Ensino na rede pública em tempos de pandemia: duas experiências docentes

Gustavo Gomes Siqueira da Rocha

Professor na rede pública de Minas Gerais, monitor de Língua Portuguesa no Projeto Colap (PUC-Rio), mestrando profissional em Letras (UFJF), membro da Abralin, organizador da coletânea Reflexões sobre línguas

Solange Diniz de Oliveira

Graduanda de Letras - Língua Portuguesa (UEPB), professora no curso preparatório para o Enem da (UFCG)

A pandemia mundial acarretada pelo Covid-19 atingiu as mais distintas esferas da vida social, provocando mudanças de comportamento, reflexões, aumento da higiene e readaptações de espaços, inclusive dentro das residências. De estabelecimentos comerciais a instituições de saúde, todos tiveram que passar por um processo de readaptação imediato para o prosseguimento de suas atividades; no âmbito da educação não foi diferente.

Se durante as duas primeiras décadas do século XXI questões como uso de celular em sala, aplicação de metodologias ativas, autonomia discente e uso de novas tecnologias eram constantemente discutidas, o isolamento social acarretado pela pandemia do novo coronavírus revelou na prática a necessidade de aplicação das novas tecnologias para o ensino. Desde então, professores de todo o Brasil tiveram que se adaptar a um novo contexto de teletrabalho, até então nunca experenciado. As folhas, os cadernos e o tradicional ambiente da sala de aula deram lugar a acessórios como câmeras, vídeos e slides, com o compartilhamento de tela e programas de edição de vídeo.

Nesse sentido, Mattar (2017, p. 21) apontou o desenvolvimento da internet como fator crucial para a destituição da centralidade docente em sala de aula.

A posição central do professor no processo de ensino (...) começou a ser questionada de maneira mais intensa a partir do momento em que a internet passou a disponibilizar informações e conteúdos gratuitos de qualidade, e em abundância, para qualquer pessoa interessada, criando, assim, espaço para desenvolvimento de metodologias mais ativas, nas quais o aluno se torna protagonista e assume responsabilidade sobre seu processo de aprendizagem (e o professor se torna um guia ao seu lado).

Tendo em vista que muitos foram os caminhos e métodos apresentados por estados e municípios no Brasil para que suas escolas pudessem oferecer de forma fácil e direta conteúdo aos alunos durante o período de isolamento social, neste trabalho apresentam-se relatos de experiência de dois docentes que atuam em diferentes estados brasileiros em diferentes contextos da Educação Pública.

Relatos de experiência

Os relatos apresentados neste trabalho foram colhidos em conversas e contatos realizados por meio das redes sociais WhatsApp e Facebook, em comunidades e grupos que reúnem docentes do Brasil para debates e troca de experiências. O questionamento feito aos professores foi: “Como tem sido sua experiência com o ensino durante a pandemia?”

O primeiro relato foi de um docente de Minas Gerais. Ele descreve como tem sido o teletrabalho:

Sou professor efetivo da rede estadual de Minas Gerais, leciono tanto para séries finais do Ensino Fundamental quanto para Ensino Médio, em uma escola localizada na zona urbana de uma cidade da Zona da Mata mineira. A notícia da suspensão das aulas em março por causa da pandemia foi recebida com muita surpresa por toda a comunidade escolar, uma vez que nunca havíamos visto ou vivido nada igual.
No início de maio o Estado de Minas Gerais adotou o regime de teletrabalho.  A proposta da rede consistia em três pilares: exibição de vídeo de aulas diárias via Rede Minas e Youtube; materiais em pdf denominados PET – Plano de Estudos Tutorados e o aplicativo Conexão Escola com o material do PET  e chat para contato com o professor. De início todos ficaram receosos, já que o Planos de Estudos Tutorados consistiam em exercícios de todas as disciplinas compilados em um mesmo arquivo e direcionados especificamente para cada série, e os alunos fariam em casa com a mediação do professor. Inicialmente a mediação seria através do chat do aplicativo Conexão Escola, porém o aplicativo passou por diversos problemas e seu lançamento foi adiado, tendo cada escola a missão de decidir a forma como os professores fariam essa mediação. Na minha escola, o meio de comunicação adotado foi o aplicativo WhatsApp, com a criação de grupos com cada turma.
Para nós, professores, os grupos do WhatsApp foram bem conturbados, pois diversos pais queriam atendimento fora do horário das aulas, os alunos tentavam ligar ou chamar no contato pessoal e muitas regras tiveram que ser impostas para a boa convivência naquela nova sala virtual.
Cada professor atendia no WhatsApp dentro do horário de sua aula regular presencial em cada turma, tirando dúvidas, respondendo questionamentos de alunos e detalhando o conteúdo da semana do PET, além de solicitar o envio das fotos dos exercícios já feitos.
No início foi, de fato, difícil, porém estamos nos habituando a essa nova rotina acarretada pela pandemia. Em minha escola estamos nos esforçando para manter o engajamento discente; alguns professores investem até em videoconferências e vídeos postados no Youtube.
Estamos todos tentando nos readaptar a esse momento tão atípico no país.

