Afetividade nas relações educativas: uma abordagem da Educação Infantil

Ana Claudia Amaro Martins

Professora, licenciada em Pedagogia (UNIRIO, polo UAB/Cederj Cantagalo)

Rosiane de Oliveira da Fonseca Santos

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF) e em Tecnologias e Educação a Distância (Centro Universitário Barão de Mauá), licenciada em História (UNIRIO), professora da rede estadual do Rio de Janeiro, articuladora acadêmica da licenciatura de História (UNIRIO, polo UAB/Cederj Cantagalo)

O vínculo afetivo na escola, em nossa sociedade atual, parece estar se perdendo; ele é constituído inicialmente na Educação Infantil, primeira etapa de escolaridade, e acaba se perdendo aos poucos no Ensino Fundamental e no Médio, dando lugar a relacionamentos distantes e conflituosos, marcados por transmissão de conhecimento e avaliação.

O tema afetividade na relação entre professor e aluno traz à memória muitas experiências passadas, como a figura do “professor amigo” que se perde quando passamos a enxergá-lo como um “mero avaliador” ao longo da segunda etapa do Ensino Fundamental, causando certa negação por parte da turma em ter uma relação afetiva e de qualidade e com o professor e gerando desmotivação na aprendizagem.

A presente pesquisa aborda a conceituação de afetividade e sua importância no ambiente escolar para o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem, investigando duas realidades distintas, em uma unidade pública e outra particular. Buscamos articular um diálogo entre construção do conhecimento e afetividade como dimensões interligadas. 

Nesse contexto, o objetivo primordial deste estudo é investigar como a afetividade pode contribuir para o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem na Educação Infantil.

Os objetivos específicos são: conceituar a afetividade; refletir sobre a afetividade na relação entre professor e aluno e seu impacto no processo ensino-aprendizagem; e refletir sobre a importância da afetividade na Educação Infantil.

Para alcançar os objetivos propostos, utilizou-se como recurso metodológico a pesquisa bibliográfica realizada com base na análise de publicações na literatura clássica, monografias e artigos científicos sobre o tema e a pesquisa de campo em escolas do município de Cordeiro/RJ, realizada nos primeiros meses de 2020.

Tal estudo certamente contribuirá de forma significativa para nossa vida profissional como educadores e para a área acadêmica, proporcionando reflexões e discussões sobre a temática.

A concepção de afetividade de Henri Wallon

Henri Paul Hyacinthe Wallon (1879-1962) foi um destacado filósofo, médico, psicólogo e político francês, conhecido principalmente por seus estudos sobre o psiquismo humano, dedicando-se à infância. Sua concepção de desenvolvimento engloba de forma integrada as dimensões intelectual, afetiva e motora.

Lev Vygotsky e Jean Piaget já haviam destacado anteriormente a importância da afetividade, mas Wallon, por sua vez, tratou a temática com mais profundidade, destacando a afetividade como central na construção do conhecimento e da pessoa. Para Wallon (1954, p. 288),

A afetividade é um domínio funcional cujo desenvolvimento é dependente da ação de dois fatores: o orgânico e o social. Entre esses dois fatores existe uma relação recíproca que impede qualquer tipo de determinação no desenvolvimento humano, tanto que a constituição biológica da criança ao nascer não será a lei única do seu futuro destino. Os seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias sociais da sua existência, em que a escolha individual não está ausente.

Fernanda Salla (2011), baseando-se em Wallon (1954), explica que, como seres humanos, somos afetados e respondemos a elementos externos – que podem ser gestos, olhares e atitudes de outras pessoas, objetos que nos chamam atenção, informações que recebemos do meio – e por sensações internas como medo, alegria e fome, entre outros; a essa condição é dado o nome de afetividade, sendo decisiva para o desenvolvimento humano.

A afetividade, segundo Wallon, refere-se à capacidade do ser humano de ser afetado positiva ou negativamente tanto por sensações internas como externas. A afetividade é um dos conjuntos funcionais da pessoa e atua, juntamente com a cognição e o ato motor, no processo de desenvolvimento e construção do conhecimento (Salla, 2011).

Com base na explicação do conceito de afetividade em Wallon (1954), percebemos que ele não deve ser considerado como sinônimo de carinho e amor, estando atrelado a estímulos e aprendizagem.

