Viajando em Drummond: uma proposta de leitura para o poema “Viagem em família”

Danielle Reis Araújo

UFRJ

João Paulo da Silva Nascimento

UFRJ

Notadamente, o nome de Carlos Drummond de Andrade sobressai-se no cânone literário brasileiro com resguardadas justificativas, haja vista o fato de se tratar de um poeta cuja potência estética extrapola os limites da inovação. Sem dúvidas, enquanto um poeta atemporal que teve sua estreia no contexto do Modernismo brasileiro, Drummond apresenta uma obra que, de uma maneira muito particular, narra poética e precisamente o século XX ao mesmo tempo em que se detém à tessitura de imagens transcendentes à sua sincronia. Assim, sua poética é altamente marcada por uma relação intrínseca entre história e poesia, uma vez que "a História respira na pele das palavras, nas entrelinhas, não como causa e efeito mecânicos, mas como multicausação, sem espelhos ou reflexos de estruturas, ou diversas tópicos sociais" (Lucchesi, 2010, p. 11).

A fim de explorar aspectos da poética drummondiana relacionando-os a reflexões sobre a lírica moderna (Friedrich, 1978) e sobre a poesia de Drummond (Correia, 2015; Ferraz, 1994), propomos neste ensaio uma leitura crítica do poema “Viagem na família”, pertencente a A família que me dei – reunião de poemas em que o poeta mostra-se apegado à família como tema central de sua expressão literária. O poema em questão pode ser visto abaixo:

Viagem na família

No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Não era dia nem noite.
Suspiro? Voo de pássaro?
Porém nada dizia.

Longamente caminhamos.
Aqui havia uma casa.
A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
E nas casas em ruína,
desprezo frio, umidade.
Porém nada dizia.

A rua que atravessava
a cavalo, de galope.
Seu relógio. Sua roupa.
Seus papéis de circunstância.
Suas histórias de amor.
Há um abrir de baús
e de lembranças violentas.
Porém nada dizia.

No deserto de Itabira
as coisas voltam a existir,
irrespiráveis e súbitas.
O mercado de desejos
expõe seus tristes tesouros:
meu anseio de fugir;
mulheres nuas; remorso;
Porém nada dizia.

Pisando livros e cartas,
viajamos na família.
Casamentos; hipotecas;
os primos tuberculosos;
a tia louca; minha avó
traída com as escravas,
rangendo sedas na alcova.
Porém nada dizia.

Que cruel, obscuro instinto
movia sua mão pálida
sutilmente nos empurrando
pelo tempo e pelos lugares
defendidos?

Olhei-o nos olhos brancos.
Gritei-lhe: Fala! Minha voz
vibrou no ar um momento,
bateu nas pedras. A sombra
prosseguia devagar
aquela viagem patética
através do reino perdido.
Porém nada dizia.

Vi mágoa, incompreensão
e mais de uma velha revolta
a dividir-nos no escuro.
A mão que não quis beijar,
o prato que me negaram,
recusa em pedir perdão.
Orgulho. Terror noturno.
Porém nada dizia.

Fala fala fala fala.
Puxava pelo casaco
que se desfazia em barro.
Pelas mãos, pelas botinas
prendia a sombra severa
e a sombra se desprendia
sem fuga nem reação.
Porém ficava calada.

E eram distintos silêncios
que se entranhavam no seu.
Era meu avô já surdo
querendo escutar as aves
pintadas no céu da igreja;
a minha falta de amigos;
a sua falta de beijos;
eram nossas difíceis vidas
e uma grande separação
na pequena área do quarto.

A pequena área da vida
me aperta contra seu vulto,
e nesse abraço diáfano
é como se eu me queimasse
todo, de pungente amor.
Só hoje nos conhecermos!
Óculos, memórias, retratos
fluem no rio do sangue.

As águas já não permitem
distinguir seu rosto longe,
para lá de setenta anos…
Senti que me perdoava,
porém nada dizia.
As águas cobrem o bigode,
a família, Itabira, tudo.

