Alfabetização e Psicomotricidade: uma aliança pelo pleno desenvolvimento da criança

Vanessa Souza do Sacramento Gomes

Mestranda em Ciências da Educação (Iscecap)

Elizete Brito da Silva Costa

Mestranda em Ciências da Educação (Iscecap)

Claudia Araújo Urbano Barros

Mestranda em Ciências da Educação (Iscecap)

O estudo da psicomotricidade, do desenvolvimento infantil e da alfabetização é fundamental para a compreensão do processo de formação humana, que perdurará por toda a vida do indivíduo.

É consenso na literatura e nas teorias de diversos autores das áreas supramencionadas, assim como em outras, como a psicologia e a neurologia, que o processo de escolarização pautada nos aspectos primários de aquisição da leitura e da escrita, quando atrelados à abordagem psicomotora, de forma adequada, respeitando as fases do desenvolvimento infantil e suas características, corrobora para o desenvolvimento integral dos alunos e proporcionam uma condição de vida, na fase adulta destes, com mais sentidos e significados.

Este estudo lança mão da pesquisa de natureza bibliográfica, conhecida também como revisão de literatura, que tem características semelhantes à revisão bibliográfica elaborada por todos os autores para fundamentar seus estudos; afinal, toda pesquisa científica deve ser iniciada com uma revisão da literatura para se conhecer o que já foi produzido acerca da temática que se propõe desenvolver. Todavia, na pesquisa de natureza bibliográfica, os objetivos são ampliados, pois, objetiva-se comprovar uma ou mais teses, com a reunião de um acervo de autores e teorias, visando constatar a realidade explícita e implícita das ações.

O aporte teórico foi elaborado de forma a encadear ideias a partir de tópicos que elucidam a temática proposta para o estudo. O primeiro tópico descreve as fases do desenvolvimento infantil, com as contribuições de análises das autoras sobre a temática, em constante discussão com teóricos da área. O tópico seguinte aponta o papel da escola no processo de alfabetização, pois este processo inicia no seio familiar e necessita de direcionamento profissional e científico para melhor aproveitamento deste processo para o desenvolvimento infantil. E o tópico a seguir versa sobre a psicomotricidade na escola e sua importante contribuição como método para o processo de ensino/aprendizagem de escolares em fase inicial para a aquisição da leitura e da escrita.

O desenvolvimento infantil

O amadurecimento das crianças é tratado com muita ansiedade por parte dos pais contemporâneos, que já sabem cada fase do desenvolvimento, o que acontecerá em cada idade, e este talvez não seja o caminho mais adequado, conforme explicita Barbosa (2017, p. 55):

Atualmente, modelos de desenvolvimento infantil identificados com a idade tem sido o grande desespero dos pais que buscam que seus filhos acompanhem o padrão social imposto e também preocupação de profissionais e autores que, criticamente, conseguem ver o perigo que estes modelos podem acarretar. A valorização da idade cronológica, com os marcos de desenvolvimento e os testes aplicados como forma de ponderar este desenvolvimento, precisa ser revista e questionados sempre.

O desenvolvimento humano, que inicia ainda na fase fetal, deve ser visto pela óptica de Haywood e Getchel (2014, apud Oliveira, 2015, p. 31):

O desenvolvimento é um processo contínuo de alteração da capacidade funcional, que é a capacidade de existir para viver, mover-se e trabalhar. Com o avançar da idade, o desenvolvimento evolui, no entanto, pode ser mais rápido ou mais lento, em diferentes faixas etárias, e pode ser diferente entre indivíduos da mesma idade. Envolve mudança sequencial, ou seja, um passo leva para a próxima etapa de forma ordenada e irreversível. Este processo é cumulativo e resulta tanto das características intrínsecas do indivíduo quanto da interação com o meio ambiente.

Com vistas a esse contínuo processo de desenvolvimento, Oliveira (2015, p. 33) descreve que “O marco do desenvolvimento infantil é a resposta a certas estimulações, de acordo com a faixa etária, a fim de analisar se as aptidões adquiridas são próprias da idade”. Portanto, se faz necessário compreender as fases do desenvolvimento para poder intervir de acordo com o potencial de cada faixa etária.

Para Moreira (2011, p. 115),

o crescimento humano se caracteriza por quatro fases nitidamente distintas:

Fase 1: Crescimento intrauterino, inicia-se na concepção e vai até o nascimento.

