Mercantilização da Educação e a Educação a Distância

Nancy Rigatto Mello

Doutoranda (USF)

Marcia Aparecida Amador Mascia

Doutora (USF)

A começar pela ilustre frase escrita por Michel Foucault (1970, p. 6),

Existe em muita gente, penso eu, um desejo semelhante de não ter que começar, um desejo de se encontrar, logo de entrada, do outro lado do discurso, sem ter de considerar do exterior o que ele poderia ter de singular, de terrível, talvez de maléfico. A essa aspiração tão comum, a instituição responde de modo irônico; pois que torna os começos solenes, cerca-os de um círculo de atenção e de silêncio e lhes impõe formas ritualizadas, como para sinalizá-los a distância.

A profundidade do discurso de Foucault remete, até os dias atuais, à necessidade do ser humano de buscar a aprovação do receptor da mensagem que ele deseja emitir, antes mesmo de haver elaborado o discurso ou a ideia em si. Isso porque, de acordo com o autor, há uma aversão inerente à discussão e, por outro lado, a contenção de poder. A ideia da novidade é mascarada com palavras que chamam a atenção do público/receptor da mensagem para um processo contínuo do mesmo conteúdo.

No sistema educacional, esse hábito se torna prejudicial em diversos aspectos. Primeiro, porque elimina o fator essencial do aprendizado, que é a abertura para o novo. Isto é, um conhecimento só pode ser absorvido e praticado quando é validado pela mente do aluno. Outra questão crucial é a capacidade de questionar e discordar dos assuntos apresentados pelo professor. Mesmo se tratando de uma pessoa com mais bagagem de informação e experiência, não é fato que o professor tenha total discernimento sobre o tema que ensina. Cabe ao aluno também colaborar com o aprimoramento do conteúdo; afinal, ele mesmo representa a nova geração a lidar com tal informação e atualizá-la, assim como é feito em toda a história de evolução do conhecimento.

Foucault fala sobre a relação de exclusão que a sociedade desenvolveu em torno de três pilares: a proibição da palavra, a segregação da loucura e a vontade de verdade. Ele aborda o terceiro pilar com mais afinco devido ao fato, apontado por ele, de que a busca pela verdade se torna subjetiva, enquanto o desejo e o poder são estruturas formadas há muito mais tempo e em cima das quais as instituições lutam com o próprio discurso da verdade para mantê-las (Foucault, 1970).

A mercantilização da Educação Superior é o nome dado ao processo em que o desenvolvimento dos fins e dos meios da Educação Superior, tanto no âmbito estatal como no privado, sofre uma reorientação de acordo com os princípios e a lógica do mercado e sob a qual a Educação Superior, gradativa e progressivamente, perde o status de bem público e assume a condição de serviço comercial.

Incluir a Educação num processo de mercantilização já indica um fator de desorientação no aspecto educacional, a ponto de sugerir que pode ser considerada um serviço comercial e privado. As diferenças entre o setor educacional público e privado só existem devido a uma falta de comprometimento por parte de muitos envolvidos com a Educação brasileira.

O ensino não só deveria ser um direito igual para todos, em que cada indivíduo teria acesso à mesma qualidade de informação, recursos e experiências educacionais, como também deveria ser tratado com mais seriedade, ou seja, a visão comercial diminui o valor que a Educação deveria ter, uma vez que não se trata de merecimento por razão social ou qualquer outra, mas de uma ferramenta de base para que cada pessoa tenha a mesma oportunidade de se tornar cidadã crítica e atuante na sociedade em seu maior potencial. E de que maneira se torna essa uma realidade, enquanto há divergências quanto ao que o bolso pode pagar, num país em que a esmagadora maioria é considerada pertencente à classe baixa?

Já vemos que todas as mudanças no sistema educacional, durante os anos desde a sua estruturação, são veementemente vetadas à população geral. Antes, era um direito exclusivo dos nobres. Até o século passado, as mulheres ainda eram limitadas nos temas que poderiam estudar. Nota-se um padrão de luta pela manutenção da ignorância que nos persegue de maneiras muito bem “mascaradas”, como afirma Foucault, sobre a “vontade de verdade”, em que o poder e o desejo são pintados de necessidades econômicas e sociais.

