Os acidentes de mineração contados por dados estatísticos

Augusto Elias Lima

Mestre em Matemática (UFSJ), pós-graduado em Docência (IFMG - Câmpus Avançado Arcos), licenciado em Matemática (IFMG - Câmpus Formiga), professor na Educação Básica

Gilmar Teixeira dos Santos

Mestre em Engenharia Civil (UFRJ), pós-graduado em Docência (IFMG - Câmpus Avançado Arcos), licenciado e bacharel em Matemática (UFRRJ), professor na Educação Básica (Seeduc/RJ), professor universitário (UGB) e mediador presencial do Consórcio Cederj

Pedro Xavier da Penha

Professor do IFMG (Câmpus Ouro Branco), bacharel em Administração, licenciado em Matemática, especialista em Gestão Organizacional, pós-graduado em Tecnologia Educacional com ênfase em Comunicação e Educação Multimídia, psicopedagogo clinico e institucional, mestre em Administração, doutorando em Ensino de Ciências e Matemática (Unicsul)

Este trabalho possui fundamentação teórica em questões sociocientíficas (QSC) aplicadas ao estudo de dados estatísticos, abordando-os em contextos de tomada de decisões sociais, econômicas, políticas e ambientais responsáveis, nas quais aspectos hegemônicos de consumismo, competição e individualismo estão presentes.

Segundo Oliveira e Oliveira (2019), uma QSC envolve casos controversos, tais que sua discussão e resolução necessitam mobilizar não somente conhecimentos científicos, mas também éticos e políticos e estimulam a formação de opinião por meio da análise crítica e do juízo moral sobre assuntos que envolvem as relações entre ciência, tecnologia, sociedade e ambiente.

O tema de mineração e os impactos de suas atividades é uma QSC pertinente de inserção no contexto escolar, posto que promove a contextualização de conceitos curriculares a partir de fatos históricos e atuais. Com a Matemática, muitas informações divulgadas para explicar e quantificar as consequências de um acidente de mineração podem ser representadas por meios de elementos da Estatística. Acreditamos que, ao lidarmos com suas ferramentas a partir de dados sobre os impactos das atividades mineratórias, podemos justificar seu uso com base em diferentes propósitos, desconfigurando a neutralidade do emprego de elementos gráficos, tabelas e medidas de tendência central.

Para Hodson (2018), o desenvolvimento do olhar crítico para o tipo de ciência e tecnologia em que nos envolvemos e os valores sociais, políticos, econômicos e ético-morais que orientam o desenvolvimento permitem perguntar o que pode e deve ser alterado, a fim de alcançar democracias socialmente mais justas e assegurar estilos de vida ambientalmente mais sustentáveis.

Objetivo

O objetivo do presente trabalho é propor uma atividade que relacione o estudo de caso dos acidentes em mineração com elementos da Estatística, considerando a sua utilização a partir de diferentes perspectivas e narrativas.

Planejamento didático

O tempo estimado para a aplicação da atividade é de cinco horas/aula. Propomos o cronograma organizado na tabela a seguir.

Metodologia

Organizamos um folheto que envolve sequencialmente as temáticas propostas no planejamento didático. As questões presentes devem serem discutidas e respondidas pelos alunos com as informações disponibilizadas no folheto e com base no conhecimento prévio deles. Por fim, há um questionário de avaliação pelos alunos da atividade proposta.

A seguir estão o texto do folheto, os gráficos e questionamentos.

OS ACIDENTES DE MINERAÇÃO
CONTADOS POR DADOS ESTATÍSTICOS

Entre o fim de 2015 e o início de 2019, o Brasil registrou os dois mais graves desastres do século XXI envolvendo barragens de mineração. Desde então, as empresas e a população envolvidas, os órgãos fiscalizadores do governo e a mídia (jornal, rádio, TV e internet) vêm apresentando gráficos, tabelas e números para esclarecer os fatos, pressionar por respostas, punir os responsáveis ou para propor ações de reparação. São dados estatísticos sendo utilizados para narrar os desdobramentos dos acidentes de mineração no nosso país.

Gráfico 1: Histórico dos acidentes de mineração no período de 1910 a 2019
Fonte: Adaptado de Freitas e Silva (2019).