Fase 2: Primeira infância, vai do nascimento aos dois anos de idade, aproximadamente, caracterizando-se por um crescimento incremental, que se inicia no nascimento e estende-se até um mínimo marco inicial da fase seguinte.

Fase 3: Segunda infância ou intermediária, período de equilíbrio e crescimento uniforme em que o acréscimo anual de peso se mantém no mesmo nível, desde o mínimo limítrofe, anteriormente citado, até o início de uma nova fase de crescimento acelerado.

Fase 4: Adolescência, fase final de crescimento, que se estende mais ou menos dos dez aos vinte anos de idade. O crescimento inicialmente se acelera, até atingir um máximo em torno dos quinze anos e, depois, declina rapidamente até os 20 anos.

O desenvolvimento infantil perpassa pelas fases do desenvolvimento fisiológico e motor, assim como o desenvolvimento das estruturas cognitivas estudadas por Piaget e citadas por Cavicchia (2010, p. 3):

Piaget distinguiu quatro grandes períodos no desenvolvimento das estruturas cognitivas, intimamente relacionados ao desenvolvimento da afetividade e da socialização da criança: estádio da inteligência sensório-motora (até, aproximadamente, os 2 anos); estádio da inteligência simbólica ou pré-operatória (2 a 7-8 anos); estádio da inteligência operatória concreta (7-8 a 11-12 anos); e estádio da inteligência formal (a partir, aproximadamente, dos 12 anos).

Portanto, o desenvolvimento infantil será compreendido como a faixa etária que dura por volta dos 12 primeiros anos da vida da criança e antecede a adolescência que é considerada a fase final do crescimento, que dará origem ao início da vida adulta.

O papel da escola no processo de alfabetização

O ambiente escolar desempenha um papel essencial à sociedade, o de socializar e democratizar a aproximação ao conhecimento e possibilitar a criação de valor moral e ética nas crianças. A socialização do conhecimento historicamente construído pelo homem e democratização deste é a base da construção de um ser consciente, crítico, envolvido e potencialmente transformador de si e da sociedade. Espera-se da escola e de seus educadores um propósito social, pois, com a criação da Base Nacional Comum Curricular, este é um dos princípios que deve nortear o progresso da aprendizagem.

A escola deve ser, para o aluno, um espaço de socialização e fomento da afetividade. Deve sempre propor objetivos e metodologias que busquem desenvolver a aprendizagem de seus alunos de forma prazerosa e significativa. Os currículos devem atender à totalidade das necessidades dos educandos, levando em conta a iniciação do processo de alfabetização, que permitirá, a médio e longo prazos, a ressignificação da escolarização, dando sentido ao processo.

De acordo com Silva (2018, p. 30), “O processo de alfabetização começa antes de as crianças irem à escola, pois desde cedo elas se depararam com uma infinidade de símbolos; também, muitos pais ensinam as primeiras letras do alfabeto e os primeiros números”. Diante deste cenário, a escola é o primeiro ambiente onde as crianças interagem fora do seu contexto familiar, onde se cria, por exemplo, um espaço para gerar sua personalidade, criar suas próprias individualidades e compartilhar opiniões que futuramente possam contribuir para a melhoria da sociedade.

A alfabetização, por mais que muitas vezes seja compreendida para acontecer na escola, começa muito antes disso. As leituras de mundo que a criança faz nas relações que estabelece no contexto em que vive, constituem conhecimentos, sentidos e significados próprios (Todero, 2017, p. 22).

Quando se fala em escola, se faz necessário pensar em um ambiente agradável e atrativo para a criança, não apenas como um espaço onde seja obrigatório que a criança aprenda a ler e a escrever. Muitas salas de aulas ainda são dispostas de forma tradicional, como mencionado por Guimarães (2008, p. 20), “O cenário de uma escola costuma ser reconhecido pela presença de cadeiras e mesas, quadro e giz, murais, ou seja, equipamentos materiais que legitimam a valorização dos processos de representação (escrita, desenhos e outras marcas gráficas)”.

Sabe-se que o ambiente também contribui no processo de alfabetização, e esse processo sendo trabalhado de forma lúdica, onde se estimule a curiosidade e a leitura se torne prazerosa, tem sido um desafio para educadores, pois tracejar linhas e cobrir pontinhos não é atividade que fomentem a alfabetização de forma integral.

