Iniciativas interdisciplinares: diálogo entre a Ciência e a Arte como potencial nas aulas de Anatomia

Daniel Macedo Lanes

Graduando em Artes Visuais (UEM)

Rafael Caselato dos Santos

Graduando em Estatística (UEM)

João Vitor Luvizeto

Graduando em Ciências Biológicas (UEM)

José Nunes dos Santos

Doutor em Ensino de Ciências e Matemática (Unicamp), pós-doutorando em Formação de Professores (UFSCar), professor QPM de Biologia e Ciências da Rede Estadual Paranaense

Diante das dificuldades da docência, o professor, sendo um dos agentes de maior atuação dentro das instituições de ensino da Educação básica, não só apropria-se de práticas já convencionais, bem como se utiliza de diferentes estratégias para a organização dos processos de ensino, ou seja, desenvolve práticas pedagógicas para uma melhor compreensão dos conteúdos pelos alunos durante as aulas. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou construção” do conhecimento escolar (Freire, 1996, p. 47).

Para o desenvolvimento de atividades em sala de aula, a imagem/ilustração pode ser utilizada como um grande recurso pedagógico nas aulas de Ciências. Apesar de ser muito comum nas aulas de Arte a prática de desenhar, ela se faz necessária em outras disciplinas, onde além de estimular a imaginação e aprimorar habilidades, essa iniciativa é muito eficiente para o entendimento dos alunos a respeito de determinados assuntos durante o processo de aprendizagem.

De acordo com Santos (2018, p. 45), a imagem, como instrumento pedagógico “nos processos educativos, possibilita mediações no sentido de ajudar o aluno a decodificar informações”, isto é, apreender os signos representativos por ela proporcionados. Assim, acredita-se que a influência da ilustração na inserção do ensino de Ciência tem importância para construção do conhecimento no âmbito científico.

No âmbito de tais apontamentos, o principal foco das discussões aqui estabelecidas é apontar premissas de uma experiência didático-pedagógica, pois se trata de um relato de uma atividade desenvolvida por alunos monitores e coordenada por um professor da disciplina de Ciências, a partir do programa intitulado aluno monitor lançado pela Secretária da Educação e do Esporte (SEED) do estado do Paraná em 2019. Nesse processo, o aluno monitor atua paralelamente ao professor, elaborando um plano de trabalho, propostas de aulas e avaliações, expondo ideias e também no envolvimento e compreensão dos alunos (Natário; Santos, 2010).

Em síntese, este relato de experiência constitui-se do período de monitoria na disciplina de Ciências e tem como objetivo, analisar as experiências e impressões vivenciadas pelos alunos monitores durante as atividades de anatomia humana desenvolvidas em sala de aula por intermédio de uma iniciativa interdisciplinar artística.

Estratégia interdisciplinar: a ilustração no ensino de Ciências

A ilustração científica para os processos de ensino “constitui em si uma ferramenta extremamente útil, versátil e poderosa para a produção do conhecimento científico. Nesse sentido, pode fazer parte também do processo de aprendizagem” (Correia, 2011, p. 225). No campo educacional, a divulgação científica por meio da imagem entrelaça à cultura visual, pois, para Correia (2011, p. 225), a “construção do conhecimento do Indivíduo (cognoscitivo) contribui para o progresso da sociedade/cultura (memória/repositório visual do entendimento da época)”.

A imagem científica se manifesta interdisciplinar nas instituições escolares da Educação básica, daí a precisão de não adiar a divulgação científica e suas imagens como forma de aparecimento que se entrelaça a temas interdisciplinares que podem ser constantemente discutidos em diferentes espaços escolares. Pois, a interdisciplinaridade é “um movimento pedagógico que caminha para novas formas de organização do ensino e que procuram responder à necessidade de superação da visão fragmentada nos processos de socialização do conhecimento” (Santos, 2018, p. 37).

