Geografia na perspectiva do lugar: história de vida e uso de tecnologia da informação e comunicação

André Tomé de Assis

Discente (IFMG - Câmpus Arcos)

Elivelton Dias de Carvalho

Discente (IFMG - Câmpus Arcos)

Jefferson Rodrigues da Silva

Professor (IFMG - Câmpus Arcos)

A Geografia é uma ciência que possui o lugar, o território, a região, o espaço e a paisagem como categorias de análise. O lugar traz compreensões de ambientes onde a vivência, os sentimentos e as percepções contribuem para o verdadeiro conhecimento geográfico (Christofoletti, 1985).

Por meio de mecanismos da tecnologia da informação, essas descrições e compreensões dos lugares podem ser divulgadas e compartilhadas, o que, consequentemente, resulta em aumento do conhecimento geográfico geral de mundo. Blogs, sites e várias outras plataformas digitais podem ser amplamente usados em diversos ambientes de pesquisa, ensino e aprendizagem (Leite, 2009).

Segundo Godoy (2010), o uso das novas tecnologias pode modificar o método de organização e de produção da informação nas escolas e, assim, fazer nascer outras formas de ensino-aprendizagem.

A proposta deste artigo é estabelecer a compreensão, via análise qualitativa multivariada, de uma prática pedagógica com alunos do ensino básico interligando os conceitos de história de vida e lugar e conciliando o uso de tecnologia da informação para registro, valorização e exposição do conhecimento de alunos.

Metodologia

Utilizou-se uma abordagem mista de investigação, de corte transversal, por meio de intervenção pedagógica realizada em uma escola pública no segundo semestre de 2019. Qualitativamente, tem-se a proposta de uma produção textual; quantitativamente, a aplicação de dois questionários. A amostra foi composta de 35 alunos do 6º ano do Ensino Fundamental de uma escola estadual localizada na cidade de Formiga/MG.

Por questões éticas e de proteção às informações dos estudantes, não serão revelados os nomes dos participantes da pesquisa; a escola também não será identificada.

Dentre as técnicas de pesquisa utilizadas, fez-se uma proposta de produção textual da história de vida do aluno relacionada ao conceito e à experiência de lugar, como está no Anexo A. Na análise multivariada, a primeira leitura dos textos induz ao estabelecimento de categorias. A segunda leitura serve para adaptação e renomeação das categorias e para a seleção de trechos representativos de cada uma delas. Finalmente, a terceira leitura quantifica a frequência de incidência de cada categoria.

Segundo Thompson (1992), por meio do depoimento de parte da história de vida de uma pessoa pode-se investigar como ele se cruza com outras histórias de vida. Duarte (2005) corrobora essas ideias e descreve também procedimentos de como se preparar para fazer uma entrevista e interpretar os dados. Sendo assim, para uma análise qualitativa serão apresentados, na íntegra, dois dos textos produzidos.

As propostas de produção textual foram distribuídas em sala de aula. Inicialmente em grupo, os alunos expuseram seus conhecimentos prévios e tiveram contato com o conhecimento formal da geografia do município de Formiga, identificando e caracterizando lugares de vivências, como bairros, praças, ruas e suas características peculiares.

Com o intuito de aproximar o uso de tecnologias da informação do processo ensino-aprendizagem, foi disponibilizada uma plataforma digital onde os textos produzidos pudessem ser divulgados. Para isso, foram tomadas algumas precauções no sentido de respeitar o desejo dos alunos de participar ou não da atividade proposta, como também de obter a autorização por escrito de seus responsáveis. Os alunos estiveram ainda sob a orientação e verificação do professor para garantir que os textos produzidos não trouxessem prejuízo à honra da história individual deles.

Também como ferramenta de pesquisa, foi aplicado um questionário quantitativo inicial sobre conhecimentos prévios (Anexo B) e outro sobre a prática pedagógica em si, de modo a entender o seu significado para os alunos (Anexo C). Com base nos resultados dos questionários, foram avaliados o sentimento e a percepção dos alunos em relação à prática de ensino e aos conhecimentos geográficos compartilhados e apreendidos. Constatou-se que os alunos se sentiram valorizados pela possibilidade de divulgação de suas ideias e de seus conhecimentos em uma plataforma digital.

Deve ser ressaltado que, como relatado por Thompson (1992) e Duarte (2004; 2005), a preocupação não foi verticalizar, mas perceber horizontalmente como aquele grupo de entrevistados demonstrou a percepção real dos fatos vivenciados, determinando algo em comum, ou não, nas suas experiências em determinado lugar.