O processo de alfabetização é constituído pelas fases de conhecimento das letras, de conhecimento dos sons de cada letra, da composição silábica e da fonetização.

A evolução da sociedade passou a exigir o aprendizado da leitura e da escrita, assim como saber empregá-los, pois há diferenças na forma de escrita e, consequentemente, da leitura, de instrumentos importantes, como bulas de remédio, anúncio de jornais e até discursos de políticos. Desta forma, se faz necessário atrelar ao processo de alfabetização o processo de compreensão e interpretação.

Para aprender a ler e a escrever, a criança precisa construir um conhecimento de natureza conceitual: precisa compreender não só o que a escrita representa, mas também de que forma ela representa graficamente a linguagem. Isso significa que a alfabetização não é o desenvolvimento de capacidades relacionadas à percepção, memorização e treino de um conjunto de habilidades sensório-motoras. É, antes, um processo no qual as crianças precisam resolver problemas de natureza lógica até chegarem a compreender de que forma a escrita alfabética em português representa a linguagem, e assim poderem escrever e ler por si mesmas (Brasil, 1998, p. 122).

Uma estratégia para que as crianças associem o processo de alfabetização ao ambiente no qual estão inseridas é o contato visual dos objetos dispostos, como livros, revistas, jornais, jogos, e até mesmo embalagens de supermercado. Outra estratégia que acompanha a anteriormente citada é a consideração dos conhecimentos prévios das crianças, desenvolvidos no meio familiar e social - como exemplo, as placas de ônibus, números de telefones, dentre outros.

Durante o processo de alfabetização, é notável a necessidade de fomentar as habilidades psicomotoras, que serão mais bem estudadas no seguinte tópico, para um desenvolvimento integral dos alunos.

Para melhor compreensão do processo de alfabetização, é importante destacar as fases que compõem esse processo, como a fase pictórica, a fase do grafismo primitivo, a fase pré-silábica, a fase silábica, a fase silábica alfabética e a fase alfabética.

A fase pictórica, também conhecida como a fase das garatujas, onde a criança inicia a escrita com rabiscos, geralmente essa fase se inicia bem cedo. Na fase do grafismo primitivo, a criança utiliza-se de números, letras e símbolos para representar sua escrita. Já na fase pré-silábica, a criança começa a entender a diferença entre números, letras e símbolos, começa a compreender que a formação de palavras acontece através das junções das letras. Na fase silábica, a criança inicia a escrita utilizando letras, como as vogais, que são muito utilizadas nos valores sonoros para a formação das palavras. Na fase silábica alfabética, a criança já consegue realizar a escrita e a formação de palavras já faz sentido. Na fase alfabética, a criança consegue ler e escrever foneticamente. É nesse momento que o professor deverá direcionar o processo de alfabetização para a ortografia e gramática.

Contudo, de acordo com Todero (2017, p. 23),

Para que este processo aconteça, enquanto professores alfabetizadores, precisamos buscar, através do planejamento, que a aprendizagem das crianças ocorra não de forma mecânica e linear, mas considerando seus diferentes processos de constituição do conhecimento e as características individuais que compõem o grupo.

Portanto, o professor alfabetizador que estiver apropriado dos conhecimentos supramencionados poderá intervir de forma a tornar a alfabetização escolar em um processo cheio de significados para os alunos.

A Psicomotricidade na escola

A Psicomotricidade é uma tendência pedagógica que surgiu no Brasil na década de 1970, sendo a primeira a se contrapor às tendências anteriores (Brasil, 1998).

A Educação Psicomotora abrange todas as aprendizagens da criança, processando-se por etapas progressivas e específicas conforme o desenvolvimento geral de cada indivíduo. Realiza-se em todos os momentos da vida por meio de percepções vivenciadas, como uma intervenção direta nos aspectos cognitivo, motor e emocional, estruturando o indivíduo como um todo.

Portanto, é uma abordagem que compreende a totalidade do aluno e suas relações consigo e com o mundo que o cerca.