Nessa direção, as Diretrizes Curriculares da Educação Básica da disciplina de Ciências (DCEs) sobressaem e possibilitam sujeições históricas e culturais em nosso sistema educativo, numa perspectiva interdisciplinar (Paraná, 2008a). Da mesma forma, permitem à disciplina de Arte relações interdisciplinares, pois, de acordo com ela, proporciona características interdisciplinares que admitem diálogos com outras áreas de conhecimento como, exemplo, a disciplina de Ciências (Paraná, 2008b). O ensino orientado por uma estratégia interdisciplinar entre Ciências e Arte surge da precisão de superar a visão fragmentada do conhecimento, como assegura Fazenda (2002), e ainda da precisão de articular conexão entre os diversos fragmentos que estão ajustados no acúmulo de conhecimentos da humanidade (Santos et al., 2016).

É interessante analisar a aproximação entre Ciências e Arte, interligando-as nas discussões acerca das estratégias desempenhadas em sala de aula pelos educadores, que visam agregar, em suas práticas pedagógicas, iniciativas interdisciplinares. Isso, com o intuito de auxiliar no processo de aprendizagem dos alunos.  

Numa visão otimista, Barbosa (2007) declara que

a arte na Educação afeta a invenção, inovação e difusão de novas ideias e tecnologias, encorajando um meio ambiente institucional inovado e inovador (...) Arte não é enfeite. Arte é cognição, é profissão, é uma forma diferente da palavra para interpretar o mundo, a realidade, o imaginário, e é conteúdo (Barbosa, 2007, p. 12).

Do ponto de vista histórico, Arte e Ciências cultivam uma antiga relação e tiveram suas maiores expressões a partir da obra de Leonardo da Vinci (século XVI); sua versatilidade em interessar-se pelas diversas áreas do conhecimento proporcionou grandes contribuições para a Ciência. Dentre os diversos desenhos anatômicos que impressionam por sua precisão e riqueza de detalhes, se destaca uma de suas maiores produções, O Homem Vitruviano.

Segundo Ferreira (2008, p. 33), “Leonardo foi criador na Arte, descobridor na Ciência e inventor na Tecnologia, conseguindo integrar de forma paradigmática a Ciência e a Arte, de tal forma que uma não seria corretamente entendida sem a outra”. Dessa forma, torna-se conveniente reconhecer o potencial pedagógico da interdisciplinaridade na Educação básica a partir das disciplinas de Ciências e Arte.

Caminhos metodológicos

O presente relato de experiência didático-pedagógica se encontra orientado pela investigação qualitativa (Lüdke; André, 1986), pois, em Educação, possibilita examinar uma situação natural, coletar dados descritivos e observar a realidade de forma contextualizada.

As atividades desta prática didático-pedagógica foram desenvolvidas num colégio estadual da região noroeste do estado do Paraná durante o terceiro trimestre de 2019. O período de monitoria ocorreu na disciplina de Ciências para alunos de duas turmas de oitavo ano (período vespertino) do Ensino Fundamental II, mediante da atuação de um professor orientador e dois alunos monitores do terceiro ano do Ensino Médio. O conteúdo discutido em sala de aula abordava o “sistema locomotor” e “sistema muscular”, dando ênfase ao esqueleto a aos músculos do corpo humano.

Durante o planejamento das aulas no dia 28 de outubro de 2019 (duas aulas), o professor e os alunos monitores estabeleceram o recurso desenho/ilustração como estratégia pedagógica, a partir de uma abordagem interdisciplinar entre Ciências e Arte. Deste modo, tinham como principal objetivo proporcionar diversos meios para a compreensão dos temas discutidos, visando contribuir para o processo de aprendizagem dos alunos.

As primeiras duas aulas acorreram em 04 de novembro de 2019 (duas aulas no 8º B e duas no 8º C - alunos monitorados). Primeiro foram distribuídos aleatoriamente aos alunos recortes de imagens (imagens de pessoas) retiradas de revistas que retratavam diversas partes do corpo humano, em seguida de acordo com a imagem que possuíam eles foram orientados a produzirem duas ilustrações, sendo uma da parte muscular e outra da parte óssea – indicando nomenclaturas anatômicas de estruturas ósseas e musculares. Essa etapa concluiu-se no dia 11 de novembro de 2019 (duas aulas no 8º B e duas no 8º C – alunos monitorados).