Revisão bibliográfica

A revisão bibliográfica que embasou esta pesquisa perpassa os três principais aspectos aqui abordados e congruentes com a prática pedagógica: a categoria lugar, a história de vida e as tecnologias da informação e comunicação (TIC).

A categoria lugar

Esta categoria orienta o recorte que se pode fazer observando os laços cotidianos que o indivíduo tem com seu espaço. Para compreender a voz dos moradores de um local, a percepção pode ser utilizada como base teórica na Geografia (Assis, 2015).

A Geografia é uma ciência que tem como uma de suas principais características a preocupação com a justiça social. Na educação como um todo, e em especial na Educação Ambiental, é preciso iluminar vozes e discutir com a academia as realidades locais (Assis, 2015).

Tuan (1980) ressalta que o estudo da percepção traz explicações da relação entre homem e meio ambiente. Segundo o autor, usamos nossos sentidos, como o tato e o paladar, para perceber o mundo, assim como nossas vivências podem instigar alguns desses sentidos. Com algum esforço, podemos perceber como o outro se sente parte do mundo (o lugar). Logo, o conhecimento geográfico é muito importante, pois por meio dele podemos perceber mais e melhor o mundo onde vivemos: “Todos os homens compartilham atitudes e perspectivas comuns; contudo, a visão que cada pessoa tem do mundo é única e de nenhuma maneira é fútil” (Tuan, 1980, p. 285).

História de vida

De acordo com Bottura (1998), a relação entre história oral e meio ambiente pode trazer respostas para problemas locais referentes à preservação da natureza. Thompson (1992) ressaltou que a história oral valoriza conhecimentos desprezados por técnicos. Esse autor relatou a dificuldade de chegar até as comunidades mais afastadas dos grandes centros, o que prejudica o acesso a soluções muitas vezes desprezadas.

A história de vida de uma pessoa pode representar uma análise social mais ampla. Porém, para tornar possível a generalização é preciso fazer uma análise estruturada e conjunta (Thompson, 1992, p. 303). É imprescindível que o método história de vida e a categoria lugar (numa perspectiva de valorização das comunidades locais) deem a luz necessária para vozes que já existem e merecem ser expostas e que sejam registradas como fato histórico, rico de conhecimento, para entendimento dos mais diversos lugares.

A percepção colhida é um exemplo importante, pois por meio dela é possível identificar algo em comum entre os entrevistados e, assim, estabelecer categorias. Em seguida, podemos descrevê-las em forma de textos, agrupá-las e entender o que aquele grupo quis demonstrar como sua característica forte e importante.

Tecnologia da informação e comunicação

Estudar localização, paisagens, mapas e territórios, assim como outros aspectos que fazem parte da disciplina, com o uso das novas tecnologias vem suprir a necessidade dessa geração multitarefas, que já está habituada a se relacionar com diversas mídias ao mesmo tempo, o que pode proporcionar aulas mais atrativas e dinâmicas (Godoy, 2010).

As tecnologias da informação e comunicação (TIC) são ferramentas que podem contribuir muito para o processo de ensino-aprendizagem (Leite, 2009). A Geografia é uma disciplina que pode explorar bastante esse campo, pois são vários os recursos que o professor pode utilizar como ferramenta durante as aulas. De acordo com Moran (2007), os recursos tecnológicos têm muito a acrescentar nas aulas de Geografia, uma vez que eles as tornam mais dinâmicas devido à interação do aluno com o mundo virtual.

A propagação da informática tem demandado que os professores se mantenham atualizados quanto às novas ferramentas didáticas que a tecnologia coloca ao dispor do processo ensino-aprendizagem (Leite, 2009).

Resultados e discussões

Primeiramente, é apresentada e discutida a análise multivariada das produções textuais dos alunos sobre história de vida e lugar. Em seguida, são abordados os resultados do questionário qualitativo. Finalmente, triangulam-se as duas técnicas de pesquisa com a literatura pertinente ao assunto.

O primeiro resultado importante é quanto à participação efetiva dos alunos na escrita do texto, pois todos os 35 alunos fizeram os textos, o que demonstra interesse em relação à atividade proposta.