O termo psicomotricidade envolve mais do que apenas o movimento e a cognição; envolve aspectos superiores, como os citados pela Associação Brasileira de Psicomotricidade:

A Psicomotricidade é a ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. É sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto. Psicomotricidade, portanto, é um termo empregado para uma concepção de movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito cuja ação é resultante de sua individualidade, sua linguagem e sua socialização (ABP - Associação Brasileira de Psicomotricidade).

Barros e Barros (2005), em seus estudos, enfocam que a psicomotricidade é vista como ação educativa integrada e fundamentada na comunicação e nos movimentos naturais conscientes e espontâneos, melhorando a conduta global do ser humano.

Em cada fase do desenvolvimento psicomotor, um tipo de aprendizagem é observado, e as experiências devem ser bem exploradas através de estímulos, que são imprescindíveis ao desenvolvimento motor e cognitivo das crianças, pois o objetivo principal da educação psicomotora é contribuir para o desenvolvimento psicomotor da criança, da qual depende a evolução da sua personalidade e seu sucesso escolar. Ela é uma preparação para a vida das crianças (Le Boulch, 1982, apud Porto et al, 1999).

Algumas das principais características do desenvolvimento psicomotor se observam dos dois aos quatro anos de idade; sinaliza que, nos primeiros anos de vida, a criança se expressa por gestos, movimentos e uma linguagem a ser construída.

Aos dois anos: a criança chuta a bola, explora intensamente os brinquedos, faz traços horizontais, utiliza frases de, pelo menos, quatro palavras, consegue se vestir e se despir, consegue juntar brinquedos de encaixe, imita movimentos verticais e horizontais.

Aos três anos: prevalece a vontade de se afirmar, e geralmente, nessa fase, a criança demonstra interesse em alguns tipos de atividades, como exemplo, atividades de desenhos e atividades de brincar com outras crianças. Nesta faixa etária, a criança percebe melhor o espaço, apresenta sinais de domínio do equilíbrio corporal e da coordenação motora global.

Através do equilíbrio, a criança se movimenta explorando objetivos, ficando de pé; para isso, são de fundamental importância os estímulos para a postura bípede, pois, de acordo com Fonseca (2004, p. 67),

a postura bípede deve submeter-se às leis do equilíbrio; para isso, inumeráveis reflexos posturais de origem filogenética devem intervir assim que o deslocamento e a flutuação do centro de gravidade se observam, exatamente para provocar mudanças posturais corretivas, desencadeadas pela ação dos receptores labirínticos, visuais e somaestésicos.

Aos quatro anos: a criança desenvolve atividades que exigem segurar o lápis; demonstra afetividade com seus pares; caminha sobre degraus; conhece o próprio nome completo, seu gênero sexual, idade e endereço; na maioria das vezes, consegue aguardar a vez.

Durante o processo de desenvolvimento da criança, se faz necessário que frequente ambientes estimulantes, para que possa vivenciar e fomentar habilidades diversas. A educação não se limita apenas a ler e a escrever. Primeiramente, as mãos precisam ser estimuladas com o uso de alguns objetos até o momento em que será possível o contato seguro e efetivo com o lápis.

A criança deve viver o seu corpo através de uma motricidade não condicionada, em que os grandes grupos musculares participem e preparem os pequenos músculos, responsáveis por tarefas mais precisas e ajustadas. Antes de pegar num lápis, a criança já deve ter, em termos históricos, uma grande utilização da sua mão em contato com inúmeros objetos (Fonseca, 1993, p. 89).

Vale destacar que, para o desenvolvimento psicomotor de crianças entre os quatro e seis anos de idade, deve ser valorizado o processo de aprendizagem, pois é nessa fase que a criança desenvolve várias habilidades.

No processo de aprendizagem da criança, é imprescindível considerar os aspectos sociais, cognitivos, físicos e psicomotores, pois as interferências sofridas pelo indivíduo refletem em suas ações no cotidiano e no contexto escolar.

