Um livro, duas paixões: entrevista com Adriana Oliveira Bernardes

Alexandre Rodrigues Alves

Adriana Oliveira Bernardes é uma das autoras mais publicadas na revista Educação Pública, com forte atuação na Fundação Cecierj e no Consórcio Cederj. ela acaba de publicar um livro reunindo dois temas pelos quais é apaixonada: Astronomia e Educação. É sobre isso que nós conversamos nesta entrevista.

Você lançou um livro (Astronomia e Educação, Editora CRV) que trata de um assunto que você sempre aborta nos seus artigos para a revista Educação Pública: como tratar desses temas em sala de aula, em feiras de Ciências. Como docente, qual a forma de perceber a melhor forma de falar disso com os alunos?

O tema Astronomia é um dos que mais explorei em artigos publicados na Educação Pública e tenho me dedicado à divulgação do tema há mais de vinte anos, inicialmente na escola e depois em jornais e blogs. Esse tema em sala de aula é abordado de várias maneiras, com variados recursos, vídeos, jogos, palavras-cruzadas; foram esses os temas de muitos artigos que publiquei aqui.

Inicialmente esperava algum fenômeno astronômico acontecer ou algum evento da Nasa – por exemplo, o lançamento de um foguete, satélite –, porque a mídia também estava falando nele e os alunos acabavam se interessando e fazendo muitas perguntas, porém desde 2012 a Astronomia faz parte do currículo estadual do Rio de Janeiro; assim, agora ela está presente no currículo e deve ser ensinada pelos professores na rede estadual do Rio de Janeiro, o que para mim foi muito importante. Eu integrei o grupo de professores que elaborou o currículo, com a coordenação do professor José Cláudio de Oliveira Reis, da UERJ.

Você tem forte vivência trabalhando no Consórcio Cederj, nos cursos de graduação em Matemática por 10 anos e atualmente com o de Biologia e Química, além de ser professora na Educação Básica. Como você faz para entender as necessidades específicas desses dois ambientes e para atender as demandas de cada um?

Bom... Trabalho no Consórcio Cederj desde 2004, inicialmente no curso de Matemática, com as disciplinas Cálculo I, II, III e IV por longo tempo; depois me transferi de polo e comecei a trabalhar com Física, que na verdade é a minha disciplina de formação, e com informática. A experiência na Educação a Distância para mim sempre foi muito prazerosa, era muito bom ter alunos interessados e querendo entender as disciplinas, era um universo completamente diferente da escola pública; considero que o Cecierj teve papel muito importante na minha carreira desde o início, porque foi o principal responsável pela minha formação complementar, com os excelentes cursos de extensão que oferece e que eu faço desde quando esse trabalho foi iniciado até hoje; com a FECTI, que também é um projeto do Cecierj e foi quem absorveu a maioria dos projetos que desenvolvi com meus alunos desde 2006. O número de projetos enviados a essa Feira foi grande – acredito que mais de vinte –, com grupos formados por jovens que hoje em dia me vêm falar que não se esquecem daquele momento em suas vidas e como aquilo os incentivou. Isso é muito gratificante. O dois públicos são diferentes e eu sempre trabalhei de maneira diferente: na Educação Básica sempre oferecendo aos alunos a possibilidade de participar de projetos e que conhecessem a Física a partir de vários recursos, mas hoje eu também desenvolvo projetos com os alunos do Consórcio Cederj que estagiam na minha escola; temos vários trabalhos desenvolvidos com eles publicados aqui na revista Educação Pública.

Um dos seus artigos na revista Educação Pública trata de como falar de Astronomia para alunos com vários tipos de deficiências. Isso tem muito a ver com sua prática, de envolver os estudantes e mostrar o cotidiano da Ciência para eles. Você tem histórias de alunos que resolveram seguir seus passos e estudar Astronomia e Física para além da escola?

Eu trabalho com a questão da deficiência desde 2006, quando iniciei meu curso de mestrado na UENF, dando origem a um trabalho inédito no Brasil na época: Astronomia para alunos cegos. Depois vieram outras experiências na escola com alunos surdos e com deficiência intelectual. Tentar ensinar Física a eles e contribuir de alguma forma para sua formação sempre foi um grande desafio, e eu sempre fiz o que pude para tentar promover o aprendizado desses alunos. Trabalho há 25 anos, então tenho muitas histórias e alunos que seguiram a área e outros que não seguiram exatamente, mas que chegaram ao Ensino Superior tendo feito apresentações de trabalho em feiras de Ciências e apresentações em várias instituições que aceitam trabalhos de alunos de Ensino Médio para apresentação – como é o caso da UFF de Nova Friburgo, que tem absorvido hoje em dia a maioria dos trabalhos que realizo com meus alunos e que são apresentados em um evento anual promovido por ela. Ver esses alunos falando de Física e Astronomia em uma apresentação de pôster quando ainda cursam o Ensino Médio é algo que me emociona muito como professora. Tenho alunos que hoje são engenheiros, físicos, psicólogos, historiadores e que desenvolveram projetos de Física ou de Astronomia na escola comigo.