De modo geral, esse poema constrói-se em torno de uma narrativa intimista por meio da disposição de imagens em um efeito de simultaneidade típico, por exemplo, da dinâmica cinematográfica e se consolida como um proponente para a compreensão de confluências diegéticas recorrentes na poesia de Carlos Drummond de Andrade.

Inicialmente, do ponto de vista formal, "Viagem na família" pode ser definido como um poema longo, composto por 13 estrofes com versos brancos, livres e melódicos e, à exceção da primeira à quinta, da sétima à nona e da décima estrofes – que são oitavas – a sexta, a décima, a décima segunda e a décima terceira são, respectivamente, quintilha, décima, terceto e quadra. A maneira como são construídas as estrofes sugerem ainda uma leitura em tom mais baixo, uma vez que a presença de diversos enjambement, a demarcação de pausas por meio de pontuações e o efeito de refrão produzido por uma oração adversativa harmônica em relação a todas as estrofes em que ocorre – porém nada dizia –  encarrega-se de propor, por meio da forma, impressões melancólicas.

Tais características formais do poema ilustram o que Friedrich (1978) definiu como categorias negativas do poetar moderno, o qual, essencialmente, evoca ao leitor certa anormalidade frente à estranheza proveniente da ruptura com a tradição e da inclinação à "transcendência vazia", nos termos do autor. Nesse sentido, entende-se que tratar de categorias negativas na análise de um poema moderno não significa lançar mão de uma série de características depreciativas, mas descritivas, visando à contemplação do aspecto transformador da composição lírica moderna.

Em seu texto, Friedrich (1978, p. 22) aponta algumas tendências englobadas no que chamamos de categorias negativas, dentre as quais se destacam desorientação, dissolução do que é corrente, ordem sacrificada, incoerência, fragmentação, reversibilidade, estilo de alinhavo, poesia despoetizada, lampejos destrutivos, imagens cortantes, deslocamento, modo de ver astigmático e estranhamento. Vejamos, pois, as estrofes abaixo, retiradas do poema em análise neste ensaio, com o intuito de perceber tais traços:

Que cruel, obscuro instinto
movia sua mão pálida
subtilmente nos empurrando
pelo tempo e pelos lugares
defendidos?

Olhei-o nos olhos brancos.
Gritei-lhe: Fala! Minha voz
vibrou no ar um momento,
bateu nas pedras. A sombra
prosseguia devagar
aquela viagem patética
através do reino perdido.
Porém nada dizia.

Nas estrofes acima, percebem-se particularidades relativas às categorias negativas de Friedrich (1978), visto o fato de ambas salientarem uma estética hermética e obscura recorrente em todo o poema, que é marcada, sobretudo, pela sensação de incomunicabilidade conjugada às imagens de um cenário silencioso e agonizante no qual a própria voz do eu-lírico soa como se gritasse em um abismo. Tais premissas ecoam, inclusive, nas próprias escolhas lexicais feitas pelo autor, como se pode ver no uso dos adjetivos “obscura” e “pálida”, nas ondulações dos enjambement que conferem às estrofes em evidência uma leitura em ritmo mais entrecortado em função da fragmentação sintática e, na esfera da incapacidade de comunicação, no próprio apelo expresso em “Gritei: Fala!”, bem como no verso adversativo que finda a segunda estrofe.

Apesar de termos evidenciado as estrofes acima para exemplificar as marcas de categorias negativas no poema “Viagem na família”, de Drummond, tais características não se limitam somente a elas no universo desta obra, como podem também ser percebidas em demais instâncias. Pode-se citar, aliás, a estrofe inaugural do poema, mais especificamente os três primeiros versos, em que o poeta ressignifica a cidade natal, Itabira, de modo a reconstruí-la em comparação a um deserto, um local inabitado, em que a vida faz-se escassa; ao mesmo tempo, nesse ambiente alegórico, surge a sombra do pai – figura tomada, em primeiro momento, com certa semelhança à imagem mitológica de Caronte, barqueiro de Hades, responsável por conduzir almas mortas em sua viagem ao mundo dos mortos, e filho de Nix e Érebo, respectivamente, representações de noite e escuridão na cultura mitológica grega.