Metodologia

A fundamentação teórica será estudada mediante uma abordagem do discurso na linha francesa pautada em ideias de Michel Foucault, com enfoque arqueológico e genealógico, procurando indicativos de formação no campo educacional para entender os modos de objetivação e subjetivação, complementando com os estudos de outros autores sobre essa temática e sobre a instalação da Educação a Distância (EaD) no mercado.

Discussão

De acordo com Foucault, em seu curso A Vontade do Saber, o discurso é uma configuração de ideias engajadas por descobertas de diversas pessoas.

As práticas discursivas não são pura e simplesmente modos de fabricação de discursos. Ganham corpo em conjuntos técnicos, em instituições, em esquemas de comportamento, em tipos de transmissão e de difusão, em formas pedagógicas, que ao mesmo tempo as impõe e as mantêm (1994, p. 12).

Existem transformações que fazem com que os discursos tomem direcionamentos controversos, de acordo com as necessidades que se apresentem, as quais servirão para determinados grupos. Esse tema ganha, portanto, uma complexidade de objetivos e, consequentemente, um leque de críticas.

A Educação, por sua vez, utiliza discursos a todo momento. O professor, ao ensinar, tem como base o discurso de autores de materiais didáticos e literários que ele próprio aprendeu como aluno, em outra fase; abstrai conteúdo, em seu dia a dia, de discursos proferidos por colegas e familiares, entre outras pessoas que fazem parte de seus círculos sociais, moldando o discurso que ele apresenta sobre o mesmo tema, podendo inclusive se transformar, com o passar do tempo, enquanto ele próprio segue desenvolvendo ideias.

O sistema de Educação a Distância representa um dos formatos que surgiram com o aprimoramento do discurso na Educação. Anteriormente, uma ideia que não seria concebida como viável ou eficaz tem crescido exponencialmente e atraído a atenção de muitas pessoas que desejam graduar-se, mas não podem se comprometer com aulas presenciais durante alguns anos.

Tais princípios de exclusão e de escolha – cuja presença é múltipla, cuja eficácia ganha corpo nas práticas, e cujas transformações são relativamente autônomas – não remetem a um sujeito de conhecimento (histórico ou transcendental) que os inventaria sucessivamente ou os fundaria num nível originário; antes de tudo, designam uma vontade de saber, anônima e polimorfa, suscetível de transformações regulares e considerada num jogo de dependência determinável (Foucault, 1994, p. 13).

O conhecimento vai se transformando à medida que vão sendo agregadas novas necessidades para algum tema abordado dentro dele. O vínculo de “dependência” apontado por Foucault esclarece a evolução em caminhos contraditórios. Isto é, ao mesmo tempo que a tecnologia cria a necessidade de comunicação por meios virtuais, prejudica os encontros presenciais, o que gera discussão sobre a Educação a Distância.

O capitalismo exige, além da produção para o consumo, a máxima potencialização individual como objetivo vital. A produtividade é dogmatizada por meio de um discurso de “governamentalidade neoliberal”, em que o modo como pensamos e agimos ainda é influenciado para manter a falsidade que Nietzsche descreve sobre o conhecimento e o desejo de saber, isto é, conferindo que toda busca se resume em jogos instintivos de vontade de apropriação (Foucault, 1994, p. 14).

O que Foucault passa a analisar são os processos interdependentes nos quais, no decorrer das últimas centenas de anos, formas repressivas e centralizadas do poder do Estado exercidas pelo soberano evoluíram para formas mais descentralizadas e difusas (mas não necessariamente democratizadas) de poder, exercidas por miríades de instituições e pelos próprios sujeitos; a isso, Foucault denomina governamentalidade. A governamentalidade passa a existir como atividade distinta da arte de governo do Estado, o qual racionaliza seu exercício de poder recorrendo a áreas das Ciências Humanas e Sociais que se tornam parte integrante do próprio Estado (Dean, 1999, apud Fimyar, 2009, p. 38).

A descentralização do poder atrai novas formas de ação, uma vez que distribui mais autonomia ao indivíduo. Como consequência, o Governo passa a ter mais responsabilidades, cabendo-lhe avaliar a qualidade de vida da população.