Souza (2013) aponta que Wallon (1954) dá grande importância às emoções no desenvolvimento humano e é por elas que se externam seus desejos e vontades, ressalta ainda que,

segundo Wallon, a afetividade depende de dois fatores: o orgânico e o social, que possuem uma importante relação, tanto que as dificuldades de uma situação podem ser superadas pelas condições mais favoráveis do outro. Essa ligação durante o desenvolvimento do indivíduo modifica a fonte de onde provêm as manifestações afetivas, ou seja, a afetividade, que no início era uma reação basicamente orgânica, passa a sofrer influência do meio social, a constituição biológica da criança ao nascer não será a lei única do seu futuro destino. Os seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias sociais da sua existência, em que a escolha individual não está ausente, a afetividade tem uma evolução progressiva, se distanciando do fator orgânico e tornando-se mais relacionada ao fator social (Souza, 2013, p. 13-14).

Em seus estudos, Wallon defende que o processo de evolução depende tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente, que o afeta de alguma forma. De acordo com o autor, o afeto pode ser expresso de três maneiras: a emoção, que se caracteriza por ativar as reações orgânicas, ou seja, não controlada pela razão; o sentimento,que tem caráter cognitivo, em que o indivíduo expressa o que sente; e a paixão,que é caracterizada pelo autocontrole – o indivíduo controla suas emoções. A afetividade e o espaço se entrelaçam, possibilitando experiências de sensações; Henri Wallon afirma:

O espaço não é primitivamente uma ordem entre as coisas, é antes uma qualidade das coisas em relação a nós próprios, e nessa relação é grande o papel da afetividade, da pertença, do aproximar ou do evitar, da proximidade ou do afastamento (Wallon, 1986, p. 33).

Dessa forma, observa-se que o afeto se faz presente em todos os momentos, movimentos e circunstâncias das ações humanas. O ambiente possibilita a proximidade ou o afastamento nas sensações de bem-estar ou mal-estar.

Afetividade na relação entre professor e aluno no processo ensino-aprendizagem

A afetividade vai além de sentimentos de amor, ternura e carinho; ela está relacionada a emoção, estados de humor, motivação, atenção, personalidade, temperamento, dentre outros termos. Ela exerce papel fundamental nas relações, influenciando o interesse na aprendizagem, a autoestima, a memória, a percepção, a vontade e as ações, favorecendo a construção da personalidade humana. Para Vygotsky (1998, p. 42),

a afetividade é um elemento cultural que faz com que tenha peculiaridades de acordo com cada cultura. Elemento importante em todas as etapas da vida da pessoa, a afetividade tem relevância fundamental no processo ensino-aprendizagem no que diz respeito à motivação, avaliação e relação entre professor e aluno.

Ao falar de afetividade na relação entre professor e aluno, é necessário articular com emoções, motivação, postura de conflito do eu, do outro e disciplina. Em todo meio do qual a criança faça parte, seja família, escola ou outro ambiente, essas questões estão sempre presentes.

Freire (1996, p. 96) ressalta características do professor que envolve afetivamente seus alunos:

O bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é, assim, um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas.

Piaget (1999, p. 22) aponta que “existe, com efeito, um paralelo constante entre a vida afetiva e a intelectual”; assim, o educador deve trabalhar a afetividade da criança, desse modo se desenvolverá a intelectualidade dela.

De acordo com os autores estudados, Vygotsky, Piaget e Wallon, a afetividade é indispensável para o ato de ensinar, facilitando o processo de aprendizagem.

Atualmente são vistos com frequência nas salas de aula conflitos, alunos desafiando o educador; diante disso, é de extrema importância uma boa relação de afetividade para contornar esses desafios de convivência entre professor e aluno. Quando em sala de aula se tem uma relação de confiança, o ensino se torna mais eficaz e prazeroso, favorecendo um ensino com trocas de conhecimentos; o aluno tem mais disposição para aprender e os educadores se sentem mais motivados.

Assim, em seu trabalho cotidiano, o professor deve atuar de modo que alguns sentimentos e emoções não se façam presentes:

evitar despertar nas crianças determinados sentimentos negativos, como hostilidade, desprezo, ciúme e inveja que em nada contribuem para o convívio em sociedade (...), despertando a cooperação e não a rivalidade. (...) A família e a escola têm uma participação íntima, pois são um meio favorável à aprendizagem de sentimentos que marcam a vida da criança. Por isso, já nos primeiros anos escolares, o professor deve ser competente em preparar a criança para viver em coletividade (Almeida, 2008, p. 353).

