Cine-debate: abordando a importância das áreas verdes através de Cienciarte

Paula Thaise Bermudez dos Reis

Graduada em Ciências Biológicas (Unigranrio), mestre em Engenharia Ambiental (UERJ), especialista em Educação e Divulgação Científica (IFRJ), e em Educação Ambiental Urbana (Cornell University), atua na área de Engenharia Sanitária e em Gestão Ambiental e Qualidade do Ar e em Saúde Pública

Nas cidades, as áreas verdes possuem conhecida importância por suas funções ecológicas, sociais e em termos de saúde pública, sendo imprescindíveis para a qualidade de vida no ambiente urbano, uma vez que atuam promovendo o bem-estar, as práticas esportivas, maior socialização e o estímulo à identificação da comunidade com o local (Chaddad, 2000; Loboda; Angelis, 2009; Silva et al., 2016). Além disso, Loboda e Angelis (2005) também citam a importância na atenuação da poluição sonora, na filtragem das partículas sólidas em suspensão no ar, na formação e no aprimoramento do senso estético.

Apesar de sua importância, diversas pessoas não têm acesso às áreas verdes ou espaços arborizados, especialmente a população residente em grandes aglomerados urbanos localizados em regiões periféricas. De acordo com Sanches (2014), é comum a existência de áreas degradadas em virtude de aglomerados irregulares. A autora explica que, nesse caso, a degradação das áreas verdes é associada ao problema do elevado preço do solo urbano, impulsionado pela livre ação do mercado imobiliário, que provoca forte especulação da terra, sem nenhum controle ou diretriz do poder público.

A escassez de regiões vegetadas é um problema na cidade de São João de Meriti (SJM), no Estado do Rio de Janeiro; a cidade apresenta índice nulo de áreas verdes (Rio de Janeiro, 2017). Esse dado é preocupante, uma vez que a ausência desses espaços compromete a saúde das pessoas pelos efeitos na qualidade do ar, na saúde mental – especialmente no que se refere ao estresse – e na regularidade da prática de atividades físicas (D’Alessandro et al., 2015).

Em observações realizadas no exercício da docência em uma escola estadual de SJM durante os anos de 2018 e 2019, verificou-se que esse problema de cunho socioambiental era desconhecido e passava por despercebido por grande maioria dos estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, de forma que se tornou imperiosa a necessidade de abordar a temática para despertar o interesse para a questão.

Assim, a presente atividade foi proposta e implementada tendo como objetivo abordar a questão das áreas verdes de forma artística e lúdica, despertando a curiosidade, a imaginação e a reflexão sobre o tema. O trabalho se fundamenta em Cienciarte e a metodologia empregada foi o cine-debate.

Abordar a questão socioambiental na escola é imprescindível, visto que a reflexão e a análise crítica do problema são necessárias para o engajamento das pessoas e para a participação social.

O que é Cienciarte?

A Ciência, ao se solidificar como forma de produção do conhecimento baseada na razão, na lógica, na clareza e na objetividade, foi gradualmente se distanciando da Arte, que por sua vez é subjetiva, relacionada a sensações, à imaginação, a sentimentos etc. Esse afastamento impede a compreensão global da realidade; dessa forma é necessário resgatar a conexão entre arte e ciência (Araújo-Jorge, 2004; Sawada; Ferreira; Araújo-Jorge, 2017).

De acordo com Root-Bernstein et al. (2011), todas as coisas podem ser compreendidas por meio da arte, mas esse entendimento é incompleto e tudo pode ser concebido através da ciência, apesar de essa compreensão também ser inacabada. Segundo os autores, a junção entre esses dois campos do pensamento e linguagem – a Cienciarte –, possibilita uma compreensão mais ampla e completa de tudo.

Sawada, Ferreira e Araújo-Jorge (2017) defendem que a combinação entre arte e ciência pode ser considerada uma estratégia pedagógica para a Educação e para a divulgação científica (DC); por esse motivo é importante que se considere Cienciarte na programação de uma instituição.