O resultado da análise multivariada dos textos é apresentado na Tabela 1. De forma induzida, tem-se o estabelecimento de oito categorias: conexão do nascimento/tempo de vida do aluno com a cidade; aspectos históricos tempo/mudanças nas paisagens; aspectos da geografia humana; aspectos da geografia física; recordações de atividades lúdicas da infância e de espaços de lazer; projeção do aluno ao futuro; demonstração de sentimentos positivos em relação ao lugar; e demonstração de sentimentos negativos em relação ao lugar.

Tabela 1: Análise qualitativa multivariada dos textos de história de vida e lugar

Categoria

Frequência

Trechos

Conexão do nascimento/ou tempo de vida do aluno com a cidade

89%

“Em uma linda manhã de março, com olhos pretinhos e pele rosada nasceu a pequena Valentina. Nasceu na Maternidade Santa Mônica, dentro do Hospital São Luiz, situado na cidade de Formiga/MG.”

“Quando pequena, achava que minha cidade era plana.”

“Cresci com várias coisas sendo construídas.”

Aspectos históricos tempo/mudanças nas paisagens

100%

“Antiga cidade das Areias Brancas, cujo nome fora trocado por uma história contada por tropeiros que foram assaltados pelos pequenos insetos num breve acampamento.”

“Muita coisa mudou, ruas que não eram pavimentadas e agora são.”

“Cheguei aqui na minha rua só tinha vinte casas, hoje aumentou muito.”

Aspectos da Geografia Humana

100%

“Formiga hoje se estende por vários quilômetros.”

“Os pontos turísticos não mudaram muito, o Cristo Redentor é um exemplo.”

“Houve construções, casa, prédios, pontes.”

Aspectos da Geografia Física

100%

“Uma paisagem bem familiar, a cidade se encontra dentro de um vale e é banhada por dois rios maiores, Rio Formiga e Rio Mata Cavalo.”

“A lagoa tem vários peixes.”

“Mas, na Geografia, a preservação ambiental veio ajudar muito.”

Recordações de atividades lúdicas da infância e de espaços de lazer

51%

“Maria crescera com dias bem ativos, cheios de brincadeiras em lindas praças públicas, um clube na beira de uma lagoa e um parquinho na rodoviária.”

“Ficava cheio de menino na rua brincando.”

“A rua era calma, boa de brincar.”

Projeção do aluno ao futuro

43%

“Quando se tornar adulta, Valentina, que hoje possui 11 anos, poderá fazer faculdade em sua própria cidade, no Unifor, que possui vários cursos, e também se casar na Igreja Matriz São Vicente de Férrer, que é referência de beleza em toda a região.”

“É muito legal morar na minha cidade, pois este é meu destino e minha história.”

“Tenho meu sobrinho que amo muito, mas no futuro gostaria de mudar.”

Demonstração de sentimentos positivos em relação ao lugar

100%

“A rua começou a ficar mais movimentada, mas mesmo assim, gosto do lugar onde moro.”

“Nasci num bairro muito legal, aqui tem várias casas bonitas.”

“Gosto muito do meu lar, que é uma casa relativamente grande.”

Demonstração de sentimentos negativos em relação ao lugar

34%

“Achei um pouco estranho, pois a cidade tem muito movimento.”

“Em minha rua há um grande terreno vazio, muitas vezes atrai animais perigosos e pega fogo.”

“O progresso continua ameaçando, tirando o verde dos lugares.”

O formato de texto solicitado aos alunos foi uma redação, o que está coerente com o nível do 6º ano do Ensino Fundamental. A lógica de redação de texto gramatical da língua portuguesa pode ser notada. Os alunos demonstraram seguir o padrão normativo de produção: introdução, desenvolvimento e conclusão. Quanto à coerência temporal da história, eles fizeram o recorte de tempo, considerando passado, presente e futuro.

É possível perceber, até mesmo pela lógica de redação, que os alunos se posicionaram em relação ao assunto. Muitos deles (89%) estabeleceram uma conexão com seu nascimento ou tempo de vida na cidade.

Eles também demonstraram entendimento da proposta pedagógica e do conhecimento de conceitos da Geografia. Verificou-se que em 100% dos textos havia pelo menos um trecho que pôde ser classificado em cada uma das três categorias: aspectos históricos tempo/mudanças nas paisagens, aspectos da Geografia Humana e aspectos da Geografia Física.

Com uma frequência de 51% nos textos, os alunos trouxeram recordações de atividades lúdicas da infância e de espaços de lazer, como nos trechos: “Ficava cheio de menino na rua brincando” ou “A rua era calma, boa de brincar”.

