Percepções dos alunos de Bom Jesus do Itabapoana/RJ sobre Educação Ambiental e meio ambiente

Vinicios Bastos de Souza

Graduado em Ciências Biológicas (UENF)

Kelly Pinheiro dos Santos

Doutoranda em Ciências Ambientais e Conservação (UFRJ), professora de Ensino Fundamental e Médio do Estado do Espirito Santo, mediadora presencial do Consórcio Cederj

Atualmente, o termo Educação Ambiental (EA) tem sido amplamente utilizado, divulgado e discutido, podendo ser inserido nos mais diversos setores da sociedade, especialmente nas escolas, lugar em que as pessoas aprendem a desenvolver habilidades e conhecer o que significa cidadania, direitos e deveres e, portanto, conseguem entender a importância de temas como esse. É notório que o ensino da Educação Ambiental é determinante para a amenização dos problemas que há anos vêm sendo causados ao meio ambiente pela ação do homem. De acordo com Carvalho (2001), as crianças representam as futuras gerações em formação e, como estão em fase de desenvolvimento cognitivo, supõe-se que nelas a consciência ambiental possa ser internalizada e traduzida de forma mais bem-sucedida do que nos adultos, já que ainda não possuem hábitos e comportamentos constituídos.

Nas escolas, atualmente configura como tema transversal. Em relação a esse contexto, Santos; Santana e Nakayama (2010, p. 3) relatam:

em virtude dessa realidade, a Educação Ambiental tem como um dos principais objetivos buscar uma metodologia de ensino que leve à reflexão sobre a postura do ser humano em relação aos mecanismos responsáveis pela degradação do meio ambiente e pela formação da consciência ecológica de cada cidadão sem deixar de incluir nessa discussão a construção do conhecimento considerando a transversalidade desse tema e a inclusão do mesmo nos projetos curriculares conforme a proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que incluíram esse tema nos currículos de Ensino Fundamental.

Além disso, de acordo com Esteves et al. (2010, p. 3),

A Educação Ambiental é uma forma abrangente de educação, através de um processo pedagógico participativo que procura incutir no aluno uma consciência crítica sobre os problemas do ambiente.

Trabalhar a Educação Ambiental de forma inter e multidisciplinar sem que interrompa as aulas, sem que seja em forma de projetos específicos é um desafio enfrentado atualmente pelas instituições de ensino, visto que se constitui em uma nova forma de pensar a educação, integrando formação, conhecimento e desenvolvimento social do aluno, proporcionando uma educação básica sólida, ou seja, a formação integral do educando (Brasil, 1998). Segundo Guedes (2006), a Educação Ambiental permite que os alunos trilhem caminhos que os levem a um mundo mais ético e sustentável. Sendo assim, iniciar um estudo sobre a importância da Educação Ambiental e a prática na sala de aula é fundamental e se faz necessário desde as séries iniciais para que esses alunos conheçam o significado de Educação Ambiental e possam contribuir para a construção de um ambiente mais prazeroso e para melhorias na qualidade de vida.

Estudos têm mostrado que ações educativas relacionadas ao ambiente natural apresentam ganhos cognitivos, mudança de valores e auxiliam na construção da consciência social e individual. No Brasil, diversos programas foram desenvolvidos pelo Ministério da Educação, sendo o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) - Escolas Sustentáveis um dos últimos e que se encontra em fase de implementação. Entretanto, ações educativas com o uso da Educação Ambiental muitas vezes não são abordadas nas escolas, seja pela quantidade de aulas que o aluno tem, seja pelas outras demandas que são impostas ao professor, o que pode ser acentuado dependendo se a escola for privada ou pública.

Por esse motivo, o presente trabalho busca identificar como ocorre a Educação Ambiental nas escolas públicas e privadas da cidade de Bom Jesus do Itabapoana/RJ e como os alunos interpretam a abordagem desse tema feita pelos professores.