Posteriormente, o professor e os alunos monitores reuniram-se no dia 18 de novembro (duas aulas) e a partir do material (ilustrações) produzido durante as aulas esquematizaram uma apresentação organizada em slides, em que sequenciou o recorte recebido por cada aluno, as representações ilustrativas (Exemplo: Figura 1 subdividida em A, B, C e D) ósseas e musculares e logo após uma imagem científica de cada uma delas – ilustrações científicas presentes nos livros didáticos.

Figura 1: Anatomia artística muscular e óssea

Para isso, foram selecionados três trabalhos que mais se aproximaram de uma representação cientificamente correta do corpo humano e outros três que apresentaram muitas concepções errôneas a respeito de estruturas ósseas e musculares. Ressaltamos que, mediante a orientação do professor orientador, os slides elaborados pelos alunos monitores foram mantidos o anonimato dos alunos no sentido de respeitar a construção do conhecimento de cada um e também prevenir o bullying.

Além disso, os alunos monitores relacionaram as ilustrações produzidas pelos alunos com os registros científicos produzidos por Leonardo da Vinci, onde destacaram a importância de algumas de suas obras para o estudo da anatomia humana. Da mesma forma, sob um ponto de vista histórico atual também foram expostos desenhos anatômicos de cunho artístico do autor Micheu Lauricella (2016) de sua obra Anatomia Artística.

Portanto, em 25 de novembro os slides foram apresentados para as duas turmas de 8º ano, onde se tornou possível dialogar com os alunos acerca dos erros conceituais do desenho anatômico, por meio das representações artísticas, seus pontos positivos e negativos, possibilitando, desta maneira, uma melhor leitura e compreensão das nomenclaturas anatômicas ósseas e musculares do corpo humano.

Nesse sentido, os relatos e as experiências vivenciadas pelos alunos monitores são dados procedentes de seus diários (impressões anotadas em um caderno periodicamente). Desta forma, os dados foram organizados e discutidos segundo determinadas categorias, como: a) Experiência da monitoria nas aulas de Ciências; b) Impressões das atividades artísticas no ensino de Ciências como prática pedagógica.

Resultados e discussões

Tendo em vista a natureza da discussão dos dados, os alunos monitores cederam alguns depoimentos retirados de seus diários descritos durante o desenvolvimento das atividades com os oitavos anos relacionados à monitoria nas aulas de Ciências. Também preservamos a fala coloquial dos alunos monitores na descrição de seus enunciados. Salientamos que, para preservar a identidade dos alunos monitores, eles serão identificados pela palavra “monitor” seguido da “inicial do nome”. Junto a estas siglas, entre parênteses, identificaremos cada aluno monitor; utilizaremos parênteses para indicar alguma intervenção nossa; (...) – indica um salto entre uma enunciação e outra ou uma supressão de trecho no mesmo enunciado.

Destacam-se, durante essa discussão, resultados parciais do relato apresentado pelos “monitores alunos”. Todavia, nem todas as anotações (dos diários) descritas pelos alunos monitores foram transcritas e ponderadas para a análise e discussão, tendo sido utilizadas aquelas (Quadro 1) que demonstraram contemplar o objetivo da discussão.

Quadro 1: Relatos e experiências vivenciadas pelos alunos monitores

Categorias: a) Experiência da monitoria nas aulas de Ciências; b) Impressões das atividades artísticas no ensino de Ciências como prática pedagógica.