Tendo como exemplo a Alemanha, a concepção do liberalismo se fez necessária para a morte da mentalidade nazista e a reivindicação global de muitos direitos humanos que haviam sido massacrados, o que nos EUA, por outro lado, teve o neoliberalismo como opção de governamento para o fortalecimento do Estado.

Com o passar de poucas décadas, o neoliberalismo tomou conta de Estados no mundo inteiro, tratando os aspectos ligados às competências interiores aos seres humanos como a sua maior competência e valor na sociedade, tanto como máquina de produção de recursos quanto de multiplicação de salários.

Nesses termos, a Economia Política passa a ter como objeto o comportamento humano, ou melhor, a racionalidade interna que o anima. Trata-se de estudar o trabalho exercido pelos indivíduos como uma conduta econômica e de tentar entender como essa conduta é praticada, racionalizada e calculada por aquele que a exerce (Costa, 2009, p. 176).

De acordo com a visão de falsidade apontada por Nietzsche, o próprio liberalismo se tornou uma forma de aprisionamento. Trata-se de uma linguagem que foi sendo construída e apropriada do discurso sobre Educação e Política a fim de que a sociedade aceite como um novo sistema de governo, ou seja, de ações que valorizem o indivíduo.

Os processos econômicos passaram a ser transmitidos à sociedade e não mais ser restringidos ao Estado; por consequência, a inteligência individual passou a ser mais valorizada como a substância de base para as relações e fenômenos sociais. As ferramentas educacionais, nessa linha de pensamento liberal, representam o alicerce de produção das habilidades que sustentam o fluxo do capital.

Os elaboradores de políticas podem, assim, restringir, e realmente restringem, o modo como pensamos a Educação em geral e as políticas educacionais específicas, particularmente através da linguagem em que tais políticas são moldadas. O uso de repertórios discursivos tirados das áreas do comércio, marketing e finanças é uma das formas pelas quais isso é feito. Franquias, acúmulo de crédito, resultados da aprendizagem, ter habilidades e competências, o exame das habilidades e coisas desse tipo podem se tornar parte do discurso cotidiano e começam a articular a forma de as pessoas pensarem a educação. Talvez mais importante: trabalham para excluir outras maneiras possíveis de conceituar a natureza da educação (Trowler, 1998, p. 132-133, apud Fimyar, 2009, p. 43).

Os apontamentos de Trowler demonstram o modos operandi governamental em todos os tempos, o direcionamento das massas a respeito do que significa, em primeiro lugar, Educação, e de que maneira é correto educar, que critérios utilizar, excluindo todo tipo de conhecimento exclusivamente paternal. Esse tipo de hábito desenvolve adultos dependentes de fatores externos para observar a si próprios e saber quais caminhos devem seguir a respeito de sua própria saúde e bem-estar. A constante influência massiva exerce poder sobre a psique individual de tal maneira que, mesmo sentindo contradição, a ação muitas vezes é baseada em uma lógica que, no fundo, alimenta os interesses daqueles que retêm o poder. “O Estado constituiu poder sobre a derrota ao Império e, com isso, concentrou forças diplomático-militares, desenvolvendo alianças organizadas em sistemas armados” (Foucault, 1994, p. 83).

O que antes funcionava com base na opinião de um imperador, agora é centralizado em um grupo de intermediários que mantêm relações políticas amistosas entre diferentes Estados. No entanto, pode-se afirmar que a prática diplomática é ilusória ou, no mínimo, manipulada entre interesses de poder que se fortalecem por meio de alianças, ou seja, nada distinto daquilo que sempre existiu entre antigos reinos, até que uma das partes decida que não se dá por satisfeita com a proporção de poder relativamente cabido. Ainda hoje, as ameaças de rejeições e conflitos são formas adotadas de declaração de guerra contra aqueles que não apoiam a concentração de determinados poderes em algum Estado.

Os Estados só podem existir no plural, uma vez que sua estrutura não pode fazer parte de um império. O objetivo do Estado, então, rege da concentração de poder nele mesmo; dessa maneira, os objetivos se tornam limitados. Os Estados, entre si, representam concorrentes dentro dessa perspectiva, tendo que controlar as atividades econômicas dos cidadãos que servem aos objetivos estatais para manter um equilíbrio de mercado.

