Do Navio Negreiro de Castro Alves ao Cais do Valongo no Rio de Janeiro: construindo reflexões interdisciplinares na Geografia

Rafael Alves de Freitas

Licenciado em Geografia (UERJ) e bacharel em Sistemas de Informação (FEUC), atua na linhas de pesquisa em Geografia Humana e no estudo sobre Lugar, Interdisciplinaridade e Ensino da Geografia.

Rafael de Souza Dias

Doutor em Geografia (UERJ), mestre em Educação Ambiental (FURG), licenciado em Geografia (UERJ), docente na rede municipal de Teresópolis/RJ, mediador Fundação Cecierj em Geografia, atua nas linhas de pesquisa História Ambiental, Geografia Histórica e Ensino da Geografia

Para início de conversa, é bom destacarmos que a Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003, por meio do artigo 26, esclarece que:

Art.26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Essa lei ajuda o professor a pensar sobre sua prática docente e a refletir sobre o que temos assistido atualmente. Vivemos em um momento em que o racismo se mostra muito latente em diversas esferas e de várias formas. Esses atos são praticados por pessoas preconceituosas e maldosas e atingem a honra e a moral da vítima, pois quem sofre fica com sérias cicatrizes psicológicas que precisam ser trabalhadas, isso quando não físicas, em casos de agressão propriamente dita. Esse crime tem ocorrido com certa frequência nas escolas, nas vias públicas, no trabalho, no campo de futebol, na internet, por meio das redes sociais, etc.; por isso, enquanto professores/educadores, não podemos silenciar essa temática na nossa prática docente; afinal, não “tocar na ferida” gera ainda mais preconceito e falta de informação.

O Estatuto da Igualdade Racial define o preconceito étnico-racial como:

Toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais no campo político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida privada (Estatuto da Igualdade Racial, 2010, inciso I, parágrafo único do Art. 1º).

Nessa direção, diante de um problema real, cabe sensibilidade do professor para que ele crie estratégias pedagógicas que aproximem o aluno das discussões envolvendo as questões sociais, como o preconceito racial, sendo essa a discussão central e o objetivo deste artigo.

Dessa forma, busca-se na interdisciplinaridade no ensino de Geografia uma alternativa de renovação no processo de ensino e aprendizagem. Neste contexto, a introdução de recursos didáticos (O Navio Negreiro/no campo das ideias; Cais do Valongo/no campo da materialidade), vem se apresentando como um instrumento imprescindível para que ocorra uma mudança na prática de ensino, despertando no professor sua importância como agente formador de opinião, e não apenas como um mero reprodutor de conteúdos prontos e acabados dos livros didáticos. Aliás, não há mais espaço nas escolas para a pedagogia tradicional. A didática na pedagogia tradicional está embasada na transmissão cultural, concebendo o aluno como um ser passivo, atribuindo um caráter dogmático aos conteúdos de ensino e percebendo o professor como figura principal do processo ensino-aprendizagem. Na avaliação do aprendizado utilizam-se provas e arguições, apenas para classificar o aluno (Libâneo, 1998, p. 90). Conforme destacam Santos e Chiapetti (2011, p. 168),

para a construção do conhecimento, é necessária uma relação do sujeito aprendente com o seu objeto de conhecimento e, nesse sentido, os professores devem ser os mediadores da aprendizagem. Não existem mais espaços para aulas centradas apenas no quadro negro (ou branco) e no livro didático. Os professores devem lançar mão de outras ferramentas pedagógicas para tornar o ensino mais atraente e prazeroso e relacioná-lo ao dia a dia dos alunos. Assim, a utilização de recursos didáticos pedagógicos alternativos constituem-se numa poderosa ferramenta, que permite trabalhar os conteúdos geográficos de modo crítico e criativo.

Portanto, partindo de um problema sabido por todos, que na verdade é um crime – racismo, precisamos então trazer para a sala de aula essa discussão, que funciona como gatilho para a prática interdisciplinar, que não deve ser estanque a uma disciplina apenas, mas ser abarcada pelas demais, como a Geografia. Por isso,

ensinar Geografia utilizando múltiplas linguagens como recurso metodológico é uma estratégia para que as aulas se tornem mais interessantes e, assim, despertem a atenção dos alunos, propicie a articulação dos saberes e aproxime o conteúdo da aula à realidade, já que, muitas vezes, parece distante da vida cotidiana (Dias; Lima; Morais, 2012, p. 11).