Segundo Paulo Freire (1980), para que haja a construção do conhecimento, é necessário que haja em sala de aula o debate e o respeito.

O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial (Freire, 1980, p. 42).

Observamos como o diálogo é importante em sala de aula na mediação do conhecimento; entretanto, para que haja diálogo é necessário ter uma relação positiva e afetiva para haver trocas de experiências, questionamentos sobre o tema e aprendizado em conjunto. Os alunos se sentirão confortáveis para expressar conhecimentos e dúvidas.

Sendo assim, dialogo e o afeto são ingredientes fundamentais para a formação de uma pessoa, com exercício do diálogo e uma forma de despertar o afeto e desenvolver o ato de escutar, de respeitar, de entender, de aprender e de ensinar. Nesse sentido, a afetividade está ligada a várias experiências que o sujeito pode ter, seja na família, no ambiente escolar, na comunidade ou sociedade. Para a construção de laços saudáveis e duradouros, é necessário ter afeto, e essa experiência pode influenciar no decorrer da vida.

Conforme Piaget (1976), o afeto é fundamental para ocorrer o desenvolvimento do raciocínio e inteligência:

vida afetiva e vida cognitiva são inseparáveis, embora distintas. E são inseparáveis porque todo intercâmbio com o meio pressupõe ao mesmo tempo estruturação e valorização. Assim é que não se poderia raciocinar, inclusive em Matemática, sem vivenciar certos sentimentos, e, por outro lado, não existem afeições sem um mínimo de compreensão (Piaget, 1976, p. 16).

Percebe-se assim a importância do papel da afetividade na construção do processo de ensino-aprendizagem. Ela favorece um ensino que levanta questionamentos, participações e relações sociais entre os sujeitos, tornando-se um impulso para que haja interesse nas ações e atividades propostas.

A afetividade na Educação Infantil

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Brasil, 1996), em seu Art. 29, preconiza que: “A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade”. Na Educação Infantil, inicia-se a escolarização da criança, há uma integração entre o educar e o cuidar; nesse aspecto, o professor exerce papel fundamental no desenvolvimento da afetividade.

O profissional que atua diretamente com a criança precisa desenvolver competências específicas na área, como perfil afetuoso, senso de justiça, atenção, solidariedade, cuidados, atitudes cooperativas, princípios éticos etc.

Crianças precisam de afetividade para aprender e se desenvolver seguras e felizes. Quando a criança não faz uso da linguagem oral, utiliza a emoção para se comunicar com todos ao redor, através do choro e sorriso, por exemplo.

Jean Piaget (1976) destaca o desenvolvimento intelectual em dois componentes: o cognitivo e o afetivo; ambos caminham juntos. Para o autor, toda atividade e o pensamento são ações cognitivas, representadas pelas estruturas mentais e o afeto, por uma estrutura energética, a afetividade.

O conhecimento é construído e internalizado em nossas mentes pela forma que nos é apresentado. O olhar especial do educador para o educando é de suma importância, pois é para eles que dedica seu trabalho, tempo e esforços.

Paulo Freire, em seu livro Professora, sim, Tia, não: cartas a quem ousa ensinar (1997), convida a uma reflexão sobre o embate entre os significados sociais travados entre tia e professora. A figura do educador na sociedade por muito tempo se tornou escura e desmerecida, considerada por muitos sem importância e que pode ser desempenhada por qualquer um, ou mesmo ser escolhida por não ter opção e sentir obrigada a “lidar com crianças”. Nisso, vemos que não se espera que o professor seja uma segunda mãe, nem que seja carinhosa como uma tia, mas que seja um profissional afetuoso, que passe segurança para criança.

O trabalho do professor em sala de aula não se resume na transmissão de conhecimento, tampouco no cuidado; é um trabalho complexo de articulação entre teoria adquirida durante sua formação e a prática cotidiana, promoção de momentos para construção do conhecimento, conversa, escuta, troca, incentivo e afetividade que contribuem para a aprendizagem.