O que muda, entretanto, são as abordagens utilizadas, as quais deferem o aceite da população, mesmo que temporário. E, quando a população começa a se rebelar, como é visto ao longo de toda a História, há um vislumbre de mudança, ou seja, de uma nova linguagem que fala pelo povo, até que se descubra mais uma máscara de poder por detrás dos elaborados discursos. “Dentre os principais objetos de que essa tecnologia deve se ocupar está a população, na qual os mercantilistas viram um princípio de enriquecimento e na qual todo o mundo reconhece uma peça essencial na força dos Estados” (Foucault, 1994, p. 85).

A mercantilização da Educação, portanto, foi resultado de uma mentalidade que visa o poder estatal acima de tudo. O discurso de inclusão, as leis de direito à Educação, a abertura de novas escolas surgem conforme o poder concedido pelo Estado. Uma forma de enriquecer o Estado foi a “Economia Política”, que surgiu em meados do século XVIII.

O que se propõe a Economia Política? Pois bem, garantir de forma conveniente, ajustada e sempre proveitosa a concorrência entre os Estados. A Economia Política se propõe justamente a manutenção de certo equilíbrio entre os Estados para que, precisamente, a concorrência possa se dar. (...)

A Economia Política reflete sobre suas próprias práticas governamentais, e ela não interroga essas práticas governamentais em termos de direito para saber se são legítimas ou não (Foucault, 1979, p. 21).

A visão de concorrência, observada em uma estrutura piramidal como a do Estado, e entre os Estados, envolve a cultura absorvida pela sociedade.

A natureza das ações governamentais, como o deslocamento da população para salários mais elevados, por exemplo, conserva os objetivos limitantes do Estado. Da mesma maneira, as atividades da população se tornam restritas e a mentalidade num contexto geral é influenciada, o que abre portas para outros movimentos. Contudo, esses movimentos partem do princípio de que – não contrapondo a própria natureza governamental – “um governo nunca sabe o bastante que corre o risco de sempre governar demais, ou também: um governo nunca sabe direito como governar apenas o bastante” (Foucault, 1970, p. 24).

Isso ocorre, visto que há uma ocupação com as consequências geradas por meio das decisões de governo, ou seja, cada imposto cobrado, por exemplo, afeta o dia a dia da população e, dentro da Economia Política, os efeitos causados também devem ser governados, com o objetivo de prover a melhor administração dos recursos, melhor qualidade de vida social, pessoas mais satisfeitas e mais propensas a aceitar a forma de governo.

O liberalismo, por sua vez, entra com o questionamento sobre a natureza governamental: “qual o valor de utilidade do governo e de todas as ações do governo numa sociedade em que é a troca que determina o verdadeiro valor das coisas?” (Foucault, 1979, p. 64).

Ainda no liberalismo do século XVIII, o mercado era definido com base na troca equivalente entre duas partes, com liberdade de não receber a intervenção de uma terceira, incluindo como esta última o Estado – a não ser com o papel de supervisor sobre o bom funcionamento do mercado. A adaptação do neoliberalismo substituiu a troca equânime pela concorrência desleal (Foucault, 1979, p. 160-161).

A ideia de progresso idealista consiste no enriquecimento mútuo, ou no empobrecimento, se for o caso. Com isso, surgiram assuntos como o Direito Internacional, que permite a cada Estado manter-se constituído, ao mesmo tempo que mantém relações jurídicas com outros Estados. Além disso, as relações comerciais resultam no Direito cosmopolita, que “nada mais é que a retomada pelo homem, na forma de obrigações, do que havia sido um preceito da natureza”, o que aparentemente soava como um tratado de paz perpétua mundial (Foucault, 1979, p. 79).

No entanto, a época das maiores guerras aconteceu após o estabelecimento do liberalismo. O movimento acarretou uma difusão dos poderes, gerando mais aspectos burocráticos e inflacionários do que medidas práticas de satisfação com a saúde, o bem-estar e a educação da população. Foucault aponta que a obsessão pelo liberalismo desde o final do século XVIII não trouxe, até os tempos atuais, um governo liberal de fato (Foucault, 1994, p. 96).

A nova razão governamental necessita, portanto, de liberdade, a nova arte governamental consome liberdade. Consome liberdade, ou seja, é obrigada a produzi-la. A nova arte governamental vai se apresentar, portanto, como gestora da liberdade, não no sentido do imperativo “seja livre”, com a contradição imediata que esse imperativo pode trazer. (...)