Em outro artigo, você relata experiências que ultrapassam e até fogem do livro didático, como jogos, vídeos, experiências e feiras de Ciências. Por quê?

É muito importante, e os PCN e as Orientações Curriculares falam da importância da utilização de variados recursos para o aprendizado da Física. Assim, ao longo do tempo trabalhando como professora da rede estadual realizei experiências com variados recursos, todos que você mencionou, e hoje desenvolvo anualmente na escola a Mostra de Astronomia que possivelmente foi a primeira a ser realizada no Brasil. Essa feira apresenta apenas trabalhos de Astronomia; são aproximadamente 50 trabalhos apresentados todos os anos e todo o Ensino Médio da escola participa. A ideia é ver o aluno protagonizar – e protagonizar reconhecendo seus interesses e especificidades, porque na Astronomia você pode tratar de temas relacionados às Ciências Humanas, Exatas ou Biológicas, devido a interdisciplinaridade – então o aluno pode escolher a área do trabalho que apresentará; alunos com deficiência participam da feira, pois a ideia é que ela seja inclusiva, assim como a escola precisa ser inclusiva.

As primeiras partes do seu livro tratam da História da Astronomia. Você leva esses temas para sua sala de aula no Ensino Médio? Como você faz isso e qual a reação dos alunos?

Sempre levo! A abordagem tanto da Física como da Astronomia que faço em sala de aula sempre leva em conta tais fatores e acredito que isso colabore para que o aluno compreenda que a ciência é construída sócio-historicamente. Isso é importante para uma formação crítica do aluno. A recepção é sempre muito boa, eu acredito que o aluno goste bastante de professores que gostam de ensinar; eles podem até não gostar da disciplina ou de você, mas respeitam seu interesse em que ele aprenda.

Na sua percepção, os alunos se interessam mais pelos aspectos históricos da Astronomia (mesmo até o século XX) ou pela Astronomia Básica?

Temos alunos naturalmente inclinados às Ciências Humanas, que desejam estudar História, Sociologia, Filosofia, existem muitos na rede estadual; então essa parte que envolve História é sempre bem-vinda para eles, mas temos os que se interessam mais por ciências de maneira geral. O que é ocorre é que a História da Astronomia trabalhada em sala de aula torna mais inclusivo o curso de Física que é ministrado.

Além do livro, que outros canais você usa para fazer a divulgação de notícias e pesquisas relacionadas a esses assuntos? Você percebe uma resposta maior em algum desses canais?

Eu já divulguei de várias maneiras: através do blogciencia da UENF, no tempo em que realizava o mestrado, na coluna Infinitum. Já escrevi para um jornal de Nova Friburgo a coluna que tinha o nome do meu livro, Astronomia e Educação. Eu acredito que exista pouco acesso aos livros para a maioria das pessoas, então divulgar por meio do livro é mais difícil; quando o conteúdo se encontra na internet ele acaba sendo mais acessível, mas a publicação em livro é necessária e espero que algum dia atinja um número maior de pessoas.

Que equipamentos deveriam ser disponibilizados nas escolas para levar os estudantes a estudar Astronomia?

Principalmente o telescópio. Para conseguirmos um na minha escola lutei muito, ele foi fruto da doação de algumas pessoas que acreditam na importância da divulgação da Astronomia na escola, e o colégio completou a parte do dinheiro que faltava. Mas vários outros equipamentos seriam bem-vindos, como o telescópio para observação do sol e binóculos, entre outros; ter um laboratório de informática também seria importante, mas infelizmente o que vemos na escola são recursos sucateados e a falta de muitas coisas.

Como a mídia em geral pode contribuir para aumentar esse interesse dos alunos e da população em geral pela Ciência?

Divulgando como vem fazendo, mas deve tomar cuidado para que faça isso de forma correta! Na dúvida, é necessário falar com um astrônomo. Todos os anos vemos vários exemplos de jornais abordando eclipses e estações do ano de forma incorreta, com explicações absurdas, o que poderiam fazer diferente consultando, por exemplo, as várias instituições que se dedicam à Astronomia. Para não incorrer em erros, meu livro, que é de divulgação de Astronomia, foi revisado pelo professor Canalle (astrônomo e responsável pela OBA – Olimpíada Brasileira de Astronomia), que apoiou meu projeto de divulgação desde o início; alguns artigos também foram revisados pelo astrônomo Jairo Barroso, do MAST.

E os próximos livros?

Vão sair! Minha história com o ensino de Astronomia e de Física que vem desde 1995, e tem, portanto, 25 anos será apresentada em alguns livros que sairão em breve! O próximo, Astronomia na Escola, abordará mais a fundo meu trabalho na escola tratando de Astronomia junto aos alunos.

Publicado em 25 de agosto de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

ALVES, Alexandre Rodrigues. Um livro, duas paixões: entrevista com Adriana Oliveira Bernardes. Revista Educação Pública, v. 20, nº 32, 25 de agosto de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/30/um-livro-duas-paixoes-entrevista-com-adriana-oliveira-bernardes