Experiência            

Impressões das atividades artísticas

“Sendo aluno do Ensino Médio, me senti desafiado ao desempenhar o papel de “aluno-monitor", durante o período de organização e planejamento das aulas tinha muita insegurança quanto ao contato e o diálogo que viria a desenvolver com os alunos, porém, por intermédio das orientações do professor, todo o processo de monitoria fluiu com êxito. Foi interessante analisar como as turmas acataram facilmente e desenvolveram sem nenhuma repulsa todas as orientações transmitidas por nós monitores. Penso que eles interpretaram todo o processo como uma relação de aluno para aluno e por isso encontramos facilidade no desempenho das atividades. É valido ressaltar que percebemos poucas situações onde alguns alunos não demonstraram interesse pelas aulas e as atividades propostas, mas que apesar disso todas foram realizadas e avaliadas pelo professor” (Monitor D).

“Em relação às atividades, o modo como usamos a arte para tornar a aprendizagem de ciências mais fácil fez o trabalho ficar completamente dinâmico e divertido, afinal, maioria prefere desenhar a apenas ler livros e mais livros, não é mesmo? No entanto, mesmo com que nosso objetivo foi alcançado com vários alunos, ainda tiveram aqueles que, por sua vez não se comprometeram totalmente, por motivos diversos, como desinteresse ou a falta de habilidade para tal atividade, os fazendo levar a atividade na brincadeira, ao invés de levar a sério, e para esses últimos, vê-la como algo totalmente difícil e impossível de ser feita” (Monitor R).

“Como aluno monitor, eu não me senti totalmente coagido, pois eu já tinha certo conhecimento sobre o assunto. Porém, diante de tamanha responsabilidade e tendo que orientar a turma, juntamente com o [o aluno monitor mencionou o nome do professor, convencionamos tirar para manter o anonimato] e (...) confesso que sentia um pouco de medo no começo, mas tudo foi ficando mais fácil a partir do momento em que fiz amizade com os alunos” (Monitor R).

“Acredito que introduzir a Arte no ensino Ciências foi pedagogicamente válido e benéfico, visto que as atividades artísticas desenvolvidas atuaram como um agente facilitador para a compreensão dos alunos acerca do conteúdo discutido. Tal ato, possibilitou uma melhor percepção e reflexão a partir dos termos cientificamente corretos. Deste modo, observamos que os alunos, até mesmo os que não demonstraram interesse pelas atividades, conseguiram entender o que foi proposto e a partir disso puderam identificar e reconhecer seus erros e acertos mediante os desenhos/ilustrações produzidos por eles” (Monitor D).

Os alunos monitores sentiam insegurança durante a organização dos processos de ensino (planejamento) e durante o desenvolvimento das atividades no período de monitoria, no tocante ao contato que estabeleceriam com os alunos, visto que não possuíam a mesma formação acadêmica do professor de sala para retratar os conteúdos em discussão e, por essa razão, temiam ser submetidos a julgamento por parte das turmas. No entanto, por suas disponibilidades em sanar essas inquietações e mediante instruções do professor orientador, a prática de todo projeto ocorreu sem dificuldades.

Apesar do sentimento de medo expresso na fala do monitor R, “confesso que sentia um pouco de medo no começo”; os monitores obtiveram autonomia para o desempenho de suas funções mediante de ações paralelas ao professor em sala de aula, ou seja, instituíram uma relação cooperativa. “Esse tipo de atitude envolve a descentralização de poder e a divisão de tarefas” (Natário; Santos, 2010, p. 357).

Para Sebastiany et al. (2016), o aluno monitor adquire responsabilidade ao relacionar-se com os alunos e proporcionar uma interação positiva referente aos recursos utilizados para o processo de aprendizagem. Por conseguinte, é possível interpretar que os alunos monitores R e D alcançaram um retorno satisfatório em relação às finalidades pretendidas com as atividades, mediante a convivência e as interações realizadas com os alunos. Tal fato é evidenciado a partir do fragmento da fala do monitor D: “Foi interessante analisar como as turmas acataram facilmente e desenvolveram sem nenhuma repulsa todas as orientações”. Nas reflexões aqui apresentadas observamos “que a monitoria propicia mais um espaço para o aluno discutir suas dúvidas, fazer ou refazer exercícios, experimentos e assim ter sua aprendizagem mediada pelo monitor, que, por sua vez, terá espaço de ação junto ao professor” (Natário; Santos, 2010, p. 357).