Objetivos

  • Identificar como ocorre o ensino da Educação Ambiental nas escolas públicas e privadas da cidade de Bom Jesus do Itabapoana/RJ;
  • Identificar como os alunos interpretam a abordagem desse tema pelos professores.
  • Constatar o grau de contato dos discentes com os problemas ambientais que os rodeiam e o que fazem para solucioná-los.

Referencial teórico

Com a mudança dos métodos de ensino, a educação passou a ter uma visão diferente e a necessitar de práticas docentes mais eficientes (Vaillant; Marcelo, 2012), principalmente por causa do uso de tecnologias. Porém, o processo educacional não é tarefa simples, tendo que levar em consideração muitos aspectos, como explicita Nérice (1978): uma adequada metodologia do ensino é elemento essencial para que os objetivos de ensino e aprendizagem sejam alcançados satisfatoriamente. Segundo Camacho e Araújo (2014), isso ocorre porque os diversos grupos da sociedade estruturam a educação com base em seus modos de vida. Diante disso, é fato que a missão de educar não cabe somente à escola, mas sim a todos os espaços frequentados pelas pessoas; o processo educacional é mais amplo, porque é pela experiência que elas vão aprendendo a assimilar conceitos de forma ativa, pela reflexão (Libâneo, 2004).

Dias (2000) afirma que a Educação Ambiental escolar deve ter como finalidade a sensibilização e a conscientização, que se materializam na busca de mudança comportamental, na formação de cidadãos mais atuantes, e no reconhecimento de que todas as pessoas têm parte na degradação do meio ambiente, visto que não valorizam nem preservam o planeta como deveriam, e sabe-se que a maioria dos problemas ambientais tem suas raízes em fatores culturais, políticos e socioeconômicos (Paulino, 2000). Portanto, todo ser humano deve rever sua relação com o meio em que vive para que se possa alcançar uma sociedade mais sustentável.

Calleja (2008) afirma que, apesar de haver muitas definições para EA (Educação Ambiental), todas elas se completam e convergem para os mesmos objetivos, que é influenciar as pessoas, fazer com que haja mudança de opinião e postura diante do meio e que se formem cidadãos mais conscientes, adquirindo conhecimentos significativos. Nesse mesmo sentido, o objetivo da EA é formar uma sociedade para viver e se desenvolver em um mundo interdependente e em harmonia com as leis da natureza. Entrando de fato na EA escolar, muitos autores discordam dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), de outros teóricos e da maioria das referências que dizem que a EA deve ser tratada de forma transversal, em uma abordagem interdisciplinar. É notável que o professor seja uma figura imprescindível quando se trata de EA escolar, pois é o responsável não só por transmitir conhecimentos mas, acima de tudo, de desenvolver a postura crítica dos alunos, sendo articulador entre a teoria e a prática, encontrando sempre a melhor forma de fazer isso (Fávero, 2002), e para que isso ocorra deve haver condições para que possa realizar tal tarefa.

A Lei nº 9.795/99 prevê que “nos cursos de pós-graduação, extensão e nas áreas voltadas aos aspectos metodológicos da Educação Ambiental, quando se fizer necessário, é facultada a criação de disciplina especifica” (Brasil, 1999). Portanto, os professores de todas as áreas do conhecimento deveriam ter em sua formação assuntos relacionados ao meio ambiente e didática para saber como tratar esse tema em suas aulas. O poder público, pelo Ministério da Educação e Secretarias de Educação, deve promover a capacitação de professores quanto ao tema do meio ambiente para que eles possam estar aptos a transmitir uma EA eficaz que atinja seus objetivos plenamente da maneira interdisciplinar, desfazendo, portanto, a fragmentação entre as disciplinas.