O liberalismo formula simplesmente o seguinte: vou produzir o necessário para tornar você livre (Foucault, 1979, p. 86-87).

Conforme apontado anteriormente, a visão de Nietzsche sobre o liberalismo é provada em sua aplicação, uma vez que foi instalada como uma maneira de coerção governamental, por causa das necessidades econômicas desenvolvidas desde a implantação dos Estados e depois da Economia Política. A ideia de liberdade era o próximo produto a ser “vendido”. Ao contrário, os poderes conferidos ao governo poderiam sofrer perdas e, com essa visão, além da crise do liberalismo, a Teoria do Capital Humano e o empreendedorismo surgiram como parte resultante da governamentalidade.

A Teoria do Capital Humano, abordada em artigo publicado por Sylvio de Sousa Gadelha Costa (2009, p. 174-176), explica a visão de Foucault sobre o capitalismo a respeito do indivíduo como sendo ele próprio uma produção de recursos de conhecimento que podem ser aproveitados pelo mercado como um fator somatório e, portanto, considerável como moeda de troca.

Essa visão estimula o engajamento empreendedor, uma vez que o indivíduo passa a se especializar em produzir ideias e ser, ele próprio, o resultado da produção colocada à venda. Essa medida vai acatando valor pessoal, ou seja, o tempo utilizado para produção de si mesmo envolve o desenvolvimento de talentos e a criatividade na execução que anda conforme as necessidades do mercado acirrado e em crescimento constante.

Os aspectos educacionais adentram o espírito empreendedor, em que se busca diminuir custos fixos como ponto de prestação do serviço, funcionários e manutenções, entre diversos riscos que envolvem as relações de trabalho, para dar espaço maior ao aprimoramento de conteúdos e oportunidades práticas de uso do aprendizado no mercado.

Nesses termos, a Economia Política passa a ter como objeto o comportamento humano, ou melhor, a racionalidade interna que o anima. Trata-se de estudar o trabalho exercido pelos indivíduos como uma conduta econômica, e de tentar entender como essa conduta é praticada, racionalizada e calculada por aquele que a exerce. (...)

Pois, sob a sua ótica, as competências, as habilidades e as aptidões de um indivíduo qualquer constituem, elas mesmas, pelo menos virtualmente e relativamente independente da classe social a que ele pertence, seu capital; mais do que isso, é esse mesmo indivíduo que se vê induzido, sob essa lógica, a tomar a si mesmo como um capital, a entreter consigo (e com os outros) uma relação na qual ele se reconhece (e aos outros) como uma microempresa; e, portanto, nessa condição, a ver-se como entidade que funciona sob o imperativo permanente de fazer investimentos em si mesmo – ou que retornem, a médio e/ou longo prazo, em seu benefício – e a produzir fluxos de renda, avaliando racionalmente as relações de custo-benefício que suas decisões implicam (Costa, 2009, p. 176-177).

Sob a ótica da Teoria do Capital Humano e do empreendedorismo, os indivíduos se tornam cada vez mais concorrentes, mesmo entre os pares, transformando as relações em comércio. A orientação educacional, dessa forma, prepara os alunos para olhares de investimento em si próprios e para competir com outras pessoas, vistas como microempresas.

Sendo assim, as instituições sofrem alterações estruturais e a ideia de custo-benefício também é adaptada. Agora, a universidade substitui o espaço físico pelo virtual, trocando funcionários por recursos tecnológicos para usar como ferramentas de aprendizado.

O capital humano depende diretamente da Educação como fator primordial de investimento e, considerando uma sociedade que valoriza mais o intelecto do que a produção física, faz com que a proporção de tempo despendido também sofra alterações. Quando se pensa em deslocamento físico, automaticamente se contabiliza o tempo perdido para a elaboração de conhecimento intelectual.

