Do projeto à ação: uma experiência cidadã com alunos de uma escola pública

Tatiane Pacheco de Mattos

Docente da rede municipal de Mesquita, mestre em Educação (UFRRJ, PPGEDUC)

Adriana do Nascimento Barbosa dos Santos

Docente da rede municipal de Mesquita, mestre em Educação (UERJ/FEBF, PPGECC)

O objetivo desta comunicação é relatar a experiência pedagógica pautada na Metodologia de Ensino por Projetos (Almeida, 2002) com os alunos da turma de 4º ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede pública do município de Mesquita. O tema anual da rede para 2019 foi “A leitura e suas múltiplas linguagens”. Em setembro daquele ano estava prevista também a comemoração dos vinte anos de emancipação da cidade.

Em continuidade ao planejamento de unidade, agora contextualizando-o com o tema voltado para a cidade, buscamos explorá-lo em todas as áreas de conhecimento: Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Matemática. As atividades se desenvolveram no período de quatro semanas e não se limitaram ao espaço escolar formal, sendo consideradas as perspectivas de Paulo Freire (1987) para a promoção de uma educação crítica e libertadora, e, não menos importante, Hernández e Ventura (1998), para justificar a Metodologia de Ensino por Projetos.

Buscamos problematizar o projeto com base na aula temática sobre a agricultura familiar no município de Mesquita. Nesse contexto, partimos da reflexão micro para uma reflexão macro em que discutimos a manchete que falava da autorização do uso de mais de 380 agrotóxicos no Brasil (Portal G1, 2019). Em meio à discussão, refletimos sobre a questão econômica e os danos à saúde da população. Temos assim um problema concreto implicado ao cotidiano que nos conduziu a pesquisar acerca da agricultura familiar da cidade: a agricultura e o uso de agrotóxicos, a população, a economia e o incentivo do governo; ao final do trabalho culminamos com a degustação de salada de frutas saudável.

Dada a perspectiva de trabalhar de forma interdisciplinar (Fazenda, 1995), julgamos a Metodologia de Ensino por Projetos o método adequado para prover uma educação capaz de transformar a realidade por meio da reflexão, do diálogo e do conhecimento científico, distanciando o educando do imobilismo semeado pela educação bancária (Freire, 1987), deixando à escola o papel de expositora de conhecimento para exercer sua função social.

A Metodologia por Projetos visa colocar os educandos como protagonistas do seu aprendizado, em que, para além de conceitos compreendidos e construídos, vivenciam uma relação democrática em que possam exercer sua natureza autônoma (Dewey, 1973), enquanto realizam tarefas importantes, como pesquisas, organização de grupos, distribuição de tarefas etc. sob a coordenação do professor, outro membro do grupo, o que nos leva a concordar com Hernández e Ventura (1998, p. 10), pois “a Pedagogia de Projetos propicia que na escola – alunos e professores – participem e transformem em aprendizagem as experiências sociais”. Como neste projeto, que contou ativamente com a participação da equipe técnico-pedagógica, o grupo de inspetores e de merendeiras.

Do projeto à ação

No primeiro momento do trabalho, buscamos alinhavar a temática junto às constantes notícias da mídia sobre a quantidade de agrotóxicos regulamentados. Essa razão nos levou a muitos momentos de debates em sala de aula, abrindo assim espaço para a apresentação do conceito de alimentação orgânica, que contou com a exibição de pequenos vídeos que demonstravam o cotidiano dos associados à agricultura familiar, a diferença de alimentos orgânicos e não orgânicos, inclusive sobre a relação entre benefícios e preços e a organização e a estrutura de uma cooperativa, entre outros aspectos afins. Nesse ínterim, muitas dúvidas foram expostas; algumas foram discutidas e outras, apenas anotadas pelos educandos para mais à frente do percurso utilizarmos como ferramenta de aprendizagem.