Logo, a Geografia pode contribuir com valorosas intervenções junto aos alunos, principalmente na reflexão e percepção do preconceito enquanto atitude de desvalorização do outro. Atitudes preconceituosas ainda fazem parte do cotidiano social, mas no ambiente escolar nos parece ainda mais grave devido a sua essência, e o objetivo do mesmo que é formar cidadãos com conhecimentos que os levem ao desenvolvimento moral, intelectual e, sobretudo, o desenvolvimento humano no melhor sentido da palavra.

A Geografia, como ciência/disciplina, permite uma contextualização de fatos e ideias, e que por isso mesmo se conecta com várias outras disciplinas, ou seja, a Geografia não pode ser encarada pelos alunos como uma disciplina isolada, distante e estanque que se baseia unicamente em “decoreba”. Nós, professores de Geografia, reconhecemos que tão importante quanto o aluno saber os nomes dos principais rios brasileiros, é ele reconhecer a dinâmica social e os conflitos de diversas ordens a que estamos suscetíveis no espaço e na relação com o outro, o que perpassa pelo preconceito racial, que teima persistir na nossa sociedade.

O poema

O Navio Negreiro, de Castro Alves

Ontem serra leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormindo à toa

Sob as tendas d’amplidão...

Hoje... o povo negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...

(Link para acesso completo ao poema: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000068.pdf)

Com o trecho do poema acima – O Navio Negreiro (Tragédia no Mar), de Castro Alves –, começamos esta parte do artigo, em que, sem a pretensão de esgotar o assunto, abordaremos o contexto histórico relatado/retratado por Castro Alves. Sem dúvida, esse poema é um dos mais conhecidos e importantes da  literatura brasileira. Castro Alves descreve com imagens e expressões terríveis a situação dos africanos que eram arrancados de suas terras, separados de suas famílias e tratados feito animais nos navios negreiros que os transportavam para diversas partes do mundo (inclusive para a América do Sul, onde o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, foi um desses destinos), a fim de serem vendidos, tornando-se propriedades de senhores e trabalhando sob as ordens dos feitores.

Escrito em São Paulo, em 18 de abril de 1868, quando o poeta tinha vinte e dois anos de idade, quase vinte anos depois da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos, em  4 de setembro de 1850. O Navio Negreiro é composto de seis partes, com um total de 34 estrofes e alterna métricas variadas para obter o efeito rítmico mais adequado a cada situação retratada no poema (Coutinho, 2002).

Castro Alves é um dos nomes mais representativos da literatura brasileira, da chamada 3ª fase da geração do Romantismo. Conforme Coutinho (2002, p. 140-145), o Romantismo surge em decorrência de dois grandes movimentos que movem as estruturas sociais e culturais na Europa: a Revolução Industrial, iniciada em meados do século XVIII na Inglaterra, e a Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII. A nova expressão literária que vai se estabelecendo naturalmente se constitui em novas transformações estéticas na poesia, contrapondo a tradição neoclássica e gerando grandes inquietações e um inconformismo que vai descortinando um novo mundo imaginário.

Figura 1: Castro Alves

Fonte: Domínio público.

Rapidamente, podemos sintetizar que o Romantismo ganhou um novo campo literário com o surgimento de poetas envolvidos com a crítica social, pouco discutida até aquele momento. Nesse período, surge na literatura o poeta Castro Alves, com um poema reconhecido como condoreiro, justamente por apresentar um novo estilo poético, capaz de quebrar o silêncio, comparando aos estilos anteriores.

A título de exemplificação/reflexão, seguem algumas estrofes do poema.

Era um sonho dantesco... o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Qual um sonho dantesco as sombras voam!...

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...

Fonte:http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000068.pdf.

Pela leitura dos trechos selecionados, é possível depreender um cenário que caracteriza a dor e o sofrimento daqueles que eram traficados. Castro Alves rompe com o silêncio existente sobre os negros escravos e expõe um problema social que se desenvolvia na colonização do país, distinguindo-se assim da literatura clássica, que voltava o olhar para o índio, o amor e as diferentes culturas urbanas.