Em 43% dos textos, constata-se a projeção do aluno para o futuro. Em algumas citações, é possível perceber as expectativas profissionais e pessoais dos alunos, como no trecho: “Quando se tornar adulta, Valentina, que hoje possui 11 anos, poderá fazer faculdade em sua própria cidade, no Unifor, que possui vários cursos, e também se casar na Igreja Matriz São Vicente de Férrer, que é referência de beleza em toda a região”. Unifor é um centro universitário particular, com câmpus na cidade de Formiga. Como projeção de futuro, constata-se ainda a vontade de sair da cidade: “Tenho meu sobrinho que amo muito, mas no futuro gostaria de mudar”.

Todos os textos contêm demonstração de sentimentos positivos em relação ao lugar. Como exemplos, citamos: “A rua começou a ficar mais movimentada, mas mesmo assim, gosto do lugar onde moro” ou “Nasci num bairro muito legal, aqui tem várias casas bonitas”. Em 34% dos textos, observa-se também a incidência de trechos que demonstram sentimentos negativos em relação ao lugar, o que pode ser constatado a seguir: “Em minha rua há um grande terreno vazio, muitas vezes atrai animais perigosos e pega fogo” e “Achei um pouco estranho, pois a cidade tem muito movimento”.

Seis alunos se dispuseram a ler seus textos para os colegas de turma. Incialmente optaram por ter seus textos publicados em um site da escola, no entanto apenas dois alunos, de fato, se prontificaram a ver seus textos expostos on-line.

Seguindo o pensamento de que a história de vida pode trazer uma série de informações que podem ser trabalhadas na ciência, Thompson (1992) ressalta que até mesmo com uma única história de vida é possível fazer um trabalho científico aprofundado. Aqui se percebe coerente a apresentação integral desses dois textos. O primeiro é de uma aluna que mora há cinco anos na cidade.

Formiga Gerais

Morando em Formiga há cinco anos descobri que as serras não estão tão longe, na verdade estão bem perto, tão perto que eu subo e desço todo dia! Ao longe estão repletas de mata verde, mas aqui, elas têm casas, prédios e ruas.

Morando em Formiga há cinco anos vejo que o progresso continua avançando, tirando os verdes pastos e acrescentando o escuro asfalto, sei que é necessário, mas que pena ver o verde se distanciando!

Alegria é saber que nas praças a vida se manifesta de forma tão bela, no sorriso das crianças a brincar e nas árvores os pássaros a cantar.

Morando em Formiga há cinco anos sou feliz nesta terra abençoada, todo bem necessário encontro aqui e aqui percebo que ser mineira é bão de mais, aqui na Formiga Gerais.

O texto a seguir é de uma aluna que mora na cidade de Formiga desde que nasceu.

Minha cidade, minha história

Em uma linda manhã de março, com olhos pretinhos e pele rosada nasce a pequena Valentina. Nasceu na Maternidade Santa Mônica, dentro do Hospital São Luiz, situado na cidade de Formiga/MG. Antiga cidade das Areias Brancas, cujo nome fora trocado por uma história contada por tropeiros que foram assaltados pelos pequenos insetos num breve acampamento.

A casa da Valentina fica bem no alto do morro, uma paisagem bem familiar na cidade, que se encontra dentro de um vale, e é banhada por dois rios maiores, Rio Formiga e Rio Mata Cavalo. 

Embora a cidade seja bem tranquila, Valentina crescera com dias bem ativos, cheios de brincadeiras em lindas praças públicas, um clube na beira de uma lagoa e um parquinho na rodoviária. 

Em tempos de estudo, a felicidade não cabia em seu coração, pois pertinho de casa era sua escola, todos os bairros possuem suas escolas zoneadas. 

Quando se tornar adulta, Valentina, que hoje possui 11 anos, poderá fazer faculdade em sua própria cidade, no Unifor, que possui vários cursos, e também se casar na Igreja Matriz São Vicente de Férrer, que é referência de beleza em toda a região.

A seguir, são apresentados os resultados do questionário quantitativo. No início da pesquisa foram constatadas as experiências prévias dos alunos em relação a três aspectos estudados: história de vida, o uso de tecnologias da informação e comunicação e lugar em que mora. Na Figura 1 está o resultado dessa pergunta de forma gráfica.

Figura 1: Experiência prévia dos alunos com atividades ou situação na aula de Geografia que se relacionavam com: a) história de vida, b) uso de novas tecnologias e c) lugar em que mora.