Com isso, o home office, a procura por trabalhos próximos às residências dos empregados e a quantidade de cursos disponíveis aumentaram. Os estudos e muitos tipos de atendimentos são realizados no campo virtual, ou seja, se você pode se consultar com um psicólogo via Skype, por exemplo, pode repensar a ideia de sair de casa, gastar tempo e dinheiro em deslocamento até o consultório; por outro lado, o profissional deixa de gastar com o ponto de atendimento, atendentes, sem contar os riscos de acidente, roubo, uso de roupas específicas para o trabalho e alimentação, entre outros fatores que fazem parte dessa mentalidade. A forma de pensar e agir dentro do novo mercado é o empreendedorismo, em que cada indivíduo é visto como investidor, ao invés de um prestador de produtos ou serviços.

O novo empreendedor já não pode mais ser caracterizado com um passivo na contabilidade das grandes empresas e corporações; na verdade, há quem diga ele já não é mais nem mesmo um ativo, senão um investidor, uma espécie de sócio que investe na empresa em que trabalha o seu capital humano. (...)

Esses são caracterizados pelos seguintes traços: são proativos, inovadores, inventivos, flexíveis, com senso de oportunidade, com notável capacidade de provocar mudanças etc. Migrando do mercado – das novas teorias econômicas, de administração e das grandes corporações empresariais (ethos empresarial) – para toda a sociedade, essa nova discursividade chega à educação acolhida e festejada tanto por setores progressistas quanto por setores conservadores, por segmentos privados e públicos, por organizações governamentais e não governamentais (Costa, 2009, p. 181).

A questão formada é, contudo, a individualização e a concorrência extremas. Isto é, desde que uma criança nasce, os pais observam os potenciais que a tornarão um indivíduo competitivo no futuro e, desde a amamentação, o local onde ela dorme, com qual frequência, os primeiros brinquedos, as relações ao redor dela são moldados para que ela se fortaleça em sua individualidade concorrente com muitas outras.

A escola, a cada dia, deve ensinar às crianças a alfabetização com menos idade, pois a expectativa dos pais e da sociedade é de que as novas gerações superem as anteriores e eles, como adultos, se colocam no dever de fazer isso acontecer para garantir os resultados que os beneficiarão, direta ou indiretamente.

Na empresa, o indivíduo é tratado como sócio parceiro, utilizando toda a capacidade adquirida em suas habilidades para gerenciar seu próprio projeto, o qual, ao mesmo tempo, se enquadra nos objetivos corporativos, podendo ser ajustados a grupos eventuais ou não, de acordo com as necessidades da empresa no momento.

O conhecimento de si mesmo é uma orientação pronunciada com frequência em tempos atuais. No entanto, Sócrates, Epicuro, Galiano, Sêneca, Plutarco e Epiteto já falavam sobre a necessidade de filosofar sobre si mesmo, dependendo da ajuda de outro. Galiano afirmou que “o homem ama demais a si mesmo para poder se curar sozinho de suas paixões”. De acordo com Foucault, o objetivo final do que ele diz ser um “estilo de vida” e não simplesmente uma “preparação para a vida” é estabelecer relações consigo mesmo, as quais, muitas vezes, são “concebidas a partir do modelo jurídico-político: ser soberano de si mesmo, exercer sobre si mesmo um domínio perfeito, ser plenamente independente, ser completamente ‘de si’” (Foucault, 1994, p. 123).

Ainda considerações de Foucault: “A partir do momento em que a aplicação de si tornou-se uma prática adulta que se deve exercer durante toda a vida, o papel pedagógico tende a se apagar e outras funções se afirmam” (1994, p. 123). O autor aponta a importância do desaprendizado no processo de aprendizado sobre si mesmo, da constante luta intrínseca como ferramenta e, principalmente, do aspecto curativo ser mais trabalhado do que o pedagógico (Foucault, 1994, p. 123).

O aprofundamento em si acaba se tornando um desenvolvimento de saúde, uma vez que se toma consciência do funcionamento do corpo, da mente e dos sentimentos que levam o indivíduo a enfrentar certos bloqueios em todos os âmbitos da vida. Isto é, quando se passa a prestar atenção em como o humor e a disposição são afetados por má alimentação, basta uma alimentação adequada para tornar mais produtivo a si próprio e mais feliz. Isso, por consequência, faz com que a saúde seja cuidada.

A cultura de si se faz imprescindível para desconstruir velhos padrões de escolaridade, de apropriação autodidata de disciplina para adquirir conhecimento e foco em objetivos profissionais que condizem com talentos satisfatórios para o cumprimento individual, ainda, de acordo com necessidades inerentes à sociedade e ao meio ambiente.