Portanto, o professor pode usar esse poema como recurso didático, a fim de causar sensibilização aos alunos, mostrando a eles uma história do nosso passado, marcada pela dor, pelo sofrimento daqueles que, por terem uma cor de pele diferente da branca (considerada a cor da aristocracia), “mereciam” castigos e trabalhos, dentro da lógica da escravidão.

Cais do Valongo: breve relato 

O tráfico atlântico e a escravização de africanos nas Américas entre os séculos XVI e XIX é um longo e trágico episódio de violação de direitos humanos e de enorme relevância para a história da humanidade. Quase um quarto de todos os africanos escravizados nas Américas chegaram pelo Rio de Janeiro, cidade considerada o maior porto escravagista da História (Silva, 1987).

Em 2011, foi realizado um grande conjunto de obras de “revitalização” na cidade carioca, a fim de prepará-la para a Olimpíada de 2016, uma vez que o Rio de Janeiro seria palco desse grande evento esportivo. Por conta dessas obras, o Cais do Valongo – que fica localizado no porto da Praça Mauá (Boulevard Olímpico) – revelou, por meio de escavações arqueológicas, achados que assumiram um valor simbólico de testemunho material das raízes africanas nas Américas e constitui um desses espaços em que a materialidade se condensa em memória viva, exemplo da chegada e da fixação dos africanos neste lado do Atlântico, ou seja, trata-se do mais contundente lugar de memória da diáspora africana fora do continente africano (Vários Autores, 2016).

Mapa 1: Recorte espacial do Cais do Valongo

O Cais do Valongo apresenta-se como um exemplo de sítio histórico sensível. Em seu entorno, encontravam-se os armazéns nos quais os cativos recém-chegados eram expostos e vendidos, o Lazareto, onde eram tratados os enfermos da horrível viagem, e o Cemitério dos Pretos Novos, destino dos que morriam ao chegar (Silva, 1987).

O sítio arqueológico do Cais do Valongo não só representa o principal cais de desembarque de africanos escravizados em todas as Américas, como é o único que se preservou materialmente neste lado do Atlântico. Pela magnitude do que representa, coloca-se como o mais destacado vestígio do tráfico negreiro no continente americano (Silva, 1987).

O tráfico de africanos escravizados é considerado o maior processo de migração forçada da história da humanidade, e seu conteúdo de dor e tragédia faz do Cais do Valongo um sítio histórico de memória sensível. Está situado em uma região na qual a presença africana deixou uma herança viva, que se perpetua e se renova até hoje. Expressa, portanto, a resistência e a afirmação das comunidades afrodescendentes nas Américas. Objetos encontrados nas escavações do sítio arqueológico revelam a pluralidade de matrizes africanas trazidas ao Novo Mundo e a capacidade dos escravizados em expressar suas marcas identitárias ao mesmo tempo em que as reinventavam na situação de cativos (Silva, 1987).

O geógrafo Milton Santos trata do espaço e das formas que o compõem de uma forma muito interessante, pois nos ajuda a compreender esses achados arqueológicos dentro de uma perspectiva da dualidade entre passado e presente.

O passado passou e só o presente é real, mas a atualidade do espaço tem isto de singular: ela é formada de momentos que foram, estando agora cristalizados como objetos geográficos atuais; essas formas-objetos, tempo passado, são igualmente tempo presente, enquanto formas que abrigam uma essência, dada pelo fracionamento da sociedade total. Por isso, o momento passado está morto como tempo, não porém como espaço; o momento passado já não é, nem voltará a ser, mas sua objetivação não equivale totalmente ao passado, uma vez que está sempre aqui e participa da vida atual como forma indispensável à realização social (Santos, 2007, p. 14).

Como sugestão, acreditamos que escolas da cidade do Rio de Janeiro possam fazer trabalhos de campo com seus alunos no Cais do Valongo, aproximando a leitura dos livros didáticos, como do próprio poema de Castro Alves, à materialidade desse lugar, ou seja, fazer ligações de fatos, contextualizando as ideias, mostrando assim a importância desse cais para a simbologia que se depreende dele. Inclusive, a partir dessa sugestão, trabalhos futuros podem ser realizados, complementando este.

