Currículo e a escola do século XXI: a escola e seus novos desafios

João Paulo Bulhões e Mattos

Aluno do Curso de Aperfeiçoamento em Educação Especial e Inclusiva para Professores da Educação Básica (Cecierj)

A história da educação pública no Brasil revela que a escola (física e simbolicamente) foi consolidando-se como o lugar mais apropriado para a formação das novas gerações. Foi sendo construída na escola uma cultura escolar distante da cultura de parcelas da população que se pretendia modificar por meio das crianças: uma cultura escolar que não se articula em torno do conhecimento, mas da possibilidade de criar uma instituição ordenadora da vida social. A escola fica, ainda hoje, muitas vezes distante do aluno em suas proposições e não entende o seu contexto social e colabora para um currículo elitizado e descontextualizado da cultura de sua comunidade.

Ao propor um currículo com foco na construção de competências, faz-se necessário definir esse conceito no âmbito desse referencial. Para nós, competências são esquemas mentais de caráter cognitivo, socioafetivo ou psicomotor que utilizamos para estabelecer relações com sujeitos, objetos e situações. Uma competência permite mobilizar conhecimentos e experiências anteriores, a fim de enfrentar determinada situação. Por que mobilizar? Porque competência não se refere à simples aplicação rígida de regras ou receitas, mas da capacidade de lançar mão dos mais variados recursos, de forma criativa, no momento e da forma adequada. Competências também se referem à capacidade de mobilizar conhecimentos prévios que o aluno possua para problematizar situações educativas, valores e decisões para agir de modo pertinente numa determinada situação, dando respostas novas, criativas e eficazes para problemas novos.

Em geral, ela se constitui de várias habilidades. A competência de resolver problemas, por exemplo, envolve diferentes habilidades, entre elas as de identificar, analisar e articular dados e informações. Só se desenvolvem competências na prática. Aprende-se fazendo, vivenciando situações que as exijam.

De fato, a escola tem dificuldade de fazer o aluno crítico e formá-lo autônomo. Esses itens ficam evidentes quando analisamos o currículo e verificamos algumas questões que poderiam ser abordadas diferentemente. Minha análise de dará com base no currículo da Prefeitura de Maricá em 2019.

O primeiro fator a ser levado em consideração é que o currículo enfatiza a questão da competência, mas não diz como trabalhá-la, pois não problematiza como abordar as competências correlacionando ao conteúdo.

O segundo ponto é que em Língua Portuguesa, no 9º ano, o aluno só vai estudar o conteúdo de oração adverbial nos últimos meses do ano letivo e esse conteúdo é cobrado na Prova Brasil; logo, penso que seria interessante antecipar o conteúdo para que o aluno tivesse mais tempo durante o ano para que possa absorvê-lo e estar capacitado para fazer a Prova Brasil, que no contexto público os alunos fazem para medir seu conhecimento.

Outro ponto que eu acho que deveria ser trabalhado é o treino de texto dissertativo-argumentativo para que o aluno esteja capacitado a fazer uma prova de concurso, como a do IFF ou IFRJ e os colégios militares. Esse tópico também é abordado somente nos últimos meses do ano letivo; esse gênero de texto é difícil para os alunos produzirem, tendo em vista que leem pouco. Logo, seria importante inverter e aplicar o conteúdo nos primeiros meses e manter esse assunto durante todo o ano letivo para que o aluno tenha tempo de aprender a produzir textos contextualizados com a realidade brasileira. Um ano sendo exposto ao gênero é bem melhor do que somente alguns meses, e o professor poderia diversificar os temas das redações com assuntos reais e abstratos relacionados à sociedade brasileira.

A contextualização representa a ação de problematizar em um contexto, isto é, em um ou vários campos do conhecimento, em tempo e espaço definidos. Não é simples estratégia, mas sim um princípio pedagógico. Não se limita à dimensão concreta ou local. Pode ser abstrata e/ou global, mas é sempre significativa. Também é conhecida no meio educacional como aprendizagem situada. É fundamental levar o aluno a transitar entre contextos locais e globais, ampliando seu quadro de referências.

Assim, um ano seria um bom espaço de tempo para que o aluno se familiarizasse com o texto e fosse capaz de fazer uma prova de concurso e mostrar para a banca a sua formação crítica e seu poder de argumentação e defesa de um ponto de vista dentro de um texto.

Publicado em 28 de julho de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MATTOS, João Paulo Bulhões e. Currículo e a escola do século XXI: a escola e seus novos desafios. Educação Pública, v. 20, nº 28, 28 de julho de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/28/curriculo-e-a-escola-do-seculo-xxi-a-escola-e-seus-novos-desafios