Procedimentos metodológicos

A metodologia usada neste trabalho foi exploratória, com a aplicação de questionários junto a alunos de escolas públicas e particulares do município de Bom Jesus do Itabapoana, no Estado do Rio de Janeiro. No total, responderam aos questionários 124 alunos do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, na faixa etária entre 13 e 18 anos. Apesar de os mais novos também estarem dentro da realidade escolar, esses têm mais facilidade de reconhecer os problemas ambientais, menos resistência a mudar seus hábitos para um ambiente mais saudável e maior potencial de divulgar boas práticas de cuidado com o meio ambiente.

Cabe salientar que as questões éticas foram respeitadas quando se trata de pesquisa que envolva seres humanos, tendo todos ciência do que estavam respondendo e para qual finalidade, informada anteriormente pelo autor deste trabalho, a fim de prover procedimentos que assegurem a confiabilidade e a utilização de informações sem prejuízo das pessoas.

Apresentação e discussão dos resultados

Percebeu-se, nos momentos de aplicação dos questionários nas várias unidades escolares, que os alunos têm grande interesse pelo assunto, já que se mostraram muito atentos e solícitos em responder, e enquanto assinalavam as respostas das questões muitos discutiam alguns pontos específicos, porém sem a interferência do aplicador nem do professor, salvo em situações de interpretação, a fim de que somente a visão deles prevalecesse.
Quando perguntados se a escola onde eles estudam propicia atividades de interação dos alunos com o meio ambiente (Figura 1), notou-se que ambas as instituições vêm desenvolvendo poucas atividades em que os alunos possam ter contato maior com o espaço onde elas estão inseridas.

Figura 1: Comparação entre as respostas dos alunos das escolas quanto à escola propiciar atividades de interação deles com o meio ambiente

Essas atividades não acontecem ou ocorrem em poucos casos provavelmente por causa do pouco tempo livre no calendário escolar, pela falta de formação e instrução de professores nessa área, entre outros motivos. É papel também da escola explorar o meio ambiente em sua totalidade, desenvolvendo uma EA em processo formativo, incluída em todas as faixas etárias de forma interdisciplinar (Morgenstern; Francischett, 2008).

Quando questionados, a maioria dos alunos avaliou como regular a Educação Ambiental nas escolas, tanto das particulares quanto das públicas.

Figura 2: Avaliação dos alunos sobre como é a Educação Ambiental na escola em que estudam

Isso revela que, embora os alunos reconheçam que há um trabalho de Educação Ambiental, ele precisa ser melhorado, a fim de que se possa chegar aos objetivos plenos da EA. Além disso, essas atividades devem estar atualizadas “dentro de um novo horizonte epistemológico em que o ambiental é pensado como sistema complexo de relações e interações” (Carvalho, 2001). A percepção ambiental é a tomada de consciência do ambiente pelo homem, ou seja, é o ato de cada indivíduo, inserido no ambiente, de perceber, reagir, agir e responder a diferentes ações no e sobre o meio. O mesmo se aplica à EA escolar recebida pelos alunos em suas respectivas escolas.

Ao serem perguntados se os alunos possuíam atitudes que visam ao bem-estar do ambiente, pode-se observar na Figura 3 que a maioria dos alunos, tanto de escolas particulares quanto públicas, possuem atitudes ecológicas no meio ambiente; isso reflete que eles têm consciência de que as suas atitudes afetam diretamente o ambiente.

Figura 3: Respostas dos alunos se têm atitudes ecológicas que visam ao bem-estar do meio ambiente

Cada cidadão tem papel fundamental no combate à crise ambiental, para que se desenvolva uma nova cultura ambientalista (Jacobi, 2003). Dentre as atitudes destacadas pelos alunos, as mais citadas foram: não jogar lixo em lugares incorretos, usar bicicleta para se locomover dentro da cidade ao invés de carro ou moto, não descartar lixo nocivo em qualquer lugar. Por isso a escola deve sempre desenvolver atividades voltadas para despertar o espírito crítico do aluno sobre o meio em que vive e para que ele possa “compreender as relações sociedade-natureza e intervir sobre os problemas e conflitos ambientais“ (Carvalho, 2004, p. 18).