Do ponto de vista semântico, "Viagem na família" apresenta-se como um poema altamente subjetivo no sentido de que narra, como o próprio título sugere, uma viagem. Ora, tratar de uma viagem "na" família (e não "com" a família) não significa outra coisa senão a capacidade austera da poesia drummondiana de voltar-se ao passado, às origens – e, mais estritamente nesse contexto, à Itabira. A esse respeito, Correia (2015) destaca que Drummond trata singularmente da família, já que se comporta

fugindo à tônica da lírica brasileira, que incide particularmente sobre os aspectos sentimentais do tema e sobre o motivo da saudade dos familiares, dele extrai ilações de ordem filosófica e existencial: a incomunicabilidade do homem; o "contato" como fator de deterioração das relações afetivas; a irreversibilidade do tempo etc. (...) Recusa o poeta tanto a exaltação nacionalista dos românticos e parnasianos, quanto as perspectivas dos modernistas – a lírico-crítica, a satírica, a ufanista – empenhados na pesquisa do homem e da realidade brasileira, buscando-lhes os traços diferenciais, desvendando-lhes os aspectos negativos escamoteados na mitificação romântica. (Correia, 2015, p. 42).

Diante disso, por se tratar de um poema que se intitula uma viagem ao passado por meio da família, torna-se oportuno situar a maneira com que Drummond ornamenta o percurso da própria palavra – o qual, em essência, confunde-se com a própria viagem cinematográfica ao passado; isto é, o poema é, antes de quaisquer análises sígnicas, a própria viagem.

Tomando a sombra do pai como guia de sua viagem, o que é prenunciado já na primeira estrofe, Drummond constrói gradualmente imagens associadas à sua história e ao passado de sua família. Sendo assim, são vistas cenas passadas à medida que a sombra do pai, um vulto fantasmagórico, mantém-se a todo instante calada, fazendo com que sua presença no poema seja pressentida paradoxalmente pela ausência, pelo silêncio perturbador ao eu-lírico, que aqui não se distingue do eu-poeta. Desse modo, a segunda estrofe anuncia a visão do passado de sua família por meio dos versos “Tantos mortos amontoados,/o tempo roendo os mortos”; a terceira chama atenção à revisitação das lembranças; a quarta situa Itabira como um espaço de memória e a quinta alude explicitamente a acontecimentos marcantes em sua família.

Na sexta estrofe, já destacada neste texto, nota-se um momento reflexivo do poeta, no qual ele toma consciência o suficiente para indagar-se a respeito do intuito da própria viagem. Tal reflexão culmina na impaciência traduzida pelo anseio de comunicação com o pai que se segue na estrofe seguinte e que repercute nas demais. Então, na oitava estrofe, emerge o aspecto primordial do poema: a relação conflituosa do poeta com seu pai já ausente representado por uma tênue penumbra incomunicável.

É na nona estrofe que se contempla a máxima súplica do poeta em uma tentativa de manter consigo uma entidade intocável, de comunicar-se, de trazer de volta à vida por meio da reconstrução de sua presença funcional. Nessa estrofe, a fim de marcar o desvanecer de seu guia de viagem, Drummond altera o refrão “porém nada dizia” para “porém ficava calada” e, ao fazê-lo, desumaniza de vez a então imagem de seu pai e a reduz ao que se lhe apresentara desde o início: a uma sombra. Nesse clima melancólico de saudade e demasiado arrependimento, a décima estrofe localiza a ausência do pai ao mesmo patamar de outras lembranças de suas vidas – ao passado, portanto. Um passado silencioso e estático na memória. 