Apreendemos que, para os alunos monitores, houve certa facilidade no convívio com os alunos monitorados em sala de aula. A defesa para esse argumento de facilidade, acreditamos que seja pelo fato de D e R desenvolverem as atividades aos monitorados no mesmo ambiente escolar que também estudam, porém, em circunstâncias e condições diferentes, logo, tornou-se possível constituir vínculos favoráveis ao cumprimento dos objetivos estipulados para os processos de ensino. Como podemos notar em pequenas partes dos relatos do monitor R “foi ficando mais fácil a partir do momento em que fiz amizade com os alunos” e do monitor D “eles interpretaram todo o processo como uma relação de aluno para aluno”. Assim, corroborando as ideias de Natário, (2010, p. 357), “a participação do monitor se valoriza à medida que ele se qualifica como parte do grupo envolvido no processo ensino-aprendizagem”. 

Em virtude da discussão da categoria A, Experiência da monitoria nas aulas de Ciências, torna-se possível também analisar e debater a categoria B, Impressões das atividades artísticas no ensino de Ciências como prática pedagógica, em que a iniciativa interdisciplinar foi uma alternativa encontrada como ferramenta pedagógica, no sentido de correlacionar o conteúdo nas duas disciplinas (Ciências e Arte) e, portanto, permitir uma maior inserção e incorporação do conhecimento aos alunos. No ponto de vista de Azevedo (2007, p. 259), o trabalho interdisciplinar é a conexão entre “os profissionais do ensino, (...) de reflexão mútua, em substituição à concepção fragmentária do conhecimento, fazendo com que estes agentes do ensino tenham uma atitude diferenciada perante os obstáculos educacionais”.

Diante disso, foi perceptível aos monitores o potencial educativo do diálogo constituído entre a Arte e a Ciência para a realização das atividades como relata o monitor D “introduzir a Arte no ensino de Ciências foi pedagogicamente válido, (...) visto que as atividades artísticas desenvolvidas atuaram como um agente facilitador para a compreensão dos alunos acerca do conteúdo discutido”. Numa visão otimista, pela via de articulação entre Arte e Ciências, há possibilidades “frutíferas” do trabalho interdisciplinar, pois acreditamos que a partir dessa estratégia interdisciplinar utilizada, os alunos foram submetidos a uma situação em que foram oportunizados a aprenderem de uma maneira mais lúdica e descontraída. Em nossa concepção, entendemos que o trabalho de forma interdisciplinar, foi possível oferecer possibilidades de vivenciar o conhecimento em condições em que os discentes não estavam habituados e que fugissem de suas rotinas das aulas de Ciências como nota-se no trecho da fala do monitor R “o modo como usamos a arte para tornar a aprendizagem de ciências mais fácil fez o trabalho ficar completamente dinâmico e divertido, afinal, maioria prefere desenhar a apenas ler livros e mais livros”. Cachapuz (2014, p. 105) explica que “Arte/Ciência pode melhorar a qualidade da Educação em ciências oferecida aos alunos e dar uma oportunidade aos professores para irem mais além das rotinas e burocracia a que frequentemente são submetidos nas suas escolas”.