Elementos de Psicomotricidade

A Psicomotricidade e seus elementos são fundamentais para o processo de aprendizagem dos indivíduos em processo de desenvolvimento. Estes elementos nos ajudam a entender melhor este estudo:

  • Esquema corporal é o conhecimento de todo o corpo, onde a criança consegue identificar todas as partes.
  • Coordenação dinâmica geral, em que podem ser trabalhados o equilíbrio e controle do corpo.
  • Coordenação motora fina é o desenvolvimento de realizações de atividades que exigem o movimento de pinça, como recortar e segurar o lápis.
  • Percepções visual, auditiva e tátil, relacionadas aos exercícios que utilizam a atração visual, a capacidade de diferenciar tipos de sons e a capacidade de perceber e diferenciar objetos através do tato, respectivamente.
  • Lateralidade é o conhecimento e domínio em relação à posição, esquerda, direita, frente, trás.
  • Organização e estruturação estão diretamente ligadas à psicomotricidade de corpo, espaço e tempo; a criança precisa entender e se organizar dentro deles.
  • Estruturação espacial é a adaptação ao meio em que a criança vive, tamanho de pessoas, de objetos, noções de espaço.
  • Estruturação temporal é a percepção de anos, dias, climas quentes e frios.

A psicomotricidade como meio de alfabetização

O desenvolvimento psicomotor torna-se importante no processo de alfabetização e é essencial na prevenção de problemas de aprendizagem, como a má concentração, confusão no reconhecimento das palavras, confusão com as letras e sílabas e outras dificuldades relacionadas à alfabetização.

A grafia assume um lugar de grande importância no desenvolvimento da criança e do processo de alfabetização. Segundo Le Boulch (1982, apud Porto et al., 1999, p. 120):

A evolução do grafismo está relacionada com a evolução perceptiva e com a compreensão da atividade simbólica. E, então os processos registrados nesse estágio fazem com que a criança seja capaz de representar, através de signos convencionais, formas geométricas, letras e de avançar na construção gráfica, viabilizando o processo de aquisição da linguagem escrita.

As crianças iniciam a escrita com garatujas; com o passar do tempo e com os estímulos adequados, desenvolvem a coordenação motora necessária, possibilitando o processo de grafismo. Outro aspecto importante sobre a aquisição da linguagem escrita é o contexto social em que ela está inserida - entre a interação de adultos com crianças se constroem concepções de escrita e suas funções, pois através da socialização, o indivíduo encontra o significado deste processo.

O lúdico, o corpo e os movimentos são de grande relevância no processo de ensino e aprendizagem; portanto, os professores e a escola precisam adaptar seus planejamentos de acordo com as necessidades motoras, analisando cada criança, por esta ser um ser subjetivo, e que independentemente das fases do desenvolvimento estudados e propostos pela ciência; cada criança se desenvolve no seu tempo.

O professor alfabetizador precisa estar atento, pois o corpo e a mente são indissociáveis para o processo de aquisição da leitura e da escrita, sendo necessário promover atividades psicomotoras que despertem no aluno a curiosidade e o gosto pela leitura. Dessa forma, os jogos tornaram-se ferramentas indispensáveis para pesquisadores, professores e psicólogos com grande relevância na prática e no desenvolvimento psicomotor das crianças.

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil aponta que

os jogos de construção e aqueles que possuem regras, como os jogos de sociedade (também chamados de jogos de tabuleiro), jogos tradicionais, didáticos, corporais etc., propiciam a ampliação dos conhecimentos infantis por meio da atividade lúdica. É o adulto, na figura do professor, portanto, que, na instituição infantil, ajuda a estruturar o campo das brincadeiras na vida das crianças. Consequentemente é ele que organiza sua base estrutural, por meio da oferta de determinados objetos, fantasias, brinquedos ou jogos, da delimitação e arranjo dos espaços e do tempo para brincar (Brasil, 1998, p. 28).

Os jogos permitem que esse desenvolvimento da aprendizagem ocorra de forma lúdica, e várias atividades podem ser utilizadas, como bingo, jogo da memória, quebra-cabeças, dominó, boliche, alfabeto móvel, atividades de alinhavo, entre outros. Essas atividades que, para as crianças, tem o atrativo de brincadeiras, na psicomotricidade, são ferramentas que auxiliam no desenvolvimento intelectual.

Com a utilização dos jogos e brincadeiras, o professor faz com que seu aluno se desenvolva de forma coletiva e individual, identificando suas capacidades em aspectos como cognição, linguagem, motricidade, capacidades sociais e afetivas.

Ainda levando em conta o brincar no desenvolvimento psicomotor, é possível citar a BNCC com os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento, que são: conviver, brincar, participar, explorar, expressar, conhece-se; e o brincar está interligado com os demais. O brincar está inserido e torna-se um direito primordial na aprendizagem da criança.