A segunda experiência foi relatada por uma docente na Paraíba. Ela descreve como tem sido a participação e o engajamento dos alunos durante o isolamento social e quais ações tem realizado para tentar motivá-los para a realização de provas de acesso a universidades, como o Enem.

Sou professora do cursinho pré-vestibular (PVS) da Universidade Federal de Campina Grande, há três anos. O fato de lidar com adolescentes e com seus sonhos de entrar em uma faculdade vem fazendo com que minha didática ao longo desses anos se atribua à escrita e à interação com esses discentes como também com seus conhecimentos prévios, questionando e despertando a criticidade acerca dos seus argumentos. Nessa linha de pensamento, Freire (2016) considera que “o fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles (...) é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve” (p. 83). Assim, convicta da minha responsabilidade como docente, entre produções textuais e gramática, mantenho essa relação e interajo acerca das minhas considerações sobre suas escritas. Porém, este ano (2020) se tornou atípico; devido à pandemia e ao isolamento em seguida, tive apenas um contato presencial, no início das atividades, e esse período foi de grande adaptação, pois tive que modificar minha metodologia e recorrer à tecnologia.
A priori, formou-se um grupo no WhatsApp com 46 alunos, no qual constatei como nossa comunicação crescia a cada dia. Criei o Classroom para lançar as atividades e obtive resposta de todos os discentes e melhores notas. Mas fui notando que, quanto mais aplicava temas de redações e interpretações de texto, a reciprocidade perdia a batalha para o silêncio e palavras de otimismo e outras como “quem viu a atividade, com prazo marcado?”, foram ficando esquecidas e apenas 25 alunos respondem.
Além disso, fui no privado do WhatsApp de cada um perguntar o motivo de algumas desistências e o desânimo de alguns em relação ao Enem. As respostas foram consoantes em relação a tudo que estamos passando e toda a conjuntura que estamos enfrentando, tornando anormais suas vidas e provocando a total abdicação ao exame.
Continuo com minhas aulas, disponibilizando minha preocupação com todos; como professora, estou engajada na luta e disposta a continuar com clareza minha prática. São tempos difíceis, mas sonhar nunca é demais.

O relato aponta a inquietação da docente com alunos em fase de pré-vestibular, delicada etapa na vida do estudante.

Considerações finais

O isolamento social causado pelo vírus Covid-19 em 2020 trouxe à tona novas discussões e debates nas mais diferentes áreas – e em âmbito educacional não seria diferente.

É possível notar, pelos relatos dos docentes, atuantes em diferentes segmentos da rede pública, que, apesar de atuar em redes de ensino e contextos distintos, a necessidade de adaptação foi inevitável. A primeira experiência evidenciou os caminhos que a rede estadual de Minas Gerais traçou para os alunos manterem contato com seus professores e não perderem conteúdo. Os professores passaram a atuar como mediadores, sendo responsáveis por tirar dúvidas e motivar os discentes, mesmo que a distância, por meio de redes alternativas.

O segundo relato expôs os esforços de uma docente com seus alunos, tendo em vista a busca por uma vaga na universidade. Para tal, a professora manteve contato porWhatsApp em um grupo, e, mesmo com o aparente desânimo e desmotivação de seus discentes, buscou estimulá-los com mensagens privadas.

O caminho trilhado por professores para que o processo de ensino-aprendizagem ocorra de maneira satisfatória em tempos de isolamento social não tem sido fácil; no entanto, é possível observar os constantes esforços e a busca por formações específicas na área de EaD. A pandemia tem, de fato, provocado mudanças.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 53ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

MATTAR, João. Metodologias ativas para a educação presencial, blended e a distância. São Paulo: Artesanato Educacional, 2017.

Publicado em 18 de agosto de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

ROCHA, Gustavo Gomes Siqueira da; OLIVEIRA, Solange Diniz de. Ensino na rede pública em tempos de pandemia: duas experiências docentes. Educação Pública, v. 20, nº 31, 18 de agosto de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/31/ensino-na-rede-publica-em-tempos-de-pandemia-duas-experiencias-docentes