Na escola, Cienciarte é uma perspectiva fundamental para o desenvolvimento de suas atividades, tendo importante papel na Educação Ambiental por inspirar a curiosidade, a criatividade, a imaginação, o pensamento crítico e a resolução de problemas por meio de inovação e colaboração (Root-Bernstein et al., 2011).

Metodologia

O cine-debate foi a metodologia escolhida; a atividade teve duração de duas horas e trinta minutos. O público-alvo foram estudantes do 2º segmento do Ensino Fundamental de uma escola pública de São João de Meriti.

Para a realização da atividade, foi necessário dispor de um televisor e um aparelho leitor de DVD, uma televisão com entrada para pen drive ou um datashow, além, é claro, do filme salvo em DVD ou pen drive para exibição. O filme apresentado foi O Lorax em busca da trúfula perdida.

O cine-debate

O cinema, também chamado “sétima arte”, é conhecido por sua capacidade de atingir um público amplo, por possuir linguagem acessível e ludicidade (Costa, 2013).

De acordo com Berti e Carvalho (2013), a arte cinematográfica possibilita diálogos entre diferentes tempos, espaços, estilos e culturas. Segundo os autores, de forma lúdica e intensa, as pessoas entram em contato com uma diversidade de temas e questões, identificam-se, incomodam-se e comovem-se, já que em um filme vive-se a experiência do personagem. “O cinema, com seus filmes, não está aí para “poupar” os espectadores, mas, sim, para promover um encontro avassalador com a arte” (Berti; Carvalho, 2013, p. 186).
De acordo com Libedinsky (2008), o cinema propicia uma verdadeira imersão em um assunto, leva as pessoas a criar opiniões, a comentar aquilo a que assistiram e a registrar em sua memória a experiência que ali se percebeu ou viveu, possuindo assim potencial pedagógico.

O cine-debate, que une o cinema e uma posterior discussão sobre determinado tema, pode ser considerado uma estratégia de educação e divulgação científica. Busca promover encontros entre as pessoas e, ao mesmo tempo, aproximá-las das experiências que vivem e produzem em sociedade (Berti; Carvalho, 2013); por esse motivo, foi escolhido como estratégia para abordar a questão socioambiental.

Miranda e Amaral (2018) apontam a importância do cine-debate para a abordagem de conteúdos de maneira complementar e dinâmica, propiciando o aprendizado mediante uma atividade interativa e lúdica que possibilita questionamentos e associações.

As sessões de cine-debate são organizadas em quatro etapas: apresentação do filme, projeção, debate e avaliação (Berti; Carvalho, 2013), conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1: Etapas do cine-debate

Etapa Descrição
Apresentação do filme Exposição, antes de cada projeção, de elementos gerais do filme: ficha técnica, sinopse e outras informações
Projeção Exibição propriamente dita do filme
Debate Apresentação e discussão, quando os debatedores buscam articular o tema com a obra cinematográfica, abrindo à participação do público para perguntas, acréscimos e críticas
Avaliação Análise do encontro baseada em questionário

Fonte: Adaptado de Berti e Carvalho (2013).

O filme O Lorax: em busca da trúfula perdida

Este é um longa-metragem do gênero animação, lançado em 2012 pelos estúdios norte-americanos Illumination Entertainment. A obra é inspirada no livro O Lorax, do também norte-americano Dr. Seuss, publicado em 1971; esse trabalho aborda a temática da ambição de grandes empresas e empresários que não se importam com os impactos ambientais de suas atividades.

O filme e o livro trazem falam de ambientalismo de forma lúdica. A história se passa em uma cidade de plástico, onde não há áreas verdes e árvores. Lá, o jovem Ted apaixona-se por Audrey, que tem o sonho de ver de perto uma árvore real. Em meio à saga para realizar o sonho de sua amada, Ted conhece Lorax, o guardião da floresta das trúfulas, um ser mágico e curioso, que luta para proteger a natureza. Para alcançar seu objetivo, Ted também terá que enfrentar a oposição do prefeito da cidade, empresário que obtém lucro com a venda de ar puro.