Na Educação Infantil a relação entre professor e a turma deve ser positiva; quando o professor é afetuoso, ou seja, atencioso, demonstra se importar com o aluno, busca sempre interagir e despertar interesse no aluno, as crianças desenvolvem melhor o raciocínio, a autoestima e o pensamento.

Souza (2013) ressalta que

as relações afetivas nas salas de aula dependem muito das atitudes do professor. Se ele se mantiver indiferente ou expressar raiva em relação aos alunos, a tendência é que essas atitudes causem reações recíprocas nos alunos, gerando um ambiente conflituoso que dificultará a aquisição do conhecimento. As emoções e os sentimentos das crianças influenciam o seu desempenho escolar. A relação que elas estabelecem com o meio tem um importante papel na aprendizagem (Souza, 2013, p. 20-21).

Quando se fala de afetividade na EDUCAÇÃO INFANTIL, é acolher a criança a um ambiente totalmente diferente de sua casa, é proporcionar trocas de experiências, estímulos à aprendizagem, despertar para as motivações; não se trata de abraçar o tempo todo e fazer demonstrações de carinho. O professor nessa fase inicial deve preocupar-se com aspectos que influenciam no desenvolvimento cognitivo da criança como um ambiente escolar com afetividade, segurança e confortável.

A Educação Infantil é a etapa em que a criança comece a construir sua identidade, e nesse momento é de suma importância que a criança se sinta amada, acolhida, aceita e ouvida para que possa despertar para a vida, a curiosidade e a busca pelo conhecimento.

Conforme o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) acerca dos Objetivos Gerais da Educação Infantil, são apresentadas oito diferentes capacidades que as crianças devem desenvolver a partir da prática na Educação Infantil:

  • desenvolver uma imagem positiva de si, atuando de forma independente, com confiança em suas capacidades e percepção de suas limitações;
  • descobrir e conhecer seu próprio corpo, potencialidades e limites, desenvolvendo e valorizando hábitos de cuidado com a saúde e bem-estar;
  • estabelecer vínculos afetivos e de troca com adultos e crianças, fortalecendo sua autoestima e ampliando suas possibilidades de comunicação e interação social;
  • estabelecer e ampliar as relações sociais, aprendendo a articular seus interesses e pontos de vista com os demais, respeitando a diversidade e desenvolvendo atitudes de ajuda e colaboração;
  • observar e explorar o ambiente com atitude de curiosidade, percebendo-se cada vez mais como integrante, dependente e agente transformador do meio ambiente e valorizando atitudes que contribuam para sua conservação;
  • brincar, expressando emoções, sentimentos, pensamentos, desejos e necessidades;
  • utilizar as diferentes linguagens (corporal, musical, plástica, oral e escrita) ajustadas às diferentes intenções e situações de comunicação, de forma a compreender e ser compreendido, expressar suas ideias, sentimentos, necessidades e desejos e avançar no seu processo de construção de significados, enriquecendo cada vez mais sua capacidade expressiva;
  • conhecer algumas manifestações culturais, demonstrando atitudes de interesse, respeito e participação frente a elas e valorizando a diversidade (Brasil, 1998, p. 63).

O Referencial para a Educação Infantil propõe uma visão do professor como mediador do conhecimento, auxiliando a criança a desenvolver sua identidade, sua autonomia, sua confiança e despertando o olhar crítico e atuante na sociedade. Para que todos esses objetivos propostos pelo referencial sejam cumpridos de forma satisfatória, é imprescindível que o professor na sua sala de aula estabeleça vínculos afetivos. Sendo assim, observa-se que a afetividade proporciona um ensino prazeroso e produtivo.

Metodologia de pesquisa

Para Minayo (1993, p. 23), a pesquisa é uma "atividade básica das ciências na sua indagação e descoberta da realidade. (...) É uma atividade de aproximação sucessiva da realidade que nunca se esgota, fazendo uma combinação particular entre teoria e dados". Partindo dessas considerações, com o intuito de alcançar o objetivo deste artigo foi realizada uma pesquisa bibliográfica e uma pesquisa de campo.

Para a construção da fundamentação teórica, a pesquisa bibliográfica foi realizada em artigos científicos, livros e dissertações de diversos autores. Para Köche (1997, p. 122), trata-se de “conhecer e analisar as principais contribuições teóricas existentes sobre determinado tema ou problema, tornando-se instrumento indispensável a qualquer tipo de pesquisa”.