Como pode ser constatado por meio da análise dos gráficos, a maioria dos alunos relatou que nas aulas de Geografia são estudados assuntos que têm a ver com o lugar onde eles moram (91%). Também disseram que têm estudado assuntos relacionados à sua história de vida (mas não em ampla maioria, 54%). Em relação à tecnologia, 57% dos alunos afirmaram que o professor utiliza esse recurso e 43% disseram que não. Conclui-se, portanto, que não há dúvida de que o tema estudo do lugar é presente nas aulas de Geografia, porém constatou-se que, no entendimento dos alunos que participaram da pesquisa, existe uma carência no que se refere à abordagem da história de vida dos alunos e ao uso de tecnologia.

A próxima análise advém do questionário quantitativo aplicado após a execução da prática pedagógica. Na Figura 2 há dois gráficos que abordam temas relacionados ao significado da proposta pedagógica para os alunos. No primeiro gráfico, observa-se que 83% dos alunos acreditam ser importante escrever um texto sobre o lugar; no segundo, que 86% deles acham importante a valorização da história de vida.

Figura 2: Percepção dos alunos – importância da categoria lugar e história de vida

Duas perguntas do questionário identificam a relação do aluno com o uso de tecnologias da informação e comunicação. Na Figura 3, os gráficos ilustram o resultado de cada uma delas. No primeiro gráfico, constata-se que 71% dos alunos disseram que gostaram da possibilidade de ter o texto publicado em um site da escola. No segundo gráfico, percebe-se que 86% dos alunos sentiram-se valorizados pela possibilidade de divulgação de seu texto.

Figura 3: Percepção dos alunos – valorização da publicação no site e divulgação dos textos

Embora apenas dois alunos tenham disponibilizado seus textos para divulgação em site, observa-se que a maioria deles gostou e sentiu-se valorizada. Esse resultado é relevante e indica que a baixa aceitação da divulgação do texto pode ser devida ao medo do julgamento de terceiros, membros externos à escola, e pelo caráter inovador da prática pedagógica, uma vez que muitos não tinham experiências prévias em aula com os tópicos história de vida, uso de tecnologias da informação e comunicação e lugar em que mora, como apresentado na Figura 1.

Os alunos foram perguntados se houve aprendizado real, uma verdadeira troca de informações geográficas na produção do texto e no compartilhamento das informações geográficas. Como pode ser observado na Figura 4, 94% deles revelaram autopercepção da aprendizagem por meio da prática pedagógica.

Figura 4: Autopercepção de aprendizagem

Conclusão

A prática pedagógica de produção textual relacionando a história de vida do aluno e o conceito de lugar e fazendo uso de tecnologias da informação e comunicação é pertinente ao ensino de Geografia, para alunos do 6º ano do Ensino Fundamental.

Mediante a análise multivariada dos textos, é possível concluir que os alunos entenderam a proposta pedagógica e foram capazes de aplicar os conceitos geográficos relacionados ao lugar. Verificou-se que em todos os textos havia pelo menos um trecho que pôde ser classificado em uma das três categorias: aspectos históricos tempo/mudanças nas paisagens, aspectos da Geografia Humana e aspectos da Geografia Física. Além da observação da aplicação dos conceitos, 94% dos alunos responderam ter autopercepção de aprendizagem por meio da prática pedagógica.

Muitos textos apresentaram trechos que puderam ser categorizados em conexão do nascimento/tempo de vida do aluno com a cidade, com 89% de frequência; recordações de atividades lúdicas da infância e de espaços de lazer, com 51% de frequência; projeção do aluno ao futuro, com 43% de frequência; e ainda demonstração de sentimentos positivos e negativos em relação ao lugar, com 100% e 34% de frequência, respectivamente.

Embora apenas dois alunos tenham efetivamente disponibilizado o texto para divulgação na internet, 71% deles afirmaram que gostaram da ideia e 86% sentiram-se valorizados com essa possibilidade. O questionário sobre experiências prévias indicou que o trabalho em sala de aula envolvendo história de vida, lugar e uso de tecnologias é algo novo para muitos deles. A baixa participação no uso de tecnologias da informação e comunicação pode ser fruto do caráter de novidade e do medo do desconhecido, uma vez que eles demonstraram bons sentimentos em relação à ferramenta. Além disso, verificou-se que 85% dos alunos gostaram de escrever um texto sobre o lugar onde moram e também se sentiram valorizados por contar sua história de vida. A pesquisa contribui para o entendimento da importância de práticas pedagógicas de valorização do contexto do aluno, como o lugar e sua história de vida.