Com base na pesquisa, pode-se constatar que nas escolas públicas há poucos projetos ambientais; já as escolas particulares indicam o contrário (Figura 4). Nestas, boa parte dos alunos reconhecem que a escola faz projetos que abordam os problemas ambientais da cidade e do mundo; além disso, apresentam algumas soluções.

Figura 4: Respostas dos alunos se já participaram de projetos desenvolvidos pela escola em que os assuntos fossem os problemas ambientais atuais

Escolher ensinar usando projetos abre espaço para um trabalho colaborativo, para discussões conjuntas com vistas à contextualização e à produção de conhecimento. Os projetos, portanto, se constituem em poderosos meios de alcançar uma aprendizagem significativa.

Foi questionado qual problema ambiental deveria ser prioridade na resolução mundial e, de acordo com os resultados, como mostra a Figura 5, a maioria dos alunos, tanto da escola pública quanto da particular, afirma que o desmatamento deve ser resolvido mais rapidamente, provavelmente porque eles têm consciência da dimensão dessa prática no Brasil e no mundo.

Figura 5: Respostas dos alunos sobre qual problema ambiental deve ser resolvido mais rapidamente

A Figura 6 evidencia como o consumismo pode afetar o ambiente; ao serem questionados se observam as informações dos produtos que compram – por exemplo, se o produto teve fabricação que respeite o meio ambiente ou se sua embalagem foi reciclada ou pode se submeter à reciclagem – observou-se que 80% dos alunos das escolas públicas e 83% das particulares disseram não observar essas informações.

Figura 6: Porcentagem de alunos que observam as informações dos produtos que compram

Esse resultado pode ser explicado pelo modo de vida, cultura e renda, dentre outros fatores. Ainda nesse mesmo contexto, Solomon (2002) afirma que entre os fatores que influem no comportamento do consumidor estão os valores passados das gerações anteriores, inclusive os gostos, e que isso pode ser percebido em quais os produtos compra e usa determinado grupo.

Quando questionados sobre quem deveria promover iniciativas para resolução de problemas ambientais, pela análise da Figura 7 percebe-se que os alunos acreditam que as tais iniciativas devem ser proposta por todos, o que depende da mudança de nossas atitudes (PCN, 1997, p. 180).

Figura 7: Respostas dos alunos sobre quem deve promover iniciativas de resolução dos problemas ambientais

De acordo com Gomes (2006), quando o educando conhece os processos inerentes à EA, passam a ter uma nova visão sobre o meio ambiente, sendo agentes transformadores na conservação ambiental, adotando uma postura mais ética, responsável e solidária para com o meio ambiente.

Considerações finais

Esta pesquisa permitiu mostrar que os alunos da rede pública e os da rede particular têm visões e opiniões semelhantes em relação à EA oferecida a eles em suas escolas. Notamos que, quanto aos problemas que assolam o meio ambiente, os alunos se importam pouco com o tema e têm pouco contato com o meio ambiente à sua volta, o que pode prejudicar a aquisição de conhecimentos sobre o tema e o processo de despertar a consciência crítica diante de toda a problemática ambiental em que podem ser pessoas ativas para mudar essa realidade.

Os alunos reconhecem a interdisciplinaridade do tema, visto que não há uma disciplina específica que o aborde, sendo tratada dentro das já existentes, como determinam os PCN.

Referências

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Publicado em 15 de setembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

SOUZA, Vinicios Bastos de; SANTOS, Kelly Pinheiro dos. Percepções dos alunos de Bom Jesus do Itabapoana/RJ sobre Educação Ambiental e meio ambiente. Educação Pública, v. 20, nº 35, 15 de setembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/35/percepcoes-dos-alunos-das-escolas-publicas-e-particulares-da-cidade-de-bom-jesus-de-itabapoana-rj-sobre-o-ensino-de-educacao-ambiental-e-meio-ambiente