Letramento crítico pautado pelas ferramentas tecnológicas no processo de ensino aprendizagem em EAD: um estudo de caso na comunidade de Tamoios em Cabo Frio/RJ

João Paulo Bulhões e Mattos

Especialista em Língua Portuguesa, mestrando em Estudos Linguísticos (FFP/UERJ), aluno do curso de Aperfeiçoamento em Educação Especial e Inclusiva para Professores da Educação Básica (Cecierj)

O presente trabalho tem por objetivo analisar como o letramento crítico com o uso de novas tecnologias na Educação pode colaborar para o aprendizado na perspectiva da EaD. Esta pesquisa dialoga diretamente com a perspectiva educacional pautada na BNCC, com a décima competência, que privilegia as tecnologias no processo educacional. É importante salientar que o uso das novas tecnologias não exclui o trabalho feito pelo professor em sala de aula e que a aplicação da tecnologia seria um mecanismo a mais que pode ser disponibilizado para que a aprendizagem atinja altos níveis de eficácia. A determinação de estudar esse assunto surgiu pela inicial apatia dos alunos em produzir textos escritos, que para eles é algo difícil. Os alunos não compreendiam que eles já utilizavam mecanismos para produção escrita em vários contextos da sua vida cotidiana. Portanto, o foco da pesquisa centra-se em produzir contextos de produção escrita na perspectiva do letramento crítico, pautado pelas tecnologias de que a educação dispõe.

Logo, esta pesquisa se justifica na demonstração da importância da EaD no contexto educacional e como o uso da tecnologia pode potencializar o ensino e a aprendizagem do aluno na sua formação escolar. Partindo dessa premissa, o problema da pesquisa é entender quais ferramentas tecnológicas são mais atrativas para os alunos. Pretendemos entender e responder às seguintes perguntas:

  • Com quais ferramentas os alunos se sentem mais confortáveis para produzir textos escritos?
  • Quais são as mais utilizadas pelos professores?
  • Quais ferramentas os alunos mais utilizam?
  • Há divergência entre o que os professores e os alunos utilizam focando na preferência dos alunos?

Esses questionamentos passam pela minha inquietação como professor e mediador de EaD e que almeja atingir um trabalho assertivo com os alunos e que faça com que eles sejam capazes de produzir textos com posicionamento, baseado no letramento crítico, conforme defende Brian Street (2014) e os novos estudos do letramento. Assim, a relevância do trabalho se dá na medida em que os alunos ampliam sua argumentação no texto escrito e na fluência com relação à língua materna e minimizam as tensões que são impostas pela escola. Outro ponto relevante do trabalho é que o processo de formação crítica do educando, conforme pressupostos do Paulo Freire para atingir uma educação libertadora, dialoga diretamente com o suporte dos novos estudos do letramento, já citados anteriormente, pois eles consideram as plataformas digitais como um suporte importante para que o aluno desenvolva a décima competência prevista na BNCC.

A hipótese da pesquisa são as ferramentas digitais disponíveis e como elas cumprirão seu papel na ampliação da produção escrita dos gêneros escritos escolares, tendo em vista que o ambiente virtual será suporte para os eventos de letramento que ocorrem na sala de aula. Qual será a melhor ferramenta para promover o letramento crítico nos alunos em contextos fora do ambiente escolar e com o suporte tecnológico?

Os objetivos gerais deste trabalho são:

  • Ampliar a habilidade de leitura e escrita para formação de alunos críticos;
  • Conscientizar o aluno da importância de escrever de acordo com os gêneros escolares;
  • Conscientizar a comunidade escolar da importância da formação continuada em EaD e nos processos de mediação fora da sala de aula, mediados pela tecnologia.

Os objetivos específicos da pesquisa são:

  • Minimizar as dificuldades de uso da língua materna nos textos escritos por meio da tecnologia;
  • Utilizar ferramentas e recursos tecnológicos no processo de produção escrita;
  • Promover uma educação libertadora, formando um aluno crítico e autônomo, conforme pressupostos freirianos.

A pesquisa será embasada pelo conceito de letramento crítico, à luz da teoria de Kope e Kalantzis (2012) e com suporte de Brian Street (2014), no aspecto das contribuições dos novos estudos do letramento, compreendendo como seus estudos podem minimizar ou dirimir as tensões existentes entre alunos e escola com o objetivo de atender melhor ao aluno na construção de sua autonomia.

Metodologia

O contexto da pesquisa se dá na interação entre alunos e entre alunos e professores, que no presente trabalho será mediada pelas novas tecnologias empregadas na educação. A natureza da pesquisa é qualitativa de cunho etnográfico, sob a perspectiva de um estudo de caso de um grupo de alunos que estudam num curso pré-militar em Tamoios, na cidade de Cabo Frio/RJ, localizada na Região dos Lagos. A análise dos dados será feita com um formulário Google a que os alunos responderão e uma entrevista. A quantidade de participantes será definida mais para a frente, pois dependerá da adesão dos alunos à pesquisa.

Fundamentação teórica

Para o professor José Moran (2011), “Educação a distância é o processo de ensino-aprendizagem mediado por tecnologias em que professores e alunos estão separados espacial e/ou temporalmente”; hoje, cada vez mais a tecnologia desponta como importante aliada dos professores para atingir alunos do século XXI, que são cada vez mais exigentes. A modalidade é a que mais cresce e muitos professores reagem negativamente à inserção da tecnologia na Educação.