Por fim, nas últimas três estrofes do poema torna-se ainda mais evidente o sentimento de saudade do pai já despido da vida. Analisemos com mais cautela:

A pequena área da vida
me aperta contra o seu vulto
e nesse abraço diáfano
é como se eu me queimasse todo, de pungente amor
Só hoje nos conhecermos
Óculos, memórias, retratos
fluem no rio do sangue

As águas já não permitem
distinguir seu rosto longe
para lá de setenta anos

Senti que me perdoava
porém nada dizia
As águas cobrem o bigode
a família, Itabira, tudo.

Nestas três estrofes em destaque, emana o sentimento do poeta com relação à viagem e esta passa a ter sua justificativa em si – trata-se, substancialmente, de uma viagem ontológica, de uma espécie de encontro consigo mesmo e com assombros do passado que já não podem mais ser resolvidos e que apresentam como consequência a saudade do pai falecido. Inclusive, uma informação de caráter biográfico presente na décima segunda estrofe que sustenta tal leitura é a idade do pai, “setenta anos”, que foi exatamente a idade com que seu pai, Carlos de Paula Andrade, falecera em 1931.

Na última estrofe, além da remissão direta ao emblemático “Poema de sete faces” no verso “As águas cobrem o bigode”, faz-se oportuno destacar que o poema tem seu desfecho com um tom melancólico, exibindo o elevado caráter expressivo da poética drummondiana, tal como se vê nos poemas “Confidência do itabirano”, “A bruxa” e “O elefante”, por exemplo. Em relação a isso, convém apontar a consideração de Ferraz (1994), para quem

os retratos drummondianos são expressividade absoluta: confluem para o texto a elegia, a crônica, o chiste, na busca de uma palavra capaz de exprimir ao máximo paixão, dor, revolta. Tudo é extremo: a organização textual parece entregue a ritmos contraditórios que estilhaçam sua economia; a caricatura, não raro, surge como efeito das cores/formas/discursos que procuram na coisa retratada sua dramaticidade. (...) Mas é preciso lembrar que essa expressão só aparece completa quando entendida como gesto utópico, como vontade revolucionária. O retorno ao figurativo é sobretudo uma restauração da subjetividade, uma pesquisa de territórios para a sensibilidade, o desejo, a poesia. (Ferraz, 1994).

Nesse sentido, em concórdia com a concepção de Ferraz, a reflexão à qual se pode alçar ao final da leitura de “Viagem na família” dialoga preclaradamente com a proposta poética de Carlos Drummond de Andrade. Na ocasião, a expressão é acentuada pelo apelo à utopia, pela tentativa inumana de regressar ao passado com o intuito de comunicar-se  e pela busca do perdão.

Em síntese, “Viagem na família” apresenta-se como um proponente para a compreensão da poética drummondiana à medida que porta características representativas das tendências estéticas de Carlos Drummond de Andrade, tais como a possibilidade de análise por meio de categorias negativas dada pela sobressaliência de composições líricas modernas, a relação entre experiência particular e experiência coletiva e a expressividade subjetiva como eixo central. Trata-se, pois, de um poema em que a memória, a relação com a história individual demarcada pela narrativa da vida, a saudade e a presença por ausência incidem em uma arquitetura formal própria e altamente detentora de inovação poética.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética (organizada pelo autor). Rio de Janeiro: Record, 2010.

CORREIA, Marlene de Castro. Drummond: jogo e confissão. Org. Eucanaã Ferraz. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2015.

FERRAZ, Eucanaã de Nazareno. Drummond: um poeta na cidade. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira), Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1994.

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. Trad. Marise Curione. São Paulo: Duas cidades, 1978.

LIMA, César Garcia. A paródia da notícia em “O desaparecimento”. Terceira Margem, v. 36, ano xxi, p. 116-136,  jul./dez. 2017.

LUCCHESI, Marco Américo. Prefácio. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Publicado em 17 de novembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

ARAÚJO, Danielle Reis; NASCIMENTO, João Paulo da Silva. Viajando em Drummond: uma proposta de leitura para o poema “Viagem em família”. Educação Pública, v. 20, nº 44, 17 de novembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/44/viajando-em-drummond-uma-proposta-de-leitura-para-o-poema-rviagem-em-familiar