De acordo com Lorenzon et al. (2014), a película apresenta diversas possibilidades didáticas; assim, os autores sugerem como tópicos de Educação Ambiental para discussão do filme: a extinção de espécies, o desmatamento, os padrões de consumo e a consciência socioambiental, entre outros. Indicamos também como possibilidade de discussão: a importância da arborização e das áreas verdes, bem como a mobilização social.

Resultados e considerações finais

A atividade foi bem aceita pelos estudantes, que estiveram atentos aos detalhes do filme e interessados em participar do debate. A exibição do filme foi importante para chamar a atenção sobre diversos aspectos das questões ambientais, especialmente quanto aos interesses políticos, sociais e econômicos que provocam a ausência ou escassez das áreas verdes.

De forma lúdica, o cine-debate permitiu a imersão no tema pela exibição da obra; posteriormente, com o diálogo, deu oportunidade de articular o assunto, comparando a realidade cinematográfica àquela observada no município.

A ação desenvolvida mostrou-se uma forma diferente de abordagem do tema, levando à abstração, ao refletir e ao externar o pensamento pelo diálogo, possibilitando ao educando ter papel ativo no seu processo de aprendizagem.

Trabalhar a questão ambiental mediante a Cienciarte viabilizou uma abordagem ampliada e a imersão no tema, tornando os estudantes abertos e interessados em maior aprofundamento teórico e engajamento quanto às questões ambientais.

Espera-seque essa atividade seja replicada em outras realidades, de forma contextualizada, e que seja proveitosa para reunir pessoas e estimular a reflexão sobre o modelo societário vigente, sobre as injustiças ambientais e sobre a necessidade de engajamento da população quanto às questões socioambientais.

Referências

ARAÚJO-JORGE, T.C. (Org.). Ciência e Arte: encontros e sintonias. Rio de Janeiro: Editora Senac, 2004.

BERTI, A.; CARVALHO, R. O cine-debate promovendo encontros do cinema com a escola. Pro-Posições, v. 24, nº 3, p. 183-200, 2013.

CHADDAD, J. Evolução urbana na arquitetura e no paisagismo. In: DEMÉTRIO, V. A.; CHADDAD, J.; LIMA, A. M. L. P.; CHADDAD JUNIOR, J. Composição paisagística em parques e jardins. Piracicaba: Fealq, 2000. p. 7-54.

COSTA, Cristina. Educação, imagem e mídias. São Paulo: Cortez, 2005.

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LOBODA, C. R.; ANGELIS, B. L. D. Áreas verdes públicas urbanas: conceitos, usos e funções. Ambiência, v. 4, nº 1, p. 125-139, 2009. 

______; ______. Áreas verdes públicas urbanas: conceitos, usos e funções. Ambiência, v. 1, nº 1, p. 125-139, jan./jun. 2005.

LORENZON, D. et al. Os filmes e os estudos de Educação Ambiental. Sinect, Ponta Grossa, p. 1-2, 2014.

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RIO DE JANEIRO (Capital). Caderno Metropolitano. Rio de Janeiro, 2017.

ROOT-BERNSTEIN, R.; ROOT-BERNSTEIN, M. Centelhas de Gênios: como pensam as pessoas mais criativas do mundo. São Paulo: Nobel, 2001.

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SANCHES, P. M. De áreas degradadas a espaços vegetados. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2014.

SAWADA, A. C. M. B.; FERREIRA, F. R.; ARAÚJO-JORGE, T. C. Cienciarte ou ciência e arte? Refletindo sobre uma conexão essencial. Revista Educação, Artes e Inclusão, v. 13, nº 3, p. 158-177, 2017.

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Publicado em 07 de julho de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

REIS, Paula Thaise Bermudez dos. Cine-debate: abordando a importância das áreas verdes através de Cienciarte. Revista Educação Pública, v. 20, nº 25, 7 de julho de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/25/cine-debate-abordando-a-importancia-das-areas-verdes-atraves-de-cienciarte