No segundo momento, ainda na mesma semana, a fim de promover a interação dos educandos, foi agendada pela direção da escola uma visita técnica à Secretaria Municipal de Trabalho, Desenvolvimento Econômico e Agricultura (Setrade), na prefeitura de Mesquita, para que fosse possível uma entrevista com a responsável por elucidar as dúvidas levantadas no decorrer do percurso. A entrevista foi motivo de enriquecimento e incentivo para as aulas de tipologia textual, em que aprendemos a elaborar perguntas para uma entrevista e a utilizar adequadamente os pronomes de tratamento.
Após a produção da entrevista, que foi compartilhada com toda a turma, buscamos agendar uma visita técnica junto à Setrade. Esse processo requereu, outra vez, o envolvimento da direção, no que diz respeito à logística e à disponibilidade da secretaria para atender a uma turma de 34 alunos.
Após essa etapa, foi iniciado o desenvolvimento do trabalho de habilidades que envolvessem a questão geográfica; nesse sentido, tomaríamos como base o mapa administrativo do município de Mesquita, impresso na escola em escala maior. Nesse momento, verificamos quais são os bairros da cidade, suas fronteiras, os bairros por onde os educandos transitam, a extensão territorial do município e sua população em números, conforme o Censo de 2010.
Pelo material produzido até então, partimos para o quarto momento com a turma. Com a mediação da professora, foi exibido um vídeo de Denilson Baniwa: O agro não é pop, que anuncia as implicações e consequências do agrotóxico e do agronegócio nas populações. Após o vídeo, realizamos pinturas em cartolina como releitura das obras; as pinturas foram expostas no corredor da escola.

Ao sermos informados da data do agendamento, que aconteceu na semana seguinte, iniciamos a preparação para o quinto momento do trabalho: visitar a Setrade, conhecer a prefeitura, entrevistar o responsável pelo atendimento da secretaria. Em meio a expectativas e ansiedade por parte do grupo, ao chegarmos à Prefeitura de Mesquita encontramos inesperadamente com o vice-prefeito, Walter de Almeida Paixão, que prontamente se dispôs a nos acompanhar  e  nos convidou para conhecer seu gabinete.

Nesse momento, ele pôde expor sua longa experiência e vivência na cidade, as narrativas históricas de Mesquita, com ricos detalhes, até seu processo de emancipação. Após isso, fomos convidados a ir ao auditório da prefeitura, quando fomos acompanhados pela responsável pelo atendimento da Setrade. Nessa etapa, o grupo pôde iniciar a sessão de perguntas previamente elaboradas, em um roteiro construído de forma coletiva, sob  a coordenação do professor.

Nas Figuras 1 e 2 estão os registros dos momentos da turma durante o encontro com o vice-prefeito e a entrevista com a então responsável pela Secretaria de Trabalho.

Figura 1: Visita ao gabinete do vice-prefeito da cidade de Mesquita

Figura 2: Entrevista com a responsável pelo atendimento da Setrade

Outras informações relevantes foram apresentadas, como os bairros de Mesquita que são produtores de alimentos, a localização e as fronteiras entre os bairros. Essas informações, na medida em que foram apresentadas pela entrevistada, trouxeram à memória do coletivo o trabalho feito com o mapa administrativo, a existência da Feira de Agricultura Familiar, que acontece quinzenalmente com os produtores locais na Praça Elizabeth Paixão, e a Loja da Agricultura Familiar. Tais ações não apenas fortalecem a economia, mas também valorizam o trabalho feito pelos agricultores da região, conforme aponta Fabio Vilas Bôas, agrônomo da prefeitura:

A Lojinha da Agricultura Familiar surge como alternativa de produção e comercialização em um momento em que a sociedade está cada vez mais preocupada com o tipo de alimento que coloca em suas mesas. A lojinha é uma forma de valorizarmos o trabalho dos agricultores da cidade, pois iremos aproximar a população dos produtos cultivados aqui. Tudo de muita qualidade e saudável  (Mesquita, 2018).

Para nós, as ações demonstradas pela prefeitura vão ao encontro da concepção de um desenvolvimento duradouro, em que é possível gerar renda e emprego, além de segurança alimentar e desenvolvimento da atividade local (Incra/FAO, 2000). Nesse contexto, apesar de não termos alcançado o objetivo inicial do projeto, que era visitar a Feira da Agricultura Familiar da cidade (devido a obras), tivemos oportunidades bastante significativas, como ir a um hortifrúti de produtos orgânicos.

Figura 3: Visita ao sacolão para a avaliação das frutas

Ao finalizarmos esta parte do trabalho, retornamos à unidade escolar e foi acertado que, para realizarmos a degustação de uma salada de frutas, deveríamos então nos dirigir ao hortifrúti mais próximo, dando preferência a alimentos orgânicos. Para a sexta etapa, foi necessário nos articularmos com a gestão da escola, que prontamente providenciou autorizações e disponibilizou funcionários para que os alunos fossem acompanhados ao hortifrúti. Além disso, de maneira prévia, foi acordado com a dona do estabelecimento a visita e a confecção de listas de compras e de valores trazidos pelos alunos. Ou seja: nessa etapa fomos às compras!