Questões interdisciplinares na Geografia

A interdisciplinaridade deste artigo resulta da própria reflexão aqui exposta. Assim, a partir da Literatura, os alunos podem ser despertados a terem um senso crítico e reflexivo, tal como pensar, questionar, debater, inferir, etc., sobre o espaço geográfico dentro das obras literárias e, com isso, trazer para sua realidade escolar e fora dela essa criticidade tão importante não só para aquilo que se espera da Geografia, como para a própria formação do aluno enquanto cidadão consciente dentro da sociedade.

Esse exercício deve se assentar na reflexão docente sobre sua prática e a realidade na qual está inserido juntamente com a realidade escolar para a tomada de consciência interdisciplinar. Desse modo, a partir da consciência docente sobre sua prática e realidade escolar, que o professor tenha discernimento para trazer a teoria contida nos livros e material didático para a vida cotidiana dos alunos e, assim, a construção do ensino-aprendizagem ocorra de fato (Castrogiovanni, 2000).

Portanto, a utilização de obras literárias no ensino de Geografia se constitui como uma proposta renovadora interdisciplinar para a discussão que aqui propomos. Para Pontuschka (2009, p. 230): “A interdisciplinaridade, tendo muitas vezes a literatura como foco, cria oportunidades objetivas de trabalho que merecem ser mais bem exploradas na educação”.

Nessa direção, podemos destacar, apoiados em Farias (2014), que a interdisciplinaridade se faz necessária, mas enquanto um desafio a ser adotado e praticado tanto na academia quanto na escola, e menos enquanto resposta pronta e acabada. Esse autor (2014) ainda ressalta que a interdisciplinaridade é um conceito que pode ser entendido como a integração de duas ou mais áreas do saber para investigações mais analíticas; mas não é somente isso, pois é preciso que esse conceito nos remeta, em última análise, a caminhos novos do conhecimento que em uma única área/disciplina separadamente não seria possível conhecer. Novamente, segundo esse autor (2014, p. 59),

a interdisciplinaridade, em quaisquer das suas perspectivas, procura restabelecer o diálogo entre os diferentes campos do conhecimento, entender melhor a relação entre o todo e as partes, restituir a integração entre as particularidades e a totalidade, entre a unidade e a diversidade.

Importante destacar também que a Literatura é pouco ou mal utilizada no campo geográfico, embora os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) vejam o seu uso como uma nova possibilidade por meio da interdisciplinaridade no ensino de Geografia. De acordo com os PCN, é possível aprender Geografia com ajuda da leitura de alguns autores/clássicos da literatura brasileira.

Ao pretender o estudo das paisagens, territórios, lugares e regiões, a Geografia tem buscado um trabalho interdisciplinar, lançando mão de outras fontes de informação. Mesmo na escola, a relação da Geografia com a Literatura,por exemplo, tem sido redescoberta, proporcionando um trabalho que provoca interesse e curiosidade sobre a leitura desse espaço. É possível aprender Geografia desde os primeiros ciclos do ensino fundamental, mediante a leitura de autores brasileiros consagrados (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Castro Alves, entre outros) (Brasil, 1998, p. 33).

Desse modo, o uso de obras literárias no ensino de Geografia deve ser encarado pelo professor como possibilidade para novas práticas educativas, em que a ciência geográfica lança mão de recursos didáticos que podem ganhar destaque no processo de ensino-aprendizagem, além da inserção da proposta interdisciplinar como boa estratégia para o aprendizado dos conteúdos trabalhados com os alunos, deixando claro que a Geografia tem como uma das suas metas promover a cidadania, mas não há cidadania sem respeito ao outro.

Em linhas gerais, as obras literárias possibilitam um amplo conhecimento ao aluno, por considerarmos que ao mesmo tempo em que “alimentamos a leitura” desses clássicos, estimulando-o, discorremos sobre o passado histórico-geográfico da conjuntura das obras para o entendimento do presente, enquanto espaço e tempo dentro da perspectiva da realidade do aluno, possibilitando ainda o conhecimento do que até então era desconhecido por ele.

Segundo Barcellos (2009), as obras literárias se apresentam como um rico material a ser estudado pela Geografia, pois elas evocam a essência dos lugares e o cotidiano dos personagens, como retratado no poema de Castro Alves e corroborado pela materialidade do Cais do Valongo.