Referências

ASSIS, André Tomé de. A transposição do Rio São Francisco na voz dos diretamente atingidos em Cabrobó (PE). 2015. 240 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015.

BOTTURA, Giovana. A compreensão das formas de relação da população com o meio ambiente: estudo de caso no reservatório de Salto Grande (Americana – SP). 1998. 122 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Ambiental) – Universidade de São Paulo, São Carlos, 1998.

CHRISTOFOLETTI, Antônio. Perspectivas da Geografia. São Paulo: Difel, 1985.

DUARTE, Jorge. Entrevista em profundidade. In: DUARTE, Jorge (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. v. 1. São Paulo: Atlas, 2005.

DUARTE, Rosália. Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar, Curitiba, nº 24, p. 213-225, 2004. Disponível em https://revistas.ufpr.br/educar/article/view/ 2216/1859. Acesso em: 28 jan. 2020.

GODOY, Anterita Cristina de Sousa (Org.). Didática. Campinas: Alínea, 2010.

LEITE, Silvia Ligia (Coord.); POCHO, Cláudia Lopes; AGUIAR, Márcia de Medeiros et al. Tecnologia educacional: Descubra suas possibilidades na sala de aula. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

MORAN, Jose Manuel. As mídias na educação. In: MORAN, José Manoel. Desafios na comunicação pessoal. 3ª ed. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 162-166.

THOMPSON, Paul. A voz do passado. História oral. São Paulo: Paz e Terra, 1992. TUAN, Y. F. Topofilia. Um estudo da percepção e valores do meio ambiente. São Paulo, Difel, 1980.

Anexo A: Proposta de produção textual

Prezado(a) aluno(a),

Segue uma proposta de redação. Leia atentamente as instruções de como construir seu texto. Você deve entregá-lo escrito à mão livre. Se for possível, também envie um e-mail ao professor com uma cópia digitada do seu texto. Alguns textos poderão ser publicados no site de um projeto da escola.

Depois de escrever seu texto, marque um (X) na opção se quer ou não que ele seja publicado no site. Caso você tenha respondido sim, peça ao seu responsável para assinar a autorização para a publicação do texto.

 

SIM

Eu gostaria que meu texto fosse publicado no site.

 

NÃO

Eu não gostaria que meu texto fosse publicado no site.

Tema: A geografia do município onde moro, por meio da minha história de vida. A partir da sua história de vida, escreva um pequeno texto, de aproximadamente 15 linhas, falando como você percebe a geografia da sua cidade, ou seja, como você reconhece este seu lugar de vivência e como você tem acompanhado as mudanças que ocorreram no município ao longo da sua história de vida. Tente lembrar como foi sua história de vida no município ao longo dos seus anos de vida e se este seu lugar de vivência mudou muito e como ele se apresenta hoje.

Anexo B: Questionário inicial

1) Nas aulas de Geografia, você tem estudado assuntos que tenham a ver com o lugar onde você mora?
SIM    NÃO    TALVEZ

2) Nas aulas de Geografia, você tem estudado assuntos que tenham ver com a sua história de vida?
SIM    NÃO    TALVEZ

3) Nas aulas de Geografia, o professor tem trabalhado com uso de tecnologias?
SIM   NÃO    TALVEZ

Anexo C: Questionário final

  1. Você considerou importante escrever um texto sobre a história do lugar onde você mora?
    SIM   NÃO
  2. Em sua opinião, sua história de vida deve ser valorizada nas aulas de Geografia?
    SIM   NÃO
  3. Na proposta do professor, seu texto pode ser publicado num site da escola. Você gostou da ideia de ver seu texto publicado no site?
    SIM   NÃO
  4. Em sua opinião, houve real aprendizado, uma verdadeira troca de informações geográficas na produção de texto e no compartilhamento das informações geográficas?
    SIM   NÃO
  5. Você se sentiu valorizado com a possibilidade de divulgação de suas ideias e de seus conhecimentos no site da escola?
    SIM   NÃO

Publicado em 13 de outubro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

ASSIS, André Tomé de; CARVALHO, Elivelton Dias de; SILVA, Jeferson Rodrigues da. Geografia na perspectiva do lugar: história de vida e uso de tecnologia da informação e comunicação. Educação Pública, v. 20, nº 39, 13 de outubro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/39/geografia-na-perspectiva-do-lugar-historia-de-vida-e-uso-de-tecnologia-da-informacao-e-comunicacao