Quanto aos procedimentos adotados na coleta de dados na pesquisa de campo, empregou-se um levantamento por questionários fechados em contato direto com as pessoas; ele foi aplicado a professores de uma escola pública, que denominaremos A, e outra particular, que denominaremos B, ambas no município de Cordeiro/RJ, com intenção de investigar duas realidades distintas. Optamos, por questões éticas, por manter o nome das escolas em sigilo.

Resultados e discussão

De início, a pesquisadora procurou conhecer a realidade das escolas pesquisadas em visitas e conversas com os docentes e demais funcionários; após isso, apresentou os questionários aos professores e pediu a colaboração no seu preenchimento, explicando a finalidade.

A pesquisa de campo, com entrevistas com questionário e algumas perguntas via diálogo interativo, foi realizada com 20 professores, sendo 10 professores do setor público e 10 professores do setor privado, todos da Educação Infantil, que lecionam nas turmas de Maternal, Pré I e Pré II da escola A (pública) e Maternal, Grupo I, Grupo II e Grupo III da escola B (particular), a fim de investigar suas concepções de afetividade, a presença da afetividade em seus planejamentos e em sua prática de ensino.

A partir da coleta de dados, verificamos a formação dos professores: na escola A (pública), são 3 com apenas o Curso Normal, 4 com graduação e 3 com pós-graduação. Na escola B (particular), são dois com apenas o Curso Normal, 5 com graduação e 3 com pós-graduação. 

A formação inicial e a continuada são fundamentais para a atuação do profissional com qualidade e atendimento aos alunos para seu desenvolvimento integral. Os professores reconhecem isso em suas falas, e os que têm apenas o Curso Normal afirmam ter planos de dar prosseguimento aos estudos em uma graduação.

Santos (2019) aponta que a formação do professor deve ser continuada, se originando na formação inicial e se prolongando por toda a vida; além de capacitação, exige-se reflexão sobre a prática desenvolvida, e, se necessário, fazendo mudanças. 

Acerca do tempo que leciona, apuramos os seguintes resultados:

Tempo de atuação profissional como professor docente

Nº de professores da Escola A

(pública)

Nº de professores da Escola B

(particular)

Até 3 anos

3

4

Entre 3 e 6 anos

3

2

Mais de 6 anos

1

1

Mais de 9 anos

3

3

Compreendemos que a formação docente também se faz na prática cotidiana, na lida diária é que o professor reinventa suas práticas pedagógicas e as adapta a cada novo desafio; o tempo de docência mostra maturidade, mas não é um fator determinante na qualidade do trabalho.

Ao serem questionados sobre o conceito de afetividade, apenas um entrevistado respondeu que compreendia como sinônimo de carinho e amor; os demais compreendem a Afetividade como um conceito mais amplo, relacionado às ideias de autores como Piaget, Wallon e Vygotsky.

Todos os 20 entrevistados acreditam numa relação entre a afetividade e o desenvolvimento cognitivo do aluno; essa relação foi verificada nos estudos de revisão bibliográfica feitas no tópico anterior.

Os professores foram unânimes em afirmar que a afetividade está presente em sala de aula, planejando as aulas levando em conta a afetividade, e acreditam que o afeto é necessário para gerar motivação e um ensino prazeroso.

Souza (2013) aponta que:

A afetividade é fundamental para a construção das informações cognitivo-afetivas nas crianças e consequentemente nas relações que devem ser estabelecidas entre professor e aluno, é por meio dela que acontece a identificação com as outras pessoas. O afeto, a sensibilidade e a maneira de se comunicar do professor vão influenciar o modo de agir dos alunos e facilitar o desenvolvimento cognitivo, já que durante o processo de aprendizagem não se consegue separar no aluno o intelectual e o afetivo (Souza, 2013, p. 11).

O educador deve estar atento à construção dos vínculos afetivos com as crianças e as famílias, principalmente durante o período de adaptação no ambiente escolar na Educação Infantil, em que o vínculo afetivo é o primeiro laço que dá segurança e impulso para todas as etapas do desenvolvimento da criança. Os aspectos afetivos influenciam o desenvolvimento cognitivo da criança, é necessário ter vontade de aprender, estar confortável e motivado no ambiente escolar para de fato ocorrer uma construção de conhecimento com qualidade.