Durante esse momento do trabalho, os alunos puderam ter acesso a medidas de massa e avaliação prévia de valores, de maneira que fosse possível comprar o que se desejava com o valor que possuía; além disso, foram trabalhados aspectos da educação financeira, por meio do sistema monetário brasileiro.

Após a jornada de quatro semanas, o grupo pôde compartilhar, no horário do recreio, uma deliciosa salada de frutas. Finalmente, na sétima etapa da trajetória, consolidamos as atividades por meio de fotos, que foram apresentadas na culminância do projeto na unidade, como forma de comemoração da emancipação da cidade de Mesquita. Na ocasião, contamos com a presença de pais, professores e demais alunos da unidade escolar, e os participantes puderam partilhar sua experiência por meio de narrativas e da exposição de fotografias.

Considerações finais

Com o trabalho, realizado na perspectiva de educação de projetos, uma metodologia de ação pedagógica que busca a problematização, percebemos que as atividades se tornaram significativas e contextualizadas, diferentemente do perfil cartesiano culturalmente presente nas escolas. Verificamos, por meio do planejamento/ação, a possibilidade de construir e contribuir para conhecimentos que já existem no dia a dia de nossos alunos.
Entendemos que o universo da criança é feito pelas informações que foram e são adquiridas ao longo de sua vida; entretanto, consideramos que as informações adquiridas não poderiam ou podem estar restritas à mera transmissão de conteúdos; por isso, é necessário que o conhecimento passe pela prática, pela experiência e pela ação.

Nesse sentido, o trabalho que buscamos realizar com nossos alunos pôde estar conectado à vida social de cada aluno/cidadão, especialmente no que se refere à integração do exercício da cidadania quando acontece baseado na imersão em sua própria realidade. Consideramos, por essa imersão, a possibilidade de integrar ações e planejamentos à esfera escolar (professor, diretor, alunos, inspetores), à prefeitura da cidade e à sua política (cidadão/alunos e vice-prefeito), à economia (agricultura familiar e venda de produtos) e à criticidade, a ponto de os alunos questionarem se a merenda da escola vinha da agricultura familiar.

Por último, todavia não finalmente, é possível afirmar que durante esse projeto nós e nossos alunos vivemos a organização da vida social em geral, partindo de experiências cotidianas, relacionando-as às suas vidas. Além disso, consideramos que foi possível imbricar o cotidiano e a educação escolar, muitas vezes apenas de conteúdos previamente estabelecidos, sem, contudo, estabelecer um caráter obrigatório.

Referências

ALMEIDA, Maria Elizabeth de. Como se trabalha com projetos (Entrevista). Revista TV Escola, Brasília, nº 22, mar./abr. 2002.

DEWEY, John. Vida e educação. Trad. Anísio Teixeira. 8ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1973.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. A interdisciplinaridade: um projeto em parceria. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 1995.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

INCRA/FAO. Novo retrato da agricultura familiar: o novo retrato da agricultura familiar: o Brasil redescoberto. Brasília, 2000. Projeto de cooperação técnica Incra/FAO. Disponível em: http://www.uenf.br/Uenf/Downloads/AGRONOMIA_1271_1095426409.pdf. Acesso em: 22 jun. 2020.

HERNÁNDEZ, Fernando; VENTURA, Monserrat. A organização de currículos por projeto de trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

MESQUITA. Mesquita teve mais uma edição da Feira da Agricultura Familiar. 7 de junho de 2019. Disponível em: http://www.mesquita.rj.gov.br/pmm/semgov/setrade/2018/04/17/mesquita-inaugura-lojinha-da-agricultura-familiar/. Acesso em: 22 jun. 2020.

PORTAL G1. Ritmo de liberação de agrotóxicos em 2019 já é o maior registrado. 25 de maio de 2019. Disponível em:  https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/05/26/ritmo-de-liberacao-de-agrotoxicos-em-2019-e-o-maior-ja-registrado.ghtml. Acesso em: 15 jun. 2020.

Publicado em 04 de agosto de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MATTOS, Tatiane Pacheco de; SANTOS, Adriana do Nascimento Barbosa dos. Do projeto à ação: uma experiência cidadã com alunos de uma escola pública. Revista Educação Pública, v. 20, nº 29, 4 de agosto de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/29/do-projeto-a-acao-uma-experiencia-cidada-com-alunos-de-uma-escola-publica

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.