A Educação a Distância tem sido tratada como uma aplicação recente no Brasil; no entanto, alguns autores afirmam que ela teve início no começo do século XX. No entanto, a evidência se encontra em registros datados na década de 1960.

Autores como Peixe (2003, apud Costa, 2008) e Alonso (2003, apud Costa, 2008) apontam para o fato de que, principalmente no período do governo militar, os projetos de EaD sofriam de certa pressão externa, considerados como soluções rápidas para problemas históricos advindos da situação econômica e social do país. Segundo eles, esses primeiros projetos ocorrem num momento de certo crescimento econômico, quando a educação era vista como motor para criação de mão de obra para os mercados que se abriam (Borges, 2015, p. 82).

Por outro lado, existem muitos autores que veem a Educação a Distância como um formato de “esvaziamento de conteúdo”, o qual serve para mercantilizar a Educação e não para promover mais facilidade e inclusão (Borges, 2015, p. 77).

A ideia dos autores contraditórios à Educação a Distância se atrela à questão de que o método corresponde a nada além de um ajuste mercadológico para o cumprimento dos interesses estatais, sobre a profissionalização de trabalhadores adequados ao mercado de trabalho atual.

As políticas de EaD, justificadas como uma forma de democratizar o acesso à educação, colocadas em prática de forma mais incisiva na formação docente, têm como intenção a desintelectualização docente. A formação docente a distância é, na verdade, mais uma das estratégias que, desde os anos 1990, são postas em prática para despolitizar e controlar o professor. Outras estratégias que comprovam nossa afirmação foram efetivadas, tais como: formação continuada por meio da TV Escola, Proformação, programas emergenciais de formação de professores em serviço (Projeto Veredas, Magister e Proformar) e a criação dos institutos superiores de educação, assim como a abertura para que a iniciativa privada oferecesse formação de professores (Borges, 2015, p. 86).

Vale ressaltar que as críticas são referentes ao sistema de ensino brasileiro, se observadas em seu âmago. Não há avaliações de resultados comparativos entre graduados que estabeleçam um parâmetro de qualidade para os tipos de ensino disponíveis no mercado.

No interior de seus limites, cada disciplina reconhece proposições verdadeiras e falsas; mas ela repele, para fora de suas margens, toda uma teratologia do saber. O exterior de uma ciência é mais ou menos povoado do que se crê; certamente, há a experiência imediata, os temas imaginários que carregam e reconduzem sem cessar crenças sem memória; mas, talvez, não haja erros em sentido estrito, porque o erro só pode surgir e ser decidido no interior de uma prática definida; em contrapartida, rondam monstros cuja forma muda com a história do saber (Foucault, 1970, p. 33).

É relevante, ainda, considerar que a problemática educacional no país tem base mais sólida do que a própria estrutura institucional, isto é, desde que o neoliberalismo toma conta da governamentalidade, todos os campos de atuação sociais são influenciados diretamente; a Educação é um dos pilares que sustentam a formação de indivíduos ativos, o qual, portanto, é atingido prioritariamente de acordo com a conveniência para o poder do Estado ou, mais especificamente, dos governantes.

As regras políticas estão presentes em nossos discursos, e essa separação, ou seja, do que é original do indivíduo e o que é um reflexo das influências sociais, ainda representa um grande desafio para o engajamento sobre a cultura de si e, consequentemente, rumo a uma mudança verdadeira, saindo das máscaras discursivas.

Portanto, é necessário observar o conteúdo desenvolvido por autores, a experiência praticada por professores e a aplicação resultante de uma gama de graduados no mercado de trabalho e em seu estilo de vida para que os limites coercitivos do Estado sejam revelados e para que as características da necessidade do ensino sejam esclarecidas.

Considerações finais

Partindo do entendimento de que os poderes governamentais, independente da filosofia justificável a respeito de suas diretrizes, são passíveis de questionamento sobre a própria natureza, consequentemente também o são todos os fatores resultantes, especialmente os impactos na sociedade e no meio ambiente, uma vez que representam a totalidade daquilo que se aproveita para gerir recursos indispensáveis à sobrevivência do ser humano e, portanto, do regime que o controla.