Em contraste com o êxito observado a partir dos relatos desta experiência didático-pedagógica, cabe ressaltar que embora a grande maioria dos alunos tenha acatado facilmente o desenvolvimento das atividades em questão, observamos também algumas ocorrências, onde alunos não se dispuseram a participar das aulas como aguardado pelos monitores, como relata o Monitor D: “alguns alunos não demonstraram interesse pelas aulas e as atividades propostas”. Desse modo, consideramos que alguns discentes podem não ter captado deliberadamente a importância da ilustração para a atividade fomentada pelos monitores, pois alguns estudantes sentiram-se inseguros e vulneráveis por não possuírem aptidão ou algum tipo de talento para desenvolver os desenhos, como expressa o monitor R: “não se comprometeram totalmente, por motivos diversos, como desinteresse ou a falta de habilidade para tal atividade”. Contudo, “Não é necessário ‘talento’ ou ‘dom’ para aprender a desenhar; ao contrário, a falta de talento exige uma determinação ainda maior” (Dorfiman, 2007). Isto é percebível no depoimento do monitor D: “até mesmo os que não demonstraram interesse pelas atividades conseguiram entender o que foi proposto e a partir disso puderam identificar e reconhecer seus erros e acertos mediante os desenhos/ilustrações produzidos por eles”. Ao discorremos sobre a fala do monitor D, fica evidente que a ilustração permitiu estimular a produção desses alunos para que percebessem suas possibilidades de competências para o desenho – aprimoramento que viriam a desenvolver decorrente da prática das ilustrações. Ao consideramos que “esse processo é longo e requer persistência para desenvolver as potencialidades criativas do olhar, a percepção visual e a habilidade manual” (Dorfiman, 2007).

Evidenciamos, portanto, que tais práticas interdisciplinares têm a eficácia da relação instituída entre a Arte e a Ciência, de acordo com o planejamento e o desenvolvimento das aulas no período de monitoria, onde a partir desta construção de diálogo entre as duas disciplinas, pois entendemos que foi possível garantir e assegurar múltiplas possibilidades de contribuição para o processo se ensino-aprendizagem dos alunos monitorados, como afirma o monitor D: “as atividades artísticas desenvolvidas atuaram como um agente facilitador para a compreensão dos alunos acerca do conteúdo discutido”. Essa interação interdisciplinar em que ocorreram as integrações de conhecimentos foram compreendidas pelos discentes e por essa razão pode-se determinar que a realização das atividades se constituíram bem-sucedidas, como é descrito na fala do monitor D: “observamos que os alunos (...) conseguiram entender o que foi proposto e a partir disso puderam identificar e reconhecer seus erros e acertos”.

Com esta reflexão, entendemos que uma proposta educativa “Arte e Ciência” de forma interdisciplinar pode ter como categoria fundamental contribuições para os processos práticos de monitoria para o ensino de conhecimentos científicos.

Considerações finais

O exercício das relações interdisciplinares na educação pública não só auxilia o professor diante dos impasses vivenciados no percurso da docência, bem como amplia as possibilidades de ensino-aprendizagem aos alunos. Por consequência, aos discentes são possibilitadas múltiplas situações em que se torna possível a aprendizagem dos conhecimentos escolares.

Desse modo, a abordagem didática entre Arte e Ciência desempenhada pelo professor de Ciências e pelos alunos monitores possibilitou aos alunos monitorados compreender e desenvolver com êxito todas as atividades propostas. O recurso desenho/ilustração, mediado pela interdisciplinaridade, propiciou incomplexidade na percepção de conceitos científicos acerca dos conteúdos da anatomia humana (estruturas musculares e ósseas) explorados pelos alunos em sala durante as aulas de Ciências.

Entendemos que, por decorrência das declarações expostas pelos alunos monitores, é coerente a afirmação de que finalidades interdisciplinares pretendidas foram alcançadas e que o desenvolvimento do período de monitoria pode ser finalizado, sendo bem-sucedido. Os resultados encontrados revelam que o ensino mediado pela interdisciplinaridade contribui para o processo de ensino-aprendizagem dos alunos, permitindo múltiplas possibilidades para a construção do conhecimento científico.

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Publicado em 10 de novembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

LANES, Daniel Macedo; SANTOS, Rafael Caselato dos; LUVIZETO, João Vitor; SANTOS, José Nunes dos. Iniciativas interdisciplinares: diálogo entre a Ciência e a Arte como potencial nas aulas de Anatomia. Educação Pública, v. 20, nº 43, 10 de novembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/43/iniciativas-interdisciplinares-dialogo-entre-a-ciencia-e-a-arte-como-potencial-nas-aulas-de-anatomia