Nos anos de 2015 e 2019, dois acidentes de mineração relacionados ao rompimento de barragens, em Mariana/MG e Brumadinho/MG, respectivamente, foram noticiados em todo o mundo. A base de dados World Mine Tailings Failures (WMTF) mostra que esses casos são mais comuns do que imaginamos. Em um período de pouco mais de 100 anos (1915 a 2019), há um total de 356 registros. No Gráfico 1, os eventos de maior gravidade são distribuídos pelo grau de severidade das falhas. Observando o gráfico, responda às questões abaixo.

* Em quais décadas houve o maior registro de falhas nas atividades de mineração?
* Em quais décadas houve o maior registro de óbitos nas atividades de mineração?
* Pelo gráfico podemos ser convencidos de que as falhas nas explorações dos minérios são um problema histórico? Se sim, quais os elementos do gráfico ajudam nessa conclusão?
* Levante hipóteses: por quais motivos você acredita que os acidentes na exploração de minérios aconteciam em décadas passadas?
* Levante hipóteses: por quais motivos você acredita que os acidentes na exploração de minérios acontecem atualmente?

Agora, observe o quadro a seguir, que contém as localidades dos maiores casos de acidente de trabalho com barragens de 1915 a 2019.

Quadro 1: Acidentes com barragens no mundo
Fonte: Adaptado de Freitas e Silva (2019).

Analisando o quadro, responda às perguntas a seguir.

* No século XXI, qual país registrou o maior número de óbitos nas atividades mineratórias?
* Em relação ao método de construção das barragens, qual prevalece?
* Pelo quadro podemos afirmar que houve mudanças nas maneiras de construção das barragens à medida que ocorreram os acidentes? Por quê? Como você avalia a postura das mineradoras diante desse fato?
* Faça uma pesquisa sobre os métodos de construção de barragens existentes. Indique qual processo é o de menor custo e qual é o mais seguro.

Os impactos ambientais causados pelos acidentes de mineração são verificados em todo o ecossistema da região em torno. Por exemplo, no acidente em Mariana/MG ocorrido em 5 de novembro de 2015, cerca de 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos compostos de areia e metais, dentre eles ferro e manganês, foram escoados para rios como o Rio Gualaxo do Norte, Rio do Carmo e o Rio Doce. No Gráfico 2 temos a concentração do ferro em mg/L antes e depois do rompimento, em quatro trechos diferentes da bacia do Rio Doce. Segundo alguns autores, o ferro está presente de 30% a 60% na composição da massa dos rejeitos. A linha horizontal representa o limite máximo aceitável de concentração de ferro nas águas dos rios.

Gráfico 2: Concentração de ferro em mg/L na bacia do Rio Doce

Fonte: Adaptado de IGAM (2018).

Com base no Gráfico 2, responda às questões a seguir.

* Qual o aumento da concentração de ferro em (mg/L), antes e após o rompimento, nos trechos da bacia do Rio Doce mostrados no gráfico?
* Depois de quanto tempo (em meses) todos os trechos da Bacia do Rio Doce voltaram a respeitar o limite aceitável para a concentração de ferro?
* Levante ideias: quais as consequências do excesso de acúmulo de ferro e de outros metais nos rios? Cite outros impactos causados ao meio ambiente pelo rompimento de uma barragem de rejeitos.

Além das consequências ambientais, existem o impacto socioeconômico e o impacto humanitário dos acidentes em atividades mineratórias. Todos esses fatores são levados em consideração pela Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB) na classificação de seu dano potencial associado (DPA). O Quadro 2 mostra a classificação adotada pela PNSB quanto ao impacto socioeconômico e em relação à população jusante (próxima) da barragem. Observe os níveis potenciais e, posteriormente, responda às perguntas propostas.

Quadro 2: Classificação da PNSB

Fonte: Adaptado de PNSB (2018).

* Em quais níveis de risco socioeconômicos e humanitários você considera que as barragens em Mariana/MG e Brumadinho/MG se encontravam?
* Levante ideias: você acredita que havia maneiras de diminuir esses níveis de risco? Se sim, quais?