Nessa direção, ao nos apoiarmos nesse poema, oportunizamos um conhecimento interdisciplinar ao aluno, pois para além das questões literárias do Romantismo verificadas nele – O Navio Negreiro, ainda discorremos sobre a conjuntura histórico-geográfica, diga-se de passagem, muito bem retratadas criticamente pelo poeta, chamando a atenção para um episódio triste da nossa história – tráfico de escravos africanos. A partir desse poema, fica fácil a compreensão sobre os achados arqueológicos do Cais do Valongo (Figura 2), visto que se trata de uma materialidade física com grande valor simbólico, representando a resistência da cultura negra.

Figura 2: Vista frontal do sítio arqueológico do Cais do Valongo

Logo, acreditamos que a Educação ainda é o principal instrumento para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. E sabemos que ela assume um papel ainda mais importante em países com imensos desafios socioeconômicos a serem superados - o que perpassa pela desigualdade social e as questões de raça e etnia, principalmente com a dificuldade de aceitar o outro na sua pluralidade de toda ordem, o que resulta no preconceito racial - como nos países em desenvolvimento, em especial o Brasil. Nesse sentido, comungamos das ideias de Paulo Freire:

Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de apreender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito (Freire, 1996, p. 28).

Com isso, esperamos que o professor se sinta motivado e possa se apropriar dessa reflexão, a fim de introduzir uma temática necessária e urgente aos dias atuais – preconceito racial, e que deve ser encarado como tema transversal, não se restringindo apenas a uma ou outra disciplina, mas que faça parte de todas as disciplinas do currículo do ensino básico, como da Geografia, principalmente, no Ensino Médio.

Considerações finais 

Este artigo discutiu a necessidade de levarmos aos nossos alunos uma discussão tão cara à sociedade atual, mas ao mesmo tempo silenciada por currículos engessados que não priorizam temas transversais, como a questão do racismo estrutural no Brasil, embora saibamos que o racismo, infelizmente, é um problema global.

Assim, concordamos com Pimenta (2006, p. 19), quando formulou o conceito de “professor reflexivo”, baseado na “epistemologia da prática”, onde acredita-se que o profissional imbuído nessa perspectiva poderia dar conta dos problemas com que se depara no dia a dia, diminuindo, assim, as tensões entre os espaços de teoria e os de prática em sala de aula. Dessa forma, tanto O Navio Negreiro quanto o Cais do Valongo podem ser usados nessa perspectiva para a promoção de discussões sobre o racismo, até porque a escola é reflexo da sociedade, e o nosso papel é justamente tornar essa sociedade mais justa e democrática para todos. Daí a importância da interdisciplinaridade e da Geografia Crítica na construção de debates de temas espinhosos como esse. A Geografia Crítica, denominada também marxista ou radical, tem sua base filosófica no materialismo histórico e dialético, desenvolvido por Karl Marx entre 1840 e 1880. A essência desse paradigma está no rompimento com o positivismo e no entendimento do espaço geográfico como produto social (Moraes, 1987).

Por isso, a intolerância ao outro, ao diferente, é algo inaceitável no ambiente escolar, constituindo um entrave para uma educação de qualidade e para o desenvolvimento de uma sociedade realmente “saudável”. Não se pode mais amenizar o problema, fazer “vista grossa” para “brincadeiras” que denigram pessoas pela cor de sua pele, classe social ou gênero. Nesse sentido, nós, enquanto comunidade escolar, temos que fazer do combate ao preconceito uma prioridade cotidiana, por isso não podemos desassociar a escola da sociedade.

Referências

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VÁRIOS AUTORES. Sítio Arqueológico Cais do Valongo. Proposta de Inscrição na lista do Patrimônio Histórico Mundial, janeiro de 2016. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossie_Cais_do_Valongo_versao_Portugues.pdf. Acesso em: 30 mar. 2020.

Publicado em 13 de outubro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

FREITAS, Rafael Alves de; DIAS, Rafael de Souza. Do Navio Negreiro de Castro Alves ao Cais do Valongo no Rio de Janeiro: construindo reflexões interdisciplinares na Geografia. Educação Pública, v. 20, nº 39, 13 de outubro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/39/do-inavio-negreiroi-de-castro-alves-ao-cais-do-valongo-no-rio-de-janeiro-construindo-reflexoes-interdisciplinares-na-geografia