A Educação Infantil deve proporcionar um ambiente de muito aprendizado e bem aconchegante, capaz de proporcionar segurança e desenvolvimento das emoções e habilidades das crianças, despertando o desejo de fazer parte do grupo, promovendo suas relações sociais, de maneira que possam ser capazes de demonstrar sua capacidade de superar desafios.

Nessa fase de desenvolvimento da criança, a relação de afetividade e ensino é de suma importância para um ensino de qualidade que contribui na formação da criticidade, criatividade, felicidade e solidariedade; é necessário cativar os alunos para despertar seu interesse, proporcionando a eles momentos gratificantes e de desenvolvimento por completo.

Considerações finais

A afetividade é fundamental para a vida humana; na infância, primeira etapa da vida, as ações humanas são desenvolvidas por estímulos afetivos, internos ou externos, que vão contribuindo para o desenvolvimento da criança em interação com o mundo a seu redor, o que influencia também toda sua vida.

Considerando a afetividade como de suma importância para o desenvolvimento da criança em seus primeiros anos de vida, entende-se também como necessário seu conhecimento teórico por educadores e sua presença na escola contribuindo no processo de desenvolvimento do ensino-aprendizagem.

Vários estudiosos dão grandes contribuições acerca da importância da afetividade e seus impactos, entre eles Henri Wallon, Jean Piaget e Lev Vygotsky; é muito importante que os educadores tenham em mente tais ideias ao elaborar suas práticas pedagógicas, com a compreensão de que afeto vai além de sentimentos, gestos, abraços, beijos, colos; engloba muitos aspectos cognitivos, afetivos e emocionais.

A criança precisa ser ouvida, ter sua opinião valorizada, ter seu ritmo e seu tempo respeitados, receber estímulos e ser motivada para que possa se desenvolver e aprender de forma efetiva, construir sua autoestima, autonomia e pensar de forma crítica. Assim o professor deixa de ser um transmissor do conhecimento para ser um mediador na aprendizagem em sala de aula, contribuindo para a preparação de crianças inteligentes e felizes. 

Compreendemos que a afetividade no ambiente da Educação Infantil é indispensável, pois traz benefícios indispensáveis para toda a vida da criança. O desenvolvimento da afetividade na escola, nas práticas pedagógicas, é um instrumento que contribui no cuidado e atitudes do professor para que não afete a criança de forma negativa.

Na pesquisa de campo aplicada, analisamos que, nas duas escolas estudadas no município de Cordeiro/RJ, os professores de Educação Infantil dão grande importância à afetividade e procuram planejar suas aulas levantando a interação afetiva em sala de aula, pois compreendem a relação entre afetividade e o desenvolvimento cognitivo do aluno. Os educadores preocupam-se em proporcionar um ambiente aconchegante, transmitindo carinho, amor, segurança e afeto às crianças, desenvolvendo sua capacidade de aprender.

Ao abordar a Educação Infantil, as temáticas desenvolvimento e aprendizagem merecem atenção especial, pois, muito além do cuidar, o educador precisa criar condições para favorecer esse processo, proporcionando um ambiente agradável, onde a criança possa ter além do aprendizado sobre o mundo a seu redor um desenvolvimento afetivo; isso se faz quando em sua prática pedagógica o educador busca favorecer o ensino por meio do lúdico, da interação, da aceitação e do respeito.

Referências

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FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação - uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. 4ª ed. São Paulo: Moraes, 1980.

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SOUZA, Cristiane Belarmino de. A afetividade na visão de docentes da Educação Infantil. 2013. 42 f. Monografia (Especialização em Educação: Métodos e Técnicas de Ensino), Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Medianeira, 2013.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.

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______. L’evolution psychologique de l’enfant. Paris: Collin, 1986.

Publicado em 17 de novembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MARTINS, Ana Claudia Amaro; SANTOS, Rosiane de Oliveira da Fonseca. Afetividade nas relações educativas: uma abordagem da Educação Infantil. Educação Pública, v. 20, nº 44, 17 de novembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/44/afetividade-nas-relacoes-educativas-uma-abordagem-da-educacao-infantil