As penalidades impostas às empresas pelas tragédias de mineração são: multas, indenizações, bloqueios e atividades de reparação dos danos causados. Conforme a revista Exame de 25 de janeiro de 2020, em relação ao rompimento em Brumadinho/MG, já foram determinadas pelos órgãos ambientais multas de R$ 104,9 milhões por infrações variadas. A empresa Vale já quitou R$ 99,3 milhões. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) impôs multa de R$ 250 milhões relacionada a cinco autos de infração. Até a data de publicação do conteúdo pela revista, essa dívida não havia sido paga, de acordo com o órgão ambiental federal.

Quanto ao acidente em Mariana/MG, conforme dados da mesma revista, são 15 autos de infração que totalizam R$ 301,1 milhões em multas. Cerca de 24% desse valor foram quitados pelas empresas mineradoras responsabilizadas pelo ocorrido. Por sua vez, o Ibama cobra R$ 345,2 milhões em 24 autos de infração, que ainda não foram pagos.

Os valores dessas punições são contestados pelas companhias mineradoras e estão pendentes de julgamento. Elas afirmam ainda que têm compromisso total com a reparação dos danos.

* De posse dos dados publicados pela revista Exame, calcule quanto (em milhões) falta para as empresas mineradoras quitarem as multas impostas por órgãos mineiros e ambientais, nos casos de rompimento de barragem em Brumadinho/MG e Mariana/MG.
* A longo prazo, a espera por decisões judiciais em relação às penalizações das empresas mineradoras pode causar consequências à área e à população atingida pelas tragédias? Dê sua opinião.

Analisando as mineradoras, quais são os prejuízos financeiros obtidos em decorrência das falhas em suas atividades? Na edição de 20 de fevereiro de 2020, o portal da Folha de S. Paulo apresentou uma situação semelhante ao Gráfico 3, com o preço em reais das ações da empresa Vale, mineradora que coordenava as operações mineratórias em Brumadinho/MG.

Gráfico 3: Preço das ações da Vale no período de jan. 2019 a jan. 2020.
Fonte: Gráfico baseado em https://www.bmfbovespa.com.br/ptbr/produtos/indices/indices-amplos/indice-bovespa-bovespa.htm.

Após a leitura do gráfico, responda aos questionamentos seguintes.

* Em decorrência do rompimento da barragem da Mina do Feijão, por quanto tempo a mineradora Vale teve reduzidos os valores de suas ações? Você classificaria esses impactos de longo ou curto prazo?

* No site da empresa Vale está listada uma série de investimentos declarados pela mineradora na reparação dos danos. São indenizações, intervenções ambientais, projetos socioeconômicos, apoio a medidas do poder público e descaracterização das barragens a montante em Minas Gerais. Você acredita que essas medidas são suficientes para reparar os danos causados pelo acidente em Brumadinho/MG?

O Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB), em uma coluna publicada no dia 19 de janeiro de 2020, aponta que a recuperação da Valeé “mais uma coisa escandalosa", pois significa que ela se aproveitou de um ambiente de crime para intensificar e aperfeiçoar o processo de exploração da classe trabalhadora.

Os integrantes do movimento dizem que as ações da mineradora registraram alta de 3,3% na sexta-feira 17 de janeiro de 2020, chegando a R$ 57, valor superior aos R$ 56,15 contabilizados antes do crime. O valor de mercado da Valefoi a R$ 301 bilhões, R$ 5 bilhões a mais do que o registrado antes do acidente.

O MAB afirma ainda que as reparações e indenizações com a tragédia em Brumadinho somaram R$ 6,55 bilhões em 2019, número inferior à quantia a ser distribuída entre os acionistas, R$ 7,5 bilhões. “A engrenagem do capital é hábil e perversa, com precedência para acionistas – que nada produzem – em detrimento das vítimas, de seus parentes e do ambiente", disse Claret Fernandes, militante do MAB.

Responda à questão a seguir.

* No texto acima, o MAB apresentou dados numéricos sobre o crescimento em bilhões de reais da empresa Vale. O que o MAB quer mostrar com esses valores?

Questões de aprendizagem

Atividade: Os acidentes de mineração contados por dados estatísticos

1 – Com base nas tabelas e nos textos estudados, você acredita que a Matemática possa ser usada para defender interesses de pessoas ou empresas? Você sabe de outras situações em que a Matemática é utilizada para tentar convencer de algo ou alguém?

2 – Estudar Matemática com base em problemas socialmente difundidos pela mídia (rádio, TV, jornal e internet) torna as aulas mais interessantes e motivadoras?