Ainda segundo a concepção de Moran (2011), o conceito de curso se moderniza, mas não dispensa a figura do professor como importante mediador do aprendizado do aluno; segundo o pesquisador, a tecnologia colabora no processo de ensino fora do tempo fixo de aula e externo a um espaço predeterminado também. A perspectiva da EAD proporciona que o aprendizado ocorra em qualquer momento e em qualquer lugar, o que pode motivar mais o aluno a aprender de forma mais significativa. O professor destaca o aumento da interação grupal por meio de tecnologia na educação. O futuro aponta para uma fantástica opção no campo educacional mediado pela tecnologia.

Os textos devem ser entendidos com seus efeitos sociais e construídos com base em uma versão da verdade, pois, segundo Street, a língua é usada para diferentes propósitos. A língua não é neutra, e como usuários da língua temos que pensar o que queremos com nossos textos, aonde queremos chegar e a quem queremos atingir. O letramento promove o contato dos usuários da língua por meio da escrita mediada pelas novas tecnologias dentro da pesquisa em questão.

Neutralidade na língua não existe; devemos ter em vista que quando usamos a língua estamos defendendo um posicionamento; logo, todo e qualquer texto escrito traz nele um posicionamento ideológico, uma identidade; confere poder a quem o produz. Os estudos do letramento também compreendem que os textos são situados e posicionam o leitor. O ponto inicial para a aprendizagem é perceber que, com base na leitura crítica dos textos, os textos são representações parciais do mundo.

A produção é repleta de escolhas feitas pelo produtor do texto. Os textos são produzidos com possíveis opções linguísticas. Algo construído pode ser igualmente descontruído. Esse processo de escrita e reescrita aumenta nossa consciência das escolhas que o enunciador faz ao escrever o texto para seu leitor, o que promove a competência do usuário da língua.

Dentro da perspectiva educacional, um questionamento é de fundamental importância para que concebamos o letramento com relação aos objetivos que pretendemos com a pesquisa na perspectiva da EAD: qual a relação do letramento e do poder no que tange ao design e ao redesign? Pretendo mostrar que o redesign forma o educando crítico e competente no uso das tecnologias, conforme prevê a BNCC.

Nessa relação entre língua e poder, Freire incentiva os alunos a superar a opressão com sua leitura do mundo, mostrando que é possível renomear o mundo que os cerca, a fim de mudá-lo. Logo o letramento crítico pretende formar estudantes capazes de ler o mundo com o objetivo de reescrevê-lo após a reflexão crítica sobre ele, culminando em uma transformação social, como pretende a BNCC na décima competência.

O aporte teórico do letramento entende que as pessoas de comunidades diferentes vão possuir línguas diferentes, pois estão expostas a discursos diferentes que englobam diferentes crenças e valores. Se mudarmos de comunidade, poderemos encontrar novas formas de estar nesse mundo, aprender uma língua adicional e novas crenças e valores. Quando as pessoas têm a possibilidade de manter contato com mais de uma comunidade, podem adquirir uma identidade híbrida, ou se sentir ameaçadas quanto ao contato com essas comunidades. Creio que o papel do educador seja promover a percepção dos inúmeros usos da língua para promover cidadãos mais competentes na língua materna.

A produção de textos nos abre possibilidades:

  • A escolha dos sentidos de construção do texto e como agir sobre o mundo;
  • Reconhecimento da nossa posição e da posição dos nossos leitores com as escolhas feitas quando escrevemos;
  • Compreensão da forma como o texto é construído;
  • Adquirimos experiência para o redesign dos nossos próprios textos e os dos outros;
  • Redesign é a transformação e desconstrução dos textos, mas com uma visão crítica e que reconstrua e melhore a maneira como vivemos e nos relacionamos com o mundo;
  • O texto reformulado não é neutro, então a reconstrução é um processo contínuo de transformação. Dentro dessa perspectiva do letramento crítico, o redesign é usado para criar um mundo sem relação de poder em que a diferença seja vista como um recurso em que todos possuem acesso aos bens sociais e às mesmas oportunidades.
  • O redesign é o mais difícil, pois tirar as práticas enraizadas é o mais problemático.

O redesign propõe que utilizemos os recursos midiáticos para atingir nosso projeto de letramento e formação do educando; logo, essa perspectiva dialoga diretamente com a proposta da BNCC e nosso resultado final seria um aluno que, por meio da tecnologia, atingiria melhores resultados no seu desempenho escolar.

Referências

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967

______. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

KALANTZIS, M.; COPE, B. Critical literacies pedagogy. In: KALANTZIS, M.; COPE, B. Literacies. New York: Cambridge University Press, 2012.

MORAN, José. Página Oficial. Disponível em: http://www.eca.usp.br/prof/moran/site/textos/educacao_online/estrategica.pdf

STREET, B. Letramento e mudança social: a importância do contexto do social no desenvolvimento do programa de letramento. In: STREET, B. V. Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola, 2014.

Publicado em 08 de setembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MATTOS, João Paulo Bulhões e. Letramento crítico pautado pelas ferramentas tecnológicas no processo de ensino aprendizagem em EAD: um estudo de caso na comunidade de Tamoios em Cabo Frio. Educação Pública, v. 20, nº 34, 8 de setembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/34/-letramento-critico-pautado-pelas-ferramentas-tecnologicas-no-processo-de-ensino-aprendizagem-em-ead-um-estudo-de-caso-na-comunidade-de-tamoios-em-cabo-frio