A Psicomotricidade está incluída como papel primordial na alfabetização e, através dela, as crianças conseguem o domínio do corpo e da escrita; portanto, alfabetizá-las com a valorização da psicomotricidade traz grandes benefícios para toda a vida escolar do aluno.

Metodologia

Com o intuito de resgatar os estudos de teóricos da área da Psicomotricidade, do Desenvolvimento Infantil e da Alfabetização e Letramento, este estudo lança mão da pesquisa de natureza qualitativa, intencionando uma revisão bibliográfica, pois, segundo Fonseca (2002, apud Gerhardt; Silveira, 2009, p. 37):

A pesquisa bibliográfica é feita a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites. Qualquer trabalho científico inicia-se com uma pesquisa bibliográfica, que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto. Existem, porém, pesquisas científicas que se baseiam unicamente na pesquisa bibliográfica, procurando referências teóricas publicadas com o objetivo de recolher informações ou conhecimentos prévios sobre o problema a respeito do qual se procura a resposta.

Quanto à pesquisa de natureza qualitativa, suas características motivaram este estudo, pois, para Gerhardt e Silveira (2009, p. 32),

as características da pesquisa qualitativa são: objetivação do fenômeno; hierarquização das ações de descrever, compreender, explicar, precisão das relações entre o global e o local em determinado fenômeno; observância das diferenças entre o mundo social e o mundo natural; respeito ao caráter interativo entre os objetivos buscados pelos investigadores, suas orientações teóricas e seus dados empíricos; busca de resultados os mais fidedignos possíveis; oposição ao pressuposto que defende um modelo único de pesquisa para todas as ciências.

Contudo, se faz necessário observar o disposto em Silva et al. (2019, p. 13), que mencionam a pesquisa de revisão bibliográfica como “um processo contínuo, isto é, durante a construção da pesquisa, autores devem sempre buscar novas fontes de dados para que isso torne o estudo mais embasado”, ou seja, pesquisas desta natureza requerem constantes atualizações e significativo embasamento para se tornarem válidas.

Considerações finais

Diante do acervo disposto neste estudo e da união de ideias em prol do desenvolvimento da temática em questão, é possível inferir que a Psicomotricidade desempenha papel fundamental para o desenvolvimento infantil e para a alfabetização de escolares em séries iniciais.

A Psicomotricidade é área de estudos para psicólogos, pedagogos e professores de Educação Física, e quando utilizada de forma a envolver esses três profissionais, o fazer pedagógico no contexto escolar resulta em aprendizagem e desenvolvimento motor de forma significativa.

A leitura e a escrita, como descritas acima, são aprendizagens indispensáveis não apenas para a vida escolar, mas também para a vida social dos alunos, e por meio dessas aprendizagens, é possível o acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pelo homem, assim como a imersão destes alunos na vida social, com a possibilidade de manterem-se informados e se comunicando com o mundo que os cerca.

Atrelar a aprendizagem da leitura e da escrita ao desenvolvimento motor infantil é um desafio contemporâneo para os professores das séries iniciais, pois muito se fala em metodologias ativas nos dias atuais, e a Psicomotricidade parece uma boa opção para desenvolver o corpo e a mente sem dissociá-los.

A Psicomotricidade pode ser vista como ferramenta para uma alfabetização significativa, uma vez que a criança aprende brincando e se movimentando, e aquele jargão “é brincando que se aprende”, começa a fazer sentido.

Mas vale destacar a importância de propostas de intervenção com Psicomotricidade, aplicadas de forma adequada, levando em consideração os aspectos psicomotores da criança e a fase de desenvolvimento em que essa se encontra, pois, ao que parece, quando as propostas de intervenção são aplicadas de forma inadequada, os prejuízos de desenvolvimento motor e cognitivo das crianças podem ser irreversíveis quando estiverem na fase adulta.

Referências

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Publicado em 24 de novembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

GOMES, Vanessa Souza do Sacramento; COSTA, Elizete Brito da Silva; BARROS, Claudia Araujo Urbano. Alfabetização e Psicomotricidade: uma aliança pelo pleno desenvolvimento da criança. Revista Educação Pública, v. 20, nº 45, 24 de novembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/45/alfabetizacao-e-psicomotricidade-uma-alianca-pelo-pleno-desenvolvimento-da-crianca