas aranhas. Os pedipalpos correspondem ao segundo par de apêndices articulados dos aracnídeos; são as duas grandes pinças preensoras existentes nos escorpiões e a estrutura responsável pela cópula em algumas aranhas.

Considerações semelhantes àquelas realizadas com os crustáceos quanto a diversidade e importância ecológica também foram feitas com a aranha e o escorpião. Os alunos relacionaram a importânica ecológica dos aracnídeos ao ambiente agrícola, no controle de pragas como gafanhotos em uma lavoura. O bolsista destacou que, apesar de esses aracnídeos serem animais peçonhentos, ou seja, produzem veneno e utilizam as quelíceras (aranhas) ou o aguilhão (escorpião) para inocular o veneno, eles não devem ser exterminados, pois possuem uma importante função ecológica nos ecossistemas, como animais carnívoros e predadores. A diversidade se torna muito importante como foco de discussão, uma vez que é prevista nos documentos curriculares (Brasil, 1996; 2002; 2018) e nas pesquisas acadêmicas (Krasilchick, 2009; Martins, 1994; Azevedo et al., 2012; Azevedo, 2019).

No total, foram quatro exemplares obtidos no início da coleção zoológica didática. Isso pode parecer pouco, mas a coleções didáticas têm menores números de exemplares do que os demais tipos de coleções.

Considerações finais

Conclui-se que as coleções zoológicas são uma estratégia pedagógica válida e de elevado potencial educativo, pois aproximam o aluno do seu objeto de estudo, permitindo a reflexão sobre diversas características dos animais e suas interações com o meio ambiente, além de deixar o conteúdo mais atrativo para os alunos, promovendo maior interesse pela Zoologia e levando a possíveis ações dialógicas da práxis.

O contexto de biodiversidade de formas zoológicas e suas interações com o meio podem auxiliar o aluno em uma visão construtivista acerca do mundo à sua volta, transparecendo uma relação harmônica entre as Biociências e o seu estudante. Uma das funções do ensino de Biociências é justamente essa aproximação com as relações naturais.

O ambiente escolar se encontra arcaico e engessado por políticas e pressupostos antigos, definindo como deve ser portar dentro do ensino formal; logo, intervenções como esta podem atuar na pós-modernização do ambiente escolar como espaço ativo e propício a possíveis construções de conhecimento e de ensino-aprendizagem em Biociências.

Nesse sentido, espera-se que a coleção zoológica que se encontra disponível na escola possa servir como importante instrumento de apoio durante as aulas de Zoologia para os alunos do Ensino Fundamental e do Médio.

Referências

ALMEIDA, T. G. S.; CORRÊA, B. C.; MATOS, G. I. Desenvolvimento e organização de coleção zoológica didática no Cefet/RJ: desafios, possibilidades e primeiras aplicações. Revista SBEnBio, nº 7, 2014.

AZEVEDO, H. J. C. C. Introdução ao ensino de Zoologia. Goiânia: Espaço Acadêmico, 2019.

AZEVEDO, H. J. C. C. et al. O uso de coleções zoológicas como ferramenta didática no ensino superior: um relato de caso. Revista Práxis, v. 4, nº 7, 2012.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996.

______. MEC. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

______. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 2002.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática docente. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

KRASILCHIK, M. Biologia - ensino prático. Introdução à didática da Biologia. São Paulo: Escrituras, 2009.

MARTINS, U. A. Coleção taxonômica. Fundamentos práticos de Taxonomia zoológica: coleções, bibliografia, nomenclatura. 2ª ed. São Paulo, 1994.

OLIVEIRA, L. S; SOUZA, M. L. Articulando o ensino de Zoologia com a Etnozoologia: análise de uma proposta educativa com estudantes do ensino fundamental. Revista SBEnBio, v. 7, p. 5.470-5.481, 2014.

TRIPLEHORN, C. A.; JOHNSON, N. F. Estudo dos insetos. 7ª ed. São Paulo: Cengage Learning, 2011.

Agradecemos ao Pibid (Capes) pela concessão de bolsa aos alunos de graduação.

Publicado em 23 de junho de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

AZEVEDO, Hugo José Coelho Corrêa de; RIBEIRO, Sílvia Archanjo Carlos; FARIAS, Guilherme de Paula. O ensino de Zoologia e a confecção de uma coleção zoológica didática: um relato de experiência. Educação Pública, v. 20, nº 23, 23 de junho de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/23/o-ensino-de-zoologia-e-a-confeccao-de-uma-colecao-zoologica-didatica