3 – Dê sua posição em relação aos acidentes de mineração.
* Há culpados? Quem?
* Há impactos? Quais?
* Há penalizações? Quais?
* Há medidas de reparação dos danos? Quais? São suficientes?

Considerações finais

Com esse material elaborado e as questões levantadas, temos a proposta de trabalhar elementos da Estatística com base em problematizações reais e acontecimentos de ampla divulgação pelas mídias (internet, TV, rádio, jornal). Portanto, dissociamos o uso da Matemática das aplicações em situações fictícias.

O ambiente estimulado durante a aplicação da atividade deve ser dialógico. O aluno pode ser encorajado a expressar suas opiniões e a construir argumentos, assim como deve respeitar os posicionamentos dos colegas. É nessa abertura para a participação dos discentes que estimulamos seu engajamento nas respostas às questões.

Os gráficos, as tabelas e os textos com informações numéricas presentes no material contribuem para a tomada de opinião do aluno. Nesse sentido, há também o objetivo de destituir a neutralidade da Matemática mediante sua utilização por pessoas, empresas, entidades, movimentos e outras organizações para defender seus interesses.

Enfim, o uso de questões sociocientíficas (QSC) constitui-se como instrumento rico de aprendizagem, no sentido de englobar o estudo de vários conceitos, e motivador pelo seu aspecto dialético, abordando assuntos de conhecimento prévio dos alunos ou próximos de sua realidade.

Referências

BOVESPA. Disponível em: https://www.bmfbovespa.com.br/ptbr/produtos/indices/indices-amplos/indice-bovespa-ibovespa.htm. Acesso em: 31 mar. 2020.

BRASIL. Lei nº 12.334, de 20 de setembro de 2010. Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Disponível em: http://http://www.planalto.gov.br/ccivil03/Ato2007-2010/2010/Lei/L12334.htm.  Acesso em: 23 mar. 2020.

EXAME. São Paulo, 25 de janeiro de 2020. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/vale-quitou-multas-em-mg-mas-nao-pagou-ibama-e-ministerio-do-trabalho/. Acesso em: 25 mar. 2020.
FERNANDES, C. Vale da morte. Disponível em: https://www.mabnacional.org.br/noticia/vale-da-morte. Acesso em: 29 mar. 2020.

FOLHA DE S. PAULO. São Paulo, 20 de fevereiro 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/vale-fecha-2019-com-prejuizo-de-r-67-bilhoes.html.  Acesso em: 27 mar. 2020.

FREITAS, C. M.; SILVA, M. A. Acidentes de trabalho que se tornam desastres: os casos dos rompimentos em barragens de mineração no Brasil. Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, v. 17, nº 1, p. 21-29, 2019. Disponível em: http://rbmt.org.br/details/416/pt-BR/acidentes-de-trabalho-que-se-tornam-desastres--os-casos-dos-rompimentos-em-barragens-de-mineracao-no-brasil. Acesso em: 19 mar. 2020.

HODSON, D. Realçando o papel da ética e da política na educação científica: algumas considerações teóricas e práticas sobre questões sociocientíficas. In: CONRADO, D. M.; NUNES-NETO, N. (Orgs). Questões sociocientíficas, fundamentos, propostas de ensino e perspectivas para ações sociopolíticas. Salvador: EdUFBA, 2018, p. 570.

INSTITUTO MINEIRO DE GESTÃO DAS ÁGUAS (IGAM). Disponível em:  http://igam.mg.gov.br/index.php?option=comcontent\&task=view\&id=155\&Itemid=140$. Acesso em: 22 mar. 2020.

OLIVEIRA, V. C.; OLIVEIRA D. C. A semântica do eufemismo: mineração e tragédia em Brumadinho. Reciis, v. 13, nº 1, p. 13-38, 2019.

WORLD MINE TAILINGS FAILURES. World mine tailings failures - from 1915. Disponível em: https://worldminetailingsfailures.org/. Acesso em: 21 mar. 2020.

Publicado em 29 de setembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

LIMA, Augusto Elias; SANTOS, Gilmar Teixeira dos; PENHA, Pedro Xavier da. Os acidentes de mineração contados por dados estatísticos. Educação Pública, v. 20, nº 37, 29 de setembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/37/os-acidentes-de-mineracao-contados-por-dados-estatisticos