Dessa forma, é importante ter em conta o poder do senso crítico, começando por nossas próprias concepções. O poder de duvidar de si mesmo e de manter a mente aberta à possibilidade de estar equivocado sobre qualquer assunto é velado, muitas vezes, desde a infância. A cobrança pela certeza do saber começa cedo e cresce até que acumulamos uma linhagem de saberes, empilhados de tal maneira que uma dúvida representaria o desmoronamento de toda a estrutura de conhecimento.

A Educação, em primeiro lugar, deve abrir espaço para a verdade cabível de que estamos sempre suscetíveis a aprender algo, seja de quem for ou como for, considerando que a experiência vivida é mais valiosa quando considerada dessa forma.

O problema político essencial para o intelectual não é o da crítica do conteúdo ideológico (...) mas do saber que é possível constituir uma nova política de verdade. O problema não é o da mudança da conscientização das pessoas nem do que há em suas cabeças, mas do regime político, econômico e institucional da produção de verdades (Foucault, 1979, p. 47, apud Fimyar, 2009, p. 44).

A convivência com verdades relativas é o primeiro passo que podemos dar em direção a um movimento político justo. A forma como cada indivíduo absorve os aprendizados da vida se dá conforme suas próprias experiências, ou seja, mesmo entre irmãos criados na mesma casa pelos mesmos pais ocorre uma diferença de visão sobre os cuidados que receberam. Da mesma maneira, acontece com todo tipo de conhecimento adquirido.

Os tipos de inteligência atuam em espaços cerebrais distintos; portanto, há o desenvolvimento aguçado de um ou outro aspecto de percepção sobre a mesma situação. Há quem tenha inteligência espacial, mas lhe falte emocional ou interpessoal. Essas diferenças atraem perspectivas controversas sobre metodologias e resoluções para os problemas enfrentados individualmente e em comunidade.

Sendo assim, as controvérsias são esperadas nesse contexto. No entanto, não há um real incentivo para o discurso honesto e original sobre o que é contraditório ou conflituoso. Podemos indagar se, até mesmo por esse fator, a problemática discursiva apontada por Foucault é fruto da simples falta de abertura para o não ensaiado, para o erro ou aquilo que não é aceito e, por outro lado, da coerção envolta por máscaras que incitam o discurso dependente das linhas de raciocínio históricas e da aprovação do outro.

O que não há visto, ainda, é uma declaração crítica válida a respeito da modalidade a distância, que não seja referência para o ensino geral no país. A defasagem de conhecimento é uma problemática antiga e exclusiva das classes mais altas na Educação como um todo.

As observações de Foucault descrevem o princípio do saber para qualquer área de estudo. A ciência se resume na constante observação e separação do que é acreditado e do que é fato. Esse procedimento pode ser falho muitas vezes, portanto a determinação de uma verdade deve ser investigada com propriedade, antes que se façam afirmações desmerecedoras de um método que possa servir à sociedade com efetividade. Esse aprofundamento essencial é um fator determinante na visão da cultura de si, uma vez que o indivíduo, consciente de suas próprias competências e limitações, tem mais chances de compreender fatores complexos e ligados às necessidades coletivas. Sob a perspectiva inversa, de que maneira um indivíduo – supomos um governante – poderá atingir a compreensão do que de fato é bom para a sociedade, se ele mesmo não desenvolveu a capacidade de observar o que lhe proporciona satisfação e harmonia com o meio?

Essa questão, vista como uma inclinação maior à saúde, influencia diretamente a capacidade de absorção de conhecimento, impactando as manifestações nos projetos de vida.

Sendo assim, a Educação a Distância é um recurso secundário do ponto de vista da força de vontade e determinação individual sobre o conteúdo e as experiências que levam à concretização de ações que poderão fazer a diferença para a sociedade e para a vida.

Referências

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BORGES, Felipe Augusto Fernandes. A EaD no Brasil e o processo de democratização do acesso ao Ensino Superior. Revista Científica em Educação a Distância, v. 5, nº 3, 2015.

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Publicado em 03 de novembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MELLO, Nancy Rigatto; MASCIA, Marcia Aparecida Amador. Mercantilização da Educação e a Educação a Distância. Educação Pública, v. 20, nº 42, 3 de novembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/42/mercantilizacao-da-educacao-